Bicicleta: entre a economia e as asas

O poeta Alberto Martins disse que “a literatura é uma zona de respiro da sociedade, como os caminhos que as minhocas abrem na terra para arejá-la. O papel da literatura é canalizar e dar voz a essas coisas que não são aparentes”.

Se vale para a literatura, vale para a arte e todas as suas manifestações. Então vale para as charges.

 

O que a charge do Rafael para o jornal O Povo tem a nos revelar, o que está oculto? Os cinco líderes pedalando em conjunto a BRICicleta dá óbvia ideia da união de forças. A charge remete à criação do banco dos BRICs, assunto que esteve na pauta da economia no começo da semana. Mas há algo mais, raízes que só as minhocas ouvem. Siga-me nesta trilha, talvez eu consiga mostrar.

Os seres humanos gostamos de achar que somos seres racionais e inteligentes. Que uma das nossas melhores sabedorias é tomar decisões racionais visando um futuro melhor. Errado! Na maioria das vezes, não somos tão lógicos como queríamos e um misto de emoções e crenças engana a nós mesmos.

Como seres humanos cheios de emoção, temos uma imensa aversão à perda, que muitas vezes nos leva direto à falácia dos custos irrecuperáveis.

Mas, o que são custos irrecuperáveis?? São todos os pagamentos ou investimentos que fazemos e que nunca poderão ser recuperados. É um dos temas favoritos dos economistas, quando estudam as escolhas intertemporais no âmbito da economia comportamental.

Um andróide com circuitos lógicos em pleno funcionamento nunca tomaria uma decisão com base nos custos irrecuperáveis, mas você e eu sim. Nossos sentimentos e instintos são mais fortes e nosso cérebro disfarça para que pareçam decisões racionais. Mas não são.

A Ilusão: você toma decisões racionais baseadas no valor futuro dos objetos, investimentos e experiências.

A Verdade: suas decisões são influenciadas pelos investimentos emocionais que você acumula, e quanto mais você investir em algo mais difícil se torna abandoná-lo.

Vejamos como acontece e o que isto tem a ver com bicicleta e trânsito.

No livro Thinking Fast and Slow

publicado no Brasil pela Editora Objetiva, o psicólogo Daniel Kahneman escreve sobre como ele e seu colega Amos Tversky, por meio de trabalho na década de 1970 e 80, descobriram o desequilíbrio que há entre perdas e ganhos em nossa mente. Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de… economia!, explica que, uma vez que todas as decisões envolvem incerteza sobre o futuro, o cérebro humano que você usa para tomar decisões evoluiu um sistema automático e inconsciente para julgar como proceder quando surge um potencial de perda. Assim, ao longo do tempo, a perspectiva de perdas tornou-se um motivador mais poderoso no comportamento humano do que a promessa de ganhos. Sempre que possível, tentamos evitar perdas de qualquer tipo, e quando se comparam perdas e ganhos, você não vai tratá-los da mesma forma.

O economista comportamental Dan Ariely acrescenta um toque fascinante nesta questão da aversão à perda, em seu livro Predictably Irrational


(publicado no Brasil pela Campus Editora). A “dor de pagar”, como ele diz, surge sempre que você precisa desistir de qualquer coisa que você possui. O valor não importa. Você vai sentir a dor não importa o preço que você vai pagar, e isto influencia suas decisões e comportamentos.

Em um de seus experimentos, Ariely montou um estande em uma área bem movimentada. Os transeuntes podiam comprar chocolates comuns por R$1,00 ou excelentes trufas belgas por R$15,00 cada. A maioria das pessoas escolheu as trufas. Foi um bom negócio, considerando as diferenças de qualidade e os preços normais de ambos os itens. Ariely, então, criou outro estande com as mesmas duas opções, mas reduziu o preço em um real cada: os chocolates eram de graça e as trufas custavam R$14,00 cada. Pare e pense: desta vez, qual você escolheria??

A grande maioria das pessoas selecionou os chocolates comuns em vez das trufas (foi seu caso, admita!!). Se as pessoas agissem na lógica matemática pura e racional, explicou Ariely, não deveria ter havido mudança no comportamento dos indivíduos. A diferença de preço era a mesma. Mas não achamos que é dessa maneira. Nosso cérebro nos prega uma peça (por falácia, uma inverdade lógica): o sistema de aversão à perda está sempre vigilante, de prontidão para nos manter longe da ideia de desistir de algo, de desapegar. É por isso que você acumula badulaques que você realmente não quer ou precisa; é por isso que achamos tão tentador aceitar negócios que incluem brindes “gratuitos” ou descontos obscuros; é por isto que as pessoas continuam usando carros, mesmo sabendo do mal que faz à saúde (obesidade e sedentarismo), à cidade (trânsito caótico e mal uso da terra) e ao planeta (aumento do efeito estufa).

Alguma vez você já foi ao cinema só para perceber, em 15 minutos, que está assistindo a um dos piores filmes já feitos, mas você fica e assiste ao filme de qualquer maneira, até o fim? Você não quer desperdiçar o dinheiro, então você desliza para trás na cadeira e sofre – como sofre atrás do volante.

Essa é a falácia!! É o sistema emocional em alerta. Porque o dinheiro será perdido de qualquer maneira. Não importa o que você faça, você não pode tê-lo de volta. A falácia impede que você perceba que a melhor opção é fazer o que promete ser a melhor experiência no futuro, em vez de preferir “diminuir” o sentimento de perda no passado.

Kahneman e Tversky também conduziram um experimento para demonstrar a falácia dos custos irrecuperáveis. Veja como você se sai nessa.

Imagine que você vá comprar um livro que custa R$50. Quando você abre sua carteira ou bolsa, percebe que perdeu a nota de $50. Será que você ainda compra o livro? Provavelmente sim. Apenas 12 por cento dos indivíduos no teste disseram que não. Agora, imagine que você compra o livro, paga R$50, mas antes de chegar ao bicicletário percebe que esqueceu – perdeu! – o livro em algum lugar. Você voltaria e compraria outro exemplar do mesmo livro?? Talvez, mas a dor no bolso seria muito maior, não é? Neste experimento, 54 por cento das pessoas disseram que não compraria outro livro. A situação é exatamente a mesma!!

Você perde R$50 e, para poder ler o livro, precisa pagar R$50 de novo, mas o segundo caso nos parece diferente, sentimos diferente. É como se o dinheiro fosse usado para um propósito específico e depois perdido, houve uma carga emocional investida no futuro e perder é uma m*!

Os custos irrecuperáveis levam a guerras, elevam os preços em leilões e mantem vivas políticas fracassadas, como a política de incentivo ao automóvel. A falácia faz você continuar comendo o que está no prato, mesmo quando seu estômago já está cheio. Ela enche sua casa com coisas que você não quer nem usa mais. E vai fazer as cidades entrarem em colapso, pois os carros foram comprados, os viadutos foram feitos, as pistas foram duplicadas, as montadoras foram subsidiadas, o IPI foi reduzido, é muito dinheiro para poder voltar atrás agora…

foto do blog IN TRANSITU
EPTG após obras para “resolver o caos do trânsito”; foto do blog IN TRANSITU

Motoristas estão atolados em um poço de custos irrecuperáveis. Governos que buscam soluções para o trânsito de automóveis estão presos na lógica engarrafada dos custos irrecuperáveis. Eles nunca podem voltar o tempo ou o dinheiro que gastaram, mas pretendem continuar usando seus carros para evitar sentir a dor da perda e a horrível sensação de desperdício.

A falácia dos custos irrecuperáveis às vezes é chamada de falácia Concorde, descrevendo-a como uma escalada de compromisso. É uma referência à construção do primeiro avião comercial supersônico. O projeto estava previsto para ser um fracasso desde o início; mas todos os envolvidos continuaram em frente. Os investimentos que fizeram juntos deu origem a uma pesada carga psicológica que superou todos os melhores e sensatos argumentos. Depois de perder uma quantidade incrível de dinheiro, esforços e tempo, eles não queriam simplesmente desistir.

Foram em frente, como vão em frente os governos que duplicam vias, constroem viadutos, ampliam estacionamentos, reduzem IPI.

Motoristas, gerentes de trânsito, engenheiros, arquitetos, urbanistas e a imprensa continuam em frente, buscando solução para o trânsito de automóveis, mesmo sabendo que o fracasso é óbvio.

A capacidade humana de raciocínio tem defeitos provocados por forças invisíveis – emoções, relatividade, expectativas, apego, normas sociais – que nos induzem a fazer escolhas ‘previsivelmente irracionais’.

É uma tendência nobre e exclusivamente humana a vontade de perseverar, a vontade de manter o rumo, o apego ao que passou e a crença infundada no controle do futuro – estudos mostram que animais e crianças pequenas não cometem esta falácia. Vespas e vermes, ratos e guaxinins, bebês e crianças, eles não se importam o quanto investiram ou quanto vai para o lixo. Eles só conseguem ver perdas e ganhos imediatos.

Por outro lado, como seres humanos adultos, temos o dom da reflexão e do arrependimento.

Ponha-se num lugar futuro, onde você admita que seus esforços foram e estão sendo em vão, que suas perdas são permanentes, e que aceitar a verdade dói, dói muito.

Desapegue de velhos hábitos. Não espere que o governo construa nem aguarde que a polícia multe ou prenda. Assim como os líderes dos BRICs, dê o primeiro passo e a primeira pedalada em direção à mudança. As bicicletas estão aqui, e agora, só depende de você querer ganhar ou perder. Conscientemente.
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este texto foi inspirado pela charge e escrito a partir da estrutura e argumentos traduzidos do artigo The Sunk Cost Fallacy, publicado no blog You are Not So Smart, com adaptações.


[.]

2 comentários sobre “Bicicleta: entre a economia e as asas

  1. Gostei do post, mas discordo de algumas afirmações e relações. Você conclui que um dos motivos que os motoristas continuam usando carros é devido ao sentimento de perda pelo valor investido em viadutos, pistas e em seu próprio automóvel, pois deslocar-se de bicicleta é mais prático e prazeroso (a escolha “previsivelmente irracional”).
    Isso não é verdade, há mais de 8 anos a bicicleta é meu meio de transporte principal, e lamento, mas não é um meio de transporte prático. Você toma sol, chuva, faz esforço, tem capacidade de carga praticamente nula, e exige uma logística elaborada quando você vai ao trabalho, pois você precisa levar a roupa e muitas vezes de local para tomar banho se pedalar por tempo suficiente no calor. Adicionalmente você pode cair e se arranhar/quebrar em qualquer acidente bobo, ou pior se você estiver próximo de outro carro, e não em uma ciclovia segregada. O único fator pessoal que o bicicleta ganha é no custo e no exercício, pois trata-se de um meio de transporte muito barato, que faz bem à sua saúde e que passa e cabe em quase qualquer lugar. Em contrapartida, em um carro você está em um ambiente climatizado, protegido das interpéries (sol ou chuva), com isolamento acústico (maior ainda em carros luxuosos), sentado em uma poltrona acolchoada, pode carregar muita carga, não se suja, e pequenos acidentes apenas causam prejuízo material (funilaria, para-choque, faróis, etc) e nenhum dano físico pessoal.
    Resumindo, a escolha do carro pela bicicleta não é “previsivelmente irracional”, guiada por uma “força invisível” (emoções, normas sociais). O carro é muito mais prático, confortável e simples, apesar de mais caro. Quando um governador decide ampliar um viaduto, ele quer justamente o “ganho imediato” do alívio momentâneo no trânsito e os benefícios eleitorais disso. Concordo que o viaduto será congestionado em pouco tempo, pois você incentiva o uso maior do carro e essa equação não escala. Quando uma pessoa prefere o carro à uma bicicleta, ela vê todos os benefícios que citei. Então, é uma escolha simplesmente racional, talvez não a melhor a longo prazo, mas perfeitamente racional, e não um “hábito”.
    Em minha opinião, a escolha da bicicleta e o seu incentivo em políticas públicas são simplesmente consequências da falta de opção, quando a quantidade de carros está impossível de gerenciar, como uma parte de uma política de transporte público, OU por opção pessoal, como a minha.
    Por tudo que argumentei, não concordo quando surgem essas afirmações de que bicicleta é a escolha “lógica” em detrimento dos carros. Carros são ótimos meios de transporte, mas infelizmente poluem, são caros, grandes, prejudicam a cidade e difíceis de guardar e manter, mas no somatório, são mais práticos que bicicletas na maioria das vezes.

    1. Obviamente há uma soma de fatores, não é apenas isto ou aquilo. Depende dos hábitos e da bicicleta. Minha bicicleta tem uma capacidade de carga suficiente para meu dia-a-dia, não preciso levar roupa para o trabalho, vou de roupa social mesmo, nem tomo banho, pois a distância e o esforço não me fazem transpirar. Há um ato falho quando você diz “cair ao lado de “outro” carro”. Obviamente, sob o prisma do automóvel, vendo a bicicleta como automóvel, ela perderá nos quesitos todos que você falou. Mas vendo a bicicleta como bicicleta, ela é muito mais prática em termos de estacionamento, se tem defeito não preciso de mecânico ou guincho (eu mesmo conserto ou empurro a bicicleta).
      É tudo questão de escolha. Você diz que “fazer esforço” é ponto negativo da bicicleta, mas logo depois diz que “faz bem à saúde”. Mas… não é o esforço que faz bem a saúde?
      Confesso que não entendi o último parágrafo: os carros poluem, são caros, grandes, difíceis de guardar e manter, mesmo assim é uma escolha mais lógica? Se você coloca apenas o conforto e a praticidade acima de tudo isto, qual é a lógica? Não é uma lógica de soma, de estabelecer pesos e medidas, mas uma lógica emocional (se é que isto existe).

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