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Archive for junho \28\UTC 2010

Sonhando com bicicletas

Do livro "O diabo dos números". Ilustração de Rotraut Susanne Berner

Fazia tempo que Robert estava cheio de sonhar. Dizia para si próprio: “E, além do mais, faço sempre papel de bobo”.

Por exemplo: em seu sonho, muitas vezes ele era engolido por um peixe enorme e repugnante, e, sempre que isso acontecia, ele ainda tinha que aguentar um cheiro horroroso entrando pelo seu nariz. Ou então sonhava que estava escorregando num escorregador sem fim, descendo cada vez mais fundo no abismo. Podia gritar “Pára!” ou “Socorro!” o quanto quisesse, e não adiantava: ia descendo cada vez mais rápido, até acordar molhado de suor.

Caía também num outro truque maldoso quando desejava muito alguma coisa, como, por exemplo, uma bicicleta de corrida de no mínimo 28 marchas. Aí, Robert sonhava que a bicicleta, toda pintada de um lilás metálico, estava esperando por ele no porão. Era um sonho de uma precisão incrível. Lá estava a bicicleta, à esquerda do armário de vinhos, e ele sabia até mesmo a sequencia dos números para abrir o cadeado: 12345. Essa sequencia era muito fácil de guardar! No meio da noite, ele acordava, apanhava a chave na parede e, ainda meio sonolento e cambaleante em seu pijama, descia os quatro lances de escadas até lá embaixo. E o que ele encontrava a esquerda do armário de vinhos? Um rato morto… Que enganação! Um golpe muito baixo.

Com o tempo, Robert descobriu como se defender desses golpes baixos. Assim que começava a sonhar com tais coisas, pensava rápido, sem acordar: “Lá vem de novo o velho peixe nojento. Sei muito bem o que vai acontecer agora. Ele quer me engolir. Mas é lógico que estou sonhando com este peixe, e claro que ele só pode me engolir no sonho, e nada mais”. Ou então pensava: “Lá vou eu escorregando de novo, o que é que se vai fazer? Não posso parar com isso, mas também não estou escorregando de verdade“.

E assim que a bicicleta maravilhosa aparecia outra vez, ou um joguinho de computador que Robert queria de qualquer jeito (e lá estava o joguinho, bem nítido, ao lado do telefone: era só pegar), ele já sabia que era de novo pura enganação. Não dava nem bola para a bicicleta. Deixava para lá. Mas, por mais esperto que ele fosse, aquilo tudo era uma amolação e, por isso, os sonhos o irritavam.

Do livro O diabo dos números, de Hans Magnus Enzensberger. Editora Cia. das Letras. Ilustração de Rotraut Susanne Berner.

PS.: também me irrito com sonhos de uma cidade melhor para todos. Neste país Brasil, pura enganação, repugnante como peixe podre. Mas eu sempre sonho :-(

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Árvore

25/06/2010 1 comentário

Sapucaia

Consegui identificar as sapucaias no eixão norte! Agora que conheço a árvore, já descobri mais duas na Asa Sul – e uma delas está carregada de frutos. :-) Quando elas ficarão floridas?
Encontrei também esta crônica no excelente saite da Revista Plurale.

Árvore

Christina Carvalho Pinto
Presidente do Grupo Full Jazz, é também líder da plataforma multimídia Mercado Ético

Era uma casa com poucos esconderijos: um porão (espaço de função imprecisa), alguns armários já ocupados, malas que ficavam sobre os armários, lá no alto, muito longe do alcance das minhas mãos.

Onde esconder a dor, o sangue, os medos e seus fantasmas, se em qualquer canto eu podia ser capturada?

Do outro lado da rua, a casa do vizinho tinha um quintal que se adivinhava através dos galhos da mangueira, aquela onde a molecada da rua comia manga verde com sal e a cada temporada a gente subia no muro mais rápido, voando sobre os tijolos velhos e carcomidos, um bando de pássaros de alpargatas.

Aproveitei a manhã do domingo, enquanto os adultos ouviam a homilia interminável do pároco, e peguei o pacote debaixo da cama.

Atravessei o corredor silencioso, a rua vazia e dei com o muro, de repente tão alto para subir sozinha, sem ninguém para fazer escada, o pacote preso na cintura, por dentro da calça rancheira.

Subi e saltei. Olhei para ela, deusa generosa de tronco forte e braços tantos, e me deitei, nós duas no quintal que era só dela.

O padre falava espanhol, ela não falava nada. Ficamos assim conversando por um longo tempo, sem palavras, eu contando tudo, ela acolhendo. Nenhum distúrbio, nenhum julgamento. Enterrei meus segredos entre duas raízes e nunca voltei para buscar.

O jardim da nossa casa era grande o bastante para caber uma muda de limoeiro. Meu pai me ajudou a abrir um pequeno buraco no chão, cavocando com as mãos, e ali coloquei algumas sementes.

A cada manhã eu espiava o montinho de terra, ansiosa. Um dia olhei e vi aquela pontinha de verde brotando, uma coisica de nada fazendo mágica na frente dos meus olhos, corre Maria Idalina, vem ver o que aconteceu! E assim o limoeiro vinha chegando e se revelando, crescendo, tomando o espaço,
nossa, como é que pode uma planta que eu plantei já ficar mais alta do que eu? E o limoeiro ficou mais alto que os meus irmãos, que os jogadores do time de basquete da escola, mais alto que todas as minhas expectativas e começou a dar flores, muitas flores e limões que não parava mais.

Eu apertava as folhinhas novas entre os dedos, cheirava aquele perfume delicioso e pensava: que poder, eu sei fazer árvores, eu sei fazer a vida.

Nascida sob signo de água, com ascendente ar e lua em fogo, tenho falta de terra. Minha relação com ela é carnal, um desejo sem fim de ver, tocar, desvendar, sentir sua magia, saborear seus frutos.

Terra e árvore, mãe e filha: caminho mil léguas por um momento com elas.

Pelos idos de 2004 fiz uma experiência com ayahuasca e, assim como muitos outros, estive à beira da morte. Fui tomada de terrores, desenvolvi síndrome de pânico, via de repente o mundo desmontar ao meu redor, como se a realidade fosse a tela de um monitor e os pixels enlouquecidos despencassem
sem aviso.

De manhã, indo para o trabalho, sentia muitas vezes o flash back rondando, o cenário escapando de mim; e com o terror já presente, parava e buscava com os olhos uma árvore. Quieta. Tronco, galhos, raízes. Eu olhava e olhava, imóvel, até me sentir enraizando no chão, seiva fluindo sem ruído, a vida de novo possível.

No Grupo Full Jazz, a cada 59 minutos entra uma música suave e nesse momento largamos tudo, respiramos, inteiramente donos de nós. Com nada mais entre eu e eu, olho lentamente para as árvores da rua, as folhas balançando com tanta suavidade que dá vontade de usar o verbo balouçar. Não penso; agradeço.

O minuto de silêncio acaba e abro outra vez espaço para os pensamentos. Me vem à mente o termo sustentabilidade. Ele passa por meus circuitos cerebrais sem provocar reação. Vazio como as velhas árvores de troncos ocos, que caem com a primeira chuva.

Fala-se tanto de sustentabilidade e esse falar é tão estéril.

Sustentabilidade é uma não-palavra.

(Mario Quintana escreveu que, diante dos sentimentos, as palavras são como
borboletas mortas espetadas no papel).

Para entender essa não-palavra, visite uma árvore.

Em silêncio, esqueça o tempo – essa outra ilusão – e espere.

A árvore vai te explicar tudo.

Categoriasárvores

Cidade das bicicletas

Copenhague, capital dinamarquesa onde está ocorrendo o Velo City,  foi eleita pela União Internacional de Ciclismo (UCI) a primeira city bike no mundo. Quer isto dizer que Copenhague está a caminhar para ser a melhor cidade do mundo para andar de bicicleta. A meta é chegar a 2015 com metade dos habitantes a utilizar a bicicleta como o principal meio de transporte.
Descobri este vídeo da TVNet-Sapo, que é curtinho – e eu gosto muito do sotaque!

A bela e o veículo encantado

13/06/2010 5 comentários

Se você é um homem casado, e sua mulher não é contra andar de bicicleta, agradeça todo dia. Se ela compreende, o incentiva e apóia, sinta-se feliz. Se ela pedala também, você é um cara sortudo!!

Se você é mulher, por que não pedala??

Não tenha medo de responder. Este é um problema mundial. Mulheres pedalam bem menos que homens. Alguns dizem que o fator que mais impede as mulheres de optarem pela bicicleta é a falta de segurança. Não só do trânsito em si, de não haver espaço para bicicletas, mas também na simples rotina de estacionar bicicletas, de pedalar sozinha por locais ermos, a mulher está sempre mais vulnerável que os homens – sobretudo aqui, sociedade machista com histórico de violência contra as mulheres.

Outros dizem – e as próprias mulheres confirmam – que pedalar não é “fashion”, não é agradável. A indústria da bicicleta tem grande culpa nisto, pois concentram-se apenas em bicicletas e roupas esportivas. O mercado, no Brasil, é dominado por mountain-bikes, que não são boas nem confortáveis para andar na cidade, e bicicletas de transporte sem estilo, sem graça e sem tecnologia. Poti, Tropical, Ônix são bicicletas feias e até meio bregas – a indústria reforça e alimenta o preconceito social ao não produzir bicicletas de transporte com classe, elegância e estilo.

Outro problema é como guardar bicicletas em prédios e condomínios que também não são amigos das bicicletas. Veja mais aqui

O vídeo Beauty and The Bicycle aponta estes mesmos problemas. Um grupo de garotas de Darlington, norte da Inglaterra, conta as razões porque não pedalam. Guess what!! Falta de infraestrutura e bicicletas inadequadas. Então elas são convidadas a fazer uma experiência. Ganham bicicletas holandesas para transporte (Excelsior e Gazelle), pedalam pelas ruas da sua cidade, depois vão conhecer Bremen, na Alemanha, onde a realidade é completamente diferente. Se não souber inglês (e bem!), vale a pena ver as belíssimas imagens. O que as garotas alemãs dizem é simplesmente incrível!

O trailer de 8 minutos é uma amostra do filme que está sendo exibido na Europa. Também faz parte do projeto um livro e um DVD que podem ser comprados diretamente no saite.

Beauty and The Bicycle faz alusão ao conto de fadas francês La Belle et la Bête, em inglês: Beauty and The Beast, mais conhecido por aqui pelo filme A bela e a fera. Escolhido a dedo, o título do projeto é uma metáfora perfeita. A beleza da mulher e os medos de um pavor indefinido, mas real. Quem sabe, ao final da história, as mulheres chorem sobre a bicicleta morta e ela se transforma num veículo encantado??

PS.: Este post é uma homenagem à Maria Cristina, no dia dos Namorados. Já pedalamos muito juntos e vamos continuar ainda por muito tempo. Mas ela não usa a bicicleta para o trabalho. Antes, porque não tinha uma bicicleta decente – até ganhar uma Dahon Briza de presente. Depois, até a síndica proibir o transporte de bicicleta nos elevadores do prédio. Como o prédio não tem bicicletário que preste, e como a Cristina não quer se submeter a descer e subir 3 andares carregando bicicleta no ombro, simplesmente abandonou a idéia de pedalar para o trabalho (a única vez que foi, tomou um banho de chuva…). Agora só pedala comigo, porque eu desço a bicicleta – pela escada ou pelo elevador ;-)

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Livro livre, bicicletando

Livro pedalando uma bicicleta

achei no saite clipart. com.

:-)

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CategoriasSem categoria

Árvores e bicicleta

09/06/2010 1 comentário

Meu novo divertimento é sair de bicicleta pela cidade descobrindo árvores.

Paineira e seus frutos, em junho

Desde muito cedo sou fascinado por árvores. O que mais me espanta nelas é a vida inteira e intensa na imobilidade. A vida imóvel – ao contrário na nossa ânsia de andar, ir e vir.
Lembro agora que talvez o primeiro poema que escrevi na adolescência foi para duas árvores da fazenda do meu avô. Dois pés de eucalipto, que me lembraram as duas colunas do templo de Khalil Gibran ( O profeta, pág. 14, edição ACIGI, 1981).

Jorge, um amigo do trabalho, me ensinou a identificar algumas espécies. Pau-ferro, pau-de-balsa, cedro, mogno.
O mogno é uma árvore linda! “Na 209 sul tem algumas”, ele disse. Como a ignorância é uma coisa triste… passei por estes mognos anos a fio sem saber. Depois que conheci a árvore, já descobri outros, na 313 Sul, na 104 Sul, na tesoura da 110 norte. :-)

Fruto do pau-rei

Agora estou à procura da sapucaia que tem no eixão norte. Vou saber identificá-la?? De bicicleta posso ir bem perto, tocar as folhas, notar o detalhe dos troncos. De bicicleta a vida vai devagar como árvores crescendo.

OBS.: Livros são feitos de papel que é feito de celulose que é feito pelas árvores. Semana passada, ganhei de presente de aniversário o livro Árvores brasileiras. Agora, quando ando de bicicleta é um perigo de cair ou trombar, pois fico a olhar troncos e folhas e copas. Descobri-me morando em outra cidade!!…

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Categoriasárvores, ecologia

Livros que mordem

Ufa! retornei às profundezas.

Quase um mês sem aparecer. Sou mais leitor que escrevedor. Estou relendo o livro sobre Lampião, para colocar meus comentários aqui. Uma tese sobre os pedestres em Brasília. Alguns artigos para traduzir. Terminei de ler a saga Deltora Quest. Agora leio Um passe de mágica, da Agatha Christie.
Kafka disse certa vez:

Em última análise, parece-me que deviamos ler apenas livros que nos mordam e firam. Se o livro que estamos a ler não nos desperta violentamente como uma pancada na cabeça para que nós havemos de nos dar o trabalho de o ler? Um livro tem que ser como a picareta para o mar gelado dentro de nós. É isto que penso.

Nem sempre, Sr. Kafka! Também há os livros que nos dão asas.

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