Bicicleta é muito mais do que veículo

Em artigo recentemente premiado (e publicado no blog há duas semanas), Catherine Hess fala sobre o papel que a bicicleta pode ter em pesquisas sobre as funções cerebrais. No artigo, ela cita um método que tem sido usado para detectar casos atípicos da doença de Parkinson.

Fui até o link citado pela Catherine, que leva a um texto escrito por pesquisadores do Departamento de Neurologia da Universidade Radboud, em Nijmegen, Holanda.

Achei bem interessante o artigo médico, pois ele confirma que a semiótica da bicicleta vai muito além do direito de usar as ruas. Traduzi e mando para quem se interessar na leitura.


O “sinal da bicicleta” para detectar síndrome de parkinson atípica

Fazer a diferenciação entre a doença de Parkinson e sua forma atípica é importante tanto clinicamente, para o aconselhamento adequado do paciente, quanto cientificamente, para determinar adequada inclusão em pesquisas clínicas. O diagnóstico diferencial continua sendo um desafio, mesmo com os atuais conhecimentos clínicos e modernas investigações complementares. Sugerimos aqui que a resposta a uma simples pergunta: “Você ainda pode andar de bicicleta?” oferece bom critério de diagnóstico para separar a doença de Parkinson do parkinsonismo atípico.

Fizemos um estudo observacional prospectivo em 156 pacientes com síndrome de Parkinson mas sem diagnóstico definitivo. No início do estudo, os pacientes responderam a uma entrevista estruturada e passaram por avaliação neurológica abrangente, com ressonância magnética cerebral. A entrevista incluiu uma pergunta padrão sobre por que, se e quando andar de bicicleta tornou-se impossível. O padrão de referência foi dar o diagnóstico depois de 3 anos, com base no acompanhamento clínico, incluindo repetição do exame neurológico, resposta ao tratamento e ressonância magnética. Todas as avaliações foram feitas por um único examinador, experiente.

Antes da primeira manifestação da doença, 111 pacientes andavam de bicicleta. Dos pacientes, 45 desenvolveram a doença de Parkinson em sua forma padrão e 64 em sua forma atípica. No período de adaptação (duração média da doença 30 meses), 34 dos 64 pacientes com síndrome de Parkinson atípica tinham parado de andar de bicicleta, contra apenas dois dos 45 pacientes com doença de Parkinson. A perda das habilidades de andar de bicicleta estava presente em todas as formas da síndrome de Parkinson atípica. A análise de regressão não revelou efeito significativo de idade, parkinsonismo ou ataxia sobre a capacidade de andar de bicicleta, o que sugere que se trata de um marcador independente para a Síndrome de Parkinson atípica.

Sugerimos que a perda da capacidade de andar de bicicleta após o início da doença pode servir como um novo sinal vermelho, indicando a presença de parkinsonismo atípico. O valor diagnóstico do “sinal da bicicleta” foi bom: sua presença foi altamente específica para o diagnóstico da Síndrome de Parkinson atípica. Esta observação não é única. Pacientes com doença de Parkinson têm poucos problemas de equilíbrio movendo-se lateralmente, sua marcha é tipicamente curta, a marcha tandem é geralmente normal, e eles podem mostrar uma notável capacidade de andar de bicicleta. Andar de bicicleta requer uma interação altamente coordenada entre equilíbrio, coordenação e pedalada rítmica das pernas. Este somatório de habilidades é provavelmente sensível aos problemas sutis com o equilíbrio ou a coordenação, causados pela patologia extranigral mais extensa no parkinsonismo atípico. Simplesmente perguntando ao paciente sobre andar de bicicleta pode ser um item adicional à lista de sinais vermelhos que podem ajudar os médicos no diagnóstico diferencial precoce da Síndrome de Parkinson.

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