O sapato rasgado

Kumiko desceu correndo as escadas do templo e pegou a bicicleta encostada no muro de pedras.

Antes mesmo de passar das estátuas no portal, o cadarço do sapato enroscou-se no pedal e ela caiu. Mestre Kitô, que estava ali por perto varrendo os degraus, aproximou-se:

– Por que tanta pressa, Kumiko?

– Mestre, o Fim de Ano está chegando e ainda tenho muita coisa importante para fazer. Não consegui terminar todas as  tarefas. Não posso perder tempo…

Mestre Kitô abaixou-se, verificou a ferida no joelho e disse:

– Vá procurar Mestre T’aipo para limpar este sangue.

– No começo dos tempos – ele continuou – não havia Primavera, Verão, Outono, Inverno como chamamos agora, mas só o movimento das estrelas e das nuvens no espaço. Desde que os seres humanos observaram o movimento das mudanças, e as diferenciou dando nomes a elas, agora temos as quatro estações em ciclos. Por isto também, existe algo chamado de Ano Novo. Dar nome é colocar marcas, como lanternas pelo caminho. Mas nós, seres humanos, somos também a energia que está se movendo e mudando sem parar. Um poeta escreveu certa vez:

no céu e na terra, acaba de chegar a Primavera,
Mas ela, aqui no meu coração, desconhece o tempo.
Desde o momento em que nós nos amamos,
florescem flores no jardim do meu coração
continuamente.

– Agora levante-se, Kumiko, e primeiro vá costurar seu sapato que está rasgado. Isto prenderá o cadarço, disse Mestre Kitô e voltou a varrer folhas e gravetos.

[pequeno conto de Ano Novo, inspirado neste texto e na figura Manjusri (on a bicycle), da artista japonesa Mayumi Oda]

[.]

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