Fractal: estética, religião e ecologia

A moda da arquitetura e da pintura geométricas veio e passou. Os arquitetos já não se preocupam em construir arranha-céus em forma de blocos, como o Edifício Seagram em Nova York, outrora muito elogiado e copiado. Para Mandelbrot e seus seguidores, a razão é clara. As formas simples são inumanas. Elas não se harmonizam com a maneira pela qual a natureza se organiza, ou com a maneira pela qual a percepção humana vê o mundo. Nas palavras de Gert Eilenberger, físico alemão que adotou a ciência não-linear depois de se especializar em supercondutividade: “Por que a silhueta de uma árvore sem folhas, batida por uma tempestade, sobre o pano de fundo de um céu de entardecer no inverno e considerada bela, mas a silhueta correspondente de um edifício universitário de múltiplos propósitos não é, apesar de todos os esforços do arquiteto? A resposta parece-me, mesmo que seja um tanto especulativa, estar nas novas maneiras de ver os sistemas dinâmicos. Nosso sentimento de beleza é inspirado pela disposição harmoniosa da ordem e da desordem, tal como ocorre nos objetos naturais – nas nuvens, nas árvores, nas cadeias de montanhas ou nos cristais de neve. As formas de todos eles são processos dinâmicos congelados em formas físicas, e combinações especificas de ordem e desordem são típicas delas.”

[…]

Apreciar a estrutura harmoniosa de qualquer arquitetura é uma coisa; admirar a selvageria da natureza é outra. Em termos de valores estéticos, a nova matemática da geometria fractal colocou a ciência exata em harmonia com o sentimento caracteristicamente moderno da natureza não-domesticada, não-civilizada, não-domada. Houve uma época em que as florestas pluviais, os desertos, as matas e as terras áridas e erodidas representavam tudo o que a sociedade lutava para dominar. Quando queriam satisfação estética com a vegetação, as pessoas olhavam para os jardins. Como disse John Fowles, escrevendo sobre a Inglaterra do século XVIII: “Esse período não tinha simpatias pela natureza não-regulada, ou primordial. Era a selvageria agressiva, um lembrete feio e insistente da Queda, do exílio eterno do homem do Jardim do Éden… Até mesmo suas ciências naturais (…) continuaram essencialmente hostis à natureza selvagem, vendo-a apenas como alguma coisa a ser domada, classificada, utilizada, explorada.” No final do século XX, a cultura se modificou, e hoje a ciência se está modificando com ela.

imagem de um fractal

Nestes trechos, tirados das págs. 110-120 do livro Caos, encontrei fundamentos de uma estética fractal e da nova consciência ecológica. Por séculos, o ser humano vem se sentindo superior à natureza. A religião judaico-cristã reforçou isso, de certo modo estabeleceu assim, ao nos fazer “imagem de Deus” e colocar o homem num patamar acima da natureza “enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam” (Genesis, 1, 28) Nossa razão, lógica (= linear), seria algo melhor do que a “desordem” da natureza.

Há pouco mais de 20 anos, contudo, percebemos que a “desordem” da natureza contém harmonias muito mais complexas e belas do que supunha nossa vã filosofia. Quando o pensamento complexo não-linear alcançar o senso comum, a vida prática, a política e a religião, toda uma cultura milenar chegará ao fim.

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