O cavaleiro e a freira

Acabo de ler O cavaleiro inexistente, livro de Ítalo Calvino, pela Companhia de Bolso, edição de 2005.

Peguei por acaso, numa pilha de livros que minha irmã deixou por aqui, emprestados. Foi uma surpresa e tanto, pois o livro é excelente.

Pela internet vincula-se este livro a uma sátira aos romances de cavalaria. Uma quase fábula das pessoas cuja existência se define pelos objetivos e não pela essência, o romance seria o espelho da nossa atual sociedade das aparências. Metáfora do sujeito inexistente, preso ao passado, ou à realidade, por regras rígidas caducas.

Sim, tudo isto é válido, e encontrei este estudo da Profa. Maria da Penha Casado Alves que aprofunda bem este aspecto e faz um paralelo interessantíssimo entre este livro de Calvino e o filme O Homem sem Sombra.

Contudo, pouco ou quase nada se fala do papel da freira que narra a história, além do inusitado rocambolesco desta situação.

Tão importante quanto o cavaleiro-personagem, a freira é figura central na história. Na verdade, sem ela a história não existiria. Seus monólogos podem servir como uma teoria do romance, da escritura enquanto relação conflituosa entre o escritor e sua obra. Se há um ethos do cavaleiro Agilulfo, um modo de ser e agir que chega a ser paródia do nosso mundo moderno pós-moderno, há o pathos de ser escritor – que de certa forma se contrapõe ao cavaleiro:

Aqui no convento, a cada uma se dá a sua penitência, seu modo de ganhar a salvação eterna. A mim tocou esta de escrever histórias: é dura, muito dura.
(…)
Mas a nossa santa vocação quer que se anteponha às alegrias perecíveis do mundo alguma coisa que permaneça.
(…)
Começa-se a escrever com gana, porém há um momento em que a pena não risca nada além de tinta poeirenta, e não escorre nem uma gota de vida, e a vida está toda fora, além da janela, fora de você, e lhe parece que nunca mais poderá refugiar-se na página que escreve, abrir um outro mundo, dar um salto.
(…)
Escrevendo mudei para melhor: consumi apenas um pouco de juventude ansiosa e inconsciente. De que me valerão estas páginas descontentes? O livro, o vazio, não valerá mais doq ue você vale. Não há garantias de que a alma se salve ao escrever. Escreve, escreve, e sua alma já se perdeu.

[pág. 61]

Este ofício de escrever, que pode ser intenção de mudar o mundo mas também é desejo de fugir dele, aplica-se não só ao papel, mas também às telas do computador, a este blogue, aos blogues:

Cada coisa se move na página lisa sem que se veja nada, sem que nada mude em sua superfície, como no fundo tudo se move e nada muda na crosta rugosa do mundo, pois só existe uma extensão da mesma matéria, exatamente como a página em que escrevo
(…)
Dir-se-ia que estou à espera de alguma coisa. Mas que podem esperar as freiras, aqui enclausuradas justamente para ficar fora das ocasiões sempre cambiantes do mundo? O que mais posso esperar além de novas páginas a serem escritas e os costumeiros toques do sino do convento?

[págs. 88 e 114]

Mais do que uma teoria do sujeito moderno, O cavaleiro inexistente traz uma poética, um pensar sobre a narrativa e o fim a que se destina o ato de escrever. Quanto a isto, a leitura do livro nos coloca perante um lirismo que desperta sensações iguais à que tive quando li Cartas a um jovem poeta, de Rilke, Retrato do artista quando jovem, de James Joyce, ou a autonarrativa de Riobaldo.

[.]

3 comentários sobre “O cavaleiro e a freira

  1. Lendo as citações fiquei com vontade de ler este livro e complementando com o que li recentemente em uma revista “….Escrever é um descarrego…aproveitei para refletir sobre a vida do escritor. É uma vida cheia de contratempos. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer ideia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto e branco, usando-a como assunto de uma historia ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre.” (trecho de Somerset Maugham.

  2. Não é sensacional esse livro?
    Vi-o despretencioso na prateleira da livraria e resolvi ver qual era,já que era Ítalo Calvino.Na mosca!

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