Adequações para a ciclovia

Qual é o governo que pede “sugestões de adequações” quando uma obra já está em fase de término?
É o mesmo governo que, enquanto usa as ciclovias para falar de trânsito sustentável, derruba mais de uma dúzia de árvores para fazer ligação entre o eixão e as tesourinhas, a fim de “dar conforto e comodidade aos motoristas”.

árvores cortadas no eixão sul

Trânsito sustentável não é só construir ciclocalçadas, é colocar fortes restrições aos automóveis!

sapucaia cortada pelo GDF no eixão norte

Esta segunda foto mostra o que sobrou de um raro espécime de sapucaia, árvore que está em processo de extinção no seu habitar natural (e, a depender dos automóveis e do GDF, seu lacaio, corre o risco de extinção também  na cidade…).

Veja como o asfalto passou longe da árvore. Precisava derrubá-la? A mentalidade rodoviarista não é verde. Mesmo que diga que é, mesmo que o jornal diga que é. Sustentabilidade e respeito à natureza se prova com atos.

Qual é o governo? É o mesmo que gasta milhões de reais para pintar faixa exclusiva para ônibus na avenida e, em seguida, poucos dias depois, arranca todo o asfalto para fazer novo recapeamento. [Inventaram a faixa exclusiva descartável!]

Qual é o governo? É o mesmo que tem como lema “apresentar-se como modelo de gestão em mobilidade urbana por bicicleta, tornando o DF referência nacional neste segmento.”

O GDF, sua Secretaria de Transporte, sua Novacap, por suas soluções criativas para as bicicletas, como acostamentos cicláveis e ciclocalçadas, todos serão referência nacional, com indicação para receber um prêmio.

Quer consertar a ciclovia? Pergunte-me como.

Para contribuir com isto, apresento uma sugestão de adequação para as ciclovias do Plano Piloto: os Dispositivos Inclinados de Aceleração Vertical Para Proteção da Vida e Solução de Conflitos MV-RA-2014, também conhecidas como rampas de mobilidade vertical por bicicleta!

Em detalhe:

E já vem com diagrama técnico de instalação:

Qual é o maior problema das ciclovias do Plano Piloto? Elas são calçadas que terminam no meio fio do lado e cá e continuam no meio fio do lado de lá. As rampas são a solução ideal, pois permitem que os e as ciclistas continuem seu trajeto sem interrupção. Mais do que isto: como vão acelerar várias vezes para pegar impulso várias vezes de forma a transpor, pelo ar, vários cruzamentos, o tempo gasto no trajeto será reduzido sensivelmente!

Não, não é ideia minha. Pela internet, descobri que solução semelhante foi aventada certa vez na cidade chinesa de Di-pshit: traduzindo pro inglês, as Stunt Jump with Fun Flybox-End Over Junk Ramp. O primeiro trecho foi construído sem consulta aos “bikers” e sem adequações:

!!!!!!!

O maior erro, contudo, foi não usarem concreto:

Desviaram a verba para festinhas particulares da primeira-dama com acompanhantes. Quando saiu foto no Feiceburguer, foi um escândalo e todo projeto desceu rampa abaixo!

Mas aqui é diferente! Temos representantes da sociedade civil sendo diariamente consultados e niguém quer ganhar dinheiro com as ciclovias.

O que importa mesmo é a qualidade técnica da proposta. As rampas DIAVPPVSC-MV-RA-2014 acabam com todas as dores de cabeça do Detran! O órgão ainda não encontrou uma forma de conciliar sua carrofilia com o art. 29, § 2º do Código de Trânsito, que determina prioridade para as bicicletas. Adotando os dispositivos inclinados de aceleração vertical, todos os problemas terão acabado. Os ciclistas estarão livres de conflitos com automóveis! “A vida em primeiro lugar.” Os motoristas poderão seguir seu fluxo com conforto e comodidade, sem serem importunados pelos ciclistas que querem cruzar a via. “Quer morrer, imbecil? sai da rua, imbecil! e vai pra ciclovia (imbecil)”.

Além disto, para inveja mortal do cicloativismo das outras cidades brasileiras, o GDF vai enfim colocar as bicicletas acima dos carros.

Sucesso garantido! As ciclovias adequacionadas não só vão “proteger a vida”, como trarão cores, luzes, alegria e adrenalina para a vida de todos os ciclistas do Plano Piloto. O DF  será referência nacional.

Esta é a sugestão inicial. O ideal mesmo é convidar o Oscar Niemeyer a desenhar um projeto ultramoderno, moldando o concreto em formas curvas e suaves

de modo a projetar ainda mais para cima o transporte cicloviário candango.

Com emoção ou sem emoção?

Pois uma ciclovia que garanta toda prioridade para os ciclistas, mas mantendo-os ao chão, na pista, como esta:

…isto é coisa de cidades antiquadas. Ciclovias sem interrupção e emoção, frias e monótonas e racionais e lógicas como os países nórdicos. O projeto futurista de Brasília, o jeitinho e a alegria de viver dos brasileiros exigem muito mais do que isto!

Rampas DIAVPPVSC-MV-RA-2014 já!

[.]

Veja também neste blog:

Mapa das ciclovias do DF
Mapa das ciclovias do Plano Piloto
Ciclovias da Asa Sul e Norte: coda

7 comentários sobre “Adequações para a ciclovia

  1. eu sempre digo que, com raras exceções, o engenheiro de tráfego é a forma de vida mais inferior do universo. todas as merdas que se fazem em são paulo são replicadas imediatamente pelo gdf

  2. Buenas brother,
    eu concordo com a crítica…mas vejo também que tudo tem um começo…nao estou deslumbrado com a ciclocalçada como voce pertinentemente apelidou, mesmo a usando diariamente para ir ao trablaho e vendo que é melhor tê-la do que continuar disputando espaço com motoristas meio ignorantes quanto ao uso de bikes, mas é um começo..e quanto mais bikers usando, mais podemos progredir em direçao a ter realmente uma malha cicloviária usável e sinalizada e que seja de fato. Temos que lembrar que esta cidade em específico foi feita pros carros e parece que boa parte dos moradores daqui tem orgulho disso então só de conseguir cruzar a city em uma ciclocalçada já é um avanço considerável.
    Sds.

  3. Gabriel, você afirma que não quer continuar “disputando espaço com motoristas meio ignorantes”. No entanto, um dos efeitos da ciclovia poderá ser justamente tornar os motoristas mais ignorantes ainda, já que elas retiram as bicicletas das ruas. Logo, os motoristas vão ignorar ainda mais a presença das bicicletas. Ao contrário, a melhor forma de deixar de disputar o espaço com motoristas ignorantes é termos políticas de educação e de fiscalização, já que a rua deve ser de todos. Não dá para abrir mão de um direito básico. Assim, a sua fala, como a de muitos ciclistas que tem medo da rua (medo justificado em parte apenas) acaba fortalecendo a manutenção da barbárie atual. Além disso, as vias do plano piloto onde há os maiores problemas nos cruzamentos não têm praticamente nenhum registro de acidente grave de bicicleta por ano. Veja as estatísticas do detran. Abraço.

  4. Denir, você que é um cara bem informado, me responda aí: o que é que o governo do GDF está fazendo (de novo) com a ciclovia da L1 norte? Depois de tirar férias, vim trabalhar pedalando hoje (22//11) pela primeira vez, e me deparei – quase levei um tombo, na verdade – com buracos largos que cortam transversalmente muitos e muitos pontos da ciclovia. No início pensei que fosse para a passagem de dutos de eletricidade ou escoamento de água, algo assim, mas não tenho como ter certeza. Tenho certeza, porém, que é uma estupidez (e desperdício de dinheiro público) concretar e depois quebrar tudo de novo!

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