O perigo das ciclovias

Um casal pedalava na “ciclovia” da Asa Norte, quando…

As ciclovias que estão sendo construídas agora em Brasília são projeto do governo Roriz. Elas foram traçadas pelo extinto PEDALA-DF. Depois, mesmo entre trancos e barrancos, o projeto seguiu no governo Arruda. Até que, mudando apenas de nome, foi assumido pelo governo Agnelo.

O maior erro do atual governo não é estar construindo ciclovias. É construi-las como pensadas pelos governos Roriz/Arruda, sem tirar nem por. Usando e abusando do argumento “é agora ou só daqui a 10 anos”, a turma do Agnelo pegou um projeto sabidamente ruim e, na ânsia de mostrar serviço para a Copa 2014, na ânsia de cumprir uma decisão política-orçamentária, na ânsia de cumprir uma “promessa de campanha”, tratorou ciclovias de cima a baixo. Demagogia.

Ora, um governo que usa o argumento “é agora ou daqui a 10 anos” mostra exatamente que não houve qualquer mudança de paradigma. Foi movido pelas circustâncias e oportunismo. Caso tomasse a bicicleta como elemento decisivo para melhoria do trânsito e da cidade, um bom governo diria: “herdamos este projeto, ele está pronto para ser executado, mas é ruim; vamos começar do zero para fazer uma coisa boa, dentro de uma nova visão. É nossa prioridade e sairá o mais breve possível. Vamos discuti-lo com a comunidade. ” Não foi isto que aconteceu.

E qual é a velha visão, do século XX, sob a qual as ciclovias foram pensadas, desenhadas, projetadas e, agora, construídas? Um modo carrocêntrico e rodoviarista de ver o mundo, típico do “século do automóvel” [e da bomba atômica e do nazismo]. Esta velha, antiga e ultrapassada visão se baseia em duas idéias centrais:

1) andar de bicicleta é perigoso
2) o espaço do automóvel é intocável

Ambos argumentos são usado e defendidos inclusive por ciclistas – não ciclistas que usam a bicicleta como meio de transporte, no dia a dia, mas ciclistas de trilha ou de passeios escoltados. Eles são motoristas durante a semana e ciclistas nos intervalos. Emocionam-se, colocam a mão no peito e no capacete e dizem “é preciso proteger a vida”. Um grito de guerra que parece santificado, mas no fundo mistura “bicicleta é risco de vida” com “ciclovias protegem os ciclistas”…

É verdade isto? ciclovias protegem os ciclistas?

Não.

Está mais do que provado, em estudos no exterior, que no cômputo geral ciclovias não protegem nem reduzem a taxa de atropelamento de ciclistas. Em certos casos, houve até aumento do número de atropelamentos. (clique aqui para ver uma compilação de textos)

O que dá segurança ao ciclista? Uma política séria e consistente de valorização da bicicleta e uma forte e maciça política de restrição aos automóveis. Não são medidas mágicas, imediatistas como tratorar ciclovias, mas vão trazer mais ciclistas para as ruas – mesmo que demore mais tempo. É simples assim: quanto maior for o número de bicicletas, mais seguras serão as ruas.  Ciclovia é apenas uma das formas de se conseguir isto. Mas não a única, nem a melhor.

As ciclovias do Plano Piloto, pensadas e construídas por quem acha que andar de bicicleta é perigoso, por quem não aceita de forma alguma restringir o uso do automóvel e os maus hábitos dos motoristas, tais ciclovias são a concretação desta mentalidade ultrapassada.

[preciso ser honesto e reconhecer que alguns trechos são necessários, vieram suprir inclusive a carência de calçadas – como a ligação entre a subestação da CEB e a Esplanada. Mas 80% da obra é desnecessária, pois apenas constroi outra calçada onde já havia calçadas. Agora temos 3 calçadas paralelas e subutilizadas!]

O que precisava ser feito não foi feito nem será: o correto tratamento nas entrequadras, para o ciclista poder sair da calçada e cruzar a pista. Nestes locais, a bicicleta precisava ter preferência sobre os automóveis. Está na lei. Mais importante do que estar na lei, evita que o bicicletista tenha que parar e recomeçar a pedalar, movimentos que dão muito desgaste físico e são incômodos. Um boa política cicloviária pensa sobretudo no conforto e na comodidade para bicicletas. É preciso entender de física da pedalada, conservação da energia e eficiência!  Leia um artigo sobre isto, em inglês.

Para mostrar com imagens tudo isto que estou dizendo, acompanhem a sequência de fotos, tiradas na ciclovia das quadras 400 da Asa Norte.

O casal pedalava.

E pedestres usavam a calçadovia, como sempre.

Chegando perto da entrequadra, que não tem tratamento adequado para ciclistas, pois a calçadovia acaba no meio-fio, o que fazer?

O homem pára, mas a mulher continua…

… e não é atropelada por questões de décimos de segundo e centímetros!!! O carro freiou forte.

Depois do susto, ainda tem que descer da bicicleta

para poder subir na calçada do outro lado.

E se tivesse menos sorte? Se fosse uma criança? Uma senhora idosa, com menos agilidade? Qualquer ciclista que calcule mal o tempo de aproximação dos carros que fazem a curva? E se o(a) motorista do carro tivesse menos reflexo e não freiasse a tempo?

São estas as ciclovias para “proteger a vida”? São estas as ciclovias que tornaram andar de bicicleta “menos perigoso”???

Não são ciclovias. São apenas calçadas com rebaixamento de meio fio.

E isto já existia antes! não precisava gastar milhões para continuar a mesma coisa, a mesma política do GDF, o carro tendo prioridade, sempre. Uma política que mantém a dicotomia de privilégios, mas dá aos ciclistas a falsa ideia de estarem num ambiente projetado para bicicletas, seguro e confortável. É uma política subliminar de maquiar a realidade, para mantê-la sem qualquer alteração.

1) Andar de bicicleta não é perigoso – perigosos são os carros, pois eles matam.

2) As cidades, para sobreviverem no século XXI, precisam impor restrições à cultura do automóvel. A bicicleta é somente o símbolo mais óbvio desta nova mentalidade.

Este é o perigo das ciclovias: uma política demagógica, que escamoteia a verdade e mantém intacta a relação de poder e privilégio no trânsito. Que mantem pedestres e ciclistas confinados em espaços estreitos e mal feitos, para preservar o espaço e o “fluxo” dos automóveis.

Uma mentira que, tantas vezes repetida, torna-se verdade.

[.]

21 comentários sobre “O perigo das ciclovias

  1. Denir, você tem meus cumprimentos mais uma vez. De tudo que tenho lido, pensado e sentido sobre as ciclovias recentes, você conseguiu colocar nesse texto como muita clareza e de maneira bem ilustrada. Não pare, por favor!

  2. Excelente, Denir! Houve audiências públicas e reuniões para propor alterações nas ciclovias, fizemos relatórios e ponderações apontando as falhas nas ciclovias que estão sendo construídas e o que o GDF fez após os questionamentos?! NADA!!! E assim os cidadãos dessa cidade vão sendo ludibriados e o governo segue fazendo programas demagógicos.

  3. Discordo com quase tudo nesse post. Vamos a cada um:
    As ciclovias estão suprindo ausência de calçadas sim, em vários pontos. Mas aí o problema não é da ciclovia, mas da ausência da calçada, ora. As ciclovias contornam as árvores sempre que possível (não vi nenhuma ser derrubada para sua construção), tornam o caminho muito agradável.
    Onde já existia calçada, a ciclovia era necessária, pois é perigoso (e errado) andar de bicicleta nas calçadas. E elas tem um traçado e material diferente, as calçadas muitas vezes são feitas de quadrados de concreto com intervalos que são muito ruins para o rolamento suave da bicicleta, ou finas e quebradiças, além do risco de choque com pedestres.
    Até concordo que não existe o correto tratamento nos cruzamentos nem a continuidade desejada, mas nesses casos (até como o da foto), que não há nenhum espaço para a continuidade da ciclovia, o governo faria o que? Implodiria o supermercado para a continuidade?
    Você cita que pedestres usam a ciclovia “como sempre”. Como assim sempre, se nunca houve ciclovia no plano? Outra, dizer que a ciclovia está errada porque alguém anda nela à pé? É uma crítica injusta ao projeto, isso ´pe questão de educação, sinalização e existência de calçadas próximas.
    Sobre a travessia fotografada, lamento, mas as pessoas tem que saber atravessar a rua. Não é porque um ciclista se joga na frente do carro (e coincidentemente você estava atrás batendo fotos) que a ciclovia está completamente errada.

    Eu já estou usando a ciclovia, vou para o trabalho de bicicleta todo dia (e a minha fica ao lado da sua no bicicletário🙂 ), e digo: Melhorou muito para o ciclista. Antes a opção era andar com os carros ou na calçada. Com a educação e experiência de compartilhar a via escassas dos motoristas de Brasília, andar perto dos carros é um grande risco. Ela não é perfeita, em muitos locais não tem continuidade, cruzamentos exigem atenção, e há locais que não havia espaço. O exemplo é a ciclovia do canteiro central entre as 700 e 900 da asa norte, quando chega no CEUB, ela some. Não há espaço. Ponto. As travessias não são perfeitas, exigem atenção do ciclistas, pois são feitas perto dos balões das quadras. E por isso o projeto está todo errado? Não acho, é melhor fazer onde é possível do que esperar para sempre por um projeto perfeito que nunca existirá. Na altura do CEUB, o ciclista anda como SEMPRE andou, depois pode voltar para a ciclovia.
    Outro exemplo: A área central de Brasília. Como o ciclista atravessa da asa sul para a norte, ou vice versa? Eu vou pela plataforma superior da rodoviária, mas não há ciclovia planejada lá, que eu saiba. E não vejo onde ela poderia estar.

    Bom, e para um post tão cheio de críticas, qual seria a sugestão, principalmente para a continuidade? As quadras são cercadas por pistas, como permitir a fluidez e eliminação dos cruzamentos com os carros para atender aos bons artigos que você cita, de manutenção de energia? Eu só vejo uma opção, os canteiros centrais dos eixinhos, mas aí seria muito perigoso de o ciclista cair na via caso perdesse o equilíbrio, além da dificuldade de travessia para entrar e sair.
    pelo que entendi, a sua única sugestão seria trazer as bicicletas para a rua (e junto dos carros). Eu a achei utópica e perigosa, pois você não consegue levar as pessoas a fazer algo perigoso só porque, quanto todas juntas, será menos perigoso. Andar com os carros é perigoso. Ponto. Acabei de voltar de uma viagem a uma cidade onde há um grande respeito ao ciclista, e recentemente uma ciclista morreu atropelada porque perdeu o equilíbrio e caiu na rota de um carro cuja motorista não a viu. Lá o governo está segregando o quanto pode as ciclovias depois disso, então, em meu ponto de vista, estamos no caminho certo.

    Bom, estou comemorando a construção das ciclovias, é um dos poucos feitos desse governo. Sou ciclista, uso a bicicleta como meio de transporte e não para lazer, e meu testemunho é positivo. Perfeito? Nem de perto, mas é um grande avanço para quem não tinha nada.

    1. Quando falei dos pedestres e usei “como sempre”, foi um erro meu. Este trecho do blog precisava mesmo ser corrigido.
      Sobre os demais pontos, você usou o post para colocar seus pontos de vista, o que é ótimo, e é para isto mesmo que eu escrevo. Mas muito do que você falou que eu falei…eu não falei! Não falei que as ciclovias são ruins porque pedestres andam nela. Pelo contrário, acho que as ciclocalçadas tem mais valor como calçadas do que como ciclovias.
      Então, se é o ciclista que tem que prestar atenção, é ele o responsável por ser atropelado? Foi este o ponto focal do meu post. Então, vamos manter a cultura como está? A gente faz obras e os ciclistas que se virem? Então, pra que ciclovias se já existia calçadas? Bastava transformá-las em calçadas compartilhadas (para não ser contra a lei, nem gastar milhões).
      Ali não precisava implodir o supermercado. Bastava fazer o rebaixamento do meio fio do outro lado, pois nem isto tem…

      Por fim, como assim não há espaço? E a via para os carros? É um espaço intocável? Gostei muito da sua resposta, corrigiu alguns erros meus, um depoimento MUITO positivo. Mas no geral suas afirmaçãos confirmam exatamente a minha crítica: andar de bicicleta é perigoso e o espaço do automóvel é intocável??

      1. Respondendo às perguntas: Andar de bicicleta não é perigoso, mas é muito mais perigoso quando se anda próximo aos carros. Veja o acidente q

  4. Pois eu, rsarres, apesar de discordar aqui e ali, concordo plenamente com a essência da análise postada.

    Em primeiro lugar, a ciclocalçada construída não usa nenhum material particularmente especial. Você notará isso mais claramente com a passagem do tempo, quando ele começar a se despedaçar, rachar e apresentar outros tipo de falha, mas se tiver algum amigo engenheiro creio que ele poderá lhe dar uma palhinha desde já.

    Em segundo lugar, o problema dos cruzamentos não é um detalhe, é o ponto principal, porque os cruzamentos, numa ciclovia, que é uma via segregada, são praticamente os únicos pontos de real perigo de colisão entre automóveis e ciclistas. Ora, se todos os cruzamentos forem assim, isso significa que o projeto está errado em todos os pontos em que poderia errar.

    Ainda nesse ponto, não é uma questão de implodir o supermercado, mas de realmente PLANEJAR o trajeto da ciclovia e não simplesmente fazer uma brincadeira de ligue-os-pontos, que qualquer criança poderia fazer (talvez melhor). Por exemplo, fazer a ciclovia cruzar mais para dentro da quadra, com a pintura do prolongamento na via, em vermelho, de forma que o automóvel a) não encontre o ciclista na curva e b) veja claramente que ali pode passar um ciclista E que ele tem de dar a preferência.

    A ciclovia é UM dos caminhos por onde o ciclista pode seguir. Não é nem de longe o único ou o melhor. Em Nova York, por exemplo, “cidade grande” adorada pelos brasileiros, a maior parte da estrutura é de ciclofaixas, ou seja, faixas do leito mesmo da via que são reservadas aos ciclistas, sem segregação física. Vantagens? a) é mais barato b) obriga o motorista a realmente DIVIDIR o espaço com o ciclista, o que, por consequência, obriga o motorista a se ACOSTUMAR à presença do ciclista ao seu lado e assim dirigir com mais cuidado.

    Há muito mais a dizer, mas não creio que seja a finalidade da caixa de comentários. Só quero alertar que seu argumento se baseia em percepções falsas – que, coincidência ou não, são as vendidas pelas pessoas que querem empurrar as ciclovias como solução para o problema do ciclista, o que, nem de perto, é verdade.

    Abraços.

  5. 1o – Não é ciclovia (e sim uma calçada dupla e ou que não existia e agora está sendo feita);
    2o – Ciclovia o nome diz a não interferência de carros no trajeto;
    3o – Convenhamos fazer zig-zag, imagine se a pista para carro fosse em zig-zag, não! (Maior gasto de cimento)
    4o – Na L2 poderia ter aproveitado o canteiro central para se fazer a ciclovia.

  6. Eu só a favor da ideia, mas concordo que o local construído não foi apropriado, e quem vê realmente parece uma ciclocalçada. Quando o projeto começou eu pensei que haveria técnica em sua construção, já observei a construção de alguns trechos e são calçadas mesmo, um pouco mais largas com divisões de calçamento. Em junho fui a Macéio e tive a oportunidade de acompanhar a construção de um pequeno trecho de ciclovia, próximo ao hotel que fiquei, e lá usavam os mesmos materiais com o diferencial de fazer o acabamento com adição de cor e uso de uma maquina que deixava tudo lisinho e uniforme. Desculpem-me a ignorância, mas pq as ciclovias não foram construídas rentes ao asfalto e do mesmo material? Na minha cabeça de NÃO CICLISTA seria mais óbvio e funcional. E poderia colocar sinalização vertical, horizontal e sonorizadores, alertando os motoristas que estão em espaço alheio..UTOPIA talvez?..
    Att,
    Miria

  7. Eu sou a favor da ideia, mas concordo que o local construído não foi apropriado, e quem vê realmente parece uma ciclocalçada. Quando o projeto começou eu pensei que haveria técnica em sua construção, já observei a construção de alguns trechos e são calçadas mesmo, um pouco mais largas com divisões de calçamento. Em junho fui a Macéio e tive a oportunidade de acompanhar a construção de um pequeno trecho de ciclovia, próximo ao hotel que fiquei, e lá usavam os mesmos materiais com o diferencial de fazer o acabamento com adição de cor e uso de uma maquina que deixava tudo lisinho e uniforme. Desculpem-me a ignorância, mas pq as ciclovias não foram construídas rentes ao asfalto e do mesmo material? Na minha cabeça de NÃO CICLISTA seria mais óbvio e funcional. E poderia colocar sinalização vertical, horizontal e sonorizadores, alertando os motoristas que estão em espaço alheio..UTOPIA talvez?..
    Att,
    Miria

  8. O que dizer a você Denir?

    Faz tempo conversamos muito quando estive aí em Brasília trabalhando com o Escritório da Ana Parisi. Você reclama de que o projeto foi realizado no Governo do Roriz e que não houve discussão prévia sobre ele. Não é verdade. Na época você era integrante do Rodas da Paz e participou de várias reuniões onde foram debatidas diretrizes e procedimentos a adotar, tanto no DER-DF, como em reuniões no Setor Comercial Sul, em uma das secretarias do GDF. O Leonardo Firme foi o coordenador do Pedala-DF, após ter a frente a Fátima Có que era a coordenadora responsável pelos primeiros passos do programa, lembra?
    .
    Você sempre foi meio do contra, desde muito, me desculpe dizer isto aqui e agora. Reclamou dos paraciclos que desenhamos e nós os mudamos. Ótimo, ninguém é dono da verdade. Hoje, em todo o Brasil, estamos banalizando os paraciclos em “U” invertido, ou em “C” invertido, que gosto menos, mas cumpre papel semelhante. Posso dizer que muito do que foi disseminado pelo meu escritório, e em outros projetos que orientei, deve-se a sua crítica inicial. Ela valeu muito.

    No entanto, parece que você é um eterno descontente. De fato orientei o Escritório da AeT para o desenvolvimento dos projetos cicloviários de Brasília, enquanto me ocupei mais em orientar outros projetos para outras cidades do DF e até fazer o projeto de muitas delas com meu escritório.

    Agora dizer que ciclovias são uma falácia, você não deve estar falando sério. É claro que o “critical mass”, gerado pelo uso intenso das bicicletas na via, consegue frear a arrogância dos motoristas, as velocidades dos autos, impondo respeito aos ciclistas. Porém é preciso compreender a lógica de Brasília e sua formação. Cheguei na cidade quando ela não tinha nada. Isto em 1962, depois fiz Arquitetura na UnB, trabalhei em órgão de transporte, e fui embora. Voltei no Governo do Cristovam. Vivi na cidade 21 anos em tempos diferentes.

    Todo ano volto duas vezes ao menos a Brasília. Os meus pais moram em na cidade desde 1962, portanto faz 50 anos. Conheço a cidade e sua gente, tendo amigos de juventude com quem me relaciono até hoje. Posso dizer que a maioria está satisfeita com as ciclovias do Plano Piloto.

    Quanto a não serem as ciclovias seguras. Quanta bobagem, me permita dizer. Estudos holandeses e alemães, que juntos têm as maiores redes cicloviárias mundiais, demonstram que os índices de acidentes e de fatalidades neles é muitas vezes menores que os apresentados por quem não tem redes cicloviárias. E olhe que estou falando de países que têm 32% e 19% de toda a repartição modal, para todos os motivos e destinos de viagens no país, realizado por bicicleta.

    Continuo insistindo que os EUA não são padrão para a mobilidade por bicicleta mundial, a despeito de Nova York ter conseguido um progresso formidável Principalmente com suas ciclofaixas, de todos tipos, com todos arranjos, atingindo a cidade mais de 600 km de infraestrutura.

    Outro ponto que queria falar é que o projeto não está pronto. Nele estão previstos tratamentos das interseções, com sinalização horizontal e vertical para ciclistas e motoristas. Além de “tapetes vermelhos” nos locais de travessia. Isto está lá no projeto, não são palavras vazias. Cabe a vocês, cicloativistas da cidade, brigarem pela implantação integral do mesmo. O Zerbinato está no GDF e pode ajudar a resolver este problema, priorizando a implantação das travessias sinalizadas em alguns locais. E afirmo, para algumas foram previstas até mesmo semáforos atuados para ciclistas.

    Agora, dizer que as ciclovias que estão sendo implantadas são ciclocalçadas é bobagem aguda. O fato de existir pedestres circulando nelas é porque os passeios laterais são frágeis, estão deteriorados, sendo “encantador” caminhar por um pavimento novo e bem feito. E mais. Dizer que

    …a ciclocalçada construída não usa nenhum material particularmente especial. Você notará isso mais claramente com a passagem do tempo, quando ele começar a se despedaçar, rachar e apresentar outros tipo de falha…

    é desconhecer minimamente o que está sendo feito.

    No mês de Julho deste ano estive em Brasília. Na oportunidade tirei mais de 800 fotos da obra que estavava sendo realizada na Asa Sul, nas quadras 400 e 200. Posso dizer que a técnica está além do especificado em projeto. Porque além de ter sido aplicada uma camada de 8cm de brita zero na base da pista, foi construída uma camada com 10 cm de concreto, o que vai muito além dos 4 cm tradicionalmente utilizados nos passeios de pedestres que podem ser vistos em todos os locais do Plano Piloto E estes sim estão se “despedaçando”, como disse uma das pessoas que fez comentário em seu “blog”, Denir.

    Observe que este suporte de pavimento resiste até mesmo a passagem de automóveis sobre ele, o que não vai acontecer, porque nas áreas das 200 e 400 não há passagem de autos sobre a infraestrutura.

    Por fim, afirmo que sou extremamente favorável à implantação de ciclofaixas em todos os lugares do Brasil. Tenho incluído muitas delas em projetos que venho fazendo. Como usuário da bicicleta que não tem mais automóvel há dez anos, digo que para mim até mesmo o tráfego compartilhado é suficiente para circular, desde que não seja em rodovia ou via expressa. Mas para a maioria das pessoas não usuárias frequentes da bicicleta, as ciclovias são um alento e um estímulo ao uso da magrela.

    Acho que Brasília está caminhando no rumo certo. E é claro que rumos precisam ser corrigidos, projetos ajustados, obras complementares precisam ser feitas, em especial implantar o que foi projetado para as interseções, local com mais de 85% dos registros de acidentes em todo o mundo. Mas condenar as ciclovias, não é um bom caminho, nem começar tudo de novo parece ser a saída para sua satisfação que parece ser minoria.

    O Distrito Federal tem o maior programa brasileiro de infraestruturas cicloviárias do Brasil. É preciso implantá-lo. E acredito que aos poucos, com a discussão e trabalho de muitos, ele poderá se transformar em espaço de uso efetivo não apenas dos ciclistas que têm medo do trânsito, mas de todos os ciclistas. Ou seja, dos novatos e dos “descolados” como você. Somente espero que amenize um pouco, Denir, a sua revolta contra tudo e todos.

    E quero parabenizar “rsarres” por suas palavras otimistas, sem perder a oportunidade de realizar as críticas, onde merece efetivamente haver crítica.

    Quanto a você, adianto que daqui a duas semanas estarei em Brasília, onde ficarei por uma semana. Caso queira conversar escreva para meu “e-mail” antonmir@gmail.com e vamos trocar ideias, debater ao vivo. Na ocasião poderei lhe mostrar muitas outras coisas interessantes de projeto e de ações em andamento em vários lugares do país.

    Deixo um Grande Abraço.
    antonio miranda

    1. Miranda,
      realmente no começo debati diretrizes e procedimentos A ADOTAR. Mas logo logo percebi que as ciclovias não eram opção, mas imposição. Ao tomar conhecimento da verdadeira ideologia da Rodas da Paz, afastei-me da ONG. Aqui no DF, ciclovias são parte de uma política de segurança no trânsito, e não complemento de uma política cicloviária consistente – resumindo em poucas palavras, é assim: “precisamos resolver o problema dos ciclistas (mortos): vamos construir ciclovias”. Muita gente contribuiu e continua contribuindo para isto.

      Sei que a obra não está pronta e que há previsão de certas medidas adicionais. Mas nenhuma delas – pelo menos o que corre em boatos – vai resolver o problema aqui apontado. A menos que você saiba mais (e sabe) e queira divulgar e democratizar, uma vez que o GDF não faz isto.
      De todo modo, uma coisa é estar projetado, no papel. Outra coisa é a realidade. Você bem viu o que fizeram com os “acostamentos cicláveis”, criação sua, mas cuja execução ficou uma lástima… (não foi aquilo que você projetou, foi?)

    2. Caros, vou comentar especialmente a partir da defesa que fez nosso amigo Miranda. Claro, a moeda sempre tem pelo menos dois lados. Fato é que toda destruição, refiro-me ao que fez o Denir, tem seu valor e pode, digamos… fazer a roda girar. Eu, por exemplo, não sabia do projeto completo mencionado pelo Miranda que inclui as tais sinalizações e soluções para as travessias. Mas, considerando o “é agora ou daqui a 10 anos” quero continuar vivo para ver quando essas soluções vão para as ruas. Vamos continuar tendo fé… é só o que nos resta. O dinheiro da infraestrutura completa, digamos, pode muito bem ter acabado, como quase sempre acontece, e a obra pode ficar pela metade. Na falta de sinalização, campanhas educativas e infra completa digo para vocês que continuo com meu trajeto diário prejudicado. No meu pequeno trecho até o trabalho, algo como 2km, usava a L1, onde o tráfego é lento e de baixo volume, na via com os autos sem maiores dificuldades. Agora, como há ciclovia, por lei tenho que ir para lá. Ai aparecem as dificuldades relacionadas a falta de continuidade, acessos impedidos por carros estacionados, o balão e o dois cruzamentos que, nas palavras do Denir, dão taquicardia! É bom ter 600 kms de ciclovia? Pode ser, mas não deveriamos estar tratando de números.

  9. Excelente registro. O oportunismo continua sendo a maior alavanca para a construção de ciclocoisas em muitas cidades. É triste ver a mesma fábula se repetindo em vários lugares.

    Em São Paulo, véspera de eleições 2012, aceleraram algumas ciclocoisas cujos projetos eram da década de 1990, com a concepção cicloviária dos 1980. Desengavetando projetos empoeirados, toscos, feitos sempre “onde sobrava espaço”, que nunca foram concluídos na época provavelmente porque se roubou muito dinheiro para ir até o fim.

    Ciclocoisas no canteiro central de avenidas, travessias com motorizados sem preferência para o ciclista e finais melancólicos nas duas pontas.

  10. Prezados(as), ao que parece vocês possuem muitas informações sobre o processo de construção do sistema cicloviário de Brasília. Caso possível gostaria que postassem ou enviassem para meu e-mail cópia em pdf da planta relativa ao trajeto que passará pela quadra 715 Sul, pois a comunidade local está apreensiva com as informações preliminares. Att., Carlos Cezar – Prefeitura Comunitária da Quadra 715 Sul

    1. Prezado Sr. Carlos Cezar,
      os mapas das ciclovias estão disponíveis neste blog, aqui: https://biciclotheka.wordpress.com/2012/06/06/mapas-das-ciclovias-do-df/
      Em especial, o mapa do Plano Piloto pode ser visto diretamente aqui: https://docs.google.com/file/d/0B8oTBJraYh-aSEZKUERvZ2xoUEk/edit?pli=1

      É a única informação que tenho.
      Mesmo procurado pelos próprios ciclistas, o GDF não fornece informações detalhadas.
      Em minha opinião pessoal, ao construir tais ciclovias o GDF pouco se importa com interesses coletivos.

      Saudações, do
      Denir

  11. Por oportuno,com todo respeito, gostaria de divergir do Sr Miranda (Ant). Estou acompanhando de perto a construção das ciclovias e existem muitos problemas na execução do projeto. Não sou engenheiro, arquiteto, nem especialista no assunto, mas, os problemas podem ser identificados por qualquer leigo, na verdade até mesmo por uma criança. Como toda obra pública essa não poderia ser diferente.

  12. Respondendo às perguntas: Andar de bicicleta não é perigoso, mas é muito mais perigoso quando se anda próximo aos carros. O acidente que falei ocorreu em Ottawa, Queens st. Uma porta aberta na hora errada, não seria nada além de arranhões se não houvesse um carro andando ao lado, e que infelizmente não conseguiu parar a tempo. Não houve condução irresponsável de quem atropelou, apenas o resultado de pessoas andando de bicicleta próximas a máquinas em movimento que pesam toneladas. Conheço a rua que isso ocorreu, carros não passam de 50km/h, pois existem muitos cruzamentos, e o povo canadense respeita muito as bicicletas. Em Brasília, eu já vi um pai andando com os filhos na calçada mais próxima do eixinho, um deles se desequilibrou e caiu na via. Felizmente, todos os carros pararam com calma, inclusive o meu, sem sustos, até que a criança saísse da via. Mas isso mostra como pequenos acidentes podem transformar-se em tragédias quando se anda de bicicleta próximo de carros. Por isso, custo a acreditar que alguém prefira andar com os carros do que em vias segregadas. Chega a parecer uma vontade apenas de tomar parte do espaço dos carros, insistindo na tese de que o espaço dos carros não é intocável, mesmo que esteja ganhando menos do que uma via exclusiva para ciclistas. Já em Nova Iorque não há espaço para ciclovias segregadas, é uma das áreas mais populosas do mundo. Não creio que lá vias segregadas fossem uma opção viável, por isso não foram feitas, e não porque vias compartilhadas eram a melhor opção.
    E estou vendo a construção das ciclovias, elas não são frágeis. Após escavar, eles colocam uma lona, brita e depois uma camada grossa de concreto. Estou achando muito bem feita. Existem carros passando em cima da ciclovia para o “estacionamento” improvisado da escola classe 210/211 norte. Vamos acompanhar como ela se comporta.
    Rafael Sarres

  13. Esse é um dos problemas da política cicloviária de Aracaju. A prefeitura fez ciclovias e ciclofaixas em quase todas as grandes avenidas cujo canteiro central ou lateral da pista fosse suficientemente amplo. No entanto, não teve de coragem de tocar no espaço dos carros. O resultado disso é que as ciclovias e ciclofaixas não chegam ao centro da cidade.

  14. Engraçado como quem tem atitudes fascistas gosta de rotular os outros dessa forma. Mesmo Brasília tendo uma geografia favorável ao uso de biciletas, jamais esse será um meio de transporte de massa pelos mais variados motivos. Portanto, uma pessoa que se acha dona da verdade e que deseja impor a ditadura da minoria sobre a maioria nem merece maior atenção.

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