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Arquivo para a categoria ‘complexidade’

Depende de nós

Nós, seres vivos, somos sistemas determinados em nossa estrutura. Isso quer dizer que somos sistemas tais que, quando algo externo incide sobre nós, o que acontece conosco depende de nós, de nossa estrutura nesse momento, e não de algo externo.

Humberto Maturana. Emoções e linguagem na educação e na política. BH : UFMG, 1998.

Citado aqui.

 

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Mudanças de paradigma

E aqui, sentimos que nos aproximamos de uma revolução considerável (tão considerável que talvez não aconteça) relativa ao grande paradigma da ciência ocidental (e de modo correlato, da metafísica, que ora é seu negativo, ora o seu complemento). Repitamos, as falhas, as fissuras se multiplicam neste paradigma, mas ele sempre se mantém.

O que afeta um paradigma, isto é, a pedra angular de todo um sistema de pensamento, afeta ao mesmo tempo a ontologia, a metodologia, a epistemologia, a lógica, e por consequencia a prática, a sociedade, a política. A ontologia do Ocidente estava baseada em entidades fechadas, como substância, identidade, causalidade (linear), sujeito, objeto. Estas entidades não se comunicavam entre elas, as oposições provocavam a repulsão ou a anulação de um conceito pelo outro (como sujeito/objeto); a “realidade” podia, pois, ser circunscrita pelas idéias claras e distintas.

Neste sentido, a metodologia científica era reducionista e quantitativa. Reducionista, já que era preciso chegar às unidades elementares não decomponíveis, as quais só podiam ser circunscritas clara e distintamente, quantitativista já que estas unidades descontínuas podiam servir de base a todas as computações. A lógica do Ocidente era uma lógica homeostática, destinada a manter o equilíbrio do discurso pela expulsão da contradição e do erro; ela controlava ou guiava todos os desenvolvimentos do pensamento, mas ela própria se colocava, com toda evidencia, como impossibilitada de desenvolvimento. A epistemologia, de repente, desempenhava sempre o papel verificador do aduaneiro, ou proibidor do policial.

(…)

Ora, este paradigma do Ocidente, afinal um filho fecundo da esquizofrênica dicotomia cartesiana e do puritanismo clerical, comanda também o duplo aspecto da praxis ocidental, de um lado antropocêntrica, etnocêntrica, egocêntrica quando se trata do sujeito (porque baseada na auto-adoração do sujeito: homem, nação ou etnia, indivíduo), de outro lado e correlativamente manipuladora, frieza “objetiva” quando se trata do objeto. Não deixa de ter relação com a identificação da racionalização com a eficácia, da eficácia com os resultados contabilizáveis; ele é inseparável de toda uma tendência classificacional reificadora, etc., tendência corrigida, às vezes com vigor, às vezes suavemente, por contratendências aparentemente “irracionais”, “sentimentais”, românticas, poéticas.

Efetivamente, a parte ao mesmo tempo grávida e pesada, etérea e onírica da realidade humana (e talvez da realidade do mundo) foi assumida pelo irracional, parte maldita, parte bendita onde a poesia cantava e decantava suas essências, que, filtradas e destiladas um dia poderiam e deveriam chamar-se ciência.

Entrevê-se, pois, de fato a radicalidade e a amplitude da reforma paradigmática. Trata-se, num certo sentido, do que há de mais simples, de mais elementar, de mais “infantil”; de mudar as bases de lançamento de um raciocínio, as relações associativas e repulsivas entre alguns conceitos iniciais, mas dos quais dependem toda a estrutura do raciocínio, todos os desenvolvimentos discursivos possíveis. E é, bem entendido, o mais difícil. Porque não há nada mais fácil do que explicar uma coisa difícil a partir de premissas simples admitidas ao mesmo tempo pelo locutor e o ouvinte, nada mais simples do que perseguir um raciocínio sutil por vias comportando as mesmas engrenagens e os mesmos sistemas de sinais. Mas nada mais difícil do que modificar o conceito angular, a idéia maciça e elementar que sustem todo o edifício intelectual.

Porque é evidentemente toda a estrutura do sistema de pensamento que se encontra abalada, transformada, e toda uma enorme superestrutura de idéias que desaba. Eis para o que é preciso se preparar.

livro

Do livro: Introdução ao Pensamento Complexo / Edgar Morin. Ed. Sulina, 2007. pp. 54-56.

Em vez de fuzil, bicicleta

UOL Notícias - Fotos do Dia - 19/6/2010

O artigo abaixo fala de mudanças de paradigma. Assunto de um ou dois tomos atrás.
A bicicleta? Uma revolução está em andamento. Não se trata de luta pelo poder, política partidária, derrubada de sistemas políticos. Nem depende de programas de Governo ou políticas de Estado. Não é uma inversão da ordem, pois inverter é manter as estruturas, apenas mudando suas hierarquias. É uma transposição.
A bicicleta compara-se ao telescópio de Galileu. A revolução não se restringe ao instrumento. Há muito mais do que isto. Entretanto, uma vez que o transporte é parte fundamental da vida das pessoas e cidades, a bicicleta tem se tornado signo semiótico, e corporifica este novo lugar do sujeito no mundo, esta nova lógica, nova mundivisão.  Alguns papas ainda vão acender fogueiras. Milícias nos castelos vão defender o velho mundo. Haverá éditos reais em pergaminhos velhos. Deixe-os em sua sofreguidão da perda.
Bicicleta é weltanschauung.

As bicicletas e as políticas citadinas

Mais um ano de “quase” democracia. A farsa da política representativa já é tão sentida quanto os sorrisos de marketing da maioria dos candidatos ao pleito. A disputa pelo consenso leva a destruição de todo pensamento original. A ânsia pela aprovação conduz os candidatos a criar todo tipo de parafernália artificial e mentirosa que almeja a ludibriação explícita. A repetição dos jargões leva a ausência de toda reflexão crítica, mesmo quando a prática pareça exigir ao menos um grito de reprovação.

Nos últimos anos, no entanto, o imaginário urbano vem sendo tomado de assalto por ideias realmente revolucionárias. Há quem pense que as calçadas possam virar pomares, os terrenos baldios transformarem-se em hortas e o campo “invadir” a cidade; outros que afirmam, sem nenhuma ingenuidade, que cada comunidade pode e deve ser responsável pela gestão de seus próprios resíduos. Declaram ainda que o bairro da Caximba deve se tornar uma área de recuperação ambiental permanente.

Existe também uma série de “perturbadores” que desejam libertar o limitado espaço urbano da exagerada e degradante concentração de automóveis. Dizem, estes idealistas, que a cidade deve voltar a ser um espaço de convivialidade, que a dimensão humana das coisas deve ser resgatada.

Tais movimentos são pontuais, mas reclamam uma crítica generalizada. Buscam, na verdade, formas de atuação diretas. Desejam um ambiente de respeito genuíno ao ciclista. A bicicleta é considerada, por eles, um poderoso símbolo, capaz de transformar a imagem que temos de nós mesmos e da cidade como um todo. Optar pela bicicleta é, em nossa realidade atual, ir contra a corrente. Resistir às pressões das empresas automobilísticas, das empreiteiras, da especulação imobiliária e a todo um sistema que, como apontou Illich, pretende fazer do homem um consumidor passivo de mercadorias por toda a vida.

Há na escolha pela bicicleta, certamente, caminhos perigosos. Há o risco de redescobrir a vida mais autêntica. A brincadeira das crianças. O tempo livre do relógio. O prazer da autopropulsão. Há também o elogio da cidade invisível – aquela que somente quem anda e pedala conhece, pois está atento aos detalhes da microvida urbana. A bicicleta favorece o acesso à cidade e é dever do poder público levar isso em consideração.

Neste mês de setembro, que hoje se inicia, Curitiba é mais uma vez palco de ações de diversos desses grupos que visam mobilizar as consciências em uma transformação política efetiva. Atividades que provocam uma nova atenção, um novo olhar sobre a cidade. É o mês da bicicleta.

O fim do inverno anuncia uma realidade florida, permeada de sonhos e vislumbres de uma cidade onde o pé do pedestre seja a referência de saúde e vitalidade. Onde os ciclistas não precisem confrontar a ignorância e a rispidez da multidão motorizada.

Setembro é o mês da bicicleta. Que assim seja por muitas primaveras!

——

Por: Goura Nataraj, filósofo, membro do Coletivo Interlux, professor de sânscrito.
Publicado em 1/9/2010, no jornal Gazeta do Povo

Descartes está morto

Muito interessante este livro que estou lendo. Da Editora Sulina, comprei-o na Livraria Cultura.

Usa linguagem simples, não-hermética, para explicar as noções básicas do pensamento complexo.  Teoria sistêmica, auto-organização, relação entre sujeito e objeto, os impactos que a microfísfica e a macrofísica causaram em nossa percepção do mundo.

Mas não é um livro superficial. Aborda as questões de tal jeito que abre as janelas da curiosidade para saber mais. Cita outros livros que dá vontade de ler.

É um reagrupamento de textos dispersos de Edgar Morin. Um livro honesto naquilo que se propõe: ser uma introdução à complexidade.

A ciência das idéias claras e distintas já nos deu tudo o que podia dar. Também nos levou à beira do precipício da soberba humana. Nostradamus previu o fim do mundo e acertou: aquele mundinho onde a espécie humana dominava sobre céus e mares acabou. O todo está na parte que está no todo.

As simplificações nos tranquilizam

Para compreender o problema da complexidade é preciso saber primeiro que há um paradigma simplificador. A palavra paradigma é constituída por certo tipo de relação lógica extremamente forte entre noções mestras, noções-chaves, princípios-chaves. Esta relação e estes princípios vão comandar todos os propósitos que obedecem inconscientemente a seu império.

Assim, o paradigma simplificador é um paradigma que põe ordem no universo, expulsa dele a desordem. A ordem se reduz a uma lei, a um princípio. A simplicidade vê o uno, ou o múltiplo, mas não consegue ver que o uno pode ser ao mesmo tempo múltiplo. Ou o princípio da simplicidade separa o que está ligado (disjunção), ou unifica o que é diverso (redução).

(…)

Nessa vontade de simplificação, o conhecimento científico tinha por missão desvelar a simplicidade escondida por trás da aparente multiplicidade e da aparente desordem dos fenômenos. Talvez isso se desse porque, privados de um deus em quem não podiam crer, os cientistas tinham necessidade inconsciente de ser tranquilizados. Ainda que se reconhecendo viver num universo materialista, mortal, sem salvação, eles tinham necessidade de saber que havia alguma coisa de perfeito e de eterno: o próprio universo. Esta mitologia extremamente poderosa, obsessiva ainda que escondida, animou o movimento da física. É preciso reconhecer que esta mitologia foi fecunda porque a pesquisa da lei maior do universo conduziu as descobertas de leis importantes tais como a gravitação, o eletromagnetismo, as interações nucleares fortes depois fracas.

Hoje, ainda, os cientistas e os físicos tentam encontrar o elo entre estas diferentes leis que fariam delas uma lei única verdadeira.

livro

Do livro: Introdução ao Pensamento Complexo / Edgar Morin. Ed. Sulina, 2007. pp. 59-60.

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A inteligência cega

Vivemos sob o império dos princípios de disjunção, de redução e de abstração cujo conjunto constitui o que chamo de o “paradigma de simplificação”. Descartes formulou este paradigma essencial do Ocidente, ao separar o sujeito pensante (ego cogitans) e a coisa entendida (res extensa), isto é, filosofia e ciência, e ao colocar como princípio de verdade as idéias “claras e distintas”, isto é, o próprio pensamento disjuntivo. Este paradigma, que controla a aventura do pensamento ocidental desde o século XVII, sem dúvida permitiu os maiores progressos ao conhecimento científico e a reflexão filosófica; suas consequencias nocivas últimas só começam a se revelar no século XX.

(…)

A única maneira de remediar esta disjunção foi uma outra simplificação: a redução do complexo ao simples (redução do biológico ao físico, do humano ao biológico). Uma hiperespecialização devia, além disso, despedaçar e fragmentar o tecido complexo das realidades, e fazer crer que o corte arbitrário operado no real era o próprio real. Ao mesmo tempo, o ideal do conhecimento científico clássico era descobrir, atrás da complexidade aparente dos fenômenos, uma Ordem perfeita legiferando uma máquina perpétua (o cosmos), ela própria feita de microelementos (os átomos) reunidos de diferentes modos em objetos e sistemas.

Tal conhecimento, necessariamente, baseava seu rigor e sua operacionalidade na medida e no cálculo; mas, cada vez mais, a matematização e a formalização desintegraram os seres e os entes para só considerar como únicas realidades as fórmulas e equações que governam as entidades quantificadas. Enfim, o pensamento simplificador é incapaz de conceber a conjunção do uno e do múltiplo (unitat multiplex). Ou ele unifica abstratamente ao anular a diversidade, ou, ao contrário, justapõe a diversidade sem conceber a unidade.

Assim, chega-se a inteligência cega. A inteligência cega destrói os conjuntos e as totalidades, isola todos os seus objetos do seu meio ambiente. Ela não pode conceber o elo inseparável entre o observador e a coisa observada. As realidades-chaves são desintegradas. Elas passam por entre as fendas que separam as disciplinas. As disciplinas das ciências humanas não têm mais necessidade da noção de homem. E os pedantes cegos concluem então que o homem não tem existência, a não ser ilusória. Enquanto que os mídias produzem a baixa cretinização, a Universidade produz a alta cretinização. A metodologia dominante produz um obscurantismo acrescido, já que não há mais associação entre os elementos disjuntos do saber, não há possibilidade de registrá-los e de refleti-los.

Aproximamo-nos de uma mutação inaudita no conhecimento: este é cada vez menos feito para ser refletido e discutido pelas mentes humanas, cada vez mais feito para ser registrado em memórias informacionais manipuladas por forças anônimas, em primeiro lugar os Estados. Ora, esta nova, maciça e prodigiosa ignorância é ela própria ignorada pelos estudiosos. Estes, que praticamente não dominam as consequencias de suas descobertas, sequer controlam intelectualmente o sentido e a natureza de sua pesquisa. Os problemas humanos são entregues, não só a este obscurantismo científico que produz especialistas ignaros, mas também a doutrinas obtusas que pretendem monopolizar a cientificidade (após o marxismo althusseriano, o econocratismo liberal), a ideias-chaves ainda mais pobres por sua pretensão de abrir todas as portas (o desejo, a mimese, a desordem, etc.), como se a verdade estivesse fechada num cofre-forte de que bastaria possuir a chave, e o ensaísmo não verificado partilha o terreno com o cientismo limitado.

Infelizmente, pela visão mutiladora e unidimensional, paga-se bem caro nos fenômenos humanos: a mutilação corta na carne, verte o sangue, expande o sofrimento. A incapacidade de conceber a complexidade da realidade antropossocial, em sua microdimensão (o ser individual) e em sua macrodimensão (o conjunto da humanidade planetária), conduz a infinitas tragédias e nos conduz à tragédia suprema. Dizem-nos que a política “deve” ser simplificadora e maniqueísta. Sim, claro, em sua concepção manipuladora que utiliza as pulsões cegas. Mas a estratégia política requer o conhecimento complexo, porque ela se constrói na ação com e contra o incerto, o acaso, o jogo múltiplo das interações e retroações.

livro

Do livro: Introdução ao Pensamento Complexo / Edgar Morin. Ed. Sulina, 2007. pp. 11 a 13.

Esponja de Menger

Sistemas simples comportam-se de maneiras simples.
O comportamento complexo subentende causas complexas.
Sistemas diferentes comportam-se de maneira diferente.

Hoje, tudo isso mudou. Nos 20 anos decorridos desde então, os físicos, matemáticos, biólogos e astrônomos criaram uma serie de idéias alternativas. Sistemas simples dão origem a comportamento complexo. Sistemas complexos dão origem a comportamento simples. E, o que é mais importante, as leis da complexidade têm validade universal, sem levar em conta os detalhes dos átomos constituintes do sistema.

Um número cada vez maior de cientistas compreendeu que o caos oferecia uma nova maneira de tratar dados antigos, esquecidos nas gavetas porque eram demasiado irregulares. Um número cada vez maior compreendia que a compartimentalização da ciência era um obstáculo ao seu trabalho. Um número cada vez maior sentiu a inutilidade de estudar as partes isoladas do todo. Para eles, o caso foi o fim do programa reducionista na ciência.

James Gleick. Caos, pág. 291-292

Leis e conceitos da ciência geralmente são usados como metáforas para comportamentos humanos. Estes seriam mensuráveis, entrópicos  e, sobretudo, ordenados ou passíveis de ordenação. Esta tendência tornou-se quase dogmas com o avanço e os resultados do método científico cartesiano. Políticas, sociologias e psicologias fundamentam-se neste raciocínio linear. Mas em nosso mundo floresce a complexidade. Parte da ciência já reconhece isto. Quando chegará no senso comum?

A esponja de Menger é um forma geométrica de aparência sólida, que tem superfície infinita e, apesar disto, volume zero. Como pode o infinito caber no finito, ou no vazio? Então, é este o significado da vida eterna: ela cabe num segundo.

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Hipocampos em escala

A idéia de auto-semelhança faz soar acordes antigos em nossa cultura. Uma velha tendência do pensamento ocidental honra essa idéia. Leibniz imaginou que uma gota d’água contivesse todo um pulsante universo, encerrando por sua vez, gotas d’água e novos universos dentro delas. “Ver o mundo num grão de areia”, escreveu Blake, e com freqüência os cientistas mostravam-se predispostos a vê-lo. Quando o espermatozóide foi descoberto, julgou-se que cada um deles seria um homúnculo, um ser humano, minúsculo, mas plenamente formado.

Mas a auto-semelhança desapareceu como princípio científico, por uma boa razão: não se harmonizava com os fatos. Os espermatozóides não só não eram apenas seres humanos em pequena escala, como eram muito mais interessantes do que isso – e o processo de desenvolvimento ontogenético é muito mais interessante do que a simples ampliação. O sentido inicial da auto-semelhança como princípio de organização vinha das limitações da experiência humana com as escalas. De que outra maneira imaginar o muito grande e o muito pequeno, o muito rápido e o muito lento, senão como extensões do que era conhecido?

O mito morreu quando a visão humana foi ampliada pelos telescópios e microscópios. As primeiras descobertas trouxeram a compreensão de que cada mudança de escala provocava novos fenômenos e novos tipos de comportamento. Para o moderno físico de partículas, o processo não termina. Todo acelerador novo, com seu aumento de energia e vel ocidade, amplia o campo de visão da ciência a partículas cada vez menores e escalas de tempo cada vez mais limitadas, e toda extensão parece trazer novas informações.

A primeira vista, a idéia da coerência das novas escalas parece trazer menos informações. Em parte, isso ocorre em virtude de uma tendência paralela na ciência, a do reducionismo. Os cientistas desmontam as coisas e olham uma parte de cada vez. Se querem examinar a interação de partículas subatômicas, colocam duas ou três juntas. Isso já é uma complicação suficiente. O poder da auto-semelhança, porém, começa em níveis de complexidade muito maiores. É uma questão de examinar o todo.

Retirado de: GLEICK, James. Caos: a criação de uma nova ciência, Ed. Campus, pág. 109.

Fractal: estética, religião e ecologia

A moda da arquitetura e da pintura geométricas veio e passou. Os arquitetos já não se preocupam em construir arranha-céus em forma de blocos, como o Edifício Seagram em Nova York, outrora muito elogiado e copiado. Para Mandelbrot e seus seguidores, a razão é clara. As formas simples são inumanas. Elas não se harmonizam com a maneira pela qual a natureza se organiza, ou com a maneira pela qual a percepção humana vê o mundo. Nas palavras de Gert Eilenberger, físico alemão que adotou a ciência não-linear depois de se especializar em supercondutividade: “Por que a silhueta de uma árvore sem folhas, batida por uma tempestade, sobre o pano de fundo de um céu de entardecer no inverno e considerada bela, mas a silhueta correspondente de um edifício universitário de múltiplos propósitos não é, apesar de todos os esforços do arquiteto? A resposta parece-me, mesmo que seja um tanto especulativa, estar nas novas maneiras de ver os sistemas dinâmicos. Nosso sentimento de beleza é inspirado pela disposição harmoniosa da ordem e da desordem, tal como ocorre nos objetos naturais – nas nuvens, nas árvores, nas cadeias de montanhas ou nos cristais de neve. As formas de todos eles são processos dinâmicos congelados em formas físicas, e combinações especificas de ordem e desordem são típicas delas.”

[...]

Apreciar a estrutura harmoniosa de qualquer arquitetura é uma coisa; admirar a selvageria da natureza é outra. Em termos de valores estéticos, a nova matemática da geometria fractal colocou a ciência exata em harmonia com o sentimento caracteristicamente moderno da natureza não-domesticada, não-civilizada, não-domada. Houve uma época em que as florestas pluviais, os desertos, as matas e as terras áridas e erodidas representavam tudo o que a sociedade lutava para dominar. Quando queriam satisfação estética com a vegetação, as pessoas olhavam para os jardins. Como disse John Fowles, escrevendo sobre a Inglaterra do século XVIII: “Esse período não tinha simpatias pela natureza não-regulada, ou primordial. Era a selvageria agressiva, um lembrete feio e insistente da Queda, do exílio eterno do homem do Jardim do Éden… Até mesmo suas ciências naturais (…) continuaram essencialmente hostis à natureza selvagem, vendo-a apenas como alguma coisa a ser domada, classificada, utilizada, explorada.” No final do século XX, a cultura se modificou, e hoje a ciência se está modificando com ela.

imagem de um fractal

Nestes trechos, tirados das págs. 110-120 do livro Caos, encontrei fundamentos de uma estética fractal e da nova consciência ecológica. Por séculos, o ser humano vem se sentindo superior à natureza. A religião judaico-cristã reforçou isso, de certo modo estabeleceu assim, ao nos fazer “imagem de Deus” e colocar o homem num patamar acima da natureza “enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam” (Genesis, 1, 28) Nossa razão, lógica (= linear), seria algo melhor do que a “desordem” da natureza.

Há pouco mais de 20 anos, contudo, percebemos que a “desordem” da natureza contém harmonias muito mais complexas e belas do que supunha nossa vã filosofia. Quando o pensamento complexo não-linear alcançar o senso comum, a vida prática, a política e a religião, toda uma cultura milenar chegará ao fim.

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O mundo num grão de areia

20/02/2010 6 comentários

No feriado de carnaval, terminei de ler o livro:

Caos - criação de uma nova ciência, James Gleick

Retirei-o da biblioteca do Banco Central, em novembro. Foram 3 meses de leitura, em compasso de aula de física teórica :-)

O livro é muito bom, mas como o autor é jornalista, senti falta de um pouco mais de teoria para esclarecer certos conceitos. De toda forma, a leitura iluminou alguns pensamentos desconexos que eu tinha, sobretudo sobre a não-linearidade e o reducionismo da ciência.
E entendi minha fascinação pelos fractais (desde que tenho computadores, o protetor de tela é um gerador de fractais).
Um trecho do livro, pág. 108:

No fim, a palavra “fractal” passou a representar uma maneira de descrever, calcular e pensar sobre formas irregulares e fragmentadas, recortadas e descontínuas – formas que vão das curvas cristalinas dos flocos de neve até as poeiras descontínuas das galáxias. Uma curva fractal significa uma estrutura organizadora escondida atrás da medonha complicação dessas formas. Estudantes secundários podem entender as fractais e brincar com elas: eram tão primárias quanto os elementos de Euclides. Programas simples de computadores para desenhar imagens fractais circularam entre os que tinham computadores pessoais como passatempo. [...]
Os padrões que pessoas como Robert May e James Yorke descobriram em princípios da década de 70, com seus complexos limites entre o comportamento ordenado e o caótico, tinham regularidades insuspeitadas que só podiam ser descritas em termos da relação entre as escalas grandes e pequenas. As estruturas que proporcionavam a chave da dinâmica não-linear eram fractais.

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