Sobre os livros

SOBRE OS  LIVROS

Poema de Pessoa Rego

Para José Mindlin

A NOITE vem dum livro de contos de fadas

Que nem sequer sei quem o escreveu.

Mas os homens sem leitura de bons livros

Não descobrem a si mesmos.

E os poemas que chegam à minha memória

Partem como pássaros perdidos sobre os teus olhos

Cheios de uma suprema curiosidade noturna.

E esses homens em vão procuram no Céu

Já desbotado pela noite que se aproxima as suas dúvidas.

E, de todas as possibilidades, os livros

São as chaves que abrem as portas da alma:

Ora orienta, ora acelera. E assim o nosso inquieto

Espírito se torna um andarilho,

Cheio de curiosidades e de mansidão.

E todas as minhas veias se desordenam

Quando circulam em mim vagões cheios de livros

Que ainda não os li.

Tento percorrer a audácia de José Mindlin

Num paraíso afortunado de livros: são e salvos

Dentro de sua preciosa biblioteca.

Pergunto-me: quantos livros nós ainda não os lemos?

Com certeza Mindlin deixou em mim

O dom da suprema curiosidade.

Os livros? Devoro-os como traças famintas,

Um comedor de papiros.

Penso nas bibliotecas incendiadas

Pelo fogo da ignorância.

Talvez, Mindlin, no templo de Sérpis,

Poderia ter salvado algumas preciosidades

De que Alexandria jamais se recuperou.


Eu tive uma sorte grande na vida: conhecer um poeta underground, um daqueles poetas que incorporam o lado azedo da vida. Da sua vida particular, sei muito pouco. Fomos colegas de trabalho. Inteligentíssimo, era incompreendido e não reconhecido, e tinha uma amargura muito grande por isto.
Ainda novo, com 50 e poucos anos, um câncer violento o pegou, na coluna. Seu corpo, metáfora da sua vida. Fez cirurgia e sofria horrores nos hospitais, com tratamentos e remédios. A última vez que o encontrei, foi dentro do ônibus. Descemos na mesma parada. Ele, magérrimo, os olhos funods e um tanto já perdidos, misturava toda acidez com seu senso de humor característico, de rir da própria vida e das nossas desgraças.
Agora, recebo a notícia que faleceu o José Pessoa – que também assina, como poeta, Pessoa Rego.
No último email que ele me mandou, lamuriava que era o único sobrevivente do seu grupo de amigos. Mas arrematou: “a Fênix sou eu?” Este era o Pessoa!!
Amanhã será cremado. A Fênix vai virar cinzas.

Renascerá?

Denir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s