Bicicleta como redenção – parte 2

De oohp | Flickr

Como objeto fabricado, feito por mãos humanas, a bicicleta é fruto da revolução industrial, que possibilitou catracas, correntes e pneus infláveis.

Mas sendo um artefato humano, feito para atender uma determinada finalidade ou uso, a bicicleta torna-se um objeto cultural, uma vez que se insere cotidianamente na teia de significados dos outros objetos e ações humanas.

A bicicleta tem significados e possibilidades diferentes em cada cultura.

Caminhos e sentidos que variam de país a país, de cidade a cidade. De pessoa a pessoa. Depende do que se quer e se faz da bicicleta como objeto e ferramenta. As macro e microsignificâncias.

Tirando a língua portuguesa, o Brasil tem 3 outros eixos semióticos ao redor dos quais gravita sua cultura:

– o fato de ter sido colônia
– a escravidão
– o catolicismo como religião hegemônica e imposta

Deles derivam 3 traços marcantes da cultura brasileira:

– a existência de um Estado antes que houvesse povo ou nação (Estado como sistema de leis e coerção)
– a aversão por qualquer atividade que exija esforço físico
– a crença na redenção e na salvação pela graça de deus, e a conduta moral de escusas que deriva disto

A bicicleta acomoda-se a tais arcabouços culturais brasileiros.

Primeiramente, para usar a bicicleta, as pessoas costumam condicionar que, antecipadamente, o Estado tenha dado condições ideias para pedalar. O clamor por ciclovias antepõe o Estado à cidadania. “Só pedalo se a prefeitura me der condições de fazer isto”. E mais do que óbvio dizer que a ânsia por leis e estatutos e planos de política cicloviária também é uma herança colonial que se repete dia após dia, à exaustão. Luta-se mais por leis (em geral pobres tecnicamente, mal elaboradas e desgarradas da realidade, mas muito aplaudidas e louvadas) do que se participa ou contribui na instalação de bicicletários em escolas ou supermercados.

Segundamente, a bicicleta exige esforço físico, o que, embora traga benefícios à saúde a longo prazo, é visto como atividade inferior, degradante. Há uma dicotomia: a bicicleta é boa para a saúde da pessoa, mas apenas quando usada como lazer/esporte. Como meio de transporte de cidadãos produtivos economicamente, a saúde é colocada em plano inferior, ofuscada pela aversão ao esforço físico que remete à falta de dignidade . Bicicleta é coisa de atleta ou de peão. Que mais pode assustar um ciclista iniciante do que chegar suado em algum lugar e ser confundido com um trabalhador braçal? Suor, esforço físico, isto é coisa de escravos. Ou de pobres, submetidos a semelhante sistema de exploração. Certíssimo o presidente da Caloi quando diz:

“O negócio de bicicleta no Brasil sempre foi um negócio de pobre”, afirma Musa, destacando que o maior volume de bicicletas ainda está nas pequenas cidades. “Quando a pessoa sai da zona rural e vai para a cidade, ela não leva a bicicleta. Passa a usar transporte coletivo e quando ganha um dinheirinho compra moto, carro. Bicicleta [para essa pessoa] é sinônimo de pobreza”.

Por terceiro, o católico vive uma vida desgarrada do mundo. Tem aversão a tudo que é mundano, ao que verdadeiramente dá a condição de existência do homem. O mundo é fonte de pecado. A vida digna de ser vivida é num lugar imaginário futuro não-corpóreo. E não é preciso fazer nada para merecer esta vida “verdadeira”. A salvação é uma ação misericordiosa e gratuita de Deus. Basta acreditar nisto. Os pecados ao longo da vida? São perdoados por meio de indulgências  ou ao se arrepender deles no leito de morte. Obtendo perdão dos pecados – não importa qual efeito tais pecados tenham causado nos outros ou no mundo, já que este é desprezível – alcança-se a salvação. Assim, a conduta moral é algo externo ao ser humano, e que dele pouco depende, não nasce de suas convicções, sentimentos ou elaborações mentais. Não é fruto da sua vontade e decisão.

Neste horizonte, a bicicleta passou a ser vista como redentora, como salvadora das nossas cidades escavacadas, maltratadas, das cidades fragmentadas. A salvação obtida pelo sofrimento e sacrifício de enfrentar escárnios e injustiças. Contudo, cidades fragmentadas são mais um sintoma da sociedade pós-moderna consumista. Cidades fragmentadas não são uma deterioração do espaço urbano decorrente do vício pelo automóvel: ele é, de fato, sintoma e não causa destas cidades.

Talvez deste povo seja o destino – e o deleite – de permanecer lacaios de entidades sobrehumanas. Tira de si a responsabilidade sobre si mesmo. Liberta da autodisciplina e da contenção ética. A aparência, a crença ou simplesmente a “intenção de” fazer ou mudar já é suficiente.

O país não precisa esforçar-se para fazer algo em seu próprio benefício, basta que não faça nada contra si mesmo. São, por conseguinte, os próprios povos que se deixam, ou melhor, que se fazem maltratar, pois seriam livres se parassem de servir. É o próprio povo que se escraviza e se suicida quando, podendo escolher entre ser submisso ou ser livre, renuncia à liberdade e aceita o jugo; quando consente com seu sofrimento, ou melhor, o procura.

Discurso da servidão voluntária, Étienne de La Boétie. Ed. Martin Claret, 2009. pág. 34

[.]

3 comentários sobre “Bicicleta como redenção – parte 2

  1. Não entendi a frase “A bicicleta acomoda-se a tais arcabouços culturais brasileiros.” Pelos seus argumentos (que eu concordo) tais elementos da cultura brasileira são incompatíveis com o uso da bicicleta. Por isso, muita pouca gente usa bicicleta por aqui. Não é isso?!

    1. Jonas,
      Não que seja incompatível no sentido estrito, ou seja, um impede o outro de existir. Obviamente não, pois usa-se muito a bicicleta por aqui.
      Aqueles elementos culturais LIMITAM – e muito – as possibilidades da bicicleta como objeto transformador. Desta forma, não acredito que a bicicleta, por ela só, possa “tornar nossas cidades melhores”. Ou que, com a inclusão delas, podemos “humanizar o trânsito”. É preciso ir bem além disto.
      Nem preciso dizer que SEM as bicicletas seria e vai continuar pior.
      Contudo, o que tenho visto são idealizações, que nos remete, como sociedade, a Paris, Copenhague, Koln e Pequim. Isto reforça a dicotomia real-ideal ao qual estamos presos. Enquanto no ideal vivemos um mundo perfeito, no real, no dia-a-dia, a bicicleta torna-se mais um elemento reforçador de tudo aquilo.

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