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Arquivo para a categoria ‘citações’

Combatendo a ruína das cidades

Porque é tão grande a ambição dos grandes que, se não sofrer oposição por várias vias e de vários modos numa cidade, logo a levará à ruína.

(Maquiavel, Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, citado na Revista Filosofia, nº 33, pág. 32)

Um povo cheio de virtù [virtude cívica], não se deixa governar por tiranos; um povo corrompido, por sua vez, não consegue reconhecer os benefícios de uma cidade livre.
(…)
Só a virtù do povo, ou seja, só a participação de todos na vida política da cidade, tendo em vista o bem comum e a preservação da liberdade de todos, é que pode manter a cidade a salvo de sua apropriação por interesses privados. A corrupção, entendida como a falta de capacidade de se dedicar energia ao bem comum, priorizando interesses privados em detrimento de interesses da coletividade, tem sua origem, segundo Maquiavel, na desigualdade existente na cidade.
(…)
Bem ou mal resolvida, a virtude cívica é, certamente, um dos componentes que compõem a noção de liberdade

Ester Gammardella Rizzi, Maquiavel, a virtù e a garantia da liberdade, Revista Filosofia)

 

O prazer de dirigir

- É só um passo – disse Montag – entre não ir trabalhar hoje, não ir amanhã ou não ir nunca mais trabalhar no posto dos bombeiros.
- Mas você vai trabalhar hoje à noite, não vai? – disse Mildred.
- Ainda não decidi. Neste momento estou com uma vontade terrível de quebrar tudo, de matar.
- Vá pegar o carro.
- Não, obrigado.
- As chaves estão na mesinha-de-cabeceira. Sempre gosto de dirigir em alta velocidade quando me sinto assim. Você chega aos cento e noventa e se sente ótima. Às vezes eu dirijo a noite toda, volto, e você nem percebe. É divertido lá no campo. A gente acerta coelhos e, às vezes, acerta cachorros. Vá pegar o carro.
- Não, eu não quero. Não desta vez. Quero ficar com esta coisa esquisita.

Ray Bradbury, Fahrenheit 451. Ed. Globo, 2009. pág. 97

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Mundo mágico dos livros

Um livro é um mundo mágico cheio de pequenos símbolos que podem ressuscitar os mortos e dar vida eterna aos vivos. É incrível, fantástico e “mágico” que as vinte e seis letras do alfabeto possam ser combinadas de tantas maneiras, que elas possam encher com livros estantes gigantescas, levando-nos para um mundo que nunca tem fim e nunca cessará de crescer e se expandir, enquanto na Terra existirem humanos.
(…)
De repente senti muita fome. Não de comida, mas de todas as palavras escondidas naquelas estantes. Mas eu sabia que, por mais que eu lesse durante toda a minha vida, nunca conseguiria ler um milésimo de todas as frases que já foram escritas. Sim, pois há tantas frases no mundo quanto há estrelas no céu. E elas se multiplicam e se expandem continuamente, como o espaço infinito.
Mas ao mesmo tempo eu sabia que, a cada vez que eu abrisse um livro, eu veria um pedacinho desse céu. Sempre que lesse uma frase, saberia um pouco mais do que antes. E tudo o que leio faz o mundo ficar maior, ficando maior eu também. Por um momento, eu contemplei o fantástico, o mágico mundo dos livros.

Jostein Gaarder e Klaus Hagerup, A biblioteca mágica de Bibbi Bokken, pág. 148

“The Bookworm” (1850), de Carl Spitzweg

Um único livro bastaria

Passeio pelas estantes da biblioteca. Os livros me dão as costas. Não para me rejeitar, como as pessoas: são convidativos, querendo apresentar-se a mim. Metros e mais metros de livros que nunca poderei ler. E sei: o que aqui se oferece é a vida, são complementos à minha própria vida que esperam ser postos em uso. Mas os dias passam rápido e deixam para trás as possibilidades. Um único desses livros talvez bastasse para mudar completamente a minha vida. Quem sou eu agora? Quem eu seria então?

Jostein Gaarder e Klaus Hagerup, A biblioteca mágica de Bibbi Bokken, pág. 146

Trinity Library, Cambridge UK.

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o poder (e o perigo) de se sentir superior

04/08/2011 1 comentário

Sobre o prefeito que esmaga carros com tanques.

Transcrevo trecho de um artigo que acabo de ler: 

(…) a partir do momento em que formaram seu bloco, sentiram-se fortes e superiores. A palavra é essa mesma – superiores. E esse é o primeiro passo para retirar das cabeças qualquer ideia de culpa. Se sou superior, posso esmagar, ferir, matar. É natural. Como é natural que esmague uma formiga. O sentir-se diferente e superior não explica somente o comportamento de grupos em regimes totalitários, mas também desde a violência das torcidas organizadas até os massacres com pretextos religiosos. Não são, uns e outros, os “escolhidos”?

[Flávio Paranhos, Diferentes iguais ou iguais diferentes?, Revista Filosofia, nº 58, págs. 32-34.]

 O tal prefeito faria muito melhor para a cidade (e menos para o ego dele) se, em vez de valorizar a violência como método e demonstração de poder, vendesse toda a frota de carros oficiais da cidade, inclusive o dele próprio, que certamente usa todo dia.

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Mulheres e seus caprichos

- Reconheça, cara senhorita – disse sorrindo o doutor – reconheça que as damas frequentemente se comprazem com as coisas mais estranhas e perseveram sem descanso e sem maiores considerações em caprichos surgidos ao sabor do momento, não atentando para as consequências dolorosas de sua intervenção em assuntos alheios!…

extraído do diálogo entre o Doutor Prosper Alpanus e a senhorita von Rosenschön, no livro O pequeno Zacarias chamado Cinábrio, de E.T.A. Hoffmann, pela Ed. Hedra, 2009. pág. 112.

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Categoriascitações, livros

Bicicleta como redenção – parte 2

24/07/2011 3 comentários
De oohp | Flickr

Como objeto fabricado, feito por mãos humanas, a bicicleta é fruto da revolução industrial, que possibilitou catracas, correntes e pneus infláveis.

Mas sendo um artefato humano, feito para atender uma determinada finalidade ou uso, a bicicleta torna-se um objeto cultural, uma vez que se insere cotidianamente na teia de significados dos outros objetos e ações humanas.

A bicicleta tem significados e possibilidades diferentes em cada cultura.

Caminhos e sentidos que variam de país a país, de cidade a cidade. De pessoa a pessoa. Depende do que se quer e se faz da bicicleta como objeto e ferramenta. As macro e microsignificâncias.

Tirando a língua portuguesa, o Brasil tem 3 outros eixos semióticos ao redor dos quais gravita sua cultura:

- o fato de ter sido colônia
- a escravidão
- o catolicismo como religião hegemônica e imposta

Deles derivam 3 traços marcantes da cultura brasileira:

- a existência de um Estado antes que houvesse povo ou nação (Estado como sistema de leis e coerção)
- a aversão por qualquer atividade que exija esforço físico
- a crença na redenção e na salvação pela graça de deus, e a conduta moral de escusas que deriva disto

A bicicleta acomoda-se a tais arcabouços culturais brasileiros.

Primeiramente, para usar a bicicleta, as pessoas costumam condicionar que, antecipadamente, o Estado tenha dado condições ideias para pedalar. O clamor por ciclovias antepõe o Estado à cidadania. “Só pedalo se a prefeitura me der condições de fazer isto”. E mais do que óbvio dizer que a ânsia por leis e estatutos e planos de política cicloviária também é uma herança colonial que se repete dia após dia, à exaustão. Luta-se mais por leis (em geral pobres tecnicamente, mal elaboradas e desgarradas da realidade, mas muito aplaudidas e louvadas) do que se participa ou contribui na instalação de bicicletários em escolas ou supermercados.

Segundamente, a bicicleta exige esforço físico, o que, embora traga benefícios à saúde a longo prazo, é visto como atividade inferior, degradante. Há uma dicotomia: a bicicleta é boa para a saúde da pessoa, mas apenas quando usada como lazer/esporte. Como meio de transporte de cidadãos produtivos economicamente, a saúde é colocada em plano inferior, ofuscada pela aversão ao esforço físico que remete à falta de dignidade . Bicicleta é coisa de atleta ou de peão. Que mais pode assustar um ciclista iniciante do que chegar suado em algum lugar e ser confundido com um trabalhador braçal? Suor, esforço físico, isto é coisa de escravos. Ou de pobres, submetidos a semelhante sistema de exploração. Certíssimo o presidente da Caloi quando diz:

“O negócio de bicicleta no Brasil sempre foi um negócio de pobre”, afirma Musa, destacando que o maior volume de bicicletas ainda está nas pequenas cidades. “Quando a pessoa sai da zona rural e vai para a cidade, ela não leva a bicicleta. Passa a usar transporte coletivo e quando ganha um dinheirinho compra moto, carro. Bicicleta [para essa pessoa] é sinônimo de pobreza”.

Por terceiro, o católico vive uma vida desgarrada do mundo. Tem aversão a tudo que é mundano, ao que verdadeiramente dá a condição de existência do homem. O mundo é fonte de pecado. A vida digna de ser vivida é num lugar imaginário futuro não-corpóreo. E não é preciso fazer nada para merecer esta vida “verdadeira”. A salvação é uma ação misericordiosa e gratuita de Deus. Basta acreditar nisto. Os pecados ao longo da vida? São perdoados por meio de indulgências  ou ao se arrepender deles no leito de morte. Obtendo perdão dos pecados – não importa qual efeito tais pecados tenham causado nos outros ou no mundo, já que este é desprezível – alcança-se a salvação. Assim, a conduta moral é algo externo ao ser humano, e que dele pouco depende, não nasce de suas convicções, sentimentos ou elaborações mentais. Não é fruto da sua vontade e decisão.

Neste horizonte, a bicicleta passou a ser vista como redentora, como salvadora das nossas cidades escavacadas, maltratadas, das cidades fragmentadas. A salvação obtida pelo sofrimento e sacrifício de enfrentar escárnios e injustiças. Contudo, cidades fragmentadas são mais um sintoma da sociedade pós-moderna consumista. Cidades fragmentadas não são uma deterioração do espaço urbano decorrente do vício pelo automóvel: ele é, de fato, sintoma e não causa destas cidades.

Talvez deste povo seja o destino – e o deleite – de permanecer lacaios de entidades sobrehumanas. Tira de si a responsabilidade sobre si mesmo. Liberta da autodisciplina e da contenção ética. A aparência, a crença ou simplesmente a “intenção de” fazer ou mudar já é suficiente.

O país não precisa esforçar-se para fazer algo em seu próprio benefício, basta que não faça nada contra si mesmo. São, por conseguinte, os próprios povos que se deixam, ou melhor, que se fazem maltratar, pois seriam livres se parassem de servir. É o próprio povo que se escraviza e se suicida quando, podendo escolher entre ser submisso ou ser livre, renuncia à liberdade e aceita o jugo; quando consente com seu sofrimento, ou melhor, o procura.

Discurso da servidão voluntária, Étienne de La Boétie. Ed. Martin Claret, 2009. pág. 34

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A bicicleta como redenção – parte 1

Nas leituras de férias, encontrei nas páginas amarelas da revista Veja, edição de 13 de julho, uma entrevista com o filósofo Luiz Felipe Pondé.

Entre argumentos de política e religião, o filósofo ataca o esnobismo hipócrita de uma parcela da intelectualidade. No corpo da entrevista, dois trechos citam a bicicleta. Reproduzo:

A espiritualidade da esquerda é rasa. Aloca toda a responsabilidade do mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Isso infantiliza o ser humano. Ninguém sai de um jantar inteligente para se olhar no espelho e ver um demônio. Não: todos se veem como heróis que estão salvando o mundo por andar de bicicleta.
[...]
Todos falam de como seus filhos são diferentes dos outros porque frequentam uma escola que cobra 2.000 reais por mês mas é de esquerda e estuda a sério o inviável modelo econômico cubano. Ou dizem que a filha já tem consciência ambiental e trabalha em uma ONG que ajuda as crianças da África. Também se fala sempre de algum filme chatíssimo de que todos fingem ter gostado para mostrar como têm repertório. Mais timidamente, há certa preocupação com a saúde e o corpo. Reciclar lixo e, mais recentemente, andar de bicicleta também são temas valorizados.
[...]
Há muito corporativismo e a tendência geral de excluir, por manobra institucional, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da história, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel cabe hoje às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígenes, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora.
[...]
Ao lado de sua vocação repressora institucional, o cristianismo reconhece que o homem é fraco, é frágil. As redenções políticas não têm isso. Esse é um aspecto do pensamento de esquerda que eu acho brega. Essa visão do homem sem responsabilidade moral. O mal está sempre na classe social, na relação econômica, na opressão do poder.
[...]
Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo, que assume o papel de redentor. O grupo, como a história do século XX nos mostrou, é sempre opressivo.

Tirando a falha de não equiparar a hipocrisia da esquerda com a hipocrisia do cristianismo, e a igual tendência deste de colocar o mal fora do homem – o homem cristão é “frágil” por autocomplacência – é interessante derivar a opinião de que a bicicleta tornou-se um instrumento de redenção para alguns segmentos sociais.

No próximo poste.

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Bicicletas no Pólo Sul

28/06/2011 4 comentários

Read this in English

Havia apenas um único lugar no mundo onde eu pensei que era impossível andar de bicicleta: no Pólo Sul.

Mas, ao chegar na página 81 do livro A incrível viagem de Shackleton, encontrei este trecho que se refere a Thomas Orde-Lees, o almoxarife:

Certo dia, durante a parte mais escura do inverno, quando o Endurance ainda estava bloqueado pelo gelo, encontrou uma bicicleta no porão do navio e saiu para dar um passeio pelas banquisas congeladas.

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Lansing, Alfred. A incrível viagem de Shackleton : a saga do Endurance. Tradução Sérgio Flaksman. 2ª ed. Rio : José Olympio, 1989. (coleção Ventos e Aventuras, 2).

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Uma bicicleta na Antártida? Em 1915?

Fiquei ao mesmo tempo espantado e curioso e fui pesquisar. Na verdade, a bicicleta não “foi encontrada no porão”. Orde-Lees era apaixonado por atividades físicas e conseguiu permissão de Sir Ernest Shackleton para levar uma bicicleta naquela que seria uma das mais fantásticas aventuras humanas. A bicicleta foi deliberadamente colocada no navio Endurance e levada para o Pólo Sul. E aquele não foi o único passseio. Nos meses que passaram presos no gelo, era hábito de Orde-Lees andar de bicicleta, até que um dia ele foi longe demais e se perdeu. Seus companheiros tiveram que procurá-lo e, deste dia em diante, foi proibido por Shackleton de andar de bicicleta na imensidão branca.

Quando o navio foi destruído pelo gelo e naufragou, levando junto com ele quase todos os pertences pessoais dos tripulantes, Orde-Lees escreveu no seu diário, em 30 de outubro:

my greatest sentimental loss was my dear old bicycle which I have had for 16 years, the best Rudge-Whitworth that ever lived…

minha maior perda sentimental foi minha velha e querida bicicleta que tive por 16 anos, a melhor Rudge-Whitworth que já exisitiu….

fonte: livro Shackleton’s Photographer

Não encontrei foto da bicicleta de Orde-Lees, mas no Museu Virtual da Bicicleta há toda uma seção para as “melhores bicicletas britânicas”, como anuncia este catálogo de 1906:

Pela internet, tive outra surpresa: Thomas Orde-Lees não foi o primeiro a pedalar no Pólo Sul! Havia uma bicicleta na expedição Terra Nova, comandada pelo Capitão Robert Falcon Scott, em 1910. Entre os tripulantes estava o geólogo Thomas Griffith Taylor, ”um ciclista apaixonado” como é descrito em alguns textos. Antes de entrar para a expedição, ele estudou em Cambridge, onde a bicicleta é um meio de transporte muito popular entre os estudantes. Isto explica sua paixão.

A bicicleta foi doada para a expedição por uma firma neozelandesa. Além dela, alguns veículos levados pelo capitão Scott eram carretilhas feitas com 4 rodas de bicicleta. Nesta foto é possível ver um par de rodas:

E este trenó fantástico, com rodas de bicicleta??

Uma roda de bicicleta também era usada num mecanismo para medir a distância percorrida

A bicicleta que Thomas Griffith Taylor pedalava no Pólo Sul resiste até nossos dias. Passou um tempo à mostra na parede da cabana da expedição do Capitão Scott, cabana que está mantida e preservada em mínimos detalhes.

Esta foto, encontrada aqui, é de 2002.

A bicicleta agora está sendo cuidada dentro do Antarctic Heritage Trust (AHT), conforme mostra esta foto:

blog Stories that are true

O blog não diz, mas a informação de que é a mesma bicicleta que estava na cabana me foi confirmada, por email, pelo pessoal do AHT.

Thomas Orde-Lees e Thomas Griffith Taylor não tinham em comum apenas o primeiro nome. Eram homens que realmente estavam à frente de seu tempo. No relato de viagem The Ice Cave Tour, escrito em 2001, após verem pendurada na parede da cabana aquela que foi a primeira bicicleta na Antártida, espantam-se e comentam: “quase 100 anos depois nós vemos pessoas pedalando mountainbikes pelos caminhos da Estação McMurdo”.

Hoje,  como afirma este artigo da ESPN, existem bicicletas comunitárias na Ilha de Ross, mostradas na foto acima.

E ainda chegam pessoas até mim e perguntam: como você faz pra pedalar quando está chovendo? e quando está calor? Pode-se ver que, quando há desejo e vontade e uma certeza de que bicicletas trazem mais vantagens do que empecilhos, clima não é obstáculo.

Os obstáculos são internos, ou internalizados.
Ao ser medida do meu corpo e de minhas potencialidades e força de vontade, muitas vezes a bicicleta coloca-me em frente a mim mesmo, como um espelho. Estamos prontos o suficiente para vermos o quanto fracos, preguiçosos ou autocomplacentes somos?

Na pior parte da viagem, quando o futuro era incerto e os acontecimentos tinham levado todos àquela situação angustiante e sombria, Orde-Lees escreveu:

No one… knows what it means to me to have a bicycle and a place to ride it, however rough and heavy the going.

Ninguém… sabe o que significa para mim ter uma bicicleta e um lugar para pedalar, por mais que sejam duros e ásperos os dias

T. H. Orde-Lees (diário pessoal, registro em 11 de março de 1915)
citação encontrada aqui

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Leia mais:

The Voyages of Captain Scott, de Charles Turley – livro online no Projeto Gutenberg
- Antarctic Conservation Blog - National History Museum

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Bicycles at The South Pole

There was only one place in the world where I thought it was impossible to ride a bicycle: the South Pole

But when I read the Alfred Lansing’s book Endurance: Shackleton’s Incredible Voyage, I found this passage that refers to Thomas Orde-Lees, the storekeeper:

“One day, during the darkest part of winter, when the Endurance was still blocked by ice, he found a bike in the basement of the ship and went out for a ride through the frozen ice floes.”

In fact, the bicycle was not “found in the basement.” Orde-Lees was passionate about physical activity and got permission from Sir Ernest Shackleton to take a bicycle, which was deliberately boarded on the Endurance. And that was not the only ride. In the months spent trapped in the ice, Orde-Lees ride his bicycle as a routine, until one day he went too far and got lost. His companions had to look it up and after that Shackelton forbad him to ride the bicycle.

When the ship was destroyed by ice and sank, Orde-Lees wrote in his diary on October 30:

“my greatest sentimental loss was my dear old bicycle which I have had for 16 years, the best Rudge-Whitworth that ever lived… “
source: book Shackleton’s Photographer

See Rudge-Withworth model at The Online Bicycle Museum.

Reading a bit more, I had another surprise: Thomas Orde-Lees was not the first man to ride a bicycle at the South Pole! There was a bike in the Terra Nova expedition, commanded by Captain Robert Falcon Scott in 1910. Among the crew was the geologist Thomas Griffith Taylor, “a passionate cyclist” as described somewhere. Before joining the Scott’s expedition he studied in Cambridge where bicycle is a very popular form of transport.

The bicycle was donated to the expedition by a Neo Zealand firm. Besides that, some carts taken by Captain Scott were made with four bicycle wheels. In photos above you can see two wheels of one of those carts, an awesome sled with bicycle wheels and a bicycle wheel as a mechanism to measure the distance walked.

Thomas Griffith Taylor’s bicycle was hanged on Scott’s Hut wall. But now the bicycle is inside Antarctic Heritage Trust (AHT) lab.

Thomas Orde-Lees and Thomas Griffith Taylor had in common not only the first name. They were in fact men ahead of their time. Almost 100 years later people ride bicycles at McMurdo Station. Today there are public bicycles in Antarctica.

And in spite of it all, people come up to me and pose: how do you go cycling when it’s raining? and when it is hot? One can see that when there is desire and will and we know that bicycles bring more advantages than drawbacks, weather is no obstacle.

Obstacles are inner or internalized. Self-imposed barriers.
Being a measure of my body, my capabilities and strength of will, the bicycle puts me in front of myself as a mirror. Are we ready enough to see how weak we are, or lazy or self-complacent?

In the worst part of the journey, when the future was uncertain and the events had taken all together to that distressing and gloomy situation, Orde-Lees wrote:

“No one… knows what it means to me to have a bicycle and a place to ride it, however rough and heavy the going” (quote found here)

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Pais e filhos

22/05/2011 2 comentários

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De tudo o mais que eu possa errar, dois hábitos bons quero deixar como exemplo para meus filhos: ler livros e andar de bicicleta.

Ler é uma metáfora da vida. Livros são dias. Dentro do universo infindável de possibilidades, cada livro molda o mundo que nós vemos e transforma e afeta a leitura do próximo livro. E, ao contrário de outras mídias que empurram goela abaixo uma realidade dada, ler é uma realidade construída, fruto de escolhas pessoais  (exceto os livros de leitura obrigatória na escola, é claro… ;-) )  .

Lá pela metade do vídeo acima – que nesta altura você já deve ter visto todo  – tem um pai ensinando um filho a andar de bicicleta e isto me fez lembrar uma outra questão.  Por que vemos poucos adultos andando de bicicleta? Porque assim foram ensinados desde crianças. Alguns conceitos errados sobre a bicicleta tem sido passados ano após ano, geração após geração, de pai para filha, de mãe para filho.

Crianças são ensinadas a terem medo das ruas. Em nome de um “amor” – que em boa parte é possessão e medo da perda – as crianças estão sempre ouvindo: cuidado, você pode sofrer um acidente sério ou morrer. Com tanta carga negativa, como é que vão aprender a andar de bicicleta, ou gostar de fazer isto?

Se quero que meu filho aprenda a nadar com eficiência, inclusive com habilidade suficiente para poder se safar de uma situação de risco, não o levo para a natação dizendo: cuidado, você pode se afogar a qualquer momento. Quero, justamente, o contrário disto!!

Nadar e andar de bicicleta nas ruas são situações diferentes, é claro, porque nas ruas sempre há a presença sartriana do outro. Mas seriam mesmo todos os motoristas loucos psicopatas sádicos assassinos?? O perigo do trânsito é real ou midiático?? Projetar nos outros os temores imaginários é outra face da cultura do medo, utilização político-ideológica da insegurança que vem não da violência em si, mas da nossa fragmentação social e da alienação. Ser alien é ser estrangeiro, estar só por não ver no outro um igual.  E tudo isto se aprende no dia-a-dia.

Não são ciclovias que trarão segurança, assim como não são cercas elétricas que vão solucionar os problemas do crime urbano. Quanto mais bicicletas nas ruas, mais seguro o trânsito fica. Ao contrário do que os órgão de trânsito acreditam e ensinam, trânsito não é fluxo, é convivência.

É preciso aprender a andar de bicicleta, gostar de fazer isto, inclusive para aprender boas técnicas defensivas.

Entretanto, já somos a segunda ou terceira geração viciada em carros. Nossos avós acreditaram ingenuamente na modernidade do automóvel e muitos ainda continuam acreditando nisto até hoje.  As crianças aprendem com os pais que o carro é o único meio de transporte seguro e eficiente. Um vício que passa de pai para filhos.

Um mau hábito arcaico que pode ser abandonado.

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De pouco adiantam boas ideias sem homens que possam colocá-las em prática. Se você quer mudar o mundo,  seja um exemplo para seu filho. Ele está te observando.

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