Arquivo mensal: maio 2012

Esta revolução é uma mentira

Video I was a teenager anarchist da banda Against Me!
Assista antes e depois responda à pergunta.

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[tem muito político por aí apregoando a revolução das ciclovias, das bicicletas, da “mobilidade sustentável”, o que seja. Deputado, assessor, governador, prefeito. E muito ciclista-de-final-de-semana também. A letra da música é um requiem para todos eles, principalmente o que se diz em 2:24!!]

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Pergunta: quantas bicicletas você viu no vídeo?

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Falando sobre ciclovias no Plano Piloto

Na quinta-feira, 17 de maio, houve audiência pública no Ministério Público sobre as ciclovias no Plano Piloto.

Muita gente falou, tinha dezenas de pessoas, maioria do GDF, muita gente falou besteira, mas alguns pontos foram esclarecidos. Pelo propósito que tinha, foi boa reunião.

Mas o foco da discussão estava errado: não precisa debater quem é a favor ou contra ciclovias. Ninguém vai ficar contra ciclovia. É como debater sobre quem é a favor ou contra construir escolas, por exemplo.  

Precisa debater ONDE elas são necessárias e SE são necessárias. Uma analogia com escolas: precisa construir uma ao lado da outra? Construir lá na zona rural, onde moram 2 crianças?? É preciso saber onde construí-las, para aproveitar melhor e usar com bom senso tanto o espaço urbano quanto os recursos públicos. Por isto, deixa de ser uma discussão política, ou de ideias, de um mundo utópico idealizado e ideologizado – como foi 90% da audiência – para ser uma discussão técnica, ou melhor, prática.

Os argumentos se repetiam, muitos apenas de “ouvir dizer” e ficou parecendo que todos estávamos dando voltas em torno de uma discussão elitizada.

Tudo bem, ficou óbvio que há uma decisão política de construir ciclovias, vias segregadas, sem tocar no espaço para carros ou  por causa do suposto perigo de andar de bicicleta.
[a penúltima apresentação, quase chegou a dizer que andar de bicicleta na cidade é opção suicida…, 😦 jogando a culpa na bicicleta, quando na verdade é culpa do carro].

Há esta decisão? Então, que tal aproveitar uma das fitas de calçada, transformando-a em ciclovia?? Uma das pessoas com mínimo senso crítico disse: hoje temos 2 espaços subutilizados (as duas fitas de calçada que margeiam todas as quadras do Plano Piloto, aquela calçada mais larga e a outra mais estreita). Depois da ciclovia, teremos 3 espaços subutilizados!

Mais sensato seria converter a calçada mais estreita em ciclovia, alargando-a. De fato, mais de 70% desta calçada hoje está destruída.
Seria  mais uma obra, como parece ser intenção do GDF e, sem destruir muita área verde, revitalizaria este espaço urbano hoje abandonado.

Saindo da reunião, a melhor informação de todas, papo de elevador: o BID não financiou as ciclovias do Plano Piloto porque elas não seriam indicadas por causa da baixa relação custo/benefício. Ou seja, estão jogando dinheiro fora.

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ABC para construção de ciclovias

A de Adolf Hitler

B de Berlim

C de Carros


O Ano é 1934. Adolf Hitler já tinha chegado ao poder pelo Partido Nacional-Socialista. Neste mesmo ano, ele tornou obrigatório o uso das ciclovias, sob pena de punição para os ciclistas.

Ciclovias já vinham sendo usadas para melhorar o caminho dos ciclistas desde o final do século XIX. Já por volta de 1860, o Cyclist Touring Club, da Inglaterra,e a League of American Wheelmen reivindicavam ruas com melhor superfície para pedalar.

De fato, antes da política nazista, ciclovias eram melhoramentos feitos em parte da rua, para que os ciclistas não sofressem tanto com buracos e trepidações (era época das bicicletas bonneshaker, penny-farthing, sem pneus de borracha e outras melhorias que só surgiram em meados do século XX). Também haviam ciclovias feitas nas regiões rurais, como incentivo ao turismo.

Por volta dos anos 20, com a crescente indústria do automóvel, cresceu por toda a Europa a pressão para tirar os ciclistas das ruas e favorecer o fluxo dos carros, conforme mostra esta citação, registrada no First Dutch Roads Congress:

After all, the construction of bicycle paths along the larger roads relieves traffic along these roads of an extremely bothersome element: the cyclist.

Afinal, a construção de ciclovias ao longo das ruas principais elimina destas mesmas ruas um elemento extremamente incômodo: o ciclista.

Propagandas dos governos e das entidades de motoristas anunciavam as ciclovias como pró-ciclistas, e pela primeira vez empregaram o argumento da “segurança” para obrigar os ciclistas a usá-las.

Cartaz nazista de 1934.
O título diz: “Ciclovias evitam acidentes de trânsito”

Porém, até 1970, não há registro de reinvindicação de ciclovias, por parte de ciclistas, alegando motivos de segurança.

Em 1926, o uso da ciclovia foi tornado obrigatório, numa Alemanha já fortemente nazista – Hitler publicou Mein Kampf em 1925 e em 1926 foi fundada a Juventude Hitlerista.

Pela segregação, alegava-se também a necessidade de um “controle apropriado do tráfego”.

Em 1930, as primeiras ciclovias na Holanda foram construídas pela ANWB – uma associação de donos de automóveis.

Durante a Segunda Guerra, sob ocupação nazista, o uso de ciclovias foi tornado obrigatório na Holanda.

Na Alemanha Nacional-socialista, a construção de ciclovias tornou-se integrada à propaganda do Estado e do Partido Nazista como pré-requisito para ampliação do tráfego motorizado. Esta política foi apoiada pelo Nationalsozialistische Kraftfahrer-Korps (NSKK) (Corporação Nacional-Socialista dos Motoristas) e pelo Automóvel Clube da Alemanha – Der Deutsche Automobil-Club (DDAC).

Em 1º de outubro de 1934, de acordo com o Reichs-Straßen-Verkehrs-Ordnung (RStVO) – e na mesma linha de segregação e limpeza étnica promovida pelo Führer – para justificar a “limpeza das ruas”, cavaleiros, pedestres e ciclistas foram classificados como cidadãos de segunda categoria.

Juventude hitlerista - Youth Hitler

Fontes:

Geschichte der Radfahrwege (o mesmo texto em inglês, pode ser lido aqui History of cycle tracks, e a tradução em português, aqui)
Automobilverbände bestimmen Fahrradpolitik
A History of Cycle Paths


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Ciclovias do GDF ferem o tombamento de Brasília


A mobilidade sustentável por bicicleta não aceita a destruição de áreas verdes
em seu nome.


Além disto, a destruição das áreas verdes, com as ciclovias que o GDF quer enfiar goela abaixo, fere o tombamento de Brasília!

Diz Lúcio Costa:

As instalações teriam sempre campo livre nas faixas verdes contíguas às pistas de rolamento. As quadras seriam apenas niveladas e paisagisticamente definidas, com as respectivas cintas plantadas de grama e desde logo arborizadas, mas sem calçamento de qualquer espécie nem meios-fios. De uma parte, técnica rodoviária: de outra, técnica paisagística de parques e jardins.

Memorial do Plano Piloto de Brasília

O destaque em negrito na citação é meu.

Cadê o parecer favorável do IPHAN, autorizando a destruição das áreas verdes?? Deve estar na gaveta também??

O Plano Piloto precisa, sim e urgente, de caminhos para bicicletas. Mas pode-se usar ou a estrutura já existente, ou tomar o espaço dos carros. Ciclovias são a última opção, pois são obras caras e devem obedecer fatores objetivos para sua construção.

Em muitos lugares do Plano Piloto elas são desnecessárias por enquanto. É preciso ter um planejamento a longo prazo, que, além de obras, faça campanhas para incentivar o uso de bicicletas e desestimular o uso de automóveis (pedágios, estacionamentos rotativos pagos, etc). Com isto, se o número de biciclistas aumentar significativamente, então pode-se pensar em ciclovias, onde elas forem necessárias.

Não se pode destruir o verde e ferir o tombamento para deixar espaços intocados para automóveis .


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(Aliás, por falar nisto, o GDF está destruindo área verde junto à estação da CEB na 911 sul para – mais uma vez – alargar pistas para carros. Também foram destruídas área verde e calçada em frente ao Hospital Naval, para criar mais vagas de estacionamento. Quando esta sanha destrutiva vai acabar??).

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Mapas das ciclovias no Plano Piloto

O começo das obras da ciclovia da UnB levanta uma dúvida: o que o GDF vai fazer? por onde vão passar as ciclovias no Plano Piloto? Ninguém sabe a resposta. O Programa PEDALA-DF foi extinto e o que sobrou foi só um resquício de informação, nesta página do DER-DF.

Nenhuma informação foi trazida a público, não houve discussão com a comunidade. Nada foi atualizado, tudo vem acontecendo nos gabinetes – espero que com câmera de vídeo!

Mas encontrei alguns mapas das ciclovias propostas para o Plano Piloto! Estão muito bem escondidinhos, encontrei-os por acaso.

Ciclovia 201 Sul
Ciclovia 201 Sul

Quando pesquisava sobre o concurso das passagens subterrâneas, deparei-me com esta página do IABDF que lista as bases regulamentares para o concurso que houve.

Entre os documentos anexos ao Termo de Referência, encontra-se o Anexo 10 – Plano de Ciclovias denominado “Pedala Brasília”. O linque leva a um arquivo compactado .rar com 10 PDFs.

Não é o mapa completo das ciclovias. São alguns poucos trechos: 105 e 205 norte, 109 e 209 norte; 115 e 215 sul, 113 e 213 sul, além da 201 Sul (a comercial ao lado do Banco Central) e a 102 sul (rua das farmácias indo para o Hospital de Base). Vê-se claramente que a intenção não foi divulgar o programa de ciclovias, mas apenas oferecer insumos técnicos para o concurso, pois são trechos de ciclovia que se interligam por passagens subterrâneas.

Baixei o arquivo .rar, descompactei-o e coloquei os PDFs aqui. São plantas baixas, com desenho técnico e muitas outras informações.

Se você quer ver apenas o traçado das ciclovias, gerei as imagens abaixo, mais leves e em .jpeg. Clique nelas para vê-las em tamanho grande.

Ciclovia 102 Sul
Ciclovia 102 Sul
Ciclovia Hospital de Base
Ciclovia Hospital de Base
Ciclovia 113 Sul
Ciclovia 113 Sul
Ciclovia 213 Sul
Ciclovia 213 Sul
Ciclovia 115 Sul
Ciclovia 115 Sul
Ciclovia 215 Sul
Ciclovia 215 Sul
Ciclovia 105 Norte
Ciclovia 105 Norte
Ciclovia 205 Norte
Ciclovia 205 Norte
Ciclovia 109 Norte
Ciclovia 109 Norte
Ciclovia 209 Norte
Ciclovia 209 Norte

Como o projeto das ciclovias no DF está guardado em gavetas, nunca foi discutido a público, vou partir apenas de deduções – e de algumas informações recebidas de ouvido.

Primeiro, se o concurso das passagens usou estes mapas, eles estão sendo considerados válidos pelo GDF. Ou seja, mesmo que extinto, as bases do PEDALA-DF ainda vigoram.

O projeto das ciclovias do PEDALA-DF é do Governo Roriz. O mapeamento foi feito por uma escritório de arquitetura de fora de Brasília, que vê nas ciclovias a única solução para as bicicletas. É sabidamente contra ciclofaixas, calçadas compartilhadas e zonas 30. O projeto passou pelo Governo Arruda, escondido – em gabinetes, sem câmeras! O atual governo descobriu as ciclovias como forma de impulsionar sua fraca política de trânsito (metrô lotado e em greves sucessivas, volta das vans, liberação de ônibus-sucata, permissividade, etc). Tirou o projeto rorizista da gaveta. Não discutiu, nem perguntou se era bom. Por força de pressão do Ministério Público, criou um GT intragovernamental, que se tornou, porém, um espaço de pensamento único – sabe-se que não se aceita desacordo ou pedido de revisão dos projetos.

Como é um produto de gabinete, feito por pessoas que não andam de bicicleta – nem a pé, em calçadas… – , vê-se de pronto que o projeto é cheio de falhas grosseiras. Nestas plantas, que mostram apenas 6 setores reduzidos da cidade, pode-se indicar vários erros.

Por exemplo, na ciclovia que passa pela 102 Sul, segue paralela ao eixinho W e depois pelo Hospital de Base, colocaram a ciclovia em cima da calçada no pior ponto possível.

Este é o detalhe da planta baixa. Preste atenção no trecho onde está o traço vermelho 45|46

e esta é uma foto do local:

É uma “esquina” complicadíssima. Além de ser inclinada, com um poste de concreto no meio, por esta calçada passam centenas de pedestres e mais: cadeirantes, pessoas adoentadas, com dificuldade de locomoção, amparadas por parentes. Não se pode colocar uma ciclovia ali, jamais! A solução? tomar o espaço dos carros que ficam estacionados na via ao lado.

(vai entender… o GDF é contra calçadas compartilhadas, mas adota a ideia nos piores lugares possíveis!)

Outro vacilo: vão passar a ciclovia ao lado dos quiosques da 201 sul. Este trecho já está saturado. Além de quiosques, há uma bela área verde e, mais do que isto, há diariamente um intenso tráfego de pedestres, sobretudo na hora do almoço, dos milhares de funcionários da Caixa e servidores do Banco Central. Não é boa ideia colocar ciclovia ali.

Planta:

Foto do local:

Outra coisa: para quem segue nas asas o trajeto longitudinal  (norte-sul) e pretende cruzar as quadras comerciais, vão forçar os ciclistas a usarem os semáforos.

(É o que está proposto nesta planta-baixa da 201 Sul e também na rua das farmácias. Além de ser uma das maiores concentrações de pedestres, na 201 Sul tem um “puxadinho” no meio do caminho, no meio do caminho tem um “puxadinho”…)

Semáforos seriam opção civilizada, se funcionassem para pedestres/ciclistas. Contudo, muitos estão com a botoeira quebrada. E todos deixam um tempo mínimo de travessia: em geral, os semáforos dão 30 segundos para os pedestres e 3 minutos para os carros.

(parando em cada semáforo, por 3 minutos, o ciclista que sai do final da Asa Sul para a região central vai somar 21 minutos a mais no seu tempo de deslocamento. É praticamente dobrar o tempo gasto. Que ciclista vai usar isto??)

Antes de responder por onde vão passar as ciclovias do Plano Piloto, é preciso repensar: elas são mesmo necessárias?

Em muitos lugares, não, ciclovias não são necessárias. Outras alternativas viáveis são ciclofaixas, zonas 30 e calçadas compatilhadas, onde seja baixo o fluxo de pedestres e de ciclistas.

É preciso ciclovias? Sim, em lugares específicos e com base em fatores objetivos. De preferência, sempre tomando o espaço dos automóveis e, assim, invertendo a lógica urbana criada pelo governo nazista alemão, na década de 30, que adotou ciclovias para expansão do tráfego motorizado.

Ciclovias derrubando área verde? Nunca, jamais! A “mobilidade sustentável” da bicicleta não quer isto. Só este crime ambiental pede alguma medida que embargue o “Pedala-DF” e obrigue o GDF a discutir as ciclovias. Encontrar erros crassos em tão poucos mapas é outro forte motivo. O que mais pode haver?? Ninguém sabe. Por enquanto, não tem nada de democrático, nem nada de popular, nem nada de participativo.

Se estancar a sanha do obrismo e do proselitismo, quem sabe damos um tempo para o GDF sentar e fazer planejamento cicloviário, e não apenas obras (superfaturadas?).

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