Arquivos

Arquivo para a categoria ‘ciência’

carros que não matam

Semana passada, ao falar de bicicletas com sensores de aproximação, disse que motoristas serão “tecnologia” extinta no futuro.

Pois não é que nesta semana a BBC publicou uma matéria sobre carros do futuro, em que parte dos estudos vai nesta mesma direção??

Para alguns, a solução para esses problemas seria na verdade deixar que os computadores assumam a direção completamente. Veículos inteiramente inteligentes podem “ver” e se comunicar com outros veículos e com o ambiente.
“Por que não?”, questiona Oliver Carsten, professor de segurança no transporte da Universidade de Leeds e um dos defensores da ideia de direção totalmente automatizada como objetivo final.

Leia a reportagem na íntegra, aqui.

Já vi robôs andando de bicicleta, mas felizmente nada pode subsituir a minha força e o meu controle quando eu pedalo a bicicleta. Ufa.

[.]

Cidade-carrossel

16/08/2011 2 comentários

Uma cidade imaginária, onde não é preciso haver sistema de transporte, uma vez que os bairros ou setores movem-se sozinhos. Feita para andar a pé.

Sem carro, sem trem, sem metrô.

Nos comentários do Youtube, muitas críticas para o consumo de energia que seria necessário. Mas há alternativas. A energia pode vir do sol e o sistema de rolamento pode ser supercondutividade. Ou a rotação pode vir da própria gravidade, com sistemas de contrapesos. Ou derivada da rotação do planeta – a mesma que faz a água escorrer pelo ralo da pia em forma de redemoinho. :-)

No blog Digital Urban, alguém sugeriu o contrário: bairros fixos e anéis rotativos entre eles.

A favor ou contra, a ideia espanta ao prever a robotização das cidades. Uma cidade futurística é comumente vista como uma cidade comum invadida por tecnologia, habitada por robôs ou andróides. A ficção científica fica restrita ao indivíduo.

Mas que tal este outro futuro onde a tecnologia controla não apenas as pessoas, mas também o lugar onde viveremos? Que tal uma cidade inteira robótica?

É provável que a ideia seja adotada antes em colônias espaciais. E nelas, será possível andar de bicicleta, como previu Asimov e a NASA.

[.]

conhecimento, prazer, sabedoria

30/05/2011 1 comentário

Embora não tenha tempo suficiente para ler todos os bons livros do mundo, encontrei um método para misturar o prazer de ler uma boa história e o conhecimento das razões do mundo: leio livros de ficção e não-ficção alternadamente. Antes de ler O cavaleiro inexistente, tinha lido Uma breve história do tempo, do Stephen Hawking, que estava na minha lista há mais de 10 anos.

Stephen Hawking é um mestre na divulgação científica – Carl Sagan está na lista para eu poder comparar. É incrível como ele consegue soltar uma frase de humor entre eletróns e grávitons e funções de onda!!
Mas a edição brasileira de Uma breve história do tempo, pela Editora Rocco, pareceu-me fraca.

Deve ser um trabalho muito difícil traduzir um livro de física quântica. Mesmo levando isto em conta, porém, a tradução deixa muito a desejar. Alguns trechos são ininteligíveis pela linguagem, e não pela teoria. Encontra-se até erro de uso da vírgula. Também o acabamento editorial é ruim, há trechos truncados e repetidos. Confira nas duas imagens, clique nelas pra ampliar:

trecho na página 44

trecho na página 127

A obra saiu renovada sob o título Uma nova história do tempo, pela Ediouro. Parece que houve maior cuidado editorial, e fiquei curioso para saber se a tradução foi melhorada (tem um Google preview no saite da Livraria Cultura). Certamente eu compraria esta edição, para tirar a má impressão da outra. Mas o próximo não-ficção na fila é o livro O Universo numa casca de noz, também do Stephen Hawking.

A produção gráfica de O Universo numa casca de noz, pela Editora Arx, é incomparavelmente superior à edição de Uma breve história do tempo, pela Editora Rocco. Apenas folheando o livro dá para notar, há dezenas de ilustrações, todas coloridas; o leiaute é caprichado, parecer mais um livro de arte do que um livro de física quântica (e não é a mesma coisa??). O Universo numa casca… foi lançado mais de 15 anos depois de Uma breve história… Na contracapa está apresentado como “uma continuação ilustrada que desvenda os mistérios das maiores descobertas que ocorreram desde o lançamento de seu aclamado primeiro livro”.

Stephen Hawking é o cientista mais brilhante desde Einstein. Não sei de qual dos dois sou mais fã. Quem mais poderia dar ao seu livro o título de um verso de Shakespeare? Onde termina a ciência, onde começa a arte? O prazer e o conhecimento? Este é um dos melhores títulos de livro que já vi (e o subtítulo deste blog deixa bem claro isto).

 

Mudanças de paradigma

E aqui, sentimos que nos aproximamos de uma revolução considerável (tão considerável que talvez não aconteça) relativa ao grande paradigma da ciência ocidental (e de modo correlato, da metafísica, que ora é seu negativo, ora o seu complemento). Repitamos, as falhas, as fissuras se multiplicam neste paradigma, mas ele sempre se mantém.

O que afeta um paradigma, isto é, a pedra angular de todo um sistema de pensamento, afeta ao mesmo tempo a ontologia, a metodologia, a epistemologia, a lógica, e por consequencia a prática, a sociedade, a política. A ontologia do Ocidente estava baseada em entidades fechadas, como substância, identidade, causalidade (linear), sujeito, objeto. Estas entidades não se comunicavam entre elas, as oposições provocavam a repulsão ou a anulação de um conceito pelo outro (como sujeito/objeto); a “realidade” podia, pois, ser circunscrita pelas idéias claras e distintas.

Neste sentido, a metodologia científica era reducionista e quantitativa. Reducionista, já que era preciso chegar às unidades elementares não decomponíveis, as quais só podiam ser circunscritas clara e distintamente, quantitativista já que estas unidades descontínuas podiam servir de base a todas as computações. A lógica do Ocidente era uma lógica homeostática, destinada a manter o equilíbrio do discurso pela expulsão da contradição e do erro; ela controlava ou guiava todos os desenvolvimentos do pensamento, mas ela própria se colocava, com toda evidencia, como impossibilitada de desenvolvimento. A epistemologia, de repente, desempenhava sempre o papel verificador do aduaneiro, ou proibidor do policial.

(…)

Ora, este paradigma do Ocidente, afinal um filho fecundo da esquizofrênica dicotomia cartesiana e do puritanismo clerical, comanda também o duplo aspecto da praxis ocidental, de um lado antropocêntrica, etnocêntrica, egocêntrica quando se trata do sujeito (porque baseada na auto-adoração do sujeito: homem, nação ou etnia, indivíduo), de outro lado e correlativamente manipuladora, frieza “objetiva” quando se trata do objeto. Não deixa de ter relação com a identificação da racionalização com a eficácia, da eficácia com os resultados contabilizáveis; ele é inseparável de toda uma tendência classificacional reificadora, etc., tendência corrigida, às vezes com vigor, às vezes suavemente, por contratendências aparentemente “irracionais”, “sentimentais”, românticas, poéticas.

Efetivamente, a parte ao mesmo tempo grávida e pesada, etérea e onírica da realidade humana (e talvez da realidade do mundo) foi assumida pelo irracional, parte maldita, parte bendita onde a poesia cantava e decantava suas essências, que, filtradas e destiladas um dia poderiam e deveriam chamar-se ciência.

Entrevê-se, pois, de fato a radicalidade e a amplitude da reforma paradigmática. Trata-se, num certo sentido, do que há de mais simples, de mais elementar, de mais “infantil”; de mudar as bases de lançamento de um raciocínio, as relações associativas e repulsivas entre alguns conceitos iniciais, mas dos quais dependem toda a estrutura do raciocínio, todos os desenvolvimentos discursivos possíveis. E é, bem entendido, o mais difícil. Porque não há nada mais fácil do que explicar uma coisa difícil a partir de premissas simples admitidas ao mesmo tempo pelo locutor e o ouvinte, nada mais simples do que perseguir um raciocínio sutil por vias comportando as mesmas engrenagens e os mesmos sistemas de sinais. Mas nada mais difícil do que modificar o conceito angular, a idéia maciça e elementar que sustem todo o edifício intelectual.

Porque é evidentemente toda a estrutura do sistema de pensamento que se encontra abalada, transformada, e toda uma enorme superestrutura de idéias que desaba. Eis para o que é preciso se preparar.

livro

Do livro: Introdução ao Pensamento Complexo / Edgar Morin. Ed. Sulina, 2007. pp. 54-56.

Descartes está morto

Muito interessante este livro que estou lendo. Da Editora Sulina, comprei-o na Livraria Cultura.

Usa linguagem simples, não-hermética, para explicar as noções básicas do pensamento complexo.  Teoria sistêmica, auto-organização, relação entre sujeito e objeto, os impactos que a microfísfica e a macrofísica causaram em nossa percepção do mundo.

Mas não é um livro superficial. Aborda as questões de tal jeito que abre as janelas da curiosidade para saber mais. Cita outros livros que dá vontade de ler.

É um reagrupamento de textos dispersos de Edgar Morin. Um livro honesto naquilo que se propõe: ser uma introdução à complexidade.

A ciência das idéias claras e distintas já nos deu tudo o que podia dar. Também nos levou à beira do precipício da soberba humana. Nostradamus previu o fim do mundo e acertou: aquele mundinho onde a espécie humana dominava sobre céus e mares acabou. O todo está na parte que está no todo.

As simplificações nos tranquilizam

Para compreender o problema da complexidade é preciso saber primeiro que há um paradigma simplificador. A palavra paradigma é constituída por certo tipo de relação lógica extremamente forte entre noções mestras, noções-chaves, princípios-chaves. Esta relação e estes princípios vão comandar todos os propósitos que obedecem inconscientemente a seu império.

Assim, o paradigma simplificador é um paradigma que põe ordem no universo, expulsa dele a desordem. A ordem se reduz a uma lei, a um princípio. A simplicidade vê o uno, ou o múltiplo, mas não consegue ver que o uno pode ser ao mesmo tempo múltiplo. Ou o princípio da simplicidade separa o que está ligado (disjunção), ou unifica o que é diverso (redução).

(…)

Nessa vontade de simplificação, o conhecimento científico tinha por missão desvelar a simplicidade escondida por trás da aparente multiplicidade e da aparente desordem dos fenômenos. Talvez isso se desse porque, privados de um deus em quem não podiam crer, os cientistas tinham necessidade inconsciente de ser tranquilizados. Ainda que se reconhecendo viver num universo materialista, mortal, sem salvação, eles tinham necessidade de saber que havia alguma coisa de perfeito e de eterno: o próprio universo. Esta mitologia extremamente poderosa, obsessiva ainda que escondida, animou o movimento da física. É preciso reconhecer que esta mitologia foi fecunda porque a pesquisa da lei maior do universo conduziu as descobertas de leis importantes tais como a gravitação, o eletromagnetismo, as interações nucleares fortes depois fracas.

Hoje, ainda, os cientistas e os físicos tentam encontrar o elo entre estas diferentes leis que fariam delas uma lei única verdadeira.

livro

Do livro: Introdução ao Pensamento Complexo / Edgar Morin. Ed. Sulina, 2007. pp. 59-60.

[.]

A inteligência cega

Vivemos sob o império dos princípios de disjunção, de redução e de abstração cujo conjunto constitui o que chamo de o “paradigma de simplificação”. Descartes formulou este paradigma essencial do Ocidente, ao separar o sujeito pensante (ego cogitans) e a coisa entendida (res extensa), isto é, filosofia e ciência, e ao colocar como princípio de verdade as idéias “claras e distintas”, isto é, o próprio pensamento disjuntivo. Este paradigma, que controla a aventura do pensamento ocidental desde o século XVII, sem dúvida permitiu os maiores progressos ao conhecimento científico e a reflexão filosófica; suas consequencias nocivas últimas só começam a se revelar no século XX.

(…)

A única maneira de remediar esta disjunção foi uma outra simplificação: a redução do complexo ao simples (redução do biológico ao físico, do humano ao biológico). Uma hiperespecialização devia, além disso, despedaçar e fragmentar o tecido complexo das realidades, e fazer crer que o corte arbitrário operado no real era o próprio real. Ao mesmo tempo, o ideal do conhecimento científico clássico era descobrir, atrás da complexidade aparente dos fenômenos, uma Ordem perfeita legiferando uma máquina perpétua (o cosmos), ela própria feita de microelementos (os átomos) reunidos de diferentes modos em objetos e sistemas.

Tal conhecimento, necessariamente, baseava seu rigor e sua operacionalidade na medida e no cálculo; mas, cada vez mais, a matematização e a formalização desintegraram os seres e os entes para só considerar como únicas realidades as fórmulas e equações que governam as entidades quantificadas. Enfim, o pensamento simplificador é incapaz de conceber a conjunção do uno e do múltiplo (unitat multiplex). Ou ele unifica abstratamente ao anular a diversidade, ou, ao contrário, justapõe a diversidade sem conceber a unidade.

Assim, chega-se a inteligência cega. A inteligência cega destrói os conjuntos e as totalidades, isola todos os seus objetos do seu meio ambiente. Ela não pode conceber o elo inseparável entre o observador e a coisa observada. As realidades-chaves são desintegradas. Elas passam por entre as fendas que separam as disciplinas. As disciplinas das ciências humanas não têm mais necessidade da noção de homem. E os pedantes cegos concluem então que o homem não tem existência, a não ser ilusória. Enquanto que os mídias produzem a baixa cretinização, a Universidade produz a alta cretinização. A metodologia dominante produz um obscurantismo acrescido, já que não há mais associação entre os elementos disjuntos do saber, não há possibilidade de registrá-los e de refleti-los.

Aproximamo-nos de uma mutação inaudita no conhecimento: este é cada vez menos feito para ser refletido e discutido pelas mentes humanas, cada vez mais feito para ser registrado em memórias informacionais manipuladas por forças anônimas, em primeiro lugar os Estados. Ora, esta nova, maciça e prodigiosa ignorância é ela própria ignorada pelos estudiosos. Estes, que praticamente não dominam as consequencias de suas descobertas, sequer controlam intelectualmente o sentido e a natureza de sua pesquisa. Os problemas humanos são entregues, não só a este obscurantismo científico que produz especialistas ignaros, mas também a doutrinas obtusas que pretendem monopolizar a cientificidade (após o marxismo althusseriano, o econocratismo liberal), a ideias-chaves ainda mais pobres por sua pretensão de abrir todas as portas (o desejo, a mimese, a desordem, etc.), como se a verdade estivesse fechada num cofre-forte de que bastaria possuir a chave, e o ensaísmo não verificado partilha o terreno com o cientismo limitado.

Infelizmente, pela visão mutiladora e unidimensional, paga-se bem caro nos fenômenos humanos: a mutilação corta na carne, verte o sangue, expande o sofrimento. A incapacidade de conceber a complexidade da realidade antropossocial, em sua microdimensão (o ser individual) e em sua macrodimensão (o conjunto da humanidade planetária), conduz a infinitas tragédias e nos conduz à tragédia suprema. Dizem-nos que a política “deve” ser simplificadora e maniqueísta. Sim, claro, em sua concepção manipuladora que utiliza as pulsões cegas. Mas a estratégia política requer o conhecimento complexo, porque ela se constrói na ação com e contra o incerto, o acaso, o jogo múltiplo das interações e retroações.

livro

Do livro: Introdução ao Pensamento Complexo / Edgar Morin. Ed. Sulina, 2007. pp. 11 a 13.

A vagar pelo espaço

Sci-fi

Logo após Apolo 11 e o pouso na lua, parece mesmo que as colônias espaciais entraram na pauta do dia na NASA. Tais colônias tinham dois objetivos básicos: servir de escape a uma superpopulação humana, que já dava seus sinais na década de 1970; e criar uma primeira geração de viajantes espaciais acostumados a ambientes e gravidade artificiais. Dezenas de gerações depois, as “crianças da gravidade zero”, muito distante daqui em naves estelares, conheceriam a Terra apenas por lendas ou fotografias. :-|

De acordo com previsões, no ano 2150 0 número de habitantes nas colônias espaciais seria maior do que na Terra. Nosso planeta estaria preservado como atração turística, uma reserva ambiental e patrimônio histórico dos primórdios da raça humana (confira High Frontier).

De certa forma, as colônias espaciais seriam também  um back-up da humanidade. Caso alguma catástrofe destruisse a civilização humana na Terra, os viajantes espaciais voltariam e repovoariam o planeta. Ou continuariam viagem espaço além, garantido a existência da espécie.

Em 1975 éramos 4 bilhões de pessoas na Terra. Hoje somos em torno de 7 bilhões, e ainda mais consumistas. O sonho das colônias espaciais paradisíacas, igualitárias e otimistas parece estar mais distante. Pelo menos não se fala muito nisto…

Mas… por que não fazemos aqui na Terra, agora, o que se previu para as colônias?? Reciclagem, uso racional dos recursos materiais e do espaço, oportunidade de trabalho e lazer para toda a tripulação, união em torno de objetivos comuns para sobrevivência do grupo. Só por que a Terra não é um artefato humano? Um ambiente tecnológico nos torna melhores e a Natureza nos bestializa? Ou é apenas uma questão de escala? O tamanho do planeta Terra dá a cada um de nós, como pessoas, a sensação de infinitude, do ilimitado? Ou temos, como espécie, uma relação psicótica com a grande Mãe que nos dá vida e nutre? E deus – que “criou tudo em sete dias e viu que era bom” - seria um pai-ausente, responsável pelas nossas burrices? A tecnologia seria uma sublimação disto? Confesso que ainda não entendi porque prever um mundo perfeito em estações orbitais, e não aqui na Terra mesmo… :-(

imagem: Retrofuture

 

[.]

Bicicletas na conquista espacial

09/05/2010 2 comentários

O trecho transcrito a seguir foi retirado do ensaio Como colonizar os céus, escrito por Isaac Asimov em 1975, e compilado neste livro. As imagens foram feitas por Don Davis, para a Nasa. Também disponíveis no Space Studies Institute. Clique nelas para vê-las em tamanho grande.

da página: Space Colony Art from the 1970s

NASA Space Colony Art from the 1970s

Que é que faremos com nós todos quando agora, com os nossos simples 4 bilhões, achamos que o esforço para alimentar e dar energia à população está destruindo o planeta que nos alimenta e nos fornece energia? Teremos de reduzir a taxa de natalidade e baixar a quantidade da população, mas isto tomará tempo. Que faremos nesse ínterim?
Uma possível resposta é que faremos o que fizemos antes. Colocar-nos-emos a caminho, de novo, e mudaremos para novas terras. Uma vez que não há novas terras dignas de serem ocupadas na Terra, teremos de mudar-nos para novos mundos e colonizar os céus.
Não, não a Lua. O professor Gerard O’Neill, do Departamento de Física da Universidade de Princeton, sugere dois outros lugares, para começar – lugares tão distantes da Terra como a Lua, mas não ela.
O professor O’Neill (…) sugere a construção de colônias espaciais (…) que se tornariam partes permanentes do sistema Terra-Lua.
O aspecto é de longos cilindros concebidos para conter seres humanos, com um complexo sistema de sustentação da vida: facilidades para a produção de alimento, atmosferas de manutenção, reciclagem de dejetos e assim por diante.
Estes conceitos têm sido usados em ficção científica. O exemplo mais memorável é o de Robert A. Heinlein, com sua história intitulada “Universo”, e publicada em 1941; nessa história, uma grande nave, contendo milhares de pessoas, através de um indefinido número de gerações, está fazendo sua lenta viagem rumo às estrelas. Os homens a bordo esqueceram-se do propósito original, e consideram ser a nave o inteiro Universo (daí o título). Uma ramificação linear dessa história, transladada para a televisão, foi a recente e malfadada série “Starlost”.
Entretanto, na ficção científica, estes enormes navios, que tudo contem, são navios densamente espacejados, com cobertas, bem cercados de muralhas – o equivalente a cavernas de muitas camadas.
A visão de O’Neill é de outra espécie. Ele vê cilindros ocos, com seres humanos vivendo nas superfícies internas, superfícies que são concebidas e controladas como um mundo familiar, com todos os dispositivos e acompanhamentos da Terra.
O cilindro seria composto de longas tiras alternadas de material opaco e de material transparente, alumínio e plástico rígido. A luz do Sol, refletida por longos espelhos, entraria e iluminaria os cilindros, transformando num mundo de luz do dia aquilo que de outra maneira seria uma caverna. A entrada da luz seria controlada por um jogo de espelhos móveis, para permitir a alternação do dia e da noite.
A superfície interna das porções opacas do cilindro seria revestida de solo, e nesse solo poder-se-ia praticar a agricultura; talvez pudessem ser também criados pequenos animais. Estariam ali todos os trabalhos artificiais do homem: seus prédios e suas máquinas.
O que torna este conceito plausível e eleva esta visão acima da ficção científica é a maneira cuidadosa pela qual O Neill analisou as massas de material necessário, os detalhes de desenho, a espessura e a resistência dos materiais requeridos, o processo de elevação do conjunto e o custo de tudo isso. A conclusão é que o estabelecimento de semelhantes colônias espaciais é possível e atée prático, em termos da tecnologia dos dias de hoje.
(…)
Ao longo do tempo, será perigoso para o corpo humano o efeito gravitacional flutuante? Não temos modo de saber isso, por enquanto, mas, no mínimo a atração gravitacional se reduzirá com a altura, e isto poderá ter suas vantagens.
As pequenas distâncias nas colônias espaciais tornarão desnecessários poderosos sistemas de transporte. As bicicletas seriam o ideal para o chão; e, com a redução da gravidade, os planadores seriam perfeitos para o transporte aéreo (e para diversão).

Uma vila na colônia espacial

Village in Island One - disponível no saite Space Studies Institute, do Prof. Gerard O'neill

da página: Space Colony Art from the 1970s

NASA Space Colony Art from the 1970s


Bicycles inside space colonies
The excerpt above was taken from the essay Colonizing the Heavens, written by Isaac Asimov in 1975. I’ve read it on the Portuguese edition of  The Beginning and the End book. The images were made by Don Davis, for NASA. Click on them to see full size.

The last paragraph quoted: “Small distances in space colonies will make powerful transport systems unnecessary. The bicycles would be ideal for the floor, and with the reduction of gravity, the gliders would be perfect for air travel (and fun).” It’s a translation based on Portuguese version. I couldn’t find the original Colonizing the Heavens essay.

[.]

Asimov: automação e telemetria

09/04/2010 1 comentário

Trecho do artigo Tecnologia e energia, escrito por Isaac Asimov, em 1973, e publicado no livro O início e o fim. É de se notar a antevisão do celular, da internet, das teleconferências. Os parágrafos finais ainda são uma utopia.

Com os satélites de comunicação e os raios leiser funcionando a toda eficiência e com os computadores avançados organizando o conjunto, pode ser que o mundo possa começar a transmitir mensagens com uma eficiência tal que fará com que o rádio comum (sem falar no telégrafo) se pareça com um remanescente dos tempos do expresso em lombo de animal.

Dispondo de um número ilimitado de canais de vozes e de imagens, cada pessoa poderá ter o seu fone portátil e ligar para qualquer número à face da Terra. A palavra impressa poderá ser transmitida fácil e amplamente, de modo que os fac-similes de cartas poderão ser remetidos de ponto a ponto numa fração de segundo. Os fac-similes de jornais, revistas e livros poderão ficar prontamente disponíveis ao aperto de um botão. Talvez, a seu tempo, um simples computador mundial passe a conter, em seu interior a biblioteca do mundo, podendo cada parte dela estar a disposição de qualquer homem, a qualquer tempo.

(…) Quanto a isto, a própria imagem de um indivíduo poderia ser transferida, em vez do próprio individuo. As conferências poderiam ser proferidas,  muito embora os que as compõem estejam separados por distâncias globais. Os assistentes poderiam cada qual estar sentados em suas casas, encontrando-se estas espalhadas pelos seis continentes e três dúzias de nações, e, não obstante, com todas as suas imagens reunidas.

Ninguém precisaria encontrar-se em qualquer lugar em particular para controlar seus negócios. Os homens de negócios não precisariam reunir-se em escritórios, nem os operários em fábricas. Com a automação, a telemetragem e os monitores por televisão, todo o trabalho poderia ser feito em casa, se assim fosse resolvido.

Por certo, as massas ainda precisariam ser transportadas aos lugares onde elas representam alimento, matérias-primas, produtos acabados; mas muita massa não precisaria ser transportada para simples informação do que ela conteria, e assim a poupança seria enorme.

As pessoas continuariam viajando, mas apenas por prazer, e não por necessidade de negócios, e o prazer seria ainda maior, visto que os meios de transporte não ficariam apinhados pelos que tivessem de viajar por motivos outros que não o prazer.

As próprias cidades se espalhariam e desapareceriam. Não seria necessária uma reunião para a facilidade de comunicação, nem por motivo de negócio. Não haveria sequer necessidade de se reunir por motivos culturais, visto que todos os livros, peças teatrais, concertos e tudo o mais estariam igualmente disponíveis em toda parte. Todo lugar, a face da Terra, seria “o lugar próprio”.

E isto desde que…
1. a população se estabilizasse em nível razoável; e que
2. o povo aprendesse a evitar desperdício e destruição inútil dos recursos, assim que a tecnologia fosse desenvolvendo continuamente novas fontes.

Então tornar-se-ia possível, aos seres humanos, ter efetivamente uma forma de vida simples, com espaço, privaticidade e dignidade, ao longo de um tempo vindouro indefinido – tudo por meio, como deve ser, do avanço da tecnologia e do sábio uso de energia da maneira mais econômica.

Nada disso poderá jamais ser proporcionado por nenhum suicida desconhecimento da tecnologia, nem pela rebelião contra ela. Com a tecnologia derrotada, ou abortada, só poderá haver catástrofe rápida e permanente desagregação daquilo que sobreviver do espírito humano.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 35 other followers