escolas, bibliotecas e internet

Trechos do artigo A democracia do saber, escrito por Isaac Asimov em 1974. Notem como ele anteviu sabiamente a internet e todo o impacto que traria para um sistema escolar obsoleto e não-democrático.

Aprender e saber são uma alegria de mistura com uma ampla maravilha, visto que o universo parece expandir-se dentro do conceito mental, mudar e assumir uma nova forma e uma nova cor, que nunca mais perderá. É o caso do “consegui” (do eureka do grego), que, por um momento relampagueante, se sobrepõe a tudo o mais; a vida, a morte, a tudo.
Não, ninguém pode fazer tudo por si mesmo. Tem de haver uma espécie de ajuda que assente os alicerces, prepare o trampolim, oriente até a posição. Alguém tinha de recitar o alfabeto para mim, de dizer-me o que aquilo era, depois escrevê-lo para mim, e a seguir mostrar-me como e que soava cada letra. Havia vezes, até, que intrigado, eu chegava a chorar, e pedia a alguém que me destrinçasse alguma coisa que eu não podia solucionar. (Fiz isto, por exemplo, com certas palavras inglesas, cuja pronuncia não conseguia acertar; e quando eu encontrava algum rapaz que pudesse pronunciá-las para mim, ele não sabia explicar o que significavam.)
É exato, porém, que ninguém vive num vácuo intelectual. Nós observamos, somos informados, e mesmo quando não perguntamos a informação aparece.
Podemos reagir passivamente à torrente da informação; deixamos que ela se quebre em cima de nós,  ao passo que ignoramos tudo quanto possível com a mais bovina estolidez. E, mesmo quando isso acontece, não podemos fazer outra coisa senão aprender. Quase toda criança, submetida ao severo rigor da escola primária, aprende a ler, a escrever e a numerar, por mais que façamos objeções ao processo. E mesmo antes da escola a criança aprende a falar.
É trabalho enfadonho, duro – a estrada real para o conhecimento – ter de fazer o que nos dizem, e absorver, quando não se pode mais resistir, somente o que a autoridade dita.
As escolas, infelizmente, são, com muita frequência, expoentes desta estrada real do ensino, com administradores e professores incapazes de fazer outra coisa senão seguir cegamente o sílabo, dificilmente aparecendo alguém que conceba a verdade segundo a qual a coisa mais importante que uma escola pode ensinar e que ela não é suficiente; que, além da estrada real do conhecimento por meio da autoridade de cenho cerrado da escola, se encontra a estrada democrática da aprendizagem por meio da descoberta pessoal.
Por trás desta situação, pelo menos em parte, há o fato de que o sistema escolar, através de toda a História, desde que o primeiro mais velho ensinou o primeiro mais moço, tem sido não-democrático no conceito. A escolaridade é reservada, quase que inteiramente, a um segmento da população: a juventude.
O ato de aprender é levado a parecer, por esta maneira, uma coisa de determinado tempo, um sofrimento temporário, imposto ao jovem e fraco. Qual a criança tão obtusa que deixe de ver que ela deve ir à escola, ao passo que os adultos não? Qual a criança que não percebe de imediato que uma das recompensas de um indivíduo ao se tornar adulto é que pelo menos ele tem a liberdade de não ter de estudar mais? Não importa o que nos adultos pensemos do aluno que abandona a escola, o fato é que, para a criança, ele passa por alguém que conseguiu diplomar-se em maioridade às pressas.
Quão poucos são os lugares e quão poucas são as ocasiões que existem em que se faz uma tentativa de tornar claro que o aprender é uma parte integrante da condição humana, que aprender é fazer uso daquela parte do nosso ser que é mais peculiarmente humana, que compartilhar a riqueza acumulada de conhecimentos, reunida através dos tempos, é o maior dos privilégios humanos. Tudo o mais compartilhamos com o restante das espécies viventes; a nossa capacidade de aprender é exclusivamente nossa.
A verdadeira democracia do ensino implica abstração da idade. Ninguém, tenha a idade que tiver, que deseje aprender seja lá o que for, deveria ser impedido de ir nessa direção. Uma pessoa assim deveria ser saudada com alegria, acolhida com prazer, e deveria receber quantos auxílios institucionais existissem.
(…)
Pois bem, se as escolas não constituem a plena resposta, de que mais e que precisamos?
Bem, no ano de 650 a.C., Assurbanipal, da Assíria, reuniu tijolos em seu palácio, pilhas e pilhas de tijolos, marcados com delicados relevos cuneiformes, os quais condensavam os conhecimentos de 2.500 anos de cultura do Vale do Tigre-Eufrates. Quatro séculos depois, Ptolomeu do Egito (que mencionei no começo deste ensaio) começou o processo de acumular os rolos de papiro que deveriam compor, como passaram a compor, a maior biblioteca que o mundo já vira até aquele tempo.
Até bem próximo dos tempos modernos, esse foi o padrão dos armazéns de sabedoria – constituíam propriedade privada de reis e de grandes nobres, e seu uso era disponível a muito poucos.
Agora, porém, a menor cidade pode possuir uma coleção de livros que rivalizam com as maiores bibliotecas das idades passadas; e,  levando-se em consideração o avanço dos conhecimentos, contém, no seu catálogo de obras de referencia, maravilhas nem sequer sonhadas pelas maiores mentalidades do passado.
Por isso, devemos concluir que o lugar mais democrático de sabedoria, no mundo, é a biblioteca pública. E lá que se pode encontrar informação sobre qualquer objeto, ler o que bem quisermos, quando bem quisermos. E estou antevendo o tempo em que a computadorização colocará, em cada residência, um terminal ligado a alguma biblioteca central, que apresentará, em fac-simile ou em tela de televisão, os recursos de gerações humanas, colocando-os na ponta dos dedos mesmo da mais modesta humanidade.

publicado no livro O início e o fim.

[.]

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