A bicicleta como redenção – parte 1

Nas leituras de férias, encontrei nas páginas amarelas da revista Veja, edição de 13 de julho, uma entrevista com o filósofo Luiz Felipe Pondé.

Entre argumentos de política e religião, o filósofo ataca o esnobismo hipócrita de uma parcela da intelectualidade. No corpo da entrevista, dois trechos citam a bicicleta. Reproduzo:

A espiritualidade da esquerda é rasa. Aloca toda a responsabilidade do mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Isso infantiliza o ser humano. Ninguém sai de um jantar inteligente para se olhar no espelho e ver um demônio. Não: todos se veem como heróis que estão salvando o mundo por andar de bicicleta.
[…]
Todos falam de como seus filhos são diferentes dos outros porque frequentam uma escola que cobra 2.000 reais por mês mas é de esquerda e estuda a sério o inviável modelo econômico cubano. Ou dizem que a filha já tem consciência ambiental e trabalha em uma ONG que ajuda as crianças da África. Também se fala sempre de algum filme chatíssimo de que todos fingem ter gostado para mostrar como têm repertório. Mais timidamente, há certa preocupação com a saúde e o corpo. Reciclar lixo e, mais recentemente, andar de bicicleta também são temas valorizados.
[…]
Há muito corporativismo e a tendência geral de excluir, por manobra institucional, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da história, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel cabe hoje às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígenes, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora.
[…]
Ao lado de sua vocação repressora institucional, o cristianismo reconhece que o homem é fraco, é frágil. As redenções políticas não têm isso. Esse é um aspecto do pensamento de esquerda que eu acho brega. Essa visão do homem sem responsabilidade moral. O mal está sempre na classe social, na relação econômica, na opressão do poder.
[…]
Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo, que assume o papel de redentor. O grupo, como a história do século XX nos mostrou, é sempre opressivo.

Tirando a falha de não equiparar a hipocrisia da esquerda com a hipocrisia do cristianismo, e a igual tendência deste de colocar o mal fora do homem – o homem cristão é “frágil” por autocomplacência – é interessante derivar a opinião de que a bicicleta tornou-se um instrumento de redenção para alguns segmentos sociais.

No próximo poste.

[.]

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