De quem é a culpa?

encontrada em http://jschumacher.typepad.com/photos/abandoned_bikes/index.html

O Correio Braziliense publicou anteontem, 14 de setembro, uma reportagem sobre a diminuição da coleta seletiva de lixo. Uma notícia aparentemente meio boba, banal, mas que, para mim, expressa muito mais a verdadeira cidade em que vivemos, o país e o mundo em que vivemos, do que debate político na TV, manchetes midiáticas e outras coisas falsas.

 A verdadeira mudança está nas pessoas, no minuto a minuto de cada um de nós. Sem ela, de pouco vale serviço público, consciência ambiental ou visão apocalíptica. Há coleta seletiva pelo GDF – meio porca e capengue mas há -, as pessoas “estão preocupadas” com a natureza, contudo uma verdadeira mudança de hábitos é algo muito mais profundo do que meras intenções pessoais, coletivas ou governamentais.

Usar a bicicleta é a mesma coisa: pode ter ciclovia disponível, as pessoas sabem que fazem bem e “não prejudica o meio ambiente”, mas o hábito de pedalar requer uma mudança profunda, precisa de um sacolejo psicológico e cognitivo.

Infelizmente, nem todo mundo está a fim disto. A maioria não está. Sempre há uma desculpa, ou um jeito de jogar a culpa em alguém. Na reportagem, a culpa ficou com as empregadas domésticas novatas no serviço….

…Para não usar a bicicleta, sempre há um culpado externo: o governo, em primeiro lugar (que não faz ciclovias etc etc); o trânsito (que é perigoso etc etc); o clima (que é quente, frio, chuvoso, seco, etc etc).

Não gosto do conceito de “culpa”, que expressa uma visão de mundo judaico-cristão – da qual me distancio. Culpa tem a ver com afastar pensamentos e sentimentos reprimidos, mas também tem a ver com um suposto perdão dos pecados para alcançar a “vida eterna”.

Projetar a culpa é jogar a responsabilidade para alguém. O ser humano vive num conflito permanente entre a satisfação dos desejos e prazeres imediatos, e as racionalizações e ideologias. Pedalar é um ato lindo, ecologicamente correto, fez bem pra saúde ao longo tempo, a consciência de uma nova era etc etc. Mas cansa, sim, dói os joelhos. E aqui no brasil ainda é preciso vencer obstáculos urbanísticos, arquitetônicos, familiares e sociais. Ou é pobre ou é “ambientalista”.  

O carro realmente afasta as “dores e sofrimentos” do nosso corpo em movimento. Usá-lo vai contra as melhores intenções e propagandas de uma cidade melhor e um planeta mais limpo. Mas carro dá prazer à medida que alivia a dor e o cansaço do corpo e a ansiedade social. E é um pecado como outros pecados. Nada que não se possa resolver: é só pedir a extrema unção para o padre e seguir feliz para a vida sem corpo no além-nada. E assim vai-se vivendo, aqui na Terra, uma vida “amena e confortável na sua mediocridade” como diz o Marcuse.

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