Hipocampos em escala

A idéia de auto-semelhança faz soar acordes antigos em nossa cultura. Uma velha tendência do pensamento ocidental honra essa idéia. Leibniz imaginou que uma gota d’água contivesse todo um pulsante universo, encerrando por sua vez, gotas d’água e novos universos dentro delas. “Ver o mundo num grão de areia”, escreveu Blake, e com freqüência os cientistas mostravam-se predispostos a vê-lo. Quando o espermatozóide foi descoberto, julgou-se que cada um deles seria um homúnculo, um ser humano, minúsculo, mas plenamente formado.

Mas a auto-semelhança desapareceu como princípio científico, por uma boa razão: não se harmonizava com os fatos. Os espermatozóides não só não eram apenas seres humanos em pequena escala, como eram muito mais interessantes do que isso – e o processo de desenvolvimento ontogenético é muito mais interessante do que a simples ampliação. O sentido inicial da auto-semelhança como princípio de organização vinha das limitações da experiência humana com as escalas. De que outra maneira imaginar o muito grande e o muito pequeno, o muito rápido e o muito lento, senão como extensões do que era conhecido?

O mito morreu quando a visão humana foi ampliada pelos telescópios e microscópios. As primeiras descobertas trouxeram a compreensão de que cada mudança de escala provocava novos fenômenos e novos tipos de comportamento. Para o moderno físico de partículas, o processo não termina. Todo acelerador novo, com seu aumento de energia e vel ocidade, amplia o campo de visão da ciência a partículas cada vez menores e escalas de tempo cada vez mais limitadas, e toda extensão parece trazer novas informações.

A primeira vista, a idéia da coerência das novas escalas parece trazer menos informações. Em parte, isso ocorre em virtude de uma tendência paralela na ciência, a do reducionismo. Os cientistas desmontam as coisas e olham uma parte de cada vez. Se querem examinar a interação de partículas subatômicas, colocam duas ou três juntas. Isso já é uma complicação suficiente. O poder da auto-semelhança, porém, começa em níveis de complexidade muito maiores. É uma questão de examinar o todo.

Retirado de: GLEICK, James. Caos: a criação de uma nova ciência, Ed. Campus, pág. 109.

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