Mudanças de paradigma

E aqui, sentimos que nos aproximamos de uma revolução considerável (tão considerável que talvez não aconteça) relativa ao grande paradigma da ciência ocidental (e de modo correlato, da metafísica, que ora é seu negativo, ora o seu complemento). Repitamos, as falhas, as fissuras se multiplicam neste paradigma, mas ele sempre se mantém.

O que afeta um paradigma, isto é, a pedra angular de todo um sistema de pensamento, afeta ao mesmo tempo a ontologia, a metodologia, a epistemologia, a lógica, e por consequencia a prática, a sociedade, a política. A ontologia do Ocidente estava baseada em entidades fechadas, como substância, identidade, causalidade (linear), sujeito, objeto. Estas entidades não se comunicavam entre elas, as oposições provocavam a repulsão ou a anulação de um conceito pelo outro (como sujeito/objeto); a “realidade” podia, pois, ser circunscrita pelas idéias claras e distintas.

Neste sentido, a metodologia científica era reducionista e quantitativa. Reducionista, já que era preciso chegar às unidades elementares não decomponíveis, as quais só podiam ser circunscritas clara e distintamente, quantitativista já que estas unidades descontínuas podiam servir de base a todas as computações. A lógica do Ocidente era uma lógica homeostática, destinada a manter o equilíbrio do discurso pela expulsão da contradição e do erro; ela controlava ou guiava todos os desenvolvimentos do pensamento, mas ela própria se colocava, com toda evidencia, como impossibilitada de desenvolvimento. A epistemologia, de repente, desempenhava sempre o papel verificador do aduaneiro, ou proibidor do policial.

(…)

Ora, este paradigma do Ocidente, afinal um filho fecundo da esquizofrênica dicotomia cartesiana e do puritanismo clerical, comanda também o duplo aspecto da praxis ocidental, de um lado antropocêntrica, etnocêntrica, egocêntrica quando se trata do sujeito (porque baseada na auto-adoração do sujeito: homem, nação ou etnia, indivíduo), de outro lado e correlativamente manipuladora, frieza “objetiva” quando se trata do objeto. Não deixa de ter relação com a identificação da racionalização com a eficácia, da eficácia com os resultados contabilizáveis; ele é inseparável de toda uma tendência classificacional reificadora, etc., tendência corrigida, às vezes com vigor, às vezes suavemente, por contratendências aparentemente “irracionais”, “sentimentais”, românticas, poéticas.

Efetivamente, a parte ao mesmo tempo grávida e pesada, etérea e onírica da realidade humana (e talvez da realidade do mundo) foi assumida pelo irracional, parte maldita, parte bendita onde a poesia cantava e decantava suas essências, que, filtradas e destiladas um dia poderiam e deveriam chamar-se ciência.

Entrevê-se, pois, de fato a radicalidade e a amplitude da reforma paradigmática. Trata-se, num certo sentido, do que há de mais simples, de mais elementar, de mais “infantil”; de mudar as bases de lançamento de um raciocínio, as relações associativas e repulsivas entre alguns conceitos iniciais, mas dos quais dependem toda a estrutura do raciocínio, todos os desenvolvimentos discursivos possíveis. E é, bem entendido, o mais difícil. Porque não há nada mais fácil do que explicar uma coisa difícil a partir de premissas simples admitidas ao mesmo tempo pelo locutor e o ouvinte, nada mais simples do que perseguir um raciocínio sutil por vias comportando as mesmas engrenagens e os mesmos sistemas de sinais. Mas nada mais difícil do que modificar o conceito angular, a idéia maciça e elementar que sustem todo o edifício intelectual.

Porque é evidentemente toda a estrutura do sistema de pensamento que se encontra abalada, transformada, e toda uma enorme superestrutura de idéias que desaba. Eis para o que é preciso se preparar.

livro

Do livro: Introdução ao Pensamento Complexo / Edgar Morin. Ed. Sulina, 2007. pp. 54-56.

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