Bicicletas de arame: galimotos da África

Galimotos são brinquedos artesanais de algumas regiões da África. São feitos de tudo que possa estar à mão, desde sabugo de milho a latas e arames. Veja!
A palavra galimoto significa “veículo” em Chichewa, língua nacional do Malawi (faixa oriental da África, perto da Tanzânia e Moçambique).
Em geral, as crianças fazem carros, caminhões, aviões.
E bicicletas!!

galimoto, bicicleta, bicycle, wire, toy
Um menino de Moçambique com seu galimoto

Além dos limites da África, a palavra galimoto está sendo muito usada como sinônimo de bicicleta de brinquedo feita de arame. Por causa do sucesso do livro Galimoto, de Karen Lynn Williams, que ganhou boas recomendações do Publishers Weekly e do New York Times Book Review.

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capa (acima) e folha de rosto (abaixo):Galimoto_Karen_Lynn_Williams
Lojas de artesanatos e arte étnica, nos EUA e Europa, também ajudam nesta tendência. Se você procurar na internet, aparece em destaque estas bicicletinhas vendidas na rede Ten Thousand Villages


A loja One World Fair Trade têm à venda:

E na galeria da Plowshare Center:

São lojas que participam do movimento Fair Trade ou Comércio Justo, que surgiu na Holanda e, entre outras coisas, “procura criar os meios e oportunidades para melhorar as condições de vida e de trabalho dos produtores, especialmente os pequenos produtores desfavorecidos. Sua missão é promover a equidade social, a proteção do ambiente e a segurança econômica através do comércio e da promoção de campanhas de conscientização”.
Holanda, país que dá exemplo ao mundo no uso de bicicleta, em busca igualmente de cidades mais justas e um trânsito justo, ético [fico me perguntando: por que alguns países pensam nisto e outros não??]. E aqui a gente volta ao início.

Os galimotos são usados em eventos de sensibilização de crianças e famílias, pela Wonderaddo, em Pittsburgh, proporcionando contato local com manifestações da cultura mundial.

Na África e em todo lugar, as bicicletinhas surpreendem e encantam por sua graça e simplicidade – que decorrem da engenhosidade e criatividade de construí-las!

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Brazilian push bicycle toys

I bought this bicycle made from vine at August Folklore Festival, in Montes Claros city, Brazil.

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Bicycle made from vine

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Looking for hand crafted bicycles, I found something very curious.
Push bicycle toy is an ancient toy. This image show one made in Portugal at the 1920s.

Here in Brazil, early Portugal’s colony, the art of making push bicycle toys remains in folk culture.

The Museu do Brinquedo Popular (Folk Toy Museum) has a collection of wooden push bicycles made by Sauba and José Gomes.

José Gomes is an artisan from São Joaquim do Monte, city in Pernambuco state, Northeast region.

His puppet cyclists are a kind of mamulengo puppets, type of folk theatre carved from wood and dressed in fabrics. Several characters rides the bicycles: the wedding couple, the “Preto Velho” (wise old black man), and Lampião and Maria Bonita (Lampião’s wife).

Lampião was the most famous bandit leader of the Cangaço, a form of banditry endemic to the Brazilian Northeast in the 1920s and 1930s. Lampião’s exploits turned him into a ‘folk hero’, the Brazilian equivalent of North American Jesse James.

 

Another example of carved wood push bicycle toys came from artist Alberto Bernardo‘s collection:

The toys he made are for play spaces such as schools, playrooms, libraries.

When I hear someone mocking that “cycling is what you leave out when you grows and buy a car” or “bike is kid stuff”, I’m grateful.

To be a whole human being we dare to be sapiens (who knows and learns) faber (who makes and produces) and ludens (who plays, creates and enjoys). Many people believe that as adults we are only homo faber, who produces and consumes. The stage to learn and play stayed behind in childhood …
Homo ludens was a concept introduced by historian Johan Huizinga. But even Aristotle gave much importance to the issue, as set out in his Nicomachean Ethics, 1127- b – 30 :

Since life includes rest as well as activity, and in this is included leisure and amusement, there seems here also to be a kind of intercourse which is tasteful

Whether biking to work every day, riding weekends, or travelling on special occasions, for me, riding a bicycle is above all and always fun.

Bicicleta e arte popular – brinquedos

Entre meus livros coloco alguns objetos. Foram comprados ou presentes recebidos, têm certa carga simbólica e sentimental. Carrancas espantam maus espíritos, um casal de namorados suspira – escultura do meu amigo João Alves.

E esta bicicleta feita de cipó???????????????????????????????

comprei na feira de artesanato durante as Festas de Agosto, em Montes Claros.

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Bicicleta de cipó

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Procurei na internet por “bicicleta de artesanato”, achei um brinquedo antigo feito em Portugal:

Um pouco depois cheguei ao Museu do Brinquedo Popular e….. que maravilha!!!! Uma coleção de bicicletinhas:
feitas por Dell, Mestre Sauba e Zé Gomes.

Bicicletinha?? Olha só o tamanho das bicicletas feitas pelo artista José Gomes, da cidade São Joaquim do Monte, Pernambuco:

O autor das bicicletas-mamulengo aparece na foto (do blog Josinaldo Amaury).

Tem vários personagens, o casal de noivos, o “Nego Veio”, até Lampião e Maria Bonita! :-)

A arte popular do Nordeste tem muitos tesouros guardados.
Este brinquedo esculpido em madeira, intitulado “O ciclista”

faz parte do acervo do artista Alberto Bernardo. Visite a página dele e assista três vídeos ótimos: um mostra o funcionamento de um jogo de capoeira com bonecos de madeira articulados, outro mostra o método de fazer que transforma um bloco de madeira num músico tocador de violoncelo, e o terceiro é um depoimento do artista. Ele diz:

O trabalho que desenvolvo também abrange a construção de brinquedos de arte para ambientações de espaços do brincar como escolas, brinquedotecas, bibliotecas.
As esculturas narram vivências típicas do nordeste brasileiro, com ênfase para os fazeres locais que acontecem ao pino do meio dia, como o nascimento, as brincadeiras, os trabalhos caseiros, os heróis do sertão e as crenças de nosso povo.

Vivências diárias, trabalhos caseiros, arte, bicicleta, brinquedo. Tudo junto misturado, sem sentido? Não!
Para ser inteiro, o ser humano tem que ser sapiens (que conhece e aprende), faber (que faz e produz) e ludens (que brinca, cria e se diverte). Muita gente acredita que na idade adulta somos apenas homo faber, que produz e consome. A fase de aprender e brincar ficou na infância…
Homo ludens foi um conceito introduzido pelo historiador Johan Huizinga [leia  uma perspectiva histórica sobre o lúdico]. Para Huizinga, o jogo, a brincadeira, a diversão é uma atividade acompanhada de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘vida cotidiana’.
Mas já Aristóteles dava muita importância ao tema, conforme se lê em sua Ética a Nicômaco, 1127-b-30:

Como a vida é feita não só de atividade, mas também de repouso, e este inclui os lazeres e a recreação, parece haver aqui também uma espécie de
intercâmbio que se relaciona com o bom gosto.

Quando escuto alguém dizer, em tom de deboche, que “bicicleta é aquilo que você deixa de lado quando cresce e compra um carro” ou “bicicleta é coisa de criança”, eu agradeço.  Seja pedalando todo dia para o trabalho, passeando nos finais de semana, ou viajando em datas especiais, para mim, bicicleta é sempre diversão.

E eu quero uma bicicletinha dessas!!

Lampião e Maria Bonita vão de bicicleta!

 

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A limpar livros

Passei o feriado de Carnaval fazendo uma atividade extenuante, mas que me dá muito prazer.
Sambando? ha, ha, ha, óbvio que não!

Comecei a fazer uma faxina geral na minha biblioteca. Comecei, verbo no passado inconclusivo. Passei os 5 dias (sábado a quarta de cinzas) limpando e estou a colocar as coisas de volta no lugar até hoje.

Tirei todos os livros das prateleiras.
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Delas tirei pó, fuligem, teias de aranhas e besouros mortos. Fazia muito tempo que não dava esta faxina geral.

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Os livros foram limpos um por um. Usei uma trincha para limpar os cortes, e uma escova de roupa, e um pano seco ou levemente úmido para limpar as capas. Fiz isto em cada livro e todos, mais de 500 livros que tenho. Ufa!

Desde quando mandei instalar os móveis novos, os livros estavam uma bagunça. Simplesmente coloquei de volta nas estantes, sem qualquer critério.
Além de limpar, agora os estou colocando agrupados por assuntos: poesias, romances, filosofia, sertão catrumano, Barroco Mineiro, língua portuguesa, bicicleta etc, para deixar satisfeito qualquer bibliotecário – principalmente eu!

O maior problema com meus livros é a sujeira que acumula no corte superior, ou cabeça.
Se você não sabe o que é corte ou cabeça de um livro, pare agora e vê esta figura:

A foto abaixo mostra a graduação do problema. Desde o livro novo, cuja cabeça está limpinha, até os mais afetados.

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A idade do livro influencia no acúmulo das manchas, mas não só. A qualidade do papel também.

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Encontrei um video que ensina usar esponja abrasiva para tirar este tipo de sujeira.

Vou testar. O problema é encontrar a tal esponja abrasiva, não está sendo fácil.

Usar pano úmido para limpar livros não é técnica recomendada (leia aqui). Pode realmente estragar os livros, ou facilitar a proliferação de fungos. Mas como moro numa cidade onde metade do ano é estação extremamente seca, não tenho problemas com fungos. Além disto, minha biblioteca é lugar bem ventilado e com boa iluminação natural.

Outros recomendam usar panos umedecidos com produtos de limpeza:

http://www.wikihow.com/Clean-a-Book

No Brasil, existem panos umedecidos para limpeza à venda.
Porém, pessoalmente acho que produtos químicos podem ser mais agressivos, além de deixar cheiro nos livros. Por isto, não tive receio de usar o pano levemente úmido, quase seco.
Um pano seco basta para tirar maior parte da sujeira. No meu caso, estava precisando algo mais efetivo, porque a poeira do tempo grudou nas manchas de gordura que as mãos deixam nas capas.

Minha próxima missão é encontrar uma forma de proteger a parte superior dos livros. Não deixar que a sujeira danifique tanto. Estou pensando em uma capa específica, uma espécie de “chapéu” feito de dobradura. Assim que conseguir a solução ideal, mostrarei aqui.

Leia livros.

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O que aconteceu neste blog em 2013

Os duendes estatísticos do WordPress.com prepararam um relatório sobre a atividade anual deste blog Livros e bicicletas.

Aqui está um trecho:

A sala de concertos da Sydney Opera House tem 2.700 lugares. Este blog foi visto cerca de 29.000 vezes em 2013. Se fosse um show na Sydney Opera House, precisaria de 11 sessões com ingresso esgotado para que tantas pessoas pudessem assisti-lo.

Em 2013, foram 46 novos posts (artigos), com 165 fotos.
O texto mais visto num único dia foi Ciclovias, uma mentira repetida mil vezes.

O post Lampião não morreu em Angicos continua o campeão de comentários, com 65 no total. Curioso que não é um texto que eu escrevi… apenas reproduzi um artigo de meu pai. Mostra que Lampião continua despertando paixões.

Há outras curiosidades numéricas. Clique aqui para ver o relatório completo (em inglês).

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O tarado, a mulher e a bicicleta

De volta das férias de janeiro, estava à busca de algo para recomeçar o blog com energias renovadas quando minha cunhada compartilhou, no facebook, esta tirinha do Blog Kisuki:


Num primeiro momento, na fluidez etérea do facebook, confesso que pensei: não é motivo para não andar de bicicleta. Obviamente sem intenção de desprezar ou minimizar o trauma, mas porque não vi mesmo, de imediato, uma relação causa-consequência.

Porém, sabia que um sentimento muito profundo foi colocado na tirinha, pois a intenção foi um fazer artístico. E a arte nunca se revela à primeira vista. Fiquei dias e dias com isto pensando e pesando na minha cabeça.

A catarse é uma das funções da arte, ao provocar uma descarga de emoções que limpa e purifica a pessoa, ao reviver a realidade mimetizada (imitada, não-real). Esta foi minha segunda leitura da tirinha: os quadrinhos narram o drama – a tragédia -  como forma de purgar a violência, o medo, o trauma.

Entretanto há muito mais, e muito mais denso e mais alto. Um símbolo carrega várias camadas de significado. Uma palavra tem história e faz história, e muitas vezes nós usamos palavras, ou símbolos, sem explicitar conscientemente toda sua bagagem de significado. Uma artista pode ir além e, sabendo ou sentindo significados ocultos, lapidá-los ao produzir arte.

A bicicleta teve uma importância decisiva no movimento de liberação feminina.

Um (longo!) artigo publicado pela revista Cranked Magazine mostra a importância da bicicleta na liberação feminina que começou no final da Era Vitoriana (década de 1890).

A revolução industrial trouxe uma série de mudanças sociais, entre as quais uma elite que gastava seu tempo livre se divertindo com esportes.
A bicicleta, inventada em 1817, e suas evoluções posteriores, tinha um design que impediu, por décadas, as mulheres andarem de bicicleta – elas só podiam usar saia bufante e espartilho. Imagina fazer isto numa penny-farthing…

Bicicleta extremamente instável e perigosa para os homens. E as mulheres ainda tinham que andar na bicicleta sentadas de lado - como andavam nos cavalos (saiba o porquê deste “hábito” mais à frente). Imagina como deveria ser “fácil”!!

Muitos construtores, por razões do mercado crescente, tentaram desenvolver modelos que fossem adequados às mulheres, mas sem grande sucesso. No final da década de 1870, surgiu o modelo “safety bicycle”, com praticamente o mesmo desenho que temos hoje.

Penny Farthing (esquerda) e Safety bicycle

A invenção dos pneus de borracha foi, na mesma época, outro avanço significativo. Juntos, deram origem a uma bicicleta menor, mais segura, mais fácil de dirigir e mais confortável. E a popularidade da bicicleta como veículo explodiu por volta de 1890 (antes da invenção do automóvel, é sempre bom lembrar).

Para as mulheres, a luta inicial foi pelo direito de simplesmente andar de bicicleta. Naquela época, esporte e máquinas eram coisas exclusivas de homens. Vários críticos diziam que andar de bicicleta prejudicava a saúde física e mental da mulher. O “corpo frágil” da mulher era uma justificativa sempre usada. Mas o maior argumento contra o uso da bicicleta por mulheres era que isto seria “uma agressão ao tecido moral da sociedade”. A suposição de que andar de bicicleta poderia ser sexualmente estimulante para as mulheres foi uma preocupação muito popular. Diversos selins “higiênicos” foram desenhados com a intenção de prevenir, evitando que a genitália feminina entrasse em contato com o banco da bicicleta. Como se vê, de fato não estavam preocupados com o “corpo frágil” feminino, mas com sua moral.

Esta cena do filme Mädchen, Mädchen toca no ponto:

Com o uso da bicicleta, as mulheres também puderam se livrar das amarras de sua casa ou trabalho e passaram a experimentar um novo tipo de liberdade. Porém, a simples liberdade de mobilidade da mulher foi considerada inaceitável, quase imoral. A mulher ciclista, podendo ir e vir na cidade e arredores, sem depender dos maridos, e sem as damas-de-companhia, foi tratada como uma ameaça à sociedade e traria o colapso da moral e das boas maneiras!!

À medida que foi sendo aos poucos aceita, primeiramente em ginásios fechados, depois em clubes, a mulher de bicicleta trouxe consigo uma revolução gigantesca.

The bicycle…has been responsible for more movement in manners and morals than anything since Charles the Second. Under its influence, wholly or in part, have wilted chaperones, long and narrow skirts, tight corsets, hair that would come down, black stockings, thick ankles, large hats, prudery and fear of the dark; under its influence, wholly or in part, have blossomed weekends, strong nerves, strong legs, strong language, knickers, knowledge of make and shape, knowledge of woods and pastures, equality of sex, good digestion and professional occupation—in four words, the emancipation of women.

John Gallsworthy (Debate, 6)

“A bicicleta … tem sido responsável por mais mudanças nos costumes e na moral do que qualquer coisa, desde Carlos II. Sob sua influência, no todo ou em parte, desapareceram as damas-de-honra, as saias longas e estreitas, os espartilhos apertados, o cabelo comprido, as meias pretas, os tornozelos grossos, os grandes chapéus, o pudor e o medo do escuro; sob sua influência, no todo ou em parte, floresceram os fins de semana, os nervos fortes, as pernas fortes, a linguagem forte, calcinhas, o conhecimento do bem estar, o conhecimento da floresta e pastagens, a igualdade entre os sexos, uma boa digestão e a ocupação profissional, em quatro palavras, a emancipação das mulheres”. (John Gallsworthy)

Não são os homens que dizem! Elizabeth Cady Stanton, uma das principais líderes do movimento sufragista, anteviu o poder da bicicleta em transformar a vida das mulheres. Por volta de 1895, embora tivesse 80 anos, ela disse para um artigo da American Wheelman,  “the bicycle will inspire women with more courage, self-respect, self-reliance…”

Uma amiga de Stanton, companheira das lutas sufragistas, também jovem de espírito aos 76 anos, disse:

Let me tell you what I think of bicycling. I think it has done more to emancipate women than anything else in the world. It gives women a feeling of freedom and self-reliance. I stand and rejoice every time I see a woman ride by on a wheel…the picture of free, untrammeled womanhood.

Susan B Anthony.

“Deixe-me dizer o que eu penso de bicicleta. Eu acho que tem feito mais para emancipar as mulheres do que qualquer outra coisa no mundo. Dá à mulher uma sensação de liberdade e auto-suficiência. Eu paro e me alegro toda vez que vejo uma mulher andando de bicicleta… o retrato da liberdade de ser mulher livre de normas e controles” (Susan B. Anthony)

Tessie Reynolds, uma garota de 16 anos, que em 1893 pedalou de Londres a Brighton, ida e volta, em 8 horas, está entre estas heroínas do passado, que desconstroem a história fazendo coisas.

No Brasil, Veridiana da Silva Prado, aristocrata e intelectual, mandou construir um velódromo dentro de sua Chácara Vila Maria, em São Paulo, onde patrocinava corridas de bicicletas, importando a moda vigente na Europa, naquele final do século XIX.

Época em que a bicicleta simbolizou a essência da “Nova Mulher”, jovem, educada, praticante de esportes, interessada na carreira profissional, independente.

Com elas, aprendemos que a solução não virá para a mulher, mas somente pelas mulheres. Quando sua identidade não mais depender do homem: ser uma esposa (por um contrato societário de divisão de bens) ou uma virgem (a ser escolhida como esposa). Continua valendo até hoje.


Para saber mais, lê Pedaling the Path to Freedom: American Women on Bicycles e Wikipedia.

A Nova Mulher, em sua bicicleta, transformou-se num emblema de emancipação tão grande que, em 1897, quando estudantes homens de Cambridge protestaram contra a admissão de mulheres, enforcaram uma efígie de mulher pedalando uma bicicleta, evento que ficou registrado no tempo por esta foto:

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Toda esta curva histórica faz voltar à tirinha:

A bicicleta como símbolo da liberdade feminina – ao mesmo tempo metáfora e metonímia – e ferramenta para alcançá-la, liberação duramente conseguida ao longo dos últimos 150 anos.
A bicicleta abandonada pela Thaïs é a liberdade feminina ultrajada, reprimida e violentada pelo machismo.

Mas… o que é o machismo?
É a crença que os homens são superiores às mulheres.
É a extrema valorização de características culturais vinculadas ao masculino e, ao mesmo tempo, um extremo menosprezo das características vinculadas ao feminino.

Como toda crença ou fé, deriva de suposições mentais autossugestionadas, que, por sua vez, são reforçadas socialmente. O machismo e outros ismos alimentam-se de si mesmo, por isto são tão fortes e agressivos e difíceis de combater.

Na América Latina o machismo tem sua contraparte no marianismo, uma visão religiosa dos gêneros, na qual a mulher é pura, dotada de uma força moral superior, que lhe permite uma capacidade infinita de humildade e sacrifício. Ou seja, grosso modo, a mulher “deve suportar tudo que vem dos homens”.

As três principais religiões abraâmicas, além de monoteístas, são patriarcais e machistas. Por outro lado, a maioria das religiões pagãs são matriarcais, as deusas são criadoras do Universo, geram a vida, a cultura – numa alusão óbvia à gestação feminina – e simbolicamente eram muitas vezes representadas por Árvores ou serpentes.

Lilith – pintura de John Collier (1850-1934)

Se você lembrou o Gênesis, acertou! A primeira narrativa bíblica é uma alegoria de um fato histórico e descreve o processo pelo qual sociedades matriarcais tradicionais foram substituídas por sociedades patriarcais. Quando o deus-pai tomou o lugar da deusa-mãe (Árvore da Vida / Serpente).

OK. Sabemos o que é o machismo e em que bases sociais ele se sustenta. Mas fica a pergunta: por que o machismo? Por que o homem precisa se sentir superior à mulher?

Dizer que a mulher dá a vida é uma figura de metonímia. Sem o homem, ela não poderia dar a vida – a menos que fossem partenogênicas, como salamandras, ou ginogênicas (o macho serve apenas para estimular a produção de óvulos, mas o embrião se desenvolve só com os genes maternos).

Mas, SIM, apenas a mulher tem o poder natural da gestação, de receber e nutrir a vida, com útero e seios.

Pachamama, deusa andina

Um homem para ser pai precisa de uma mulher. Mas a mulher pode ser mãe quando quiser. É ela quem faz a vida acontecer. Não por mero acaso ou coincidência, a personificação da Morte é também feminina em quase todas as culturas. Poder de vida e morte.

No processo de evolução é assim: na maioria das espécies, a fêmea escolhe o macho, processo conhecido como seleção sexual, mate choice ou female choice. Biologicamente falando, homens, somos apenas um reservatório de esperma. Isto é muito para a mentalidade do macho humano. Para contrapor esta servidão biológica, foi forjado um poder social, culturalmente reforçado, que foi construído a partir da maior força muscular e agressividade do homem.

Machismo é um misto de inveja do poder vital feminino e frustração dos homens por não serem desejados.

Então, ô tarado, da próxima vez que vir uma mulher andando de bicicleta, não importa como esteja vestida,

saiba que cantadas, buzinadinhas, assédios e outros gracejos indiscretos nada mais são do que manifestações da inferioridade do macho. Exatamente o oposto da sedução e da conquista.

Em vez disso, seja homem. Pare. Peça inspiração para as deusas e alegre-se: uma mulher de bicicleta é o retrato da liberdade feminina.

Nós só temos a ganhar com isto.

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Previsões de Ano-Novo, com baralho Bicycle

Eu queria ler mais, andar mais de bicicleta, aproximar cada vez mais do coração selvagem da Natureza.

Na maior parte do tempo, falta-me disciplina para ler, persistência para pedalar, e ousadia para afastar do projeto humano.

Por vezes parece que não depende apenas de mim. Mas acho que é uma ilusão, uma auto-ilusão para tirar de mim mesmo minhas responsabilidades, minimizar minha culpas e escolhas, autocomplacência.

Será que aquela cartomante usa baralho Bicycle?

Espero que uma das cartas seja este coringa:

e não este:

do Bicycle Karnival!

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Que Árvore é esta?

No meio da praça do lugar mais importante da cidade, uma Grande Árvore sobe uns 10 ou 12 metros. As pessoas passam e param, admirando. As luzes enfileiradas apagam e acendem, uma atrás da outra, por isto parece que giram para cima e para baixo, como os dias giram em espiral. As pupilas, redondas e de todas as cores, verdes, azuis, dourados, pretos, brilhavam, e os olhos das pessoas também eram enfeites pendurados cintilantes.

Há muito tempo o xópin é a catedral da cidade. Nem sombra da imagem de deus, menino ou não. A Grande Árvore é o centro de tudo, e as muitas luzes não deixam sombras, mas, se sombra houvesse, no pé da Grande Árvore as pessoas depositariam seus sonhos, esperanças, pedidos de querência para o futuro. Por um minuto ou dois, esconder-se das queimaduras do sol-a-sol.

Impossível não lembrar Yggdrasil, a Grande Árvore, cujas raízes nenhum ser humano sabe onde vão dar, cuja escalada é um caminho de ascensão, cujo tronco e ramos conecta Nove Mundos.

A mãe diz “olha a rena, linda”, e a menina procura pelo Papai Noel e sua grande barba branca de druida.

A praça é limpa demais, não há pássaros nem vento nem vermes. Mesmo figurativa, quase clichê, a Grande Árvore mostra toda sua força. Ela, e todas suas representações em cada uma das casas, rememora o mais antigo que há em nós, a força vital instauradora e arquetípica que vem da Natureza, tão necessária e tão esquecida por séculos.

Impossível não lembrar o sagrado Carvalho de Thor, nos arredores da cidade de Hesse, Alemanha, derrubado a machado por “São” Bonifácio [uma demonstração típica, entre milhares, de quão tolerantes podem ser].

O que não sabiam, e não sabem, é que as raízes da Grande Árvore vivem, e nenhum ser humano sabe onde vão dar, ou quando vão brotar de novo.

De suas raízes nas profundezas, ela traz a vida para a superfície, nos tronco e galhos baixos, e sobe até a verticalidade dos altos galhos. Morte e regeneração, presente nas folhas que caem toda estação e nas sementes. A Árvore reúne em si os cinco elementos: a terra em suas raízes, a água que flui na seiva (sem coração bombando), o ar entrando nas folhas (sem a pressão de músculos) e o fogo que brota de dentro de seus galhos e troncos.

A árvore é.

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Por aqui, uma árvore se enfeita toda com bolinhas e estrelas, exatamente nesta época do final de dezembro.

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É a minha árvore de natal. Você sabe o nome dela? Deixe nos comentários. Ano que vem confiro quem acertou.

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Livros de bicicleta, de novo

Entre as centenas, em um cantinho da minha biblioteca agrupo os livros que falam sobre bicicleta.

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Vendo a foto, senti falta de um e outro, que devem estar espalhados.
Alguns comprei, outros ganhei de presente, e percebi que ainda não falei de nenhum deles aqui no blog.
Blog que hoje estreia visual novo, e cada vez mais coisas para escrever – em cada vez menos tempo.

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Fim de um ciclo

Amanhã, 21 de dezembro de 2013, às 17h11, ocorre o Solstício de Verão.

No Hemisfério Sul, é o dia mais longo do ano, por isto o dia de mais luz. Atingindo o ponto máximo do movimento aparente no céu, a data tem sido celebrada deste quando o homem começou a olhar para as estrelas.

No Hemisfério Norte é simétrico, ocorre o Solstício de Inverno, a noite mais longa do ano. As religiões aproveitaram-se disto e criaram toda uma simbologia, e rituais, e celebrações, em cima do evento astronômico, e o solstício marca o dia em que “a humanidade se afasta da escuridão em direção a dias mais cheios de luz” [obviamente, até mesmo por conta das decorações dos xópins, você viu nisto uma ligação direta com o Natal, cujo nascimento de um menino supostamente traria mais luz para a humanidade].

Estamos abaixo do Equador e, usando dos mesmos mitologemas, vamos sair da grande luz em rumo à escuridão dos dias cada vez menores, até chegarmos à Noite Absoluta, em 21 de junho. Estaremos em plena Copa do Mundo e serão, sim, dias tenebrosos, assombrosos e irritantes. :-(

Ainda bem que o planeta Terra gira e gira e os dias passam e tudo passa.

Além de ser o Solstício de Verão, hoje a lua cheia está no apogeu, distância máxima da Terra. Depois ela se aproxima e depois se afasta, influenciando marés, menstruações e sonhos, pesadelos. Sempre em ciclos.

Nesta conjunção de energias cósmicas e cíclicas, deixo aqui registrado, na imagem abaixo, a “cara deste blog” desde sua criação até hoje. E acabou, chegamos no fim do ciclo, que é começo de outro. Amanhã, às 18h, teremos um visual novo.

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Até lá.