Na cidade sem minha bicicleta

Prefiro bicicleta, mas vez ou outra preciso usar o automóvel para alguns deslocamentos.


Para aquelas rotinas já sabidas, como levar meninos na escola, ou ir a restaurantes com a família no final de semana, pego o volante e entro no fluxo com o grau máximo de resignação inerte dos gados.

Como todos os dias, preparo-me para ir ao trabalho pedalando.
O prédio onde moro está em reforma. Pó, terra, andaimes, tábuas e

pregos por todos os lados.
Contrariado, tenho que viver um dia de motorista.
Foi difícil não me irritar ao dirigir com coração de bicicletista…


Pra começar o dia, como sempre, o caminhão de gás estaciona travando os carros naquela ponta da quadra. E o meu era um deles.

Enquanto o entregador leva o botijão, o motorista fica paquerando a babá de bunda grande e short pequeno. Adianta pouco procurá-lo. Em geral ele vai bem longe, seguindo os passos dos seus hormônios. Se eu estivesse atrasado, a espera de 10 minutos já teria estragado meu dia.

Depois de várias retenções nos balões da cidade sem esquina, e na tesoura de acesso ao eixo, preciso procurar uma vaga.

Vou tentar aqui… ali deve ter… olha uma!, não dá, alguém estacionou pegando duas vagas. O flanelinha com olhos de faca anuncia: Uma vaga, dotô! Vai querê? Só se lavá o carro.

Desisto, vou procurar lá do outro lado, que é certo encontrar.
Quando o governo quis implantar a zona azul, cobrando taxas pelo estacionamento rotativo, a lojista reclamou, o jornalista vociferou e a senhora católica rogou pragas. Mas todos dão gorjeta ao flanelinha.

Indo pra casa, o trânsito todo lento porque um homem falando ao celular não viu a mulher que trocava o CD que não viu o motoqueiro…. tudo engarrafado desde o sinal da W3.

Deve ter sido notícia no jornal, como sempre, que vive de anunciar carros de todos os modos e em todas as páginas.

Para levar o filho ao colégio, depois do almoço, já estou acostumado. A frente do colégio vira um caos.
O trânsito fica tão retido que alunos andam entre os veículos sem o costumeiro medo nos rostos (um carro parado é um ogro dormindo). Alguns até brincam e batem papo nas janelas dos carros.

O tempo que eu gasto só para sair da alça do estacionamento é o mesmo tempo que gastaria de bicicleta, do colégio até em casa: 10 minutos.

Voltando ao trabalho, passo pela avenida. Cada parada nos semáforos, ao sol escaldante, faz escorrer um fio de suor no rosto e um fio de desalento no peito.

Um palhaço triste troca pirulitos por qualquer trocado. Penso nos meus filhos. Eu trocaria todas as bicicletas que tenho por uma christiania que pudesse carregar o mais novo e sua mochila gigante… Fazer o quê se a indústria nacional de bicicleta só fabrica mountainbikes para diversão nos finais de semana?? Às vezes nossas escolhas são impostas pela contingência. Outras vezes, não.

Este bebê está a salvo? Ou está confinado? Igual às crianças presas em apartamentos, todas com medo do tráfego violento que esmaga a cidade.

Em um dos semáforos, um carro ao lado toca uma música altíssima. Vai, tunquetchunque, vai, vai, tunquetchunque, vai, tunquetchunque…. Arrasta uma luz neon azul em pleno dia. A luz e o zumzunque ecoam dentro do carro e dentro da caixa encefálica esponjosa. O boné virado pra trás não consegue esconder que lhe falta um dente, e o córtex danificado. Imagino que o som do carro lhe custou no mínimo dois meses de salário e nenhuma visita ao dentista.

Mais adiante, outro apenas ameaça

e passa em silêncio. Ufa!

A caminho, preciso pegar uns resultados de exames. Nem perco tempo procurando vaga próxima ao centro clínico. O gramado está lotado de carros, e as calçadas também e a frente das casas e garagens. O estacionamento pago está vazio. Fico 15 minutos, mas pago a hora cheia.

A multa seria mais cara que o rotativo – e a cidade seria melhor – mas multar é uma palavra inexistente no vocabulário de ação do órgão de trânsito – eles fecham os olhos, eles próprios também motoristas.

Esta sobrebujança das vantagens individuais, esta desconsideração com o outro e falta de compromisso com a coletividade

Estes coletores ficam a 30 metros de um posto policial.

está em todo lugar, no pátio das igrejas, nos comércios, no Congresso, nos clubes, na universidade.

Na esquina, vendedores de tudo querem me empurrar felicidade descartável made in china bolso abaixo.

Eu fecho o vidro.

O garoto, que dava piruetas antes do sinal fechar, faz cara de choro na janela e pede esmola enquanto a mãe dele o monitora debaixo da árvore.

A prostituta sentada no meio fio com os joelhos afastados acena, a boca cheia de batom e o coração vazio.

Passo todo dia nesta esquina, de bicicleta, e eles nunca me viram.

Procurando vaga de novo, passo por um carro parado em fila dupla.

Então, ao entregar o presente e a carteira de motorista, falou deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o senhor teu deus, que te tirei da servidão do transporte coletivo e do suor do esforço físico das caminhadas. Amarás a mim e ao teu presente sobre todas as coisas. Guardarás domingos para lavar e encerar teu carro. Matarás, fugirás e não serás julgado. Não cobiçarás a Mercedes do próximo. Castidade, roubo, falsos testemunhos, se possível evites, mas as leis de trânsito só valem para os outros.

Como assim? Foi pessoalmente na concessionária e comprou à vista? ou financiado em 90 meses com juros 0% e IPI reduzido??

Mais do que apregoar conquistas pessoais, ou fazer invocação de proteção, a metonímia explica a tendência cultural e a necessidade existencial de tirar de si a responsabilidade pelos atos.

Na maior das vezes, feita por acomodação, a partir de pequenos e constantes ajustamentos àquilo que a maioria admite como certo. Ajustamentos constantes que vão conformando os desejos, as sensações e os processos cognitivos.

Bois no pasto não fazem escolhas conscientes, vivem num mundo dado, não vivem em conflito. Seguem seus instintos e cercas elétricas. Mascam capim debaixo da árvore enquanto esperam a fila andar – mais um acidente travando o fluxo e menos um pedestre – e a vida é esta bestagem.

Mais do que uma extensão da família

o automóvel é uma extensão das pessoas, que se transmudam em ciborgues, ser híbrido que expande suas capacidades utilizando tecnologia e motores. Ser mais que humanos: Hermes, cujas asas nos pés são rodas. A velocidade quem vem do motor fascina, com ela tem-se o espaço e o tempo sob controle, aqui e agora. Ou pelo menos acredita-se nisto.

Parei um pouco antes na faixa de pedestre e recebi uma buzinada. Quem era no outro carro, jovem, velho, homem, mulher? Não deu pra ver pela película escura, só percebi um gesto de dedo. Reduzi para alguém fazer a manobra e levei outra buzinada. Em compensação, pela fresta da janela semi-aberta do carro da frente recebi um gesto de dedo, desta vez um polegar agradecendo. Cadê os rostos, o corpo inteiro? O carro me isola de tudo e todos, pois ser humano é estar junto.

Uma luz acesa no painel me avisa que é preciso parar e abastecer.

O dinheiro que gasto para encher o tanque e rodar um mês equivale às duas manutenções que faço na bicicleta para o ano inteiro.

Vou dormir menos cansado, a falta que as pedaladas fazem ao corpo! Amanhã será outro dia, e poderei novamente dizer não a um modo de vida que reprovo, a minha grande recusa. Comprei uma câmara de ar nova.

[.]

15 comentários sobre “Na cidade sem minha bicicleta

  1. Muito bom, Denir! Sempre fico na agonia quando tenho que andar de carro por falta de opção (em alguns casos, dependendo da sua vida, não existe mesmo).

  2. Vez ou outra me vejo preso a essas carapaças metálicas, motorizadas e geradoras de um stress sem tamanho. É frustrante estar entalado (ou seria enlatado?) em um engarrafamento sem sentido, sabendo que, se estivesse em uma bicicleta, passaria por estes carros, sentindo o vento no rosto, contemplando a cidade e chegando na hora em meu destino.
    Felizmente esses momentos são raros. Utilizo quase que somente a bicicleta para me deslocar.

    Belo texto!
    Sigamos pedalando.

  3. Denir,

    Exatamente assim que me sinto de carro parada no trânsito “resignação da inércia dos gados esperando na fila”. Também no metrô na praça da Sé em Sampa é o mesmo sentimento e ainda tem aquelas barras para contenção, para o gado não atropelar uns aos outros, cria-se um funil. No mesmo instante (nas poucas vezes que estou lá nesta situação) me lembro imediatamente da canção ” ..eh vida de gado…povo marcado, povo feliz!…”

    Parabéns, ótima descrição!

    Vilma Moraes
    V.Mariana-S.Paulo-SP

  4. Até arrepiei ao ler esse desabafo. Me parece que evoluí, passei de ciclista para cicloativista, mas consigo compreender seu sofrimento. Não tenho carteira de motorista e tãopouco carro. Tenho 22 anos,pedalo desde os 3 e me considero LIVRE. Senti no texto a falta de liberdade que as pessoas têm com a pseudo-liberdade que advém de se dirigir uma máquina a 150km/h.

    Belas palavras.

  5. Por isso, prefiro fazer de cada dia um Dia sem Carro. Sem estresse e com muita diversão, passando entre os carros engarrafados e estacionados por todos os cantos da cidade. Xô, carrocracia insana!

  6. Grande Denir!!!
    Bela postagem e relato. Muitas vezes sinto o mesmo quando estou no meio do trânsito cruel que cada vez mais habita na maioria das cidades de nosso país. Mas a cada dia que saímos de bicicleta mandamos uma mensagem bem forte. Uma mensagem de que outro veículo e outra vida é possível.
    Como numa grande subida que exige muito de nossos músculos e de nossa mente, penso que o segredo é termos paciência e persistência.
    Se acreditamos que estamos num bom caminho, se torna uma responsabilidade nossa transmitir isso para quem conseguirmos.
    Sigamos em frente e pedalando sempre.
    Grande abraço.

  7. Cara… Na boa… O inferno é aí onde C mora. Foi essa a sensação que eu tive lendo seu artigo. Já pensou em se mudar pro interior?

    Forte abraço e boa sorte!

  8. Muito bom seu texto. Irônico, crítico, inteligente e… realista!!! Muito realista, independente de onde você esteja. A Amazônia não são mais as florestas, a vida de 90% das pessoas aqui na Amazônia identifica-se mais com seu texto do que com as florestas… seja dentro do carro, ou no pedestre atropelado, ou no flanelinha, ou no vendedor de felicidade plástica chinesa…

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