As Bucólicas de Virgílio no gramado do Congresso

Foram dias mágicos!
Dias de ir para a rua, de discutir, repensar, exigir.

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concordo!

Vão entrar para os registros da história.

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Mas não digo que foram dias históricos, pois todos os dias são dias históricos! A história se faz no dia a dia.
Nem digo que “o gigante acordou”. O hino não diz que ele estava dormindo, diz que estava “deitado eternamente”, não necessariamente dormindo. (pode estar com preguiça, Macunaíma!)

Releia a primeira frase deste post e a palavra destacada em itálico. Mágico ali não é elogio.
Em antropologia e psicologia, o pensamento mágico é um resquício do pensamento primitivo, presente no subconsciente de todos nós humanos. Faz ligações improváveis entre fatos distintos, cria uma causalidade mental – basta pensar ou crer e a mente exerce um efeito direto sobre a realidade. Na wikipedia achei um exemplo curioso que explica isto bem com uma bela imagem: o povo azande, na África, esfrega dentes de crocodilo nas bananeiras para fazê-las frutificarem, porque o dente do crocodilo é curvo tal como as bananas e porque ele cresce novamente após cair da boca do bicho.

O pensamento mágico é (obviamente!!) a base da religião, superstições e crenças populares. Geralmente recorremos a ele em situações que precisamos de uma saída ou fuga para emoções despertadas por uma realidade dolorosa ou frustrante. Precisamos de fantasia para enfrentar a realidade.

Quando os ipês explodem bolas rosas, pode parecer, mas não é mágica. A árvore passou o verão todo se alimentando de chuvas, perde todas as sua folhas e parece morta e, quando percebe que é hora, veste-se. É um fluxo constante de tensões e distensões, que prepara a beleza – e o futuro. Pois dali virão frutos, e sementes, e novas árvores.

As manifestações foram grandes momentos.

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Necessárias, explosivas, grandiosas, estive em pelo menos quatro delas aqui em Brasília e acompanhei, na internet, o que acontecia país afora. Até assisti o Jornal das 10, da Globonews, coisa que não fazia há anos!! (e deixei de atualizar este blog…😦 )

Mas a verdadeira mudança acontece nos pequenos momentos. Nas chuvas e nas sementes.

No meio da multidão ficava imaginando quantos daqueles, que pediam um transporte melhor, uma cidade melhor, estariam ali num movimento contra os carros estacionados em fila dupla, sobre calçadas e gramados. Quantos, com cartazes “melhor educação”, estariam ali se fosse uma grande onda moral contra os alunos picaretas, pais picaretas – que “compram” atestados médicos para os filhos terem tratamento “diferenciado” na escola, entram na justiça para forçar a entrada de filhos nas faculdades antes de concluir o ensino médio. Quais ficariam com faixas “abaixo a corrupção” se fosse para pedir punição de todos que usam qualquer meio para burlar o Imposto de Renda?

A mudança não está fora, está dentro!

Os políticos foram eleitos, não desceram do céu em nuvens douradas ou nasceram em repolhos dentro do Congresso, assembleias e câmaras de vereadores. Olha o pensamento mágico aí! A terceirização da culpa, base do comportamento cristão: se há um mal, é o diabo; se um bem, foi deus que quis. Como assim? Então, nada na vida é resultado das decisões e atitudes pessoais de cada um, a cada minuto do dia??

[deixei de acreditar em deus quando me disseram que ele era onipresente, onisciente e onipotente, mas permitia o diabo agir, a maldade e o sofrimento; ou este deus é um sacana – e não merece qualquer respeito – ou simplesmente não existe; preferi optar pela segunda opção]
[deixei de acreditar em religiões quando soube que poderia ter uma vida indigna e iníqua, pois a salvação não depende de mim, ou melhor: nada do que eu faço importa, posso matar, roubar grande ou pequeno, se no leito de morte me arrepender dos pecados, estarei salvo; o paraíso não depende de mim, mas da benevolência de um deus]

O pensamento mágico está tão difundido (maior país católico do mundo…) que o próprio governo apresenta soluções mágicas. Reforma política para resolver o problema da saúde, educação e transporte público?!?!? Reforma política só interessa aos… políticos! Não é a forma de escolher os políticos que vai fazê-los menos corruptos, ou melhores administradores. A cidade precisa de bons administradores, que saibam fazer – sobretudo que tenham coragem de fazer. Antes de reforma política, precisamos de uma reforma no judiciário, cujo poder ineficiente a serviço dos poderosos é a base de toda nossa injustiça e impunidade. Antes da reforma do judiciário, precisamos de outros princípios éticos – pois a falta de impunidade, a cultura do jeitinho, e a malandragem é do interesse de muita gente sim, muita, e não apenas políticos. Ouso dizer que é o princípio ético da maioria dos brasileiros  – caso contrário, já teria mudado. Não somos um povo imoral, mas amoral, para quem questões morais são desconhecidas, estranhas, não são levadas em consideração.

O ponto de encontro geralmente foi a Biblioteca Nacional. Durante a aula livre do Prof. Safatle, tirei esta foto:

biblioteca_nacional_brasilia

e neste instante que escrevo, lembrei que a Biblioteca é um bom exemplo. Foi construída pelo Roriz em 2006, sem nenhum livro dentro. Só o prédio, a arquitetura (feia, por sinal). Só agora, 7 anos depois, é que foram colocados livros para empréstimo. Uma biblioteca sem livros? Tá resolvido o problema cultural do país! Se bibliotecas não precisam de livros, basta dizer que, a partir de hoje, todo viaduto é biblioteca. Como não precisa livros, e como a solução para o transporte das cidades é construir viadutos para os automóveis particulares, dois problemas resolvidos com uma frase!

Nem os ciclistas escapam do pensamento mágico. Aqui em Brasília, construíram dezenas de quilômetros de ciclovias para “salvar vidas”, no Plano Piloto – onde o índice de atropelamentos fatais é irrisório se comparado com outras RAs – conheço casos registrados que cabem nos dedos de uma mão: Pedro (no eixão, onde não fizeram ciclovia), Carol, no dia da manifestação, e um ciclista morto na UnB alguns anos atrás (se você conhece/lembra outros casos, deixe um comentário). Por que não fizeram ciclovia na EPTG? Na estrutural? Porque no Plano Piloto o governo mostra para o país e o mundo que a “cidade está preparada para a Copa”. Mostra para os cicloativistas esportistas, os que pediram a apoiam o GDF nesta empreitada, todos de classe média alta, mostra para eles que o governo “quer salvar vidas” e que, com ciclovias, a cidade se tornou um paraíso para os ciclistas. Sim, mas… e os carros parados nos rebaixamentos do meio-fio, bloqueando as ciclovias? E os carros que não dão preferência às bicicletas nos locais onde a ciclovia cruza a pista? Cadê a punição para quem estaciona irregularmente? Cadê educação dos motoristas “para um trânsito melhor, uma cidade melhor”? E os bicicletários que existiam e, a cada dia que passa, um é retirado, não pelo governo, mas por iniciativas privadas? Então, é só o governo que tem que incentivar o uso da bicicleta?

todos_somos_responsaveis

A maior manifestação aqui em Brasília ocorreu na quinta feira, dia 21 de junho, solstício de inverno, associado à morte, ao desconhecido ou à escuridão. Na antiguidade, rituais de iniciação eram feitos sempre no solstício de inverno, porque é a maior noite do ano, significa o início do ciclo de dias de luz cada vez maiores; significa a saída do mundo dos mortos (a noite, a escuridão) e a entrada no mundo dos vivos (o dia, a luz). Os rituais do solstício de inverno têm o significado de renascer, ou nascer de novo para a Luz; o renascimento assume o significado simbólico da vida que se renova, após a grande noite (morte). [quando é mesmo o Natal, data máxima da cristandade? no solstício de inverno do hemisfério norte!]

Será que foram apenas dias de ritual mágico na semana do solstício de inverno?

Fui com esta camiseta:

libertas

Todos sabem que a inscrição na bandeira de Minas quer dizer “Liberdade ainda que tardia”. A liberdade sempre é boa, mesmo que venha tarde.
O que muitos não sabem é que, para expressar o desejo de ficar livre de Portugal, os inconfidentes quebraram o verso das Bucólicas, de Virgílio, deixando, de propósito, uma parte muito importante de fora.
Veja o original, em latim:

bucolica_I

retirado do livro

constr_arte_buc_virgilio

do saudoso professor João Pedro Mendes, um dos melhores mestres que já tive, com quem aprendi rudimentos de latim e grego (rudimentos por culpa minha, não dele…).

A tradução é polêmica, como todo texto clássico. Gosto desta: A Liberdade que, embora tardia, contudo olhou favoravelmente para mim, que nada fiz. Para entender melhor, é preciso saber que esta frase responde a uma anterior: O que foi que te trouxe à Roma? Tityrus responde: [o que me trouxe à Roma foi] a liberdade, que, mesmo sendo tarde, ainda assim olhou para mim, que nada fiz.

Se os inconfidentes soubessem para qual caminho ético o Brasil seguiria, eles colocariam o verso completo na bandeira!!

Pois de pouco adianta que a liberdade, ou qualquer outra conquista, mostre as caras, apareça, mesmo que tarde. Nada vai adiantar se continuamos inertes, sem nada fazer no nosso dia a dia, nos pequenos, mínimos momentos.

[.]

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