Ciclovias da Asa Norte e Sul: coda

Recebi uma carta do meu velho mestre Kant, lembrando das lições sobre imperativos categóricos. Por isto, sinto necessidade de voltar ao assunto “ciclovias no DF”, para me explicar junto aos meus 11 leitores assíduos.

Ciclovia é um assunto que foge da proposta deste blog. Mas que foi abordado aqui, gerou polêmica, e não posso simplesmente parar de falar nele sem dar uma explicação. Ou colocar um ponto final.

Sei que vão perguntar “como assim ciclovia foge da proposta de um blogue sobre bicicleta?” Então já respondo: porque ciclovia não é bicicleta, e bicicleta não se confinam em ciclovias. Ciclovias, uma vez obras de governo, são apenas a materialização de uma política pública. Que não necessariamente é uma política cicloviária, muito menos uma política de mobilidade. E pra falar a verdade, infelizmente, por tradição brasileira, que carece de uma concepção madura de cidadania, e de cidade por derivação, construção de ciclovias é apenas oportunismo político.

Discussão sobre construção de ciclovias está no âmbito das macropolíticas. E a proposta deste blogue é fazer poesia e micropolítica: dar atenção à bicicleta no pequeno, raso, cotidiano. Não bicicleta como bandeira partidária, ou política de governo, ou dogma religioso, mas a bicicleta no que ela sabe fazer de melhor: mudar o mundo mudando pequenos hábitos de cada pessoa que escolhe andar de bicicleta hoje, agora, neste momento. Que pode pedalar por ciclovia ou não. Infraestrutura é importante? Sim, mas secundária. Sem que haja mudanças no modo de ver e estar no mundo, no Weltanschauung, ciclovias de pouco servirão. Obviamente, infraestruturas cicloviárias podem ser catalisadoras de mudança, eu acredito nisto sim. É um processo dialético, ou mais que dialético: é complexo. A melhor imagem que posso trazer para ilustrar este pensamento é a construção de fractais.

O Todo é construído por padrões similares que se repetem, ou auto-similaridade em escala. Não é o Todo que determina as partes, mas é determinado por elas num sistema de funções interativas.  Não é a política do governo que determina as pessoas, mas os hábitos das pessoas que determinam o comportamento dos governos.

Passa longe de uma equação linear de X e Y. Dobrar os kms de ciclovias não significa dobrar o número de ciclistas na cidade. Aumentar os kms de ciclovia não significa, linearmente, reduzir acidentes e mortes com bicicleta. A equação tem muitas variáveis.  Pra resumir este prolegômeno: ciclovia é muito pouco para mudar a percepção de mundo e para mudar hábitos.

Pode-se falar em política pública de incentivo à leitura, que construa biblioteca sem que haja livros e leitores? Existe uma cidade esdrúxula assim, que constrói uma biblioteca sem ter livros dentro, sem ter um programa de acervo a longo prazo? Ops, existe e é esta mesma aqui…
Ciclovias são meramente obras de concreto, como uma biblioteca vazia.

Então, por que eu falei de ciclovias vários posts seguidos? Porque fui tomado de espanto e indignação. Quando vi ciclovias sendo construídas nas áreas verdes da Asa Norte, da noite pro dia, percebi logo que não se tratava de boa coisa. Depois, acompanhando as discussões pelos comentários neste blogue, e nas listas por email, percebi que a coisa era mais sórdida do que eu imaginava.

O GDF está construindo as ciclovias sem estudos e planejamento. Não há transparência nem discussão com a sociedade. Existe um GT de ciclovia, que foi manietado por sombras do Pedala-DF. Passaram meses sem publicar os mapas, dizendo que era muito difícil (eu publiquei em PDF com um trabalho de poucas horas).

E como está a situação hoje?

1) o Iphan-DF disse que as ciclovias não ferem o tombamento – mas isto é irrelevante, uma vez que o Iphan-DF, em termos de tombamento de Brasília, foi publicamente reprochado pela Presidência Nacional do IPHAN;
2) as obras foram embargadas com a condição de o GDF apresentar um estudo de impacto e de soluções e dar ampla publicidade;
3) as obras foram retomadas na Asa Norte e iniciadas na Asa Sul sem que este estudo fosse apresentado – pelo menos, não há notícia pública de que o GDF o tenha apresentando;
4) nos cruzamentos das comerciais, a preferência será dos automóveis. O ciclista vem na ciclovia, para e desce da bicicleta, sinaliza para atravessar e depois continua – é assim que o Detran-DF interpreta a “prioridade para pedestres e ciclistas” prevista no Código de Trânsito;
5) há promessa de que, em tais cruzamentos, haverá semáforos para ciclistas – tão bons e eficientes quanto os atuais semáforos para pedestres, que dão 30 segundos para atravessar e 3 minutos para os carros, e com o mesmo cronograma de manutenção periódica – nunca – das botoeiras;
6) continua a falta de transparência e publicidade do GDF, do seu GT-Ciclovia e dos representantes da sociedade civil que o compõem.

Todas aquelas reuniões havidas, seja no MPDFT ou com parcelas da sociedade, não tiveram como finalidade discutir melhorias ou debater a necessidade das ciclovias ou dar transparência. As reuniões foram feitas e agendadas com o intuito não declarado, mas óbvio, de não permitir o embargo geral das obras.

Fui à reunião no MP e se via, claramente, no rosto das pessoas, aquela ansiedade de não poder falar contra ciclovia. Quem é que pode falar contra ciclovia hoje em dia, sem ser queimado na fogueira? Quem não anda de bicicleta tem este medo. Ninguém ali, próceres do GDF ou do MP, ou das prefeituras, ou da UnB, ninguém ali anda de bicicleta. Via-se a apreensão nos olhos. Como poderiam falar contra ciclovia? Para sair no jornal no dia seguinte?

Mas eu sou contra as ciclovias que o GDF está fazendo nas Asas Norte e Sul. Porque elas são ruins, mal estudadas, mal construídas e sobretudo desnecessárias. Quando estiverem prontas, simplesmente porei em prática a grande recusa de que falou Marcuse (Eros e Civilização, cap. 7)

Mas as obras vão satisfazer o ego de alguns burocratas, de uns técnicos e de muitos ciclistas. Os ciclistas que estão dialogando com o GDF, lhe dando apoio, a quem o GDF escuta. Ciclistas que acreditam em macropolíticas e que se sentem confortáveis no colo do pai-governo.

O GDF está tratorando ciclovias, estuprando a cidade com ciclovias, e há muitos ciclistas tendo ciclo-orgasmos nas redes sociais e nas listas e nos passeios pela ponte. Uns têm gozos histéricos, diários, e, como putas, reagem agressivamente contra quem ousa ao menos questionar seus deleites. Outros gozam em sigilo, fazendo cara de dor e espanto, mas no íntimo se deliciando “finalmente teremos ciclovias na cidade”.

Não foi erro de digitação!! Não troquei o “C” de coda por aquela letra que fica logo acima no teclado…

Coda é uma palavra italiana usada em música para sinalizar o fim da interpretação musical. É a última seção; depois dela, acabou.

Quero mais voltar para minha vida em haicais. Tão insignificante quanto a grama e o verde que foi arrancado para passar uma faixa de concreto.

Na plateia
assistindo este espetáculo grotesco
ciclovaias para as ciclovias do GDF!

[.]

8 comentários sobre “Ciclovias da Asa Norte e Sul: coda

  1. Denir, apenas duas observações:
    1) É complicada a participação dos poucos (3) “representantes” da sociedade civil (indignados) que se dignam a aparecer nas reuniões – onde não há ata e não se consegue registrar as intervenções, mas apenas o que decide a maioria das Secretarias representadas ali…
    2) Vislumbra-se um ar de mudanças (após se bater tanto na mesma tecla…) no órgão competente, responsável por “promover trânsito seguro e civilizado” – vão dar preferência ao ciclista até que coloquem os semáforos (que, como você bem colocou, com o ótimo cronograma de manutenção, “sempre” estarão funcionando perfeitamente…)

  2. Parabéns pela coragem de ser contra o modismo, a palavra mágica e panacéia das Ciclovias. Essas ciclovias estão assustando a todos pela forma como está sendo imposta à sociedade, sem discussão, sem sentido. Os moradores ficam sem entender o que está acontecendo, o processo está sendo truculento mesmo. Que não nos calemos e deixemos registrada nossa indignação. Abraços

  3. É realmente um absurdo o que está acontecendo. Na entrequadra EQS 214/215 destruiram as calçadas onde diariamente transitam centenas de pessoas para construção de ciclovias e de um estacionamento. Não há planejamento. O pedestre simplesmente passa onde der ou puder passar.

  4. Lamentável posts como esse, que mundo vive esse cidadão? Materialização de política pública que contemple as ciclovias, significa que a opção esta dada, existe alternativa, como existem pessoas dispostas a questionar o inquestionavel. Para tentar diminuir os carros na via é preciso criar outra alternativa de mobilidade, não tem como orientar uma comunidade a utilizar outro modal, sem que para isso seja construida infra adequada, para isso o concreto é o melhor material, pois esta em conformidade com o tombamento de brasília e oferecerá maior vida útil para as obras. As críticas só são boas se tem algum intuito construtívo. Escrever só por exercício e com conteudo tão bizarro, entendo que devemos ouvir todos os lados, mas parece que vcs aqui realmente estão perdidos, sem informações, e tão pouco uma opinião respldada por fatos. Silvana, Cristiano, Mara e o autor inicial do texto bizonho, em que mundo vcs vivem, querem que tenhamos cada vez mais carros poluindo a cidade?

  5. cho que o autor do post, já que insatisfeito com a iniciativa do dgf, deveria propor algo no lugar de apenas criticar e jogar devaneios filosóficos abstratos pelo ar. no mundo real, as pessoas em Brasília não andam de bicicleta por não terem espaço pra isso. Querer que a pratica venha antes, em uma atitude revolucionaria geral, é viajar na utopia e querer que todos pensem exatamente como você. Isso também é uma forma de violência. Com as ciclovias, bem ou mal, gradualmente conquistaremos espaço e adeptos para a bicicleta como meio de transporte e diversão. Nada é perfeito nem se resolve do dia pra noite. Muito menos aqui, com tantos pitacos e grande chance de prevalecer discussões estéreis e paralizantes por amantes de utopias.

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