O começo das obras da ciclovia da UnB levanta uma dúvida: o que o GDF vai fazer? por onde vão passar as ciclovias no Plano Piloto? Ninguém sabe a resposta. O Programa PEDALA-DF foi extinto e o que sobrou foi só um resquício de informação, nesta página do DER-DF.
Nenhuma informação foi trazida a público, não houve discussão com a comunidade. Nada foi atualizado, tudo vem acontecendo nos gabinetes – espero que com câmera de vídeo!
Mas encontrei alguns mapas das ciclovias propostas para o Plano Piloto! Estão muito bem escondidinhos, encontrei-os por acaso.

Ciclovia 201 Sul
Quando pesquisava sobre o concurso das passagens subterrâneas, deparei-me com esta página do IABDF que lista as bases regulamentares para o concurso que houve.
Entre os documentos anexos ao Termo de Referência, encontra-se o Anexo 10 – Plano de Ciclovias denominado “Pedala Brasília”. O linque leva a um arquivo compactado .rar com 10 PDFs.
Não é o mapa completo das ciclovias. São alguns poucos trechos: 105 e 205 norte, 109 e 209 norte; 115 e 215 sul, 113 e 213 sul, além da 201 Sul (a comercial ao lado do Banco Central) e a 102 sul (rua das farmácias indo para o Hospital de Base). Vê-se claramente que a intenção não foi divulgar o programa de ciclovias, mas apenas oferecer insumos técnicos para o concurso, pois são trechos de ciclovia que se interligam por passagens subterrâneas.
Baixei o arquivo .rar, descompactei-o e coloquei os PDFs aqui. São plantas baixas, com desenho técnico e muitas outras informações.
Se você quer ver apenas o traçado das ciclovias, gerei as imagens abaixo, mais leves e em .jpeg. Clique nelas para vê-las em tamanho grande.

Ciclovia 102 Sul

Ciclovia Hospital de Base

Ciclovia 113 Sul

Ciclovia 213 Sul

Ciclovia 115 Sul

Ciclovia 215 Sul

Ciclovia 105 Norte

Ciclovia 205 Norte

Ciclovia 109 Norte

Ciclovia 209 Norte
Como o projeto das ciclovias no DF está guardado em gavetas, nunca foi discutido a público, vou partir apenas de deduções – e de algumas informações recebidas de ouvido.
Primeiro, se o concurso das passagens usou estes mapas, eles estão sendo considerados válidos pelo GDF. Ou seja, mesmo que extinto, as bases do PEDALA-DF ainda vigoram.
O projeto das ciclovias do PEDALA-DF é do Governo Roriz. O mapeamento foi feito por uma escritório de arquitetura de fora de Brasília, que vê nas ciclovias a única solução para as bicicletas. É sabidamente contra ciclofaixas, calçadas compartilhadas e zonas 30. O projeto passou pelo Governo Arruda, escondido – em gabinetes, sem câmeras! O atual governo descobriu as ciclovias como forma de impulsionar sua fraca política de trânsito (metrô lotado e em greves sucessivas, volta das vans, liberação de ônibus-sucata, permissividade, etc). Tirou o projeto rorizista da gaveta. Não discutiu, nem perguntou se era bom. Por força de pressão do Ministério Público, criou um GT intragovernamental, que se tornou, porém, um espaço de pensamento único – sabe-se que não se aceita desacordo ou pedido de revisão dos projetos.
Como é um produto de gabinete, feito por pessoas que não andam de bicicleta – nem a pé, em calçadas… – , vê-se de pronto que o projeto é cheio de falhas grosseiras. Nestas plantas, que mostram apenas 6 setores reduzidos da cidade, pode-se indicar vários erros.
Por exemplo, na ciclovia que passa pela 102 Sul, segue paralela ao eixinho W e depois pelo Hospital de Base, colocaram a ciclovia em cima da calçada no pior ponto possível.
Este é o detalhe da planta baixa. Preste atenção no trecho onde está o traço vermelho 45|46

e esta é uma foto do local:

É uma “esquina” complicadíssima. Além de ser inclinada, com um poste de concreto no meio, por esta calçada passam centenas de pedestres e mais: cadeirantes, pessoas adoentadas, com dificuldade de locomoção, amparadas por parentes. Não se pode colocar uma ciclovia ali, jamais! A solução? tomar o espaço dos carros que ficam estacionados na via ao lado.
(vai entender… o GDF é contra calçadas compartilhadas, mas adota a ideia nos piores lugares possíveis!)
Outro vacilo: vão passar a ciclovia ao lado dos quiosques da 201 sul. Este trecho já está saturado. Além de quiosques, há uma bela área verde e, mais do que isto, há diariamente um intenso tráfego de pedestres, sobretudo na hora do almoço, dos milhares de funcionários da Caixa e servidores do Banco Central. Não é boa ideia colocar ciclovia ali.
Planta:

Foto do local:

Outra coisa: para quem segue nas asas o trajeto longitudinal (norte-sul) e pretende cruzar as quadras comerciais, vão forçar os ciclistas a usarem os semáforos.
(É o que está proposto nesta planta-baixa da 201 Sul e também na rua das farmácias. Além de ser uma das maiores concentrações de pedestres, na 201 Sul tem um “puxadinho” no meio do caminho, no meio do caminho tem um “puxadinho”…)
Semáforos seriam opção civilizada, se funcionassem para pedestres/ciclistas. Contudo, muitos estão com a botoeira quebrada. E todos deixam um tempo mínimo de travessia: em geral, os semáforos dão 30 segundos para os pedestres e 3 minutos para os carros.
(parando em cada semáforo, por 3 minutos, o ciclista que sai do final da Asa Sul para a região central vai somar 21 minutos a mais no seu tempo de deslocamento. É praticamente dobrar o tempo gasto. Que ciclista vai usar isto??)
Antes de responder por onde vão passar as ciclovias do Plano Piloto, é preciso repensar: elas são mesmo necessárias?
Em muitos lugares, não, ciclovias não são necessárias. Outras alternativas viáveis são ciclofaixas, zonas 30 e calçadas compatilhadas, onde seja baixo o fluxo de pedestres e de ciclistas.
É preciso ciclovias? Sim, em lugares específicos e com base em fatores objetivos. De preferência, sempre tomando o espaço dos automóveis e, assim, invertendo a lógica urbana criada pelo governo nazista alemão, na década de 30, que adotou ciclovias para expansão do tráfego motorizado.
Ciclovias derrubando área verde? Nunca, jamais! A “mobilidade sustentável” da bicicleta não quer isto. Só este crime ambiental pede alguma medida que embargue o “Pedala-DF” e obrigue o GDF a discutir as ciclovias. Encontrar erros crassos em tão poucos mapas é outro forte motivo. O que mais pode haver?? Ninguém sabe. Por enquanto, não tem nada de democrático, nem nada de popular, nem nada de participativo.
Se estancar a sanha do obrismo e do proselitismo, quem sabe damos um tempo para o GDF sentar e fazer planejamento cicloviário, e não apenas obras (superfaturadas?).
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