Os ciclistas-que-nunca-morrem

Adoro voltar de bicicleta para casa à noite, todos os dias após o trabalho. A noite já indo para altas horas, temperatura agradável, calma, silêncio e solidão.

A lua em quarto crescente é uma janela semiaberta para quem quer ir a um mundo longínquo e etéreo. Nuvens passam como almas magras espiando cortinas. Logo após a chuva, vapores sobem das superfícies quentes.

Mas pedalar à noite acontecem coisas estranhas.

Uma vez senti cheiro de onça (escrevi aqui). Outra noite, em agosto, um grito estridente de garota escorreu de algum apartamento e pareceu mais alto do que as sirenes dos bombeiros e da ambulância, que entraram velozes na 209 sul, várias semanas antes. Um grupo de pessoas murmurava sobre alguém que teria tentado se matar, ou estava tentando. E por que a moça gritou daquele jeito medonho?

Os pedestres fazem caminhos que se cruzam sobre gramados e entrequadras. Costumo cortar atalhos por estas pisaduras. No pé de um amendoim-bravo, árvore velha, retorcida e com tronco rugoso, deparo-me algumas vezes com um prato de barro, farofa, vela vermelha, garrafas.

É raro encontrar alguém vivo. Carros passam velozes autômatos nas pistas. Nas calçadas ou na ciclovia às escuras, um ou outro pedestre caminha com passos tensos. Na boca de uma das passagens subterrâneas – completamente às escuras depois que o governo fez uma “revitalização” e tirou todas as lâmpadas – de dentro daquele túnel negro subiu um gemido rouco. Podia ser um fumador de crack (bandido não faz barulho, fica na tocaia) ou um dos vários mendigos que dormem nestas passagens do eixão, roncando. Quais sonhos naquele ambiente feio e fétido?

Vou sozinho. Mas há ciclistas que pedalam à noite, em grupo. Uns dizem que são amigos esquisitos e macabros que se encontram para um passeio noturno.

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Para os céticos, isto é apenas propaganda de uma loja de bicicleta de Paris.

Outros juram que são mesmo ciclistas-que-nunca-morrem, almas-penadas e empenadas.
Que, se você conseguir segui-los pela cidade, 13 minutos depois da meia-noite desaparecem bem diante dos seus olhos.

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Você pode até não acreditar em ciclistas-fantasmas. Mas que eles existem, existem.

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2 comentários sobre “Os ciclistas-que-nunca-morrem

  1. Muito bom. De vez em quando volto mais tarde do trabalho ou de outro local de bicicleta também, e o sentimento é parecido. Mas até por volta de 21h, a cidade está bem movimentada.

  2. Ir pra farra na boate de bike (no caminho, passar em trocentos botecos) e voltar com o dia raiando: não tem preço! (vários amigos carrodependentes de pequeno grau vão lá pra casa só pra deixarem o carro e irem pedalando também).

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