Bicicletas no Pólo Sul

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Havia apenas um único lugar no mundo onde eu pensei que era impossível andar de bicicleta: no Pólo Sul.

Mas, ao chegar na página 81 do livro A incrível viagem de Shackleton, encontrei este trecho que se refere a Thomas Orde-Lees, o almoxarife:

Certo dia, durante a parte mais escura do inverno, quando o Endurance ainda estava bloqueado pelo gelo, encontrou uma bicicleta no porão do navio e saiu para dar um passeio pelas banquisas congeladas.

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Lansing, Alfred. A incrível viagem de Shackleton : a saga do Endurance. Tradução Sérgio Flaksman. 2ª ed. Rio : José Olympio, 1989. (coleção Ventos e Aventuras, 2).

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Uma bicicleta na Antártida? Em 1915?

Fiquei ao mesmo tempo espantado e curioso e fui pesquisar. Na verdade, a bicicleta não “foi encontrada no porão”. Orde-Lees era apaixonado por atividades físicas e conseguiu permissão de Sir Ernest Shackleton para levar uma bicicleta naquela que seria uma das mais fantásticas aventuras humanas. A bicicleta foi deliberadamente colocada no navio Endurance e levada para o Pólo Sul. E aquele não foi o único passseio. Nos meses que passaram presos no gelo, era hábito de Orde-Lees andar de bicicleta, até que um dia ele foi longe demais e se perdeu. Seus companheiros tiveram que procurá-lo e, deste dia em diante, foi proibido por Shackleton de andar de bicicleta na imensidão branca.

Quando o navio foi destruído pelo gelo e naufragou, levando junto com ele quase todos os pertences pessoais dos tripulantes, Orde-Lees escreveu no seu diário, em 30 de outubro:

my greatest sentimental loss was my dear old bicycle which I have had for 16 years, the best Rudge-Whitworth that ever lived…

minha maior perda sentimental foi minha velha e querida bicicleta que tive por 16 anos, a melhor Rudge-Whitworth que já exisitiu….

fonte: livro Shackleton’s Photographer

Não encontrei foto da bicicleta de Orde-Lees, mas no Museu Virtual da Bicicleta há toda uma seção para as “melhores bicicletas britânicas”, como anuncia este catálogo de 1906:

Pela internet, tive outra surpresa: Thomas Orde-Lees não foi o primeiro a pedalar no Pólo Sul! Havia uma bicicleta na expedição Terra Nova, comandada pelo Capitão Robert Falcon Scott, em 1910. Entre os tripulantes estava o geólogo Thomas Griffith Taylor, “um ciclista apaixonado” como é descrito em alguns textos. Antes de entrar para a expedição, ele estudou em Cambridge, onde a bicicleta é um meio de transporte muito popular entre os estudantes. Isto explica sua paixão.

A bicicleta foi doada para a expedição por uma firma neozelandesa. Além dela, alguns veículos levados pelo capitão Scott eram carretilhas feitas com 4 rodas de bicicleta. Nesta foto é possível ver um par de rodas:

E este trenó fantástico, com rodas de bicicleta??

Uma roda de bicicleta também era usada num mecanismo para medir a distância percorrida

A bicicleta que Thomas Griffith Taylor pedalava no Pólo Sul resiste até nossos dias. Passou um tempo à mostra na parede da cabana da expedição do Capitão Scott, cabana que está mantida e preservada em mínimos detalhes.

Esta foto, encontrada aqui, é de 2002.

A bicicleta agora está sendo cuidada dentro do Antarctic Heritage Trust (AHT), conforme mostra esta foto:

blog Stories that are true

O blog não diz, mas a informação de que é a mesma bicicleta que estava na cabana me foi confirmada, por email, pelo pessoal do AHT.

Thomas Orde-Lees e Thomas Griffith Taylor não tinham em comum apenas o primeiro nome. Eram homens que realmente estavam à frente de seu tempo. No relato de viagem The Ice Cave Tour, escrito em 2001, após verem pendurada na parede da cabana aquela que foi a primeira bicicleta na Antártida, espantam-se e comentam: “quase 100 anos depois nós vemos pessoas pedalando mountainbikes pelos caminhos da Estação McMurdo”.

Hoje,  como afirma este artigo da ESPN, existem bicicletas comunitárias na Ilha de Ross, mostradas na foto acima.

E ainda chegam pessoas até mim e perguntam: como você faz pra pedalar quando está chovendo? e quando está calor? Pode-se ver que, quando há desejo e vontade e uma certeza de que bicicletas trazem mais vantagens do que empecilhos, clima não é obstáculo.

Os obstáculos são internos, ou internalizados.
Ao ser medida do meu corpo e de minhas potencialidades e força de vontade, muitas vezes a bicicleta coloca-me em frente a mim mesmo, como um espelho. Estamos prontos o suficiente para vermos o quanto fracos, preguiçosos ou autocomplacentes somos?

Na pior parte da viagem, quando o futuro era incerto e os acontecimentos tinham levado todos àquela situação angustiante e sombria, Orde-Lees escreveu:

No one… knows what it means to me to have a bicycle and a place to ride it, however rough and heavy the going.

Ninguém… sabe o que significa para mim ter uma bicicleta e um lugar para pedalar, por mais que sejam duros e ásperos os dias

T. H. Orde-Lees (diário pessoal, registro em 11 de março de 1915)
citação encontrada aqui

-=-
Leia mais:

– The Voyages of Captain Scott, de Charles Turley – livro online no Projeto Gutenberg
Antarctic Conservation Blog – National History Museum

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Bicycles at The South Pole

There was only one place in the world where I thought it was impossible to ride a bicycle: the South Pole

But when I read the Alfred Lansing’s book Endurance: Shackleton’s Incredible Voyage, I found this passage that refers to Thomas Orde-Lees, the storekeeper:

“One day, during the darkest part of winter, when the Endurance was still blocked by ice, he found a bike in the basement of the ship and went out for a ride through the frozen ice floes.”

In fact, the bicycle was not “found in the basement.” Orde-Lees was passionate about physical activity and got permission from Sir Ernest Shackleton to take a bicycle, which was deliberately boarded on the Endurance. And that was not the only ride. In the months spent trapped in the ice, Orde-Lees ride his bicycle as a routine, until one day he went too far and got lost. His companions had to look it up and after that Shackelton forbad him to ride the bicycle.

When the ship was destroyed by ice and sank, Orde-Lees wrote in his diary on October 30:

“my greatest sentimental loss was my dear old bicycle which I have had for 16 years, the best Rudge-Whitworth that ever lived… ”
source: book Shackleton’s Photographer

See Rudge-Withworth model at The Online Bicycle Museum.

Reading a bit more, I had another surprise: Thomas Orde-Lees was not the first man to ride a bicycle at the South Pole! There was a bike in the Terra Nova expedition, commanded by Captain Robert Falcon Scott in 1910. Among the crew was the geologist Thomas Griffith Taylor, “a passionate cyclist” as described somewhere. Before joining the Scott’s expedition he studied in Cambridge where bicycle is a very popular form of transport.

The bicycle was donated to the expedition by a Neo Zealand firm. Besides that, some carts taken by Captain Scott were made with four bicycle wheels. In photos above you can see two wheels of one of those carts, an awesome sled with bicycle wheels and a bicycle wheel as a mechanism to measure the distance walked.

Thomas Griffith Taylor’s bicycle was hanged on Scott’s Hut wall. But now the bicycle is inside Antarctic Heritage Trust (AHT) lab.

Thomas Orde-Lees and Thomas Griffith Taylor had in common not only the first name. They were in fact men ahead of their time. Almost 100 years later people ride bicycles at McMurdo Station. Today there are public bicycles in Antarctica.

And in spite of it all, people come up to me and pose: how do you go cycling when it’s raining? and when it is hot? One can see that when there is desire and will and we know that bicycles bring more advantages than drawbacks, weather is no obstacle.

Obstacles are inner or internalized. Self-imposed barriers.
Being a measure of my body, my capabilities and strength of will, the bicycle puts me in front of myself as a mirror. Are we ready enough to see how weak we are, or lazy or self-complacent?

In the worst part of the journey, when the future was uncertain and the events had taken all together to that distressing and gloomy situation, Orde-Lees wrote:

“No one… knows what it means to me to have a bicycle and a place to ride it, however rough and heavy the going” (quote found here)

-=-

[.]

4 comentários sobre “Bicicletas no Pólo Sul

  1. Olá, que bom encontrar outra pessoa apaixonada pela aventura do Endurance no polo sul!
    Shackleton é meu grande ídolo e sua viagem épica eu trato de narrar pra todo mundo, tamanha admiração e respeito que tenho pelo Sir Ernest.
    Mas sinceramente, sendo ciclista, não me lembrava da passagem do livro.
    Grata, então, por lembrar uma apaixonada por bicicletas, desta passagem.

    Marlene
    Americana-SP

  2. Salve!!
    Amyr klynk, o maior navegador brasuca, também levou uma bicicleta em sua viajem aos dois pólos realizada entre 1989 e 1991. Pena que a bicicleta é citada apenas no último capítulo, mereceria uma pesquisa junto ao próprio Amyr Klink, para se saber mais das pedaladas em suas ancoragens. Penso que cicloviajantes tem muito em comum com navegadores solitários e suas viagens quase que nas mãos do humor do clima, o desconhecido após cada onda ou curva do caminho. Sobre uma bicicleta todo deslocamento é sempre uma travessia, conta-se com a sorte do bom clima, trabalha-se arduamente em pesquisar a melhor rota e momento de partida, ventos favoráveis e, vai por aí.
    Separei um trecho desse livro, momento em que KlinK descreve sua chegada a uma ilha no Ártico, a emoção do velejador que ao pisar terra firme, após meses de horizonte azul, passa imediatamente do leme ao guidão.

    Parabéns pelo blog e pela pesquisa e postagem. Curta um pouco o clima do livro. Recomendo. A venda em qualquer sebo da cidade, He He!
    Tony
    SP

    “… Uma e nove da madrugada, já clareando, alguém chamava no canal 16 numa língua totalmente incompreensível. Levei um susto. Ao lado do Paratii, um pesqueiro de linhas nórdicas me seguia. Bem a frente estava à ilha Sydero. Agradeci pelo aviso… 08h50min, depois de contornar impressionantes penhascos e passar por canais estreitos e altos, entrei – com o radar a todo vapor, furando uma neblina grossa como algodão – no porto Tórshavn… uma verdadeira cidade de bonecas apareceu sob a neblina, com casas coloridas e antigas sobre pedras, algumas com telhados de grama verde fazendo ondas como trigais ao vento. Quando o casco tocou os pneus do cais, tive vontade de dar um grito animal de alegria, mas um simpático senhor surgiu na chuva, ensopado, para me tomar os cabos e ajudar a prender o Paratii. Atracado bem no centro da cidade. Ao pisar no cais de concreto, me senti pisando num sonho de verdade… na pequena península de pedra, no meio do porto, a noventa metros de onde estava vikings vindos da Noruega estabeleceram, no ano de 825 de nossa era… Antes de tirar minha bicicleta do barco…
    Forte abraço e, bons ventos
    Parati ii – Entre Dois Pólos. Companhia das Letras 1989.

    1. Tenho e já li este livro do Amyr Klink! mas não me lembro da passagem da bicicleta… vou investigar. Obrigado pela excelente lembrança!

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