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Archive for abril \26\UTC 2010

Brasília, 150 anos

(clique nas imagens para vê-las em tamanho grande -  da série Visões do Apocalipse, vista em jezner.com, mas disponíveis em Phombo)

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escolas, bibliotecas e internet

Trechos do artigo A democracia do saber, escrito por Isaac Asimov em 1974. Notem como ele anteviu sabiamente a internet e todo o impacto que traria para um sistema escolar obsoleto e não-democrático.

Aprender e saber são uma alegria de mistura com uma ampla maravilha, visto que o universo parece expandir-se dentro do conceito mental, mudar e assumir uma nova forma e uma nova cor, que nunca mais perderá. É o caso do “consegui” (do eureka do grego), que, por um momento relampagueante, se sobrepõe a tudo o mais; a vida, a morte, a tudo.
Não, ninguém pode fazer tudo por si mesmo. Tem de haver uma espécie de ajuda que assente os alicerces, prepare o trampolim, oriente até a posição. Alguém tinha de recitar o alfabeto para mim, de dizer-me o que aquilo era, depois escrevê-lo para mim, e a seguir mostrar-me como e que soava cada letra. Havia vezes, até, que intrigado, eu chegava a chorar, e pedia a alguém que me destrinçasse alguma coisa que eu não podia solucionar. (Fiz isto, por exemplo, com certas palavras inglesas, cuja pronuncia não conseguia acertar; e quando eu encontrava algum rapaz que pudesse pronunciá-las para mim, ele não sabia explicar o que significavam.)
É exato, porém, que ninguém vive num vácuo intelectual. Nós observamos, somos informados, e mesmo quando não perguntamos a informação aparece.
Podemos reagir passivamente à torrente da informação; deixamos que ela se quebre em cima de nós,  ao passo que ignoramos tudo quanto possível com a mais bovina estolidez. E, mesmo quando isso acontece, não podemos fazer outra coisa senão aprender. Quase toda criança, submetida ao severo rigor da escola primária, aprende a ler, a escrever e a numerar, por mais que façamos objeções ao processo. E mesmo antes da escola a criança aprende a falar.
É trabalho enfadonho, duro – a estrada real para o conhecimento – ter de fazer o que nos dizem, e absorver, quando não se pode mais resistir, somente o que a autoridade dita.
As escolas, infelizmente, são, com muita frequência, expoentes desta estrada real do ensino, com administradores e professores incapazes de fazer outra coisa senão seguir cegamente o sílabo, dificilmente aparecendo alguém que conceba a verdade segundo a qual a coisa mais importante que uma escola pode ensinar e que ela não é suficiente; que, além da estrada real do conhecimento por meio da autoridade de cenho cerrado da escola, se encontra a estrada democrática da aprendizagem por meio da descoberta pessoal.
Por trás desta situação, pelo menos em parte, há o fato de que o sistema escolar, através de toda a História, desde que o primeiro mais velho ensinou o primeiro mais moço, tem sido não-democrático no conceito. A escolaridade é reservada, quase que inteiramente, a um segmento da população: a juventude.
O ato de aprender é levado a parecer, por esta maneira, uma coisa de determinado tempo, um sofrimento temporário, imposto ao jovem e fraco. Qual a criança tão obtusa que deixe de ver que ela deve ir à escola, ao passo que os adultos não? Qual a criança que não percebe de imediato que uma das recompensas de um indivíduo ao se tornar adulto é que pelo menos ele tem a liberdade de não ter de estudar mais? Não importa o que nos adultos pensemos do aluno que abandona a escola, o fato é que, para a criança, ele passa por alguém que conseguiu diplomar-se em maioridade às pressas.
Quão poucos são os lugares e quão poucas são as ocasiões que existem em que se faz uma tentativa de tornar claro que o aprender é uma parte integrante da condição humana, que aprender é fazer uso daquela parte do nosso ser que é mais peculiarmente humana, que compartilhar a riqueza acumulada de conhecimentos, reunida através dos tempos, é o maior dos privilégios humanos. Tudo o mais compartilhamos com o restante das espécies viventes; a nossa capacidade de aprender é exclusivamente nossa.
A verdadeira democracia do ensino implica abstração da idade. Ninguém, tenha a idade que tiver, que deseje aprender seja lá o que for, deveria ser impedido de ir nessa direção. Uma pessoa assim deveria ser saudada com alegria, acolhida com prazer, e deveria receber quantos auxílios institucionais existissem.
(…)
Pois bem, se as escolas não constituem a plena resposta, de que mais e que precisamos?
Bem, no ano de 650 a.C., Assurbanipal, da Assíria, reuniu tijolos em seu palácio, pilhas e pilhas de tijolos, marcados com delicados relevos cuneiformes, os quais condensavam os conhecimentos de 2.500 anos de cultura do Vale do Tigre-Eufrates. Quatro séculos depois, Ptolomeu do Egito (que mencionei no começo deste ensaio) começou o processo de acumular os rolos de papiro que deveriam compor, como passaram a compor, a maior biblioteca que o mundo já vira até aquele tempo.
Até bem próximo dos tempos modernos, esse foi o padrão dos armazéns de sabedoria – constituíam propriedade privada de reis e de grandes nobres, e seu uso era disponível a muito poucos.
Agora, porém, a menor cidade pode possuir uma coleção de livros que rivalizam com as maiores bibliotecas das idades passadas; e,  levando-se em consideração o avanço dos conhecimentos, contém, no seu catálogo de obras de referencia, maravilhas nem sequer sonhadas pelas maiores mentalidades do passado.
Por isso, devemos concluir que o lugar mais democrático de sabedoria, no mundo, é a biblioteca pública. E lá que se pode encontrar informação sobre qualquer objeto, ler o que bem quisermos, quando bem quisermos. E estou antevendo o tempo em que a computadorização colocará, em cada residência, um terminal ligado a alguma biblioteca central, que apresentará, em fac-simile ou em tela de televisão, os recursos de gerações humanas, colocando-os na ponta dos dedos mesmo da mais modesta humanidade.

publicado no livro O início e o fim.

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Asimov: automação e telemetria

09/04/2010 1 comentário

Trecho do artigo Tecnologia e energia, escrito por Isaac Asimov, em 1973, e publicado no livro O início e o fim. É de se notar a antevisão do celular, da internet, das teleconferências. Os parágrafos finais ainda são uma utopia.

Com os satélites de comunicação e os raios leiser funcionando a toda eficiência e com os computadores avançados organizando o conjunto, pode ser que o mundo possa começar a transmitir mensagens com uma eficiência tal que fará com que o rádio comum (sem falar no telégrafo) se pareça com um remanescente dos tempos do expresso em lombo de animal.

Dispondo de um número ilimitado de canais de vozes e de imagens, cada pessoa poderá ter o seu fone portátil e ligar para qualquer número à face da Terra. A palavra impressa poderá ser transmitida fácil e amplamente, de modo que os fac-similes de cartas poderão ser remetidos de ponto a ponto numa fração de segundo. Os fac-similes de jornais, revistas e livros poderão ficar prontamente disponíveis ao aperto de um botão. Talvez, a seu tempo, um simples computador mundial passe a conter, em seu interior a biblioteca do mundo, podendo cada parte dela estar a disposição de qualquer homem, a qualquer tempo.

(…) Quanto a isto, a própria imagem de um indivíduo poderia ser transferida, em vez do próprio individuo. As conferências poderiam ser proferidas,  muito embora os que as compõem estejam separados por distâncias globais. Os assistentes poderiam cada qual estar sentados em suas casas, encontrando-se estas espalhadas pelos seis continentes e três dúzias de nações, e, não obstante, com todas as suas imagens reunidas.

Ninguém precisaria encontrar-se em qualquer lugar em particular para controlar seus negócios. Os homens de negócios não precisariam reunir-se em escritórios, nem os operários em fábricas. Com a automação, a telemetragem e os monitores por televisão, todo o trabalho poderia ser feito em casa, se assim fosse resolvido.

Por certo, as massas ainda precisariam ser transportadas aos lugares onde elas representam alimento, matérias-primas, produtos acabados; mas muita massa não precisaria ser transportada para simples informação do que ela conteria, e assim a poupança seria enorme.

As pessoas continuariam viajando, mas apenas por prazer, e não por necessidade de negócios, e o prazer seria ainda maior, visto que os meios de transporte não ficariam apinhados pelos que tivessem de viajar por motivos outros que não o prazer.

As próprias cidades se espalhariam e desapareceriam. Não seria necessária uma reunião para a facilidade de comunicação, nem por motivo de negócio. Não haveria sequer necessidade de se reunir por motivos culturais, visto que todos os livros, peças teatrais, concertos e tudo o mais estariam igualmente disponíveis em toda parte. Todo lugar, a face da Terra, seria “o lugar próprio”.

E isto desde que…
1. a população se estabilizasse em nível razoável; e que
2. o povo aprendesse a evitar desperdício e destruição inútil dos recursos, assim que a tecnologia fosse desenvolvendo continuamente novas fontes.

Então tornar-se-ia possível, aos seres humanos, ter efetivamente uma forma de vida simples, com espaço, privaticidade e dignidade, ao longo de um tempo vindouro indefinido – tudo por meio, como deve ser, do avanço da tecnologia e do sábio uso de energia da maneira mais econômica.

Nada disso poderá jamais ser proporcionado por nenhum suicida desconhecimento da tecnologia, nem pela rebelião contra ela. Com a tecnologia derrotada, ou abortada, só poderá haver catástrofe rápida e permanente desagregação daquilo que sobreviver do espírito humano.

Coelhinha de bicicleta

Coelhinha Nijnte (em holandês); Miffy (em inglês), criação de Dick Bruna

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