Feliz Lua Minguante!

Quando estou no interior, gosto de fazer pequenas viagens de bicicleta, ida e volta num dia. Às vezes tenho destino certo, um rio, ou fazenda, outras vezes apenas vou indo, sem planos nem traçados, apenas para conhecer novos caminhos e paisagens.

Numa destas viagenzinhas, encontrei-me com um andarilho muito estranho. Além das tralhas que todo andarilho leva, as roupas sujas e gravetos no cabelo, ele vestia um colar cujo pingente era um tomoe, ancestral símbolo japonês que remete ao movimento da Terra e o jogo de forças do cosmos – similar ao yin yang chinês.

Sim, vi o pingente porque fui parado pelo homem, que de longe já fazia sinais com as mãos, e perguntou: “qual hora é?”

Estranho… um andarilho deveria saber as horas pela sombra do sol, a chuva pela direção do vento, e as estações do ano pelas flores do pequi e das barrigudas.

Estávamos um pouco depois do começo da manhã. Olhei no ciclocomputador, tirei a diferença do horário de verão (não uso relógio, nem atualizo verão no ciclocomputador!) e, depois de responder, tive a ousadia de perguntar: “mas por que quer saber as horas, aqui no meio deste geraes?”

Nunca esperei a resposta que veio. Naquela fração de segundos, pensei que ele calculava quanto tempo para chegar à cidade (ficava a pelo menos 3 horas de caminhada) ou quando passaria o ônibus rural na rodage, a caçamba, até mesmo alguma fixação psíquica com relógios, quem sabe um trauma de infância, um TOC? Andarilhos são estranhos…
Relógios e calendários fazem todo sentido na cidade, na vida regrada de trabalhar para produzir e produzir para consumir. Um andarilho, um excluído da sociedade, um trangressor ou um desprezado, para quem as convenções urbanas nem fazem sentido e das quais ele foge, por quê?

No carrasco não há hora. É tudo bicho e mato, o dia se alonga, siriema pia no calorzão, e a noite arrastada no difluxo. Vem lua. O tingui póca. Neh, pau de geraes não faz conta, tem número nenhum. Ahã, não precisa. Mas o homem, sem hora é perdido.

Quando cheguei numa velha ponte sobre o Rio Pardo, fiquei olhando as águas que passavam.

ponte_rio_pardo

O rio arrastava um galho aqui, ali uma bolha subia, sempre mudando mas sempre o mesmo rio. Era rio. Água parada é poça, é lagoa. Rio é fluxo.

O tempo também é um fluxo que a gente não entende. É algo que está além de nós, pois fazemos parte dele. A bolha não sabe o que é o rio.

Relógios e calendários são apenas tentativas racionais e limitadas de conter e contar o tempo. Matematização. É como mergulhar a garrafa pra encher dágua fresca e achar que uma parte do rio ficou dentro dela.

“Neh, pau de geraes não faz conta, tem número nenhum. Ahã, não precisa. Mas o homem, sem hora é perdido.”

Quando eu voltava, força no pedal para não atrasar o almoço com meus avós, o andarilho, amarrando um feixe de folhas debaixo de um pé de barbatimão, saudou: i’tê.

[.]

2 comentários sobre “Feliz Lua Minguante!

  1. Surreal!!! Depois da leitura de mais este post….pensei…pensei, e acho que vc deveria escrever um livro de memórias sobre as suas viagens, experiências com pessoas, bicicleta, livros…. se quiser faço o projeto inclusive o da encadernação…vamos?! Afinal só está faltando isso.

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