Tio Hermínio e o Santo Cruzeiro

Não tenho boa memória. Os fatos vividos no passado devem estar guardados em algum lugar, mas se eu os procurar eles se escondem, como planta dormideira (Mimosa Pudica).
Mas estão por ali e aparecem de vez em quando, por algum motivo que só eles sabem.

Foi o que aconteceu quando eu escrevia sobre meu livro de biblioteconomia. Lembrei que, além de escritor, já fui editor um dia!

Meu pai publicou um livro sobre a história de Taiobeiras, cidade onde ele nasceu. Logo depois disto, um tio dele, meu tio-avô Hermínio, animou-se com publicar sua versão de parte da história da cidade, mas em sextilhas rimadas!

Ao saber disto, dei a maior força para a publicação e concordei em pegar os originais manuscritos e passá-los para o computador.

Os arquivos eletrônicos do livro não sei onde estão, mas procurei o exemplar – que sabia que existia – por vários dias, feito tamanduá fuçando formiga, até encontrar. Digitalizei e está disponível para quem quiser ler este poema que fica a meio caminho entre uma epopeia e o cordel.

santo_cruzeiro
Clique na imagem para baixar o PDF

As rimas não são perfeitas o tempo todo. Nem mesmo a métrica. Mas devemos levar em consideração que o autor não tinha nem o primário  – como ele próprio diz na sextilha 66:

A escrita não está perfeita
Pois não tenho nem o primário

E complementa, na sextilha 158:

Nela falta pontuação
ortografia e português
outra terei mais atenção
corrigindo por dois ou três

O poema conta várias histórias: as preliminares, a identificação do local e de sua sacralidade (“um pequeno descampado/marcado por Deus divino/foi bem aproveitado/tudo mais pelo destino“), a procissão de gente de vários lugares da redondeza, que se reuniam ali para orar e pedir chuva, a decisão de construir o cruzeiro e a participação coletiva para que isto acontecesse. Depois passa a descrever o cruzeiro em seus detalhes:

Ao colocar o cruzeiro
O povo nunca tinha visto
Foi o que viram primeiro
Sem compreender o que era isto
Nas despesas deram dinheiro
Para imitar as peças do martírio de Cristo

A descrição se estende por 45 sextilhas, quase um terço de todo o poema. Depois, diz como o local de peregrinação foi se urbanizando.

Quando eu era menino, o cruzeiro ficava bem longe, no meio do cerrado. Ia pra lá de bicicleta de vez em quando, sozinho, quase me aventurando. Decidiram expandir a cidade ate lá. Depois que construíram ali o segundo cemitério da cidade, a urbanização acelerou e hoje

Com o crescimento da cidade
As casas estão em seu redor
Uma grande praça da sociedade
Só está faltando zelador
Formou-se comunidade
Que os habitantes têm seu valor.

Curioso como este sextilha de versos simples, de um homem quase iletrado, reproduz a verdade história não só daquele bairro ou cidade, mas de todo o país. Cresceu? Cresceu. Só está faltando zelador!!

Foi bom lembrar este livrinho do tio Hermínio – com quem tive muito pouco contato… – infelizmente, pois desconfio que teria muito a aprender com ele. Afinal, ele virou escritor aos 88 anos, com  memória melhor do que a minha, confessa nas sextilhas 153 e 154:

Para descrever esta história
Foi um velho muito afoito
Com perfeita memória
Melhor que antes dos dezoito
Rogando a Deus da Glória
Para completar oitenta e oito

Meu avô, irmão dele, está com 102 anos. Opa! Se o DNA funcionar, ainda tenho chance de me tornar escritor!

[.]

2 comentários sobre “Tio Hermínio e o Santo Cruzeiro

  1. Caro Denir, segundo Frei Gomes, um franciscano que conheço, o escritor tem o dom de Deus, ou dos deuses, quem escreve.
    Abcs, Adalberto

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