Roubaram minha bicicleta

Ontem era pra ser um dia como outros, de outono. Sai de casa para o trabalho, de bicicleta. No caminho, parei para ver as barrigudas floridas em rosa.
Chegando, deixei a bicicleta no bicicletário. Meio da manhã.
Na hora do almoço uso ônibus para ir e vir – deixava a bicicleta, minha mula prateada, descansando na sombra.
As horas passam. Quando fui voltar para casa, já escuro noite adentro, cadê?

A primeira sensação que veio foi a dúvida: será que vim de bicicleta hoje? Mas só dúvida que reforça o espanto. A dificuldade do cérebro de lidar com o inesperado.
Pois, pior, o local tem vigilância, e policiamento ostensivo na área próxima. Como roubaram??
Estacionei ali por longos 10 anos. Houve dias até que deixei a bicicleta sem tranca, por ter esquecido…

Não tive ódio, nem raiva.
Para pombo que rouba pão, a gente fala xô. Para os ratos é que existem os esgotos.

A minha bicicleta foi companheira por muitos bons e maus momentos. Machuquei o dedão, quebrou o canote do selim, carreguei frutos da sapucaia na cestinha e livros para doação no bagageiro.

Ela, como as outras cinco que tenho, carrega uma energia positiva que de pouco ou nada adiantará para uma pessoa nefasta.

Não era uma espada mágica ou um cálice, que preserva seus poderes místicos enquanto apenas objeto.
A nossa relação com o mundo quase sempre é intermediada por coisas. Coisas feitas, produzidas, construídas, que o ser humano usa para se distinguir dos animais e se afastar da Natureza [tenho dúvida que seja o melhor caminho, como espécie animal que depende do seu meio ambiente, mas foi a este ponto que nos levou a cultura ocidental judaico-cristã].

Cultura é isto, símbolo. Como espécie, precisamos desta intermediação de objetos, de algo que nos ajude a estar no mundo, entendê-lo e vivê-lo.

[daí o perigo latente de objetos que não apenas são intermediários, mas o sendo, ao mesmo tempo criam uma realidade não-real, como a TV e o computador; vivemos, em Matrix, a hipérbole do símbolo, em vez de viver o real, acreditamos na sua reprodução virtual]

Então, a minha bicicleta não é só aquele objeto de aço, sem motor, com duas rodas, pedal, cestinha, bagageiro. É tudo isto e mais o que está dentro de mim. E não é só o que está dentro de mim, pois seria apenas desejo ou sonho. É o objeto e eu. Bicicleta são significados mentais e dedos sujos de graxa.

Na Grécia antiga, quando dois amigos se separavam, partiam um prato ou uma moeda. Quando se reencontravam, no futuro, cada um tinha que apresentar sua metade, como identificador do pacto feito no passado. Assim era refeito o elo entre o que estava unido e foi separado.
Acredito que nunca mais verei minha bicicleta. Mas metade dela estará sempre comigo.

[.]

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14 comentários sobre “Roubaram minha bicicleta

  1. Lindo texto. Se tivesse um poder maior iria atras de sua Nike para devolvê-la a você. Passou-me a sensação de um adeus inesperado.

  2. :( …então sobre o que falávamos no domingo? Acho que era deste tipo de “gente” só que em outros contextos…mas ter algo tirado de forma tão repentina provoca algo estranho dentro da gente. É isso…

  3. Putz! Que notcia ruim, Denir! E como no de se espantar, voc consegue colocar poesia at neste tipo de acontecimento. Apesar da dor de cabea, faa o BO. E uma dvida, foi no bicicletrio do BC?

  4. Já tive duas bicicletas roubadas em Salvador, muito por vacilo meu, mas isso não é consolo. Roubaram a sua no bicicletário do estacionamento externo, mesmo trancada? Acho que você poderia/deveria acionar o Banco de alguma maneira. Se fosse um automóvel roubado ali dentro, seria um escândalo.

  5. Pense por outro lado, alguém que não tinha bike agora pedala, pois ao contrário do carro, quem geralmente rouba bike não vai desmontar ela pra vender peças :)

  6. 1. Caro Denir, gostei da ideia de carregar a mochila no guidom. Vou testar.
    2. Quanto ao roubo, é sempre lamentável e penso que você deve seguir todos os trâmites: fazer ocorrência policial, cobrar responsabilidade do estacionamento, conversar com as pessoas e tentar, por observação e divulgação, localizar a bike. Deve seguir todo o ritual: você poderá se surpreender com os resultados, seja encontrando a bike ou influenciando as condições de segurança do local.
    3. Por outro lado, quanto a energia da bike, diferente de você, tenho certeza que poderá beneficiar alguém. Mesmo produto de roubo poderá terminar com uma pessoa, que nada tem a ver com o ato, nem conhecimento mesmo. Sei até que a pessoa que hoje está nefasta, que cometeu essa agressão e invasão contra você, nem sempre foi assim e, tomara, ainda possa escolher diferente do que tem feito. Poderá por outro lado evoluir do furto para o roubo e até tirar a vida de alguém: essa ocorrência e essa possibilidade exemplificam e promovem a sensação de invasão da nossa privacidade e insegurança que esse tipo de evento nos mostra. É mesmo lamentável!
    4. Outra questão, não acho que você fica com metade da experiência que teve com sua bike. A experiência que vocês tiveram juntos está 100% com você e você sabe disso.

  7. Amigo bi-rodado Denir:

    Sinto sua perda, como sentiria se minha fosse.
    Já conversamos tanto sobre bibcicletas, mesmo eu não tendo uma agora (a última emprestei para meu cunhado, que ainda não se lembrou do empréstimo…).
    Já conversamos sobre os problemas que assolam os bicicletistas (neologismo? acho que não!), entre os quais o mau-caráter dos mãos-leves e a falta de bicicletários seguros.
    Precisamos, sim, de mais segurança. Garagens para bicicletas, com segurança, são fundamentais neste país que não valoriza a honestidade. Deveria ser obrigação do empregador garantir isso.
    Se a sua fosse uma Ferrari, explicar-se-ia o sucesso (= sucedido) pela gana aética dos burgueses… Mas não, era um “pé-de-boi”, não necessariamente barato, mas forte, rústico e apreciado.
    Sempre desenvolvi certa intimidade entre minhas bicicletas e meu (frágil) eu, pelo que sei o que significou o fato para você.
    Sua resignação não deve ser confundida com conformismo, pois você, como poucos, luta pela segurança do uso dos veículos biaxiais de propulsão animal (vulgo, bicicletas).
    A luta continua!

    Grande abraço,
    Celso

    PS. Não dá para colocar localizadores em bicicletas, não?
    PS 2. Quem não tem bicicleta anda a pé ou economiza para comprar a sua, se for de boa índole; se não o for, sai e rouba, e por isso é LADRÃO, acostumado a entrar e sair pela janela, como nos ensinou o pregador-mor da Sé de Salvador, o bom padre Antônio Vieira.

    Celso do Lago Paiva
    Curvelo MG

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