Árvore

Sapucaia

Consegui identificar as sapucaias no eixão norte! Agora que conheço a árvore, já descobri mais duas na Asa Sul – e uma delas está carregada de frutos.🙂 Quando elas ficarão floridas?
Encontrei também esta crônica no excelente saite da Revista Plurale.

Árvore

Christina Carvalho Pinto
Presidente do Grupo Full Jazz, é também líder da plataforma multimídia Mercado Ético

Era uma casa com poucos esconderijos: um porão (espaço de função imprecisa), alguns armários já ocupados, malas que ficavam sobre os armários, lá no alto, muito longe do alcance das minhas mãos.

Onde esconder a dor, o sangue, os medos e seus fantasmas, se em qualquer canto eu podia ser capturada?

Do outro lado da rua, a casa do vizinho tinha um quintal que se adivinhava através dos galhos da mangueira, aquela onde a molecada da rua comia manga verde com sal e a cada temporada a gente subia no muro mais rápido, voando sobre os tijolos velhos e carcomidos, um bando de pássaros de alpargatas.

Aproveitei a manhã do domingo, enquanto os adultos ouviam a homilia interminável do pároco, e peguei o pacote debaixo da cama.

Atravessei o corredor silencioso, a rua vazia e dei com o muro, de repente tão alto para subir sozinha, sem ninguém para fazer escada, o pacote preso na cintura, por dentro da calça rancheira.

Subi e saltei. Olhei para ela, deusa generosa de tronco forte e braços tantos, e me deitei, nós duas no quintal que era só dela.

O padre falava espanhol, ela não falava nada. Ficamos assim conversando por um longo tempo, sem palavras, eu contando tudo, ela acolhendo. Nenhum distúrbio, nenhum julgamento. Enterrei meus segredos entre duas raízes e nunca voltei para buscar.

O jardim da nossa casa era grande o bastante para caber uma muda de limoeiro. Meu pai me ajudou a abrir um pequeno buraco no chão, cavocando com as mãos, e ali coloquei algumas sementes.

A cada manhã eu espiava o montinho de terra, ansiosa. Um dia olhei e vi aquela pontinha de verde brotando, uma coisica de nada fazendo mágica na frente dos meus olhos, corre Maria Idalina, vem ver o que aconteceu! E assim o limoeiro vinha chegando e se revelando, crescendo, tomando o espaço,
nossa, como é que pode uma planta que eu plantei já ficar mais alta do que eu? E o limoeiro ficou mais alto que os meus irmãos, que os jogadores do time de basquete da escola, mais alto que todas as minhas expectativas e começou a dar flores, muitas flores e limões que não parava mais.

Eu apertava as folhinhas novas entre os dedos, cheirava aquele perfume delicioso e pensava: que poder, eu sei fazer árvores, eu sei fazer a vida.

Nascida sob signo de água, com ascendente ar e lua em fogo, tenho falta de terra. Minha relação com ela é carnal, um desejo sem fim de ver, tocar, desvendar, sentir sua magia, saborear seus frutos.

Terra e árvore, mãe e filha: caminho mil léguas por um momento com elas.

Pelos idos de 2004 fiz uma experiência com ayahuasca e, assim como muitos outros, estive à beira da morte. Fui tomada de terrores, desenvolvi síndrome de pânico, via de repente o mundo desmontar ao meu redor, como se a realidade fosse a tela de um monitor e os pixels enlouquecidos despencassem
sem aviso.

De manhã, indo para o trabalho, sentia muitas vezes o flash back rondando, o cenário escapando de mim; e com o terror já presente, parava e buscava com os olhos uma árvore. Quieta. Tronco, galhos, raízes. Eu olhava e olhava, imóvel, até me sentir enraizando no chão, seiva fluindo sem ruído, a vida de novo possível.

No Grupo Full Jazz, a cada 59 minutos entra uma música suave e nesse momento largamos tudo, respiramos, inteiramente donos de nós. Com nada mais entre eu e eu, olho lentamente para as árvores da rua, as folhas balançando com tanta suavidade que dá vontade de usar o verbo balouçar. Não penso; agradeço.

O minuto de silêncio acaba e abro outra vez espaço para os pensamentos. Me vem à mente o termo sustentabilidade. Ele passa por meus circuitos cerebrais sem provocar reação. Vazio como as velhas árvores de troncos ocos, que caem com a primeira chuva.

Fala-se tanto de sustentabilidade e esse falar é tão estéril.

Sustentabilidade é uma não-palavra.

(Mario Quintana escreveu que, diante dos sentimentos, as palavras são como
borboletas mortas espetadas no papel).

Para entender essa não-palavra, visite uma árvore.

Em silêncio, esqueça o tempo – essa outra ilusão – e espere.

A árvore vai te explicar tudo.

Um comentário sobre “Árvore

  1. Oi, tudo bem? Estou pesquisando as preferências do ciclista brasileiro, para poder entender melhor o que ele necessita. Será que ele quer só esporte ou quer transporte? Estão todos contentes com a qualidade dos produtos disponíveis no mercado? Há muitos produtos mal feitos, mesmo quando importados.
    Ajude a entender o ciclista brasileiro respondendo essa pesquisa no link http://www.pedalabrazuca.blogspot.com.
    Se possível, encaminhe o link para seus amigos.

    Obrigado,

    Pedala Brasil

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