O caipira e a bicicleta

Minha cumadi, sabedora que sou um caipira da gema por tras desse palavriado todo, mi mandou ni meu faicebuque preu vê esse causo do Sô Geraldinho Nogueira.
Eita trem disgramado de bão! Cumé que eu nem conhecia?
Iscuita só procê vê – e tome cuidado pra num obrá de tanto ri.

Continuei assuntando na internete e deparei cum essa moda de viola “Caipira bicicleteiro”, de Nilsinho e Tanaka, que conta o mesmo causo desse caipira que foi andá de bicicleta sem sabê e se atresbuchô numa queda.

Percurando mais um tiquim, fiquei sabendo que saturdia teve o lançamento do filme “O caipira e a bicicleta”. O personage é Amâncio, o nosso Jeca Tatu distabocado de famoso, que pra ajudá a muié que si intojô arresolve ir pra cidade de bicicleta, sem sabê pedalá.

Caipira_Bicicleta_Filme

Só incontrei informações no Faicebuque, clique e dá uma espiadinha lá ó. E o filme só passô pros paulistas de Pindamonhagaba e Taubaté.

“O curta metragem foi realizado pelo Ponto de Cultura Fábrica de Documentários/TV Cidade Taubaté/Coletivo de Cinema da Cidade e a produtora independente Alex Produções; o trabalho foi todo cotizado entre os envolvidos. Os atores atuaram gratuitamente e até tiveram despesas com transporte, alimentação, vestimenta, etc.”

Aiê, sôdade da roça, da miringa de barro ionde eu bibia água friinha, da paçoquinha de pilão de pau, dos galin cantando quando o sol rachava mamona naquelas tarde infurnada…

[.]

Bicycle, o filme

O documentário “Bicycle” dura 90 minutos e pergunta: o que é andar de bicicleta e por que a bicicleta está de volta à moda?

Dirigido pelo diretor Michael B. Clifford, vencedor do British Academy of Film and Television Arts (BAFTA – “Oscar britânico”), que também é ciclista entusiasta, o filme conta a história da bicicleta na terra que inventou a bicicleta moderna, seu nascimento, decadência e renascimento, desde sua origem vitoriana até hoje.


créditos: Coventry Transport Museum

O documentário combina design da bicicleta, esporte e transporte, por meio da releitura de algumas histórias emblemáticas e apresenta entrevistas com colaboradores notáveis: Sir Dave Brailsford (treinador da equipe de ciclismo Team Sky), Gary Fisher (um dos inventores do mountainbike), Chris Boardman (recordista mundial e ganhador da medalha de ouro nas Olimpíadas de Verão de 1992, categoria perseguição individual), Ned Boulting (jornalista esportivo), Sir Chris Hoy (ciclista, campeão escocês, mundial e olímpico, com seis medalhas de ouro), Tracy Moseley (várias vezes campeã britânica de mountaibike e downhill), Mike Burrows (designer e construtor de bicicletas) e muitos mais, além de grande coleção de imagens, animação e música.

“Bicycle” é uma reflexão bem-humorada, lírica e calorosa sobre a bicicleta em si, sobre andar de bicicleta e seu lugar na psique nacional britânica.

A equipe do filme inclui o premiado produtor de cinema Pip Piper, da Blue Hippo Media. Um recente documentário de Pip, “Last Shop Standing”, sobre as lojas de discos independentes do Reino Unido, contou com Paul Weller, Johnny Marr e Billy Bragg e recebeu aclamação da crítica e foi exibido em todo o mundo.

O consultor criativo é Rob Penn, escritor e fotógrafo, autor do famoso livro “It’s all about the bicycle” (ainda não traduzido para o português), que tem o sugestivo subtítulo “em busca da felicidade sobre duas rodas”, e pode ser comprado na Amazon:

Este livro virou documentário transmitido pela BBC. Em 2013, Rob Penn pedalou 1.200km pela Amazônia como parte de outro documentário.

O filme “Bicycle” está sendo apoiado pela Trek, Shimano, Bicycle Association, Birmingham Cycle Revolution e outros co-patrocinadores. 20% do orçamento foi conseguido por meio de crowdfunding.  Clique aqui para ver o cartaz do filme em tamanho (muito) grande. A première VIP foi em 1 de julho de 2014. O lançamento mundial para o público ocorreu na Harewood House, durante o Yorkshire Cycling Festival, em uma tela gigante ao ar livre alimentada por 12 bicicletas!

bicycle_film_huge_screen

O filme está sendo exibido em cinemas de todo o Reino Unido.

Mas, para nós, está disponível para pré-compra em DVD. Por apenas £9,99, cerca de 30 reais. Somente até 12 de setembro! Atenção na hora de comprar! Escolha a opção International DVD. O filme possui a opção de legendas em inglês. Compre o seu clicando aqui e ajude o cinema independente.

Alguns depoimentos:

“Num momento em que a bicicleta está de volta e na moda, é muito bom ver um filme sobre esta bela máquina” – Chris Boardman, medalha de ouro olímpico

“Lírico, carinhoso, lindo. Um hino de louvor a esta simples maravilha: a bicicleta “ – Ned Boulting, radialista e escritor

“A bicicleta tem sido fundamental na minha vida até o ponto em que agora tenho a minha própria marca de bicicletas. Estou animado para ver um documentário sobre a história da bicicleta e seu impacto na Grã-Bretanha.” – Sir Chris Hoy, 6x campeão olímpico (Hoy Bikes)

Estou com a página aberta pra fazer minha encomenda! :-D

Visite o saite oficial do documentário.

Este artigo foi escrito com base no release de divulgação. Vi primeiro no boletim mensal da Sustrans-UK.

[.]

Bicicletas de bambu, madeira, papelão e sucata

Para sua série Futurando!, a DeutscheWelle fez um especial esta semana sobre bicicletas construídas com materiais inusitados.

Clique na imagem abaixo, que mostra bicicletas feitas de madeira de carvalho, para acessar a página. Depois, clique no vídeo  embutido e assista, 5 minutos.

bought_bike

Fiquei admirado ao saber que, dependendo da espessura das paredes do bambu, a bicicleta fica mais ou menos macia. Incrível!!

[.]

Ciclovias na Asa Sul – quadras 300 e 700

Depois de ter dado prioridade às ciclovias “da Copa”, no eixo Monumental, o GDF voltou com as obras das ciclovias na Asa Sul.

Nas quadras 700, o concreto já foi colocado desde a frente do Colégio Leonardo da Vinci até a altura da UDF e transformadores da CEB. IMG_0575_tn

Está passando em frente à Casa Thomas JeffersonIMG_0576_tn

Em breve chegará ao DetranIMG_0578_tn

Os cortes estão sendo feito na altura da Aliança Francesa, com um braço da ciclovia que desce até a W3, passando ao lado do Jardim de Infância 21 de Abril. IMG_0551_tn

Ligação semelhante até W3 também foi feita na Praça do Índio (fico devendo a foto….)

Nas quadras 300, os piquetes estão colocados da 302 à 305 Sul.

IMG_0584_tn

IMG_0586_tn

O projeto continua o mesmo, já mostrado aqui no blog. Nada de novo: é uma obra feita apenas para evitar o conflito com automóveis (diga-se: conforme solicitação feita durante anos, pelos cicloatletas e cicloativistas de fim de semana, para os governos Roriz, Arruda, projeto adotado sem nenhuma modificação pelo atual governo Agnelo).

Há trechos em que a ciclovia é necessária, trechos em que é completamente desnecessária e, onde deveria resolver os problema mais graves, o GDF e seus órgãos se omitem (outro modo de dizer que deixam tudo como era antes: nos cruzamentos com as vias de carro e estacionamentos, a ciclovia “desaparece”).

Ciclovias feitas com design focando e priorizando o trânsito motorizado, para retirar os ciclistas e deixar as ruas livres para os automóveis (ideia dos planejadores urbanos de Adolf Hitler). Feitas nas áreas de pedestres e áreas verdes, desconexas, com diversos obstáculos e muito confusa, como mostra a comparação abaixo.

Já que querem fazer, que façam. É bom que seja assim. Também se aprende pelo erro (isto inclui governo e ciclistas). E no futuro, como sociedade poderemos e vamos dizer: não, concreto no chão não resolve o problema. Precisamos de mais!

[.]

Do zoológico à selva urbana

Em uma decisão de fim-de-ano, em algum ano passado, coloquei como meta escrever um texto por semana no blog. Nem sempre consigo, pois para escrever sobre alguma coisa, eu gosto de ler antes. E vou lendo, lendo, quando vi o tempo passou e não escrevi.

Nestes dias que correram, pensei em escrever sobre que comecei a ler e estou gostando muito: o Livro do Cemitério, de Neil Gailman (uma boa resenha aqui).

Mas também vi uma galeria de fotos da DeutscheWelle: Um passeio de bicicleta pelo Ahr:

ahr

Até pensei em comentar sobre os moradores de São Paulo que foram registrar queixa na delegacia contra a ciclovia que está sendo construida, mas deixei pra lá. Além de ser um assunto batido e de menos importância – motoristas irritados com a perda de espaço para bicicletas –  outras pessoas já falaram sobre o fato, como a Raquel Rolnik.
E foi mais ou menos o que aconteceu aqui em Brasília: de uma hora para hora o governo começou a implantar ciclovias, sem aviso, sem consultar a população, sem diálogo – parece ser a prática do partido.

Quando comecei a traduzir uma notícia da Sustrans, anunciando que, na Inglaterra, cada vez menos pessoas andam de carro, e mesmo assim o governo britânico insiste em políticas de ampliação das vias para carros, a BBC lançou seu desafio semanal para os leitores enviarem uma foto sobre determinado assunto. O tema da vez era ciclismo, e pensei: vou anunciar no blog. Mas a BBC é muito rápida, um ou dois dias depois de fazer o convite eles já colocam as fotos.
Primeiro foram mostradas as fotos tiradas pelos leitores ingleses:

bbc_grafitti
Alex Inman viu e clicou este grafite em uma rua de Georgetown, na Malásia. As duas crianças pintadas parecem estar pedalando sobre a bicicleta, real, encostada no muro.

Em seguida, as fotos tiradas pelos brasileiros. Veja todas aqui.

Quando estava escolhendo qual das minhas fotos iria mandar (acabei não mandando…) vi na mesma BBC esta notícia que é a cara do blog.

A Dinamarca projeta um zoo com animais soltos e público ‘invisível’. No projeto Zootopia, do renomado arquiteto Bjarke Ingels, os visitantes são escondidos em cápsulas espelhadas e as jaulas são eliminadas.

“A maior e mais importantes missão de um arquiteto é projetar ecossistemas feitos pelo homem, garantir que as nossas cidades e edifícios sejam adaptados ao nosso estilo de vida”, afirmou o fundador do Bjarke Ingels Group (BIG).

“Temos que garantir que as nossas cidades ofereçam uma estrutura generosa para pessoas de origens, sexos, níveis econômicos e de educação e idades diferentes. Para que todos possam viver juntos em harmonia ao mesmo tempo em que levamos em conta as necessidades individuais e o bem comum.”

Quando vi esta foto que ilustrava o texto da BBC, pensei: Ué, o menino está andando de… bicicleta?? Sim, uma bicicleta com certeza.

Ainda meio na dúvida, fui conferir o saite oficial do arquiteto http://www.big.dk/#projects

O que a BBC não disse nem mostrou é que a Zootopia carrega dentro de si a bicicleta, como pode ser vista nesta imagem:

zootopia

- e ao desperceber a bicicleta, nisto a BBC foi seguida por todos que replicaram sua notícia (G1, Uol, Bol, Etc), iguais aos motoristas nas ruas que dizem “ah, eu não vi o ciclista…”

Atenção!
As bicicletas são peças centrais na concepção, como se pode ver nas imagens originais:

O arquiteto usa bicicletas e fala em “viver juntos em harmonia ao mesmo tempo em que levamos em contas as necessidades individuais e o bem comum”. Não é por acaso que ele escolheu a bicicleta!! Para quem anda de bicicleta (e a Dinamarca é exemplo e paradigma disto) é natural este modo de ver o mundo.

Não foi mera coincidência ou escolha por acaso.
No memorial do projeto se lê: “We are pleased to embark on an exciting journey of discovery with the Givskud staff and population of animals (…) but indeed also to discover ideas ans oportunities that we will be able to transfer back into the urban jungle”.

“Estamos satisfeitos em embarcar numa excitante aventura de descobertas com o pessoal e os animais de Givskud [o zoológico], mas também com a possibilidade de descobrir novas ideias e oportunidades que poderemos transferir para a selva urbana.”

Quem reclama de ciclovias e bicicletas ou fica exigindo mais e mais estacionamentos para carros e ampliação de vias, e ainda aqueles que mandam cortar árvores porque elas representam “perigo para os automóveis” (!), esses ainda não captaram a essência do nosso tempo e do futuro. Vamos viver cada vez mais em harmonia com a Natureza, não por ideologia, mas por necessidade. E para as cidades, que hoje são gaiolas de proteção contra a Natureza “selvagem”, nas cidades precisaremos deixar a Natureza entrar.

Isso será um futuro distante. Antes, vamos recuperar o espaço urbano em si e fazer as ruas voltarem a ser um lugar de passagem sim, mas também de lazer, de contemplação, de simbiose com a cidade e suas construções e monumentos. Hoje, lotadas de automóveis, as ruas são cercas e fossos.

IMG_7695

As cidades estão fragmentadas em dezenas de quarteirões e quadras. As pessoas estão acuadas, com medo e neuróticas, indo e vindo repetidamente como se buscassem uma saída – igual aquela avestruz ou o lobo-guará no zoológico.

As bicicletas são peças centrais nas cidades do futuro. Invisíveis, espelhadas, com a intervenção necessária, mas mínima possível, pedalando-as poderemos apreciar as cidades no que elas nos oferecem de melhor: segurança e espaço de convivência.

Na cidade do futuro, ir para a escola, para o trabalho, para fazer compras ou um festa pode ser e será tão prazeroso e agradável como a ciclovia do Ahr, um caminho bucólico entre vinhedos e castelos germânicos.

Bicicletas na Primeira Guerra

Um mês atrás, ao ver fotos inéditas sobre o uso da bicicleta na 1ª Guerra Mundial, compartilhei-as aqui no blog.

Nesta semana, por meio da DeutscheWelle, fiquei conhecendo o projeto Europeana 1914-1918, um gigantesco museu virtual sobre a Primeira Guerra.

Lá vou eu fazer pesquisa para ver o que encontro sobre bicicletas e…. tcharam!

É possível ver não apenas fotos incríveis, mas também correspondências, cartões-postais, diários.

Naquela guerra, o ciclista passou a ser uma patente militar. Pesquisando pelo termo “ciclista”, encontra-se uma carta de um ciclista carabineiro, um livreto com a história do grupo de ciclistas da 10ª divisão de cavalaria (belga?), o Handbook for Military Bicycles (Guia de bicicleta militares)

2888

basicamente um manual de manutenção mecânica, que acompanhava cada bicicleta  – veja que, na capa, há um espaço para anotação do número da bicicleta e logo abaixo o aviso: “This book will always be carried in the Toolbag of the Bicycle to which it belongs – este livro deve ser sempre levado na bolsa de ferramentas da bicicleta à qual pertence.
O livreto está disponível na íntegra, aqui.

e até uma propaganda de guerra direcionada para ciclistas:

fond

Você se acha bom ciclista? Então, por que não pedalar para o Rei? Precisa-se de recrutas / na atuarem na Companhia S. Midland. Idade mínima 19 anos. As bicicletas serão fornecidas. Roupas e uniformes serão entregues no alistamento.

As fotos arquivadas no projeto Europeana dão uma ideia de como eram os dias naqueles tempos de guerra total.

Soldado alemão usa uma bicicleta tandem adaptada para gerar energia nas trincheiras

Soldado alemão descansa numa “cama” de cápsulas de canhão vazias

Soldados ciclistas britânicos

Mulher francesa mata a sede de um soldado belga

Ao passar pela vila de Vraignes, em março de 1917, soldados alemãs carregam crianças nas bicicletas, como forma de despertar um sentimento de amizade na população

O projeto Europeana mostra coisas ainda mais inusitadas, como este belíssimo cartão postal bordado com a insígnia da companhia de bicicletas da divisão britânica de tropa montada

4190

e a partitura de uma marcha composta por Robert DeLeye, soldado da 1ª Cia. Ciclística da 5ª Divisão Belga

cyclist_en_avant

Clique na imagem acima para ver a partitura completa.

Alguém se dispõe a gravar um vídeo tocando esta marcha??

Especialistas perguntam se as bicicletas poderiam voltar a serem usadas em guerras. Alguns respondem que sim: por serem veículos que não produzem calor, bicicletas poderiam ser um veículo alternativo para escapar da artilharia guiada por sensores térmicos.

A 1ª guerra forjou o mundo em que vivemos hoje. Politicamente representou o fim dos grandes impérios (otomano, austro-húngaro, francês). Os EUA, que já eram uma força econômica, tornou-se um poderio político. E a Rússia entrou neste cenário com a Revolução de 1917. Desde aquela época, o mundo viu a ascensão dos dois poderes antagônicos, o capitalismo industrial e o comunismo, que ainda hoje dividem opiniões, corações e mentes.
Os esforços de guerra também fizeram uma revolução na economia. Todos esperavam que o conflito fosse breve e nenhum dos países se preparou economicamente para uma longa guerra. Todos os recursos nacionais foram direcionados para o sustento da guerra, com efeitos diretos e duradouros sobre a agricultura, a indústria e o mercado financeiro. Imensas mudanças sociais decorreram da guerra. Para atender a demanda por mão-de-obra, por exemplo, as mulheres pela primeira vez ocuparam postos de trabalhos antes exclusivamente masculinos.
Mais do que tudo, por causa dos conflitos que ficaram mal resolvidos, nos campos econômico, político e social, a 1ª Guerra foi o pano de fundo para eclosão da 2ª Guerra, que radicalizou e aprofundou as mudanças que nos trouxe aonde estamos agora. Como resultado direto da 1ª e 2ª Guerras tivemos o boom da indústria automotiva.
As fábricas de automóveis foram transformadas em fábricas de veículos e armamentos militares. Com o fim da guerra, a indústria do automóvel mostrou a conta deste “empréstimo” e o que se viu foi a resposta dos governos: uma intensa e maciça campanha de incentivo e apoio ao automóvel.
Hitler expulsou os ciclistas das ruas, criando ciclovias, para garantir o fluxo crescente de automóveis. E a indústria de automóveis fez o boom da economia no pós-guerra. As bicicletas nunca mais foram usadas em combate e praticamente sumiram das cidades.

Desde os anos 60, época de agito social, e com a crise do petróleo da década de 70, as bicicletas começaram a voltar, e sinceramente espero que elas invadam todas as ruas de todas a cidades.

Mas não voltem para as guerras…

Bicicleta: entre a economia e as asas

O poeta Alberto Martins disse que “a literatura é uma zona de respiro da sociedade, como os caminhos que as minhocas abrem na terra para arejá-la. O papel da literatura é canalizar e dar voz a essas coisas que não são aparentes”.

Se vale para a literatura, vale para a arte e todas as suas manifestações. Então vale para as charges.

 

O que a charge do Rafael para o jornal O Povo tem a nos revelar, o que está oculto? Os cinco líderes pedalando em conjunto a BRICicleta dá óbvia ideia da união de forças. A charge remete à criação do banco dos BRICs, assunto que esteve na pauta da economia no começo da semana. Mas há algo mais, raízes que só as minhocas ouvem. Siga-me nesta trilha, talvez eu consiga mostrar.

Os seres humanos gostamos de achar que somos seres racionais e inteligentes. Que uma das nossas melhores sabedorias é tomar decisões racionais visando um futuro melhor. Errado! Na maioria das vezes, não somos tão lógicos como queríamos e um misto de emoções e crenças engana a nós mesmos.

Como seres humanos cheios de emoção, temos uma imensa aversão à perda, que muitas vezes nos leva direto à falácia dos custos irrecuperáveis.

Mas, o que são custos irrecuperáveis?? São todos os pagamentos ou investimentos que fazemos e que nunca poderão ser recuperados. É um dos temas favoritos dos economistas, quando estudam as escolhas intertemporais no âmbito da economia comportamental.

Um andróide com circuitos lógicos em pleno funcionamento nunca tomaria uma decisão com base nos custos irrecuperáveis, mas você e eu sim. Nossos sentimentos e instintos são mais fortes e nosso cérebro disfarça para que pareçam decisões racionais. Mas não são.

A Ilusão: você toma decisões racionais baseadas no valor futuro dos objetos, investimentos e experiências.

A Verdade: suas decisões são influenciadas pelos investimentos emocionais que você acumula, e quanto mais você investir em algo mais difícil se torna abandoná-lo.

Vejamos como acontece e o que isto tem a ver com bicicleta e trânsito.

No livro Thinking Fast and Slow

publicado no Brasil pela Editora Objetiva, o psicólogo Daniel Kahneman escreve sobre como ele e seu colega Amos Tversky, por meio de trabalho na década de 1970 e 80, descobriram o desequilíbrio que há entre perdas e ganhos em nossa mente. Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de… economia!, explica que, uma vez que todas as decisões envolvem incerteza sobre o futuro, o cérebro humano que você usa para tomar decisões evoluiu um sistema automático e inconsciente para julgar como proceder quando surge um potencial de perda. Assim, ao longo do tempo, a perspectiva de perdas tornou-se um motivador mais poderoso no comportamento humano do que a promessa de ganhos. Sempre que possível, tentamos evitar perdas de qualquer tipo, e quando se comparam perdas e ganhos, você não vai tratá-los da mesma forma.

O economista comportamental Dan Ariely acrescenta um toque fascinante nesta questão da aversão à perda, em seu livro Predictably Irrational


(publicado no Brasil pela Campus Editora). A “dor de pagar”, como ele diz, surge sempre que você precisa desistir de qualquer coisa que você possui. O valor não importa. Você vai sentir a dor não importa o preço que você vai pagar, e isto influencia suas decisões e comportamentos.

Em um de seus experimentos, Ariely montou um estande em uma área bem movimentada. Os transeuntes podiam comprar chocolates comuns por R$1,00 ou excelentes trufas belgas por R$15,00 cada. A maioria das pessoas escolheu as trufas. Foi um bom negócio, considerando as diferenças de qualidade e os preços normais de ambos os itens. Ariely, então, criou outro estande com as mesmas duas opções, mas reduziu o preço em um real cada: os chocolates eram de graça e as trufas custavam R$14,00 cada. Pare e pense: desta vez, qual você escolheria??

A grande maioria das pessoas selecionou os chocolates comuns em vez das trufas (foi seu caso, admita!!). Se as pessoas agissem na lógica matemática pura e racional, explicou Ariely, não deveria ter havido mudança no comportamento dos indivíduos. A diferença de preço era a mesma. Mas não achamos que é dessa maneira. Nosso cérebro nos prega uma peça (por falácia, uma inverdade lógica): o sistema de aversão à perda está sempre vigilante, de prontidão para nos manter longe da ideia de desistir de algo, de desapegar. É por isso que você acumula badulaques que você realmente não quer ou precisa; é por isso que achamos tão tentador aceitar negócios que incluem brindes “gratuitos” ou descontos obscuros; é por isto que as pessoas continuam usando carros, mesmo sabendo do mal que faz à saúde (obesidade e sedentarismo), à cidade (trânsito caótico e mal uso da terra) e ao planeta (aumento do efeito estufa).

Alguma vez você já foi ao cinema só para perceber, em 15 minutos, que está assistindo a um dos piores filmes já feitos, mas você fica e assiste ao filme de qualquer maneira, até o fim? Você não quer desperdiçar o dinheiro, então você desliza para trás na cadeira e sofre – como sofre atrás do volante.

Essa é a falácia!! É o sistema emocional em alerta. Porque o dinheiro será perdido de qualquer maneira. Não importa o que você faça, você não pode tê-lo de volta. A falácia impede que você perceba que a melhor opção é fazer o que promete ser a melhor experiência no futuro, em vez de preferir “diminuir” o sentimento de perda no passado.

Kahneman e Tversky também conduziram um experimento para demonstrar a falácia dos custos irrecuperáveis. Veja como você se sai nessa.

Imagine que você vá comprar um livro que custa R$50. Quando você abre sua carteira ou bolsa, percebe que perdeu a nota de $50. Será que você ainda compra o livro? Provavelmente sim. Apenas 12 por cento dos indivíduos no teste disseram que não. Agora, imagine que você compra o livro, paga R$50, mas antes de chegar ao bicicletário percebe que esqueceu – perdeu! – o livro em algum lugar. Você voltaria e compraria outro exemplar do mesmo livro?? Talvez, mas a dor no bolso seria muito maior, não é? Neste experimento, 54 por cento das pessoas disseram que não compraria outro livro. A situação é exatamente a mesma!!

Você perde R$50 e, para poder ler o livro, precisa pagar R$50 de novo, mas o segundo caso nos parece diferente, sentimos diferente. É como se o dinheiro fosse usado para um propósito específico e depois perdido, houve uma carga emocional investida no futuro e perder é uma m*!

Os custos irrecuperáveis levam a guerras, elevam os preços em leilões e mantem vivas políticas fracassadas, como a política de incentivo ao automóvel. A falácia faz você continuar comendo o que está no prato, mesmo quando seu estômago já está cheio. Ela enche sua casa com coisas que você não quer nem usa mais. E vai fazer as cidades entrarem em colapso, pois os carros foram comprados, os viadutos foram feitos, as pistas foram duplicadas, as montadoras foram subsidiadas, o IPI foi reduzido, é muito dinheiro para poder voltar atrás agora…

foto do blog IN TRANSITU
EPTG após obras para “resolver o caos do trânsito”; foto do blog IN TRANSITU

Motoristas estão atolados em um poço de custos irrecuperáveis. Governos que buscam soluções para o trânsito de automóveis estão presos na lógica engarrafada dos custos irrecuperáveis. Eles nunca podem voltar o tempo ou o dinheiro que gastaram, mas pretendem continuar usando seus carros para evitar sentir a dor da perda e a horrível sensação de desperdício.

A falácia dos custos irrecuperáveis às vezes é chamada de falácia Concorde, descrevendo-a como uma escalada de compromisso. É uma referência à construção do primeiro avião comercial supersônico. O projeto estava previsto para ser um fracasso desde o início; mas todos os envolvidos continuaram em frente. Os investimentos que fizeram juntos deu origem a uma pesada carga psicológica que superou todos os melhores e sensatos argumentos. Depois de perder uma quantidade incrível de dinheiro, esforços e tempo, eles não queriam simplesmente desistir.

Foram em frente, como vão em frente os governos que duplicam vias, constroem viadutos, ampliam estacionamentos, reduzem IPI.

Motoristas, gerentes de trânsito, engenheiros, arquitetos, urbanistas e a imprensa continuam em frente, buscando solução para o trânsito de automóveis, mesmo sabendo que o fracasso é óbvio.

A capacidade humana de raciocínio tem defeitos provocados por forças invisíveis – emoções, relatividade, expectativas, apego, normas sociais – que nos induzem a fazer escolhas ‘previsivelmente irracionais’.

É uma tendência nobre e exclusivamente humana a vontade de perseverar, a vontade de manter o rumo, o apego ao que passou e a crença infundada no controle do futuro – estudos mostram que animais e crianças pequenas não cometem esta falácia. Vespas e vermes, ratos e guaxinins, bebês e crianças, eles não se importam o quanto investiram ou quanto vai para o lixo. Eles só conseguem ver perdas e ganhos imediatos.

Por outro lado, como seres humanos adultos, temos o dom da reflexão e do arrependimento.

Ponha-se num lugar futuro, onde você admita que seus esforços foram e estão sendo em vão, que suas perdas são permanentes, e que aceitar a verdade dói, dói muito.

Desapegue de velhos hábitos. Não espere que o governo construa nem aguarde que a polícia multe ou prenda. Assim como os líderes dos BRICs, dê o primeiro passo e a primeira pedalada em direção à mudança. As bicicletas estão aqui, e agora, só depende de você querer ganhar ou perder. Conscientemente.
IMG_6380


este texto foi inspirado pela charge e escrito a partir da estrutura e argumentos traduzidos do artigo The Sunk Cost Fallacy, publicado no blog You are Not So Smart, com adaptações.


[.]

Alemanha tetracampeã!!

Acabou!!!! a CopaFIFA acabou!! Estou aliviado como quem sai do proctologista.
Com um sentimento de liberdade, escapando da gaiola de gritos e bandeiras.

Ontem, passeando no Facebook, vi alguém postando os “motivos para torcer para a Alemanha”. Achei aquilo curioso, pois torço para a Alemanha desde 1966 – nas copas anteriores eu não havia nascido :-P.

Não que eu assista jogos ou participe de bolões ou acompanhe notícias de futebol. Para mim, basta saber o resultado final. Quanto maior o placar, melhor.

Mas os “motivos para torcer para a Alemanha” chamaram minha atenção. E foi ontem que fiquei sabendo que os alemães ganharam também o título de time mais simpático (campeões!), conquistando os moradores da vila de Santo André, em Santa Cruz Cabrália, Bahia.

Soube também que a seleção alemão trouxe bicicletas para usar no treino físico, como já faziam na Europa. A distância entre o local de treino e o hotel era pouca e os jogadores quiseram usar a bicicleta como meio de transporte (bicampeões!!), mas foram proibidos pela polícia, por questões de segurança.

[...Proibir andar de bicicleta por questões de segurança? Por que eu lembrei imediatamente das políticas cicloviárias brasileiras, da imprensa, das propagandas e dos cicloativistas que "defendem" a bicicleta com argumentos de "segurança"?? Resultado: cada vez menos bicicletas nas ruas, como pude comprovar em Montes Claros e Taiobeiras, cidades do interior de Minas - onde fui passar uns dias de férias para presenciar a sombra da morte sobre minha família - cidades que tinham muita bicicleta nas ruas e, a cada ano, este número reduz drasticamente...]

Não quero descer a esse inferno.

Voltemos: a seleção alemã usa a bicicleta como parte do treino físico (tricampeões!!). Como mostra esta notícia, a foto que abre este post e esta:


Mais uma lição que fica para times cheios de “talentos” e empafia.

Aquelas bicicletas trazidas pela seleção alemã foram doadas para uma escola de Santo André. TETRACAMPEÕES!!!

Foto de Ricardo Palmeira - Ag. A Tarde

Segundo notícia desta página, a escola pretende leiloar as bicicletas para angariar verbas. [Será que o leilão vai acontecer via internet, pra eu poder participar??]
Somando isto às doações para os índios, às outras doações para creche e escola: TETRACAMPEÕES!!!
Embora o futebol não tenha tanta importância pra mim, não é uma religião, nem uma boia-salva-país, como é bom estar do lado do time certo, quando tudo dá certo, por merecimento, compromisso, planejamento e espírito coletivo.

Weltmeister!!!


Ficou apenas uma mancha: o local onde a seleção alemão ficou hospedada foi construído numa área de proteção ambiental. Gol contra!

[.]

 

 

Bicicletas na Grande Guerra, 1914

Há 100 anos começava aquela que nós conhecemos como 1ª Guerra Mundial. Os europeus chamam-na de “A Grande Guerra”.  Ela definiu a geopolítica atual, destruiu impérios e foi marcada pelo uso de armas de destruição em massa. Uma guerra industrializada entre as potências industriais.

Foram adotadas novas formas de combate, com avassalador poder da artilharia, com canhões, metralhadoras, bombas de gás. As tecnologias que estavam despontando no início do século foram adotadas, como os dirigíveis, que bombardearam Londres em 1915.

As bicicletas também foram usadas.

Fotos nunca antes divulgadas estão sendo mostradas. Como esta abaixo, que mostra soldados ciclistas franceses, no front de Champagne. A foto foi tirada em 22 de setembro de 1915.

Veja aqui mais fotos impressionantes, deste conflito impressionante.

Torço e ajo para que a bicicleta nunca mais seja usada como arma de guerra, urbana ou não.

[.]

Um passeio de bicicleta até a Abadia de Corvey

Abadia_Corvey

Clique na imagem para acessar a reportagem da DeustcheWelle.

No Brasil, nenhuma cidade história é amiga da bicicleta. Os patrimônios culturais da humanidade, por aqui, estão com as ruas abarrotadas de carros, ao ponto de ser impossível tirar uma boa foto dos monumentos e de andar pelas ruas apreciando a arquitetura e a atmosfera que deveriam proporcionar.

[.]