Bicicleta tem cheiro de pote

Andar de bicicleta é às vezes banal, outras vezes é extremamente estranho. Mas uma coisa é certa: nenhum dia é igual ao outro.

É uma imersão direta no mundo, que está sempre em mutação. Recebo um fluxo constante e instável de percepções sensoriais a cada pedalada.
Como disse semana passada, o clima provoca muitas sensações táteis. Dos estímulos visuais, já muito se falou. Andando de bicicleta vemos mais detalhes e meandros, escolho a direção. De carro, ônibus ou motorizado, a cidade vira um borrão desfocado; a única coisa que se vê bem são o carro da frente, as placas de trânsito e os semáforos – alguns motoristas, nem isto….

Audição também importa. Com ela estou alerta ao carro que se aproxima, aos latidos dos cães. Escuto pássaros e risadas e janelas de ferro se abrindo.

Mas há um sentido extremamente excitado quando andamos de bicicleta. As cidades, ruas, trilhas e caminhos viram um leque de cheiros. O olfato faz cada viagem de bicicleta ficar entre realidade e sonho.

Sinto cheiro de grama cortada. De rato morto. Piche na rua sendo recapada. Perfume floral da moça na calçada. Do futum acre do mendigo sujo. Dos excrementos nas passagens subterrâneas da “cidade-patrimônio”. Jasmim noturno. O aroma madeirado das folhas secas. O néctar da árvore cortada pela motoserra, cheiro de morte, mas suave e gostoso.

No dia 17 de abril, saindo do trabalho, por volta da 9h da noite e perto da 202 sul, senti cheiro de onça. Falando assim, depois de algum tempo, até eu mesmo duvido. Teria sido uma alucinação? Mas o momento foi muito real, tão real que eu parei, desci da bicicleta e fiquei olhando… de onde vinha aquele cheiro? Será que veio apenas de uma conexão nervosa, uma sinapse no meu cérebro ativada naquele momento por algum motivo? Tirei o bloquinho Moleskine da mochila, anotei o dia e escrevi um haicai.

Lembrança de verdade eu tenho quando vem o cheiro da chuva, das primeiras chuvas infiltrando na terra seca e levantando vapores que voam por quilômetros. Ou de uma chuva que acabou de cair. Lembro o cheiro dos potes de barro com água, na cozinha da minha avó.

potes de barro

Faz muito tempo isto, mas é como se fosse agora.

(quando ando de bicicleta, não só meus pés giram…)

[.]

4 comentários sobre “Bicicleta tem cheiro de pote

  1. Muito bonito seu texto e história Denir! Parabéns!
    Fez-me voltar na lembrança muitas pedaladas com diversos sentimentos e entre eles, claro, o cheiro de onde se passa…

  2. Não só gostei como vivo essas percepções quase diariamente nas minhas gostosas pedaladas por essas bandas dos Montes Claros. Na seca dura – o cheiro sufocante da poeira vitaminada (de bike tudo tem seu lado bom); nas raras chuvas – o gostoso e inigualável cheiro de terra molhada e da mata que revivi milagrosamente avisando que lá vem a esperada safra do pequi. Aguardo, numa pedalada qualquer, sentir o cheiro de onça. Não precisa nem ser da preta ou da pintada, é querer demais, uma sussuarana já estaria de bom tamanho. Só espero estar num descida e ter uma troca de roupa disponível na hora!
    Parabéns, só quem pedala e ama a natureza sente o que vc tão bem relatou.
    Um abraço bikeano,
    Luizão Caixa D’água.
    Montes Claros – MG

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