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conhecimento, prazer, sabedoria

30/05/2011 1 comentário

Embora não tenha tempo suficiente para ler todos os bons livros do mundo, encontrei um método para misturar o prazer de ler uma boa história e o conhecimento das razões do mundo: leio livros de ficção e não-ficção alternadamente. Antes de ler O cavaleiro inexistente, tinha lido Uma breve história do tempo, do Stephen Hawking, que estava na minha lista há mais de 10 anos.

Stephen Hawking é um mestre na divulgação científica – Carl Sagan está na lista para eu poder comparar. É incrível como ele consegue soltar uma frase de humor entre eletróns e grávitons e funções de onda!!
Mas a edição brasileira de Uma breve história do tempo, pela Editora Rocco, pareceu-me fraca.

Deve ser um trabalho muito difícil traduzir um livro de física quântica. Mesmo levando isto em conta, porém, a tradução deixa muito a desejar. Alguns trechos são ininteligíveis pela linguagem, e não pela teoria. Encontra-se até erro de uso da vírgula. Também o acabamento editorial é ruim, há trechos truncados e repetidos. Confira nas duas imagens, clique nelas pra ampliar:

trecho na página 44

trecho na página 127

A obra saiu renovada sob o título Uma nova história do tempo, pela Ediouro. Parece que houve maior cuidado editorial, e fiquei curioso para saber se a tradução foi melhorada (tem um Google preview no saite da Livraria Cultura). Certamente eu compraria esta edição, para tirar a má impressão da outra. Mas o próximo não-ficção na fila é o livro O Universo numa casca de noz, também do Stephen Hawking.

A produção gráfica de O Universo numa casca de noz, pela Editora Arx, é incomparavelmente superior à edição de Uma breve história do tempo, pela Editora Rocco. Apenas folheando o livro dá para notar, há dezenas de ilustrações, todas coloridas; o leiaute é caprichado, parecer mais um livro de arte do que um livro de física quântica (e não é a mesma coisa??). O Universo numa casca… foi lançado mais de 15 anos depois de Uma breve história… Na contracapa está apresentado como “uma continuação ilustrada que desvenda os mistérios das maiores descobertas que ocorreram desde o lançamento de seu aclamado primeiro livro”.

Stephen Hawking é o cientista mais brilhante desde Einstein. Não sei de qual dos dois sou mais fã. Quem mais poderia dar ao seu livro o título de um verso de Shakespeare? Onde termina a ciência, onde começa a arte? O prazer e o conhecimento? Este é um dos melhores títulos de livro que já vi (e o subtítulo deste blog deixa bem claro isto).

 

O cavaleiro e a freira

22/04/2011 3 comentários

Acabo de ler O cavaleiro inexistente, livro de Ítalo Calvino, pela Companhia de Bolso, edição de 2005.

Peguei por acaso, numa pilha de livros que minha irmã deixou por aqui, emprestados. Foi uma surpresa e tanto, pois o livro é excelente.

Pela internet vincula-se este livro a uma sátira aos romances de cavalaria. Uma quase fábula das pessoas cuja existência se define pelos objetivos e não pela essência, o romance seria o espelho da nossa atual sociedade das aparências. Metáfora do sujeito inexistente, preso ao passado, ou à realidade, por regras rígidas caducas.

Sim, tudo isto é válido, e encontrei este estudo da Profa. Maria da Penha Casado Alves que aprofunda bem este aspecto e faz um paralelo interessantíssimo entre este livro de Calvino e o filme O Homem sem Sombra.

Contudo, pouco ou quase nada se fala do papel da freira que narra a história, além do inusitado rocambolesco desta situação.

Tão importante quanto o cavaleiro-personagem, a freira é figura central na história. Na verdade, sem ela a história não existiria. Seus monólogos podem servir como uma teoria do romance, da escritura enquanto relação conflituosa entre o escritor e sua obra. Se há um ethos do cavaleiro Agilulfo, um modo de ser e agir que chega a ser paródia do nosso mundo moderno pós-moderno, há o pathos de ser escritor – que de certa forma se contrapõe ao cavaleiro:

Aqui no convento, a cada uma se dá a sua penitência, seu modo de ganhar a salvação eterna. A mim tocou esta de escrever histórias: é dura, muito dura.
(…)
Mas a nossa santa vocação quer que se anteponha às alegrias perecíveis do mundo alguma coisa que permaneça.
(…)
Começa-se a escrever com gana, porém há um momento em que a pena não risca nada além de tinta poeirenta, e não escorre nem uma gota de vida, e a vida está toda fora, além da janela, fora de você, e lhe parece que nunca mais poderá refugiar-se na página que escreve, abrir um outro mundo, dar um salto.
(…)
Escrevendo mudei para melhor: consumi apenas um pouco de juventude ansiosa e inconsciente. De que me valerão estas páginas descontentes? O livro, o vazio, não valerá mais doq ue você vale. Não há garantias de que a alma se salve ao escrever. Escreve, escreve, e sua alma já se perdeu.

[pág. 61]

Este ofício de escrever, que pode ser intenção de mudar o mundo mas também é desejo de fugir dele, aplica-se não só ao papel, mas também às telas do computador, a este blogue, aos blogues:

Cada coisa se move na página lisa sem que se veja nada, sem que nada mude em sua superfície, como no fundo tudo se move e nada muda na crosta rugosa do mundo, pois só existe uma extensão da mesma matéria, exatamente como a página em que escrevo
(…)
Dir-se-ia que estou à espera de alguma coisa. Mas que podem esperar as freiras, aqui enclausuradas justamente para ficar fora das ocasiões sempre cambiantes do mundo? O que mais posso esperar além de novas páginas a serem escritas e os costumeiros toques do sino do convento?

[págs. 88 e 114]

Mais do que uma teoria do sujeito moderno, O cavaleiro inexistente traz uma poética, um pensar sobre a narrativa e o fim a que se destina o ato de escrever. Quanto a isto, a leitura do livro nos coloca perante um lirismo que desperta sensações iguais à que tive quando li Cartas a um jovem poeta, de Rilke, Retrato do artista quando jovem, de James Joyce, ou a autonarrativa de Riobaldo.

[.]

Onde há vida: bicicletas

15/03/2011 14 comentários

Antes de qualquer coisa, preciso dizer que não é o caso aqui de se tratar a bicicleta como objeto sagrado, indestrutível. Depois do terremoto e do tsunami no Japão, assim como há milhares de corpos nos escombros, estão soterradas centenas de bicicletas destruídas, retorcidas.

Nestas situações extremas, porém, a bicicleta mostra-se forte porque é flexível. Assim como o bambu, para lembrar a fábula zen.

As fotos selecionadas a seguir foram divulgadas por grandes agências internacionais de notícias. Que devem ter dezenas de centenas de fotos da trágedia no Japão. Inspirei-me nesta fotoreportagem do Daily Mirror. Palavra chave: struggle to survive.

Imagens valem mais do que mil palavras. E estas imagens aqui dizem que, apesar de tudo o que aconteceu, a vida pode seguir seu rumo. Quando tudo ao redor ruiu e parou, basta ter esperança e usar as ferramentas certas. Usar o que está à mão, aquilo que depende da força humana e de um caminho a seguir.

Talvez a maior qualidade da bicicleta seja estar tão próxima ao que há de mais humano em nós.

Sua funcionalidade depende somente do corpo humano e da energia dos músculos – que é a mesma energia de estarmos vivos.

O espaço de uma bicicleta é a dimensão do corpo humano. Praticamente, onde uma pessoa pode passar caminhando, a bicicleta passa também. Não é preciso pistas de 4m de largura. E não são pequenas fissuras no solo que a impedem de seguir adiante. Porque elas podem ser empurradas ou carregadas nos braços. E depois: seguir em frente.

[.]

Folia de Reis

Voltei para cumprir uma resolução de Ano Novo.

E volto no Dia de Reis, uma data que me toca muito. Talvez porque na minha região o reisado e as pastorinhas tenham sido uma tradição do ciclo natalino. Tenho uma vaga lembrança de, ainda menino, visitar um presépio-gruta e ver uma apresentação de dança e cantatas de meninas-pastoras. Folia de Reis me lembra música – ó Deus salve o oratório – me lembra rabeca e Zé Côco do Riachão.

Assim como o Natal, é uma festa religiosa em decadência. O Natal sobrevive cada vez mais forte porque foi transformado numa festa de consumo, mas a Folia de Reis está se perdendo no tempo. Há uma ou outra tentativa de torná-la um produto cultural – e, como todo produto, consumível, sem essência e autenticidade.

De todo modo, hoje é Dia de Reis e volto aqui depois de alguns meses traduzindo o manual Kids on the Move, dando uns acertos no CTB de bolso, e outros trabalhos para a Transporte Ativo.

Vou pedir à velha Bifana que deixe sempre presentes por aqui.

Quero passar o ano seguindo aquela estrela cadente.

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Ainda não acabou

09/09/2010 1 comentário

Faz exatamente um ano que comecei este blog.
Não pensei que chegaria tão longe….

menino usando livro como guarda-chuva

Melhor: começo a gostar da coisa! ;-P

[.]

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