Pais e filhos

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De tudo o mais que eu possa errar, dois hábitos bons quero deixar como exemplo para meus filhos: ler livros e andar de bicicleta.

Ler é uma metáfora da vida. Livros são dias. Dentro do universo infindável de possibilidades, cada livro molda o mundo que nós vemos e transforma e afeta a leitura do próximo livro. E, ao contrário de outras mídias que empurram goela abaixo uma realidade dada, ler é uma realidade construída, fruto de escolhas pessoais  (exceto os livros de leitura obrigatória na escola, é claro… ;-))  .

Lá pela metade do vídeo acima – que nesta altura você já deve ter visto todo  – tem um pai ensinando um filho a andar de bicicleta e isto me fez lembrar uma outra questão.  Por que vemos poucos adultos andando de bicicleta? Porque assim foram ensinados desde crianças. Alguns conceitos errados sobre a bicicleta tem sido passados ano após ano, geração após geração, de pai para filha, de mãe para filho.

Crianças são ensinadas a terem medo das ruas. Em nome de um “amor” – que em boa parte é possessão e medo da perda – as crianças estão sempre ouvindo: cuidado, você pode sofrer um acidente sério ou morrer. Com tanta carga negativa, como é que vão aprender a andar de bicicleta, ou gostar de fazer isto?

Se quero que meu filho aprenda a nadar com eficiência, inclusive com habilidade suficiente para poder se safar de uma situação de risco, não o levo para a natação dizendo: cuidado, você pode se afogar a qualquer momento. Quero, justamente, o contrário disto!!

Nadar e andar de bicicleta nas ruas são situações diferentes, é claro, porque nas ruas sempre há a presença sartriana do outro. Mas seriam mesmo todos os motoristas loucos psicopatas sádicos assassinos?? O perigo do trânsito é real ou midiático?? Projetar nos outros os temores imaginários é outra face da cultura do medo, utilização político-ideológica da insegurança que vem não da violência em si, mas da nossa fragmentação social e da alienação. Ser alien é ser estrangeiro, estar só por não ver no outro um igual.  E tudo isto se aprende no dia-a-dia.

Não são ciclovias que trarão segurança, assim como não são cercas elétricas que vão solucionar os problemas do crime urbano. Quanto mais bicicletas nas ruas, mais seguro o trânsito fica. Ao contrário do que os órgão de trânsito acreditam e ensinam, trânsito não é fluxo, é convivência.

É preciso aprender a andar de bicicleta, gostar de fazer isto, inclusive para aprender boas técnicas defensivas.

Entretanto, já somos a segunda ou terceira geração viciada em carros. Nossos avós acreditaram ingenuamente na modernidade do automóvel e muitos ainda continuam acreditando nisto até hoje.  As crianças aprendem com os pais que o carro é o único meio de transporte seguro e eficiente. Um vício que passa de pai para filhos.

Um mau hábito arcaico que pode ser abandonado.

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De pouco adiantam boas ideias sem homens que possam colocá-las em prática. Se você quer mudar o mundo,  seja um exemplo para seu filho. Ele está te observando.

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2 comentários sobre “Pais e filhos

  1. Não tenho, não terei filhos.

    Mas tenho sobrinhos, que são filhos-sem-caroço.

    Para eles, lego três habitos: os dois já citados, e o amor devoto ao Cinema – esta Religião da Luz. Ao cinema, e não a estes filmes banais de todos os dias que passam nos Shoppings Centers. Ao cinema, aquele que só acontece em Salas que estão nas Ruas, num bairro, numa esquina, e nunca num Não-Lugar.

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