Arquivo da categoria: arte

Diário de uma bicicleta

 Diário de uma bicicleta é uma das faixas do CD “Sobre noites e dias”, de Lucas Santtana.
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Também vendido em vinil! 🙂 aqui ou na página dele no Facebook

O crítico Arthur Dapieve publicou no jornal o Globo uma crítica superpositiva do CD.

Mas chega de lenga-lenga e vamos direto ao som. Clique na imagem abaixo e escute a faixa disponível no Kboing.

Diário de uma Bicicleta (feat. De Leve)

Bom demais!! O ritmo, a pegada urbana com os versos do rapper De Leve, preste atenção na letra!!
e uma notícia boa na linha do tempo do Facebook do artista. Em breve teremos videoclipe da música.
Lucas_Santtana

Agradeço ao Márcio Almeida pela excelente dica. Com certeza já entrou para a lista top 10 das músicas com tema e letra sobre bicicleta.

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“Peças” – graphic novel sobre bicicleta

Quem anda de bicicleta sabe como é entrar numa curvar e derrapar, perdendo o equilíbrio. Sem cair, o mundo meio gira e meio, fica a sensação de onde estou?, até se recuperar.
Quem lê um bom livro sabe como é ir pela narrativa, até que um capítulo, um parágrafo muda tudo, muda o rumo.

Entrei numa destas curvas e cheguei num destes capítulos.
Mas o caminho de bicicleta e o livro continuam.
E para prosseguir, nada melhor do que falar de um livro que vai ser muito bom.
Como assim vai ser?

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O livro é um projeto de financiamento coletivo no Catarse.
Se você contribuir com R$ 10,00, recebe o livro no formato digital (PDF).
Se contribuir com R$ 29,00, recebe o livro impresso.
Há vários outros valores maiores para contribuição, com diferentes brindes além do livro.

Saiba mais direto na página do projeto:

“Peças” é uma graphic novel da dupla Aline Paes e Thiago Cascabulho, e primeira publicação do selo “StoryFunding – histórias com impacto”, em parceria com o Instituto Aromeiazero. Caso o livro seja financiado, 20% do valor arrecadado será destinado aos projetos do Instituto Aromeiazero.

Sinopse: M. é um manequim de loja aficionado por pedalar. Quando sua amada bicicleta é roubada, ele é obrigado a percorrer a surreal cidade em busca das peças perdidas de sua companheira, deixando um pouco de si pelo caminho.

CARACTERÍSTICAS DO LIVRO:
80 páginas em preto e branco, 17 × 10cm

Veja o vídeo:

E – mais importante! – participe você também!

Para contribuir no Catarse, você precisa fazer um cadastro. O processo é muito fácil. Depois basta logar com email e senha, ou pelo facebook, e escolher a opção de pagamento (pay pal, cartão ou boleto).
Já participei antes, no projeto do excelente CD Janelas, e agora contribuí com R$ 29,00 pelo livro impresso – porque nenhuma tela de luzinhas substitui o cheiro de livro novo!

Feliz por ser um dos futuros proprietários do livros Peças. 🙂

Bicycle, o filme

O documentário “Bicycle” dura 90 minutos e pergunta: o que é andar de bicicleta e por que a bicicleta está de volta à moda?

Dirigido pelo diretor Michael B. Clifford, vencedor do British Academy of Film and Television Arts (BAFTA – “Oscar britânico”), que também é ciclista entusiasta, o filme conta a história da bicicleta na terra que inventou a bicicleta moderna, seu nascimento, decadência e renascimento, desde sua origem vitoriana até hoje.


créditos: Coventry Transport Museum

O documentário combina design da bicicleta, esporte e transporte, por meio da releitura de algumas histórias emblemáticas e apresenta entrevistas com colaboradores notáveis: Sir Dave Brailsford (treinador da equipe de ciclismo Team Sky), Gary Fisher (um dos inventores do mountainbike), Chris Boardman (recordista mundial e ganhador da medalha de ouro nas Olimpíadas de Verão de 1992, categoria perseguição individual), Ned Boulting (jornalista esportivo), Sir Chris Hoy (ciclista, campeão escocês, mundial e olímpico, com seis medalhas de ouro), Tracy Moseley (várias vezes campeã britânica de mountaibike e downhill), Mike Burrows (designer e construtor de bicicletas) e muitos mais, além de grande coleção de imagens, animação e música.

“Bicycle” é uma reflexão bem-humorada, lírica e calorosa sobre a bicicleta em si, sobre andar de bicicleta e seu lugar na psique nacional britânica.

A equipe do filme inclui o premiado produtor de cinema Pip Piper, da Blue Hippo Media. Um recente documentário de Pip, “Last Shop Standing”, sobre as lojas de discos independentes do Reino Unido, contou com Paul Weller, Johnny Marr e Billy Bragg e recebeu aclamação da crítica e foi exibido em todo o mundo.

O consultor criativo é Rob Penn, escritor e fotógrafo, autor do famoso livro “It’s all about the bicycle” (ainda não traduzido para o português), que tem o sugestivo subtítulo “em busca da felicidade sobre duas rodas”, e pode ser comprado na Amazon:

Este livro virou documentário transmitido pela BBC. Em 2013, Rob Penn pedalou 1.200km pela Amazônia como parte de outro documentário.

O filme “Bicycle” está sendo apoiado pela Trek, Shimano, Bicycle Association, Birmingham Cycle Revolution e outros co-patrocinadores. 20% do orçamento foi conseguido por meio de crowdfunding.  Clique aqui para ver o cartaz do filme em tamanho (muito) grande. A première VIP foi em 1 de julho de 2014. O lançamento mundial para o público ocorreu na Harewood House, durante o Yorkshire Cycling Festival, em uma tela gigante ao ar livre alimentada por 12 bicicletas!

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O filme está sendo exibido em cinemas de todo o Reino Unido.

Mas, para nós, está disponível para pré-compra em DVD. Por apenas £9,99, cerca de 30 reais. Somente até 12 de setembro! Atenção na hora de comprar! Escolha a opção International DVD. O filme possui a opção de legendas em inglês. Compre o seu clicando aqui e ajude o cinema independente.

Alguns depoimentos:

“Num momento em que a bicicleta está de volta e na moda, é muito bom ver um filme sobre esta bela máquina” – Chris Boardman, medalha de ouro olímpico

“Lírico, carinhoso, lindo. Um hino de louvor a esta simples maravilha: a bicicleta “ – Ned Boulting, radialista e escritor

“A bicicleta tem sido fundamental na minha vida até o ponto em que agora tenho a minha própria marca de bicicletas. Estou animado para ver um documentário sobre a história da bicicleta e seu impacto na Grã-Bretanha.” – Sir Chris Hoy, 6x campeão olímpico (Hoy Bikes)

Estou com a página aberta pra fazer minha encomenda! 😀

Visite o saite oficial do documentário.

Este artigo foi escrito com base no release de divulgação. Vi primeiro no boletim mensal da Sustrans-UK.

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Bicicleta e arte popular – pintura naïf

Durante a limpeza da minha biblioteca, encontrei um antigo catálogo telefônico, que havia guardado por causa da capa.

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Guardei mais pela curiosidade. O catálogo é de 2008, período em que o movimento em favor das bicicletas estava crescendo em Brasília, a ponto de se tornar capa de catálogo telefônico (coisa que nem existe mais).
E o estilo da ilustração chamou muito minha atenção.

Eu gosto de arte popular, arte naïf [aliás, são beeeeem melhores que muitas “instalações”, amontoados de coisas horríveis que insistem em chamar de arte…]
Agora, prestando atenção nos detalhes da capa, vi que se trata de uma pintura de Ermelinda, pintora naïf já reconhecida, inclusive com exposições e obras em museus.
Ciclismo - Ermelinda - 2006 - naif

A Arte Naïf é concebida e produzida por artistas sem preparação académica específica e sem a “obrigação” de terem de utilizar técnicas elaboradas e abordagens temáticas e cromáticas convencionais nos trabalhos que executam. Isto não significa que não estudem e aperfeiçoem de modo autodidáctico e experimental o desenvolvimento das suas obras, e não implica que a exigência de qualidade das mesmas seja inferior.
Caracteriza-se em termos gerais por uma aparente simplicidade e pela liberdade que o autor tem para relacionar ou desagregar, a seu belo prazer, determinados elementos considerados formais; a inexistência de perspectiva, a desregulação da composição, a irrealidade dos factos ou a aplicação de paletas de cores chocantes. A Arte Naïf exprime ainda, de um modo geral, alegria, felicidade, espontaneidade e imaginários complexos, resultando, às vezes, todo este conjunto numa beleza aparentemente desequilibrada mas sempre muito sugestiva. (definição tirada dessa página)

Muitos consideram que o artista naïf pinta com a alma, numa expressão direta, não cerebral, de experiências pessoais e relação com o meio em que está envolvido. Por curiosidade, pesquisei por imagens de bicicletas nas pinturas naïf disponíveis na internet.  Veja a seguir o que encontrei. A legenda mostra título da obra e nome do/a artista. Clique nas imagens para acessar a página do/a artista.

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São Jorge criança – Ronaldo Mendes
A ciclista – Ines Vitoria
Mulher andando de bicicleta na roça – Nilson Pimenta
Corrida de bicicletas – Nilson Pimenta
Zona rural – Nilson Pimenta
Ciclistas – Nilson Pimenta
Bicicletas – Nilson Pimenta
Andando de bicicleta no sítio – Valques Rodrigues
Andando de bicicleta no sítio – Valques Rodrigues
Manifestações de religiosos na comunidade rural – Valques Rodrigues
A barriguda – Olímpio Bezerra
….. – Olímpio Bezerra

Não encontrei o título da pintura acima. O artista Olímpio Bezerra tem outras obras onde aparecem bicicletas, clique aqui e veja.

Mais sobre arte naïf, no Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil.

Bicicletas são representadas na arte naïf também em outros países. Mas isto é assunto para outro artigo, que vai chegar a tempo como esta noiva de bicicleta, vindo da Austrália.

The Groom awaits – Inge Semler

😀

Bicicletas de arame: galimotos da África

Galimotos são brinquedos artesanais de algumas regiões da África. São feitos de tudo que possa estar à mão, desde sabugo de milho a latas e arames. Veja!
A palavra galimoto significa “veículo” em Chichewa, língua nacional do Malawi (faixa oriental da África, perto da Tanzânia e Moçambique).
Em geral, as crianças fazem carros, caminhões, aviões.
E bicicletas!!

galimoto, bicicleta, bicycle, wire, toy
Um menino de Moçambique com seu galimoto

Além dos limites da África, a palavra galimoto está sendo muito usada como sinônimo de bicicleta de brinquedo feita de arame. Por causa do sucesso do livro Galimoto, de Karen Lynn Williams, que ganhou boas recomendações do Publishers Weekly e do New York Times Book Review.

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capa (acima) e folha de rosto (abaixo):Galimoto_Karen_Lynn_Williams
Lojas de artesanatos e arte étnica, nos EUA e Europa, também ajudam nesta tendência. Se você procurar na internet, aparece em destaque estas bicicletinhas vendidas na rede Ten Thousand Villages


A loja One World Fair Trade têm à venda:

E na galeria da Plowshare Center:

São lojas que participam do movimento Fair Trade ou Comércio Justo, que surgiu na Holanda e, entre outras coisas, “procura criar os meios e oportunidades para melhorar as condições de vida e de trabalho dos produtores, especialmente os pequenos produtores desfavorecidos. Sua missão é promover a equidade social, a proteção do ambiente e a segurança econômica através do comércio e da promoção de campanhas de conscientização”.
Holanda, país que dá exemplo ao mundo no uso de bicicleta, em busca igualmente de cidades mais justas e um trânsito justo, ético [fico me perguntando: por que alguns países pensam nisto e outros não??]. E aqui a gente volta ao início.

Os galimotos são usados em eventos de sensibilização de crianças e famílias, pela Wonderaddo, em Pittsburgh, proporcionando contato local com manifestações da cultura mundial.

Na África e em todo lugar, as bicicletinhas surpreendem e encantam por sua graça e simplicidade – que decorrem da engenhosidade e criatividade de construí-las!

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Bicicleta e arte popular – brinquedos

Entre meus livros coloco alguns objetos. Foram comprados ou presentes recebidos, têm certa carga simbólica e sentimental. Carrancas espantam maus espíritos, um casal de namorados suspira – escultura do meu amigo João Alves.

E esta bicicleta feita de cipó???????????????????????????????

comprei na feira de artesanato durante as Festas de Agosto, em Montes Claros.

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Bicicleta de cipó

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Procurei na internet por “bicicleta de artesanato”, achei um brinquedo antigo feito em Portugal:

Um pouco depois cheguei ao Museu do Brinquedo Popular e….. que maravilha!!!! Uma coleção de bicicletinhas:
feitas por Dell, Mestre Sauba e Zé Gomes.

Bicicletinha?? Olha só o tamanho das bicicletas feitas pelo artista José Gomes, da cidade São Joaquim do Monte, Pernambuco:

O autor das bicicletas-mamulengo aparece na foto (do blog Josinaldo Amaury).

Tem vários personagens, o casal de noivos, o “Nego Veio”, até Lampião e Maria Bonita! 🙂

A arte popular do Nordeste tem muitos tesouros guardados.
Este brinquedo esculpido em madeira, intitulado “O ciclista”

faz parte do acervo do artista Alberto Bernardo. Visite a página dele e assista três vídeos ótimos: um mostra o funcionamento de um jogo de capoeira com bonecos de madeira articulados, outro mostra o método de fazer que transforma um bloco de madeira num músico tocador de violoncelo, e o terceiro é um depoimento do artista. Ele diz:

O trabalho que desenvolvo também abrange a construção de brinquedos de arte para ambientações de espaços do brincar como escolas, brinquedotecas, bibliotecas.
As esculturas narram vivências típicas do nordeste brasileiro, com ênfase para os fazeres locais que acontecem ao pino do meio dia, como o nascimento, as brincadeiras, os trabalhos caseiros, os heróis do sertão e as crenças de nosso povo.

Vivências diárias, trabalhos caseiros, arte, bicicleta, brinquedo. Tudo junto misturado, sem sentido? Não!
Para ser inteiro, o ser humano tem que ser sapiens (que conhece e aprende), faber (que faz e produz) e ludens (que brinca, cria e se diverte). Muita gente acredita que na idade adulta somos apenas homo faber, que produz e consome. A fase de aprender e brincar ficou na infância…
Homo ludens foi um conceito introduzido pelo historiador Johan Huizinga [leia  uma perspectiva histórica sobre o lúdico]. Para Huizinga, o jogo, a brincadeira, a diversão é uma atividade acompanhada de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘vida cotidiana’.
Mas já Aristóteles dava muita importância ao tema, conforme se lê em sua Ética a Nicômaco, 1127-b-30:

Como a vida é feita não só de atividade, mas também de repouso, e este inclui os lazeres e a recreação, parece haver aqui também uma espécie de
intercâmbio que se relaciona com o bom gosto.

Quando escuto alguém dizer, em tom de deboche, que “bicicleta é aquilo que você deixa de lado quando cresce e compra um carro” ou “bicicleta é coisa de criança”, eu agradeço.  Seja pedalando todo dia para o trabalho, passeando nos finais de semana, ou viajando em datas especiais, para mim, bicicleta é sempre diversão.

E eu quero uma bicicletinha dessas!!

Lampião e Maria Bonita vão de bicicleta!

 

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O tarado, a mulher e a bicicleta

De volta das férias de janeiro, estava à busca de algo para recomeçar o blog com energias renovadas quando minha cunhada compartilhou, no facebook, esta tirinha do Blog Kisuki:


Num primeiro momento, na fluidez etérea do facebook, confesso que pensei: não é motivo para não andar de bicicleta. Obviamente sem intenção de desprezar ou minimizar o trauma, mas porque não vi mesmo, de imediato, uma relação causa-consequência.

Porém, sabia que um sentimento muito profundo foi colocado na tirinha, pois a intenção foi um fazer artístico. E a arte nunca se revela à primeira vista. Fiquei dias e dias com isto pensando e pesando na minha cabeça.

A catarse é uma das funções da arte, ao provocar uma descarga de emoções que limpa e purifica a pessoa, ao reviver a realidade mimetizada (imitada, não-real). Esta foi minha segunda leitura da tirinha: os quadrinhos narram o drama – a tragédia –  como forma de purgar a violência, o medo, o trauma.

Entretanto há muito mais, e muito mais denso e mais alto. Um símbolo carrega várias camadas de significado. Uma palavra tem história e faz história, e muitas vezes nós usamos palavras, ou símbolos, sem explicitar conscientemente toda sua bagagem de significado. Uma artista pode ir além e, sabendo ou sentindo significados ocultos, lapidá-los ao produzir arte.

A bicicleta teve uma importância decisiva no movimento de liberação feminina.

Um (longo!) artigo publicado pela revista Cranked Magazine mostra a importância da bicicleta na liberação feminina que começou no final da Era Vitoriana (década de 1890).

A revolução industrial trouxe uma série de mudanças sociais, entre as quais uma elite que gastava seu tempo livre se divertindo com esportes.
A bicicleta, inventada em 1817, e suas evoluções posteriores, tinha um design que impediu, por décadas, as mulheres andarem de bicicleta – elas só podiam usar saia bufante e espartilho. Imagina fazer isto numa penny-farthing…

Bicicleta extremamente instável e perigosa para os homens. E as mulheres ainda tinham que andar na bicicleta sentadas de lado – como andavam nos cavalos (saiba o porquê deste “hábito” mais à frente). Imagina como deveria ser “fácil”!!

Muitos construtores, por razões do mercado crescente, tentaram desenvolver modelos que fossem adequados às mulheres, mas sem grande sucesso. No final da década de 1870, surgiu o modelo “safety bicycle”, com praticamente o mesmo desenho que temos hoje.

Penny Farthing (esquerda) e Safety bicycle

A invenção dos pneus de borracha foi, na mesma época, outro avanço significativo. Juntos, deram origem a uma bicicleta menor, mais segura, mais fácil de dirigir e mais confortável. E a popularidade da bicicleta como veículo explodiu por volta de 1890 (antes da invenção do automóvel, é sempre bom lembrar).

Para as mulheres, a luta inicial foi pelo direito de simplesmente andar de bicicleta. Naquela época, esporte e máquinas eram coisas exclusivas de homens. Vários críticos diziam que andar de bicicleta prejudicava a saúde física e mental da mulher. O “corpo frágil” da mulher era uma justificativa sempre usada. Mas o maior argumento contra o uso da bicicleta por mulheres era que isto seria “uma agressão ao tecido moral da sociedade”. A suposição de que andar de bicicleta poderia ser sexualmente estimulante para as mulheres foi uma preocupação muito popular. Diversos selins “higiênicos” foram desenhados com a intenção de prevenir, evitando que a genitália feminina entrasse em contato com o banco da bicicleta. Como se vê, de fato não estavam preocupados com o “corpo frágil” feminino, mas com sua moral.

Esta cena do filme Mädchen, Mädchen toca no ponto:

Com o uso da bicicleta, as mulheres também puderam se livrar das amarras de sua casa ou trabalho e passaram a experimentar um novo tipo de liberdade. Porém, a simples liberdade de mobilidade da mulher foi considerada inaceitável, quase imoral. A mulher ciclista, podendo ir e vir na cidade e arredores, sem depender dos maridos, e sem as damas-de-companhia, foi tratada como uma ameaça à sociedade e traria o colapso da moral e das boas maneiras!!

À medida que foi sendo aos poucos aceita, primeiramente em ginásios fechados, depois em clubes, a mulher de bicicleta trouxe consigo uma revolução gigantesca.

The bicycle…has been responsible for more movement in manners and morals than anything since Charles the Second. Under its influence, wholly or in part, have wilted chaperones, long and narrow skirts, tight corsets, hair that would come down, black stockings, thick ankles, large hats, prudery and fear of the dark; under its influence, wholly or in part, have blossomed weekends, strong nerves, strong legs, strong language, knickers, knowledge of make and shape, knowledge of woods and pastures, equality of sex, good digestion and professional occupation—in four words, the emancipation of women.

John Gallsworthy (Debate, 6)

“A bicicleta … tem sido responsável por mais mudanças nos costumes e na moral do que qualquer coisa, desde Carlos II. Sob sua influência, no todo ou em parte, desapareceram as damas-de-honra, as saias longas e estreitas, os espartilhos apertados, o cabelo comprido, as meias pretas, os tornozelos grossos, os grandes chapéus, o pudor e o medo do escuro; sob sua influência, no todo ou em parte, floresceram os fins de semana, os nervos fortes, as pernas fortes, a linguagem forte, calcinhas, o conhecimento do bem estar, o conhecimento da floresta e pastagens, a igualdade entre os sexos, uma boa digestão e a ocupação profissional, em quatro palavras, a emancipação das mulheres”. (John Gallsworthy)

Não são os homens que dizem! Elizabeth Cady Stanton, uma das principais líderes do movimento sufragista, anteviu o poder da bicicleta em transformar a vida das mulheres. Por volta de 1895, embora tivesse 80 anos, ela disse para um artigo da American Wheelman,  “the bicycle will inspire women with more courage, self-respect, self-reliance…”

Uma amiga de Stanton, companheira das lutas sufragistas, também jovem de espírito aos 76 anos, disse:

Let me tell you what I think of bicycling. I think it has done more to emancipate women than anything else in the world. It gives women a feeling of freedom and self-reliance. I stand and rejoice every time I see a woman ride by on a wheel…the picture of free, untrammeled womanhood.

Susan B Anthony.

“Deixe-me dizer o que eu penso de bicicleta. Eu acho que tem feito mais para emancipar as mulheres do que qualquer outra coisa no mundo. Dá à mulher uma sensação de liberdade e auto-suficiência. Eu paro e me alegro toda vez que vejo uma mulher andando de bicicleta… o retrato da liberdade de ser mulher livre de normas e controles” (Susan B. Anthony)

Tessie Reynolds, uma garota de 16 anos, que em 1893 pedalou de Londres a Brighton, ida e volta, em 8 horas, está entre estas heroínas do passado, que desconstroem a história fazendo coisas.

No Brasil, Veridiana da Silva Prado, aristocrata e intelectual, mandou construir um velódromo dentro de sua Chácara Vila Maria, em São Paulo, onde patrocinava corridas de bicicletas, importando a moda vigente na Europa, naquele final do século XIX.

Época em que a bicicleta simbolizou a essência da “Nova Mulher”, jovem, educada, praticante de esportes, interessada na carreira profissional, independente.

Com elas, aprendemos que a solução não virá para a mulher, mas somente pelas mulheres. Quando sua identidade não mais depender do homem: ser uma esposa (por um contrato societário de divisão de bens) ou uma virgem (a ser escolhida como esposa). Continua valendo até hoje.


Para saber mais, lê Pedaling the Path to Freedom: American Women on Bicycles e Wikipedia.

A Nova Mulher, em sua bicicleta, transformou-se num emblema de emancipação tão grande que, em 1897, quando estudantes homens de Cambridge protestaram contra a admissão de mulheres, enforcaram uma efígie de mulher pedalando uma bicicleta, evento que ficou registrado no tempo por esta foto:

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Toda esta curva histórica faz voltar à tirinha:

A bicicleta como símbolo da liberdade feminina – ao mesmo tempo metáfora e metonímia – e ferramenta para alcançá-la, liberação duramente conseguida ao longo dos últimos 150 anos.
A bicicleta abandonada pela Thaïs é a liberdade feminina ultrajada, reprimida e violentada pelo machismo.

Mas… o que é o machismo?
É a crença que os homens são superiores às mulheres.
É a extrema valorização de características culturais vinculadas ao masculino e, ao mesmo tempo, um extremo menosprezo das características vinculadas ao feminino.

Como toda crença ou fé, deriva de suposições mentais autossugestionadas, que, por sua vez, são reforçadas socialmente. O machismo e outros ismos alimentam-se de si mesmo, por isto são tão fortes e agressivos e difíceis de combater.

Na América Latina o machismo tem sua contraparte no marianismo, uma visão religiosa dos gêneros, na qual a mulher é pura, dotada de uma força moral superior, que lhe permite uma capacidade infinita de humildade e sacrifício. Ou seja, grosso modo, a mulher “deve suportar tudo que vem dos homens”.

As três principais religiões abraâmicas, além de monoteístas, são patriarcais e machistas. Por outro lado, a maioria das religiões pagãs são matriarcais, as deusas são criadoras do Universo, geram a vida, a cultura – numa alusão óbvia à gestação feminina – e simbolicamente eram muitas vezes representadas por Árvores ou serpentes.

Lilith – pintura de John Collier (1850-1934)

Se você lembrou o Gênesis, acertou! A primeira narrativa bíblica é uma alegoria de um fato histórico e descreve o processo pelo qual sociedades matriarcais tradicionais foram substituídas por sociedades patriarcais. Quando o deus-pai tomou o lugar da deusa-mãe (Árvore da Vida / Serpente).

OK. Sabemos o que é o machismo e em que bases sociais ele se sustenta. Mas fica a pergunta: por que o machismo? Por que o homem precisa se sentir superior à mulher?

Dizer que a mulher dá a vida é uma figura de metonímia. Sem o homem, ela não poderia dar a vida – a menos que fossem partenogênicas, como salamandras, ou ginogênicas (o macho serve apenas para estimular a produção de óvulos, mas o embrião se desenvolve só com os genes maternos).

Mas, SIM, apenas a mulher tem o poder natural da gestação, de receber e nutrir a vida, com útero e seios.

Pachamama, deusa andina

Um homem para ser pai precisa de uma mulher. Mas a mulher pode ser mãe quando quiser. É ela quem faz a vida acontecer. Não por mero acaso ou coincidência, a personificação da Morte é também feminina em quase todas as culturas. Poder de vida e morte.

No processo de evolução é assim: na maioria das espécies, a fêmea escolhe o macho, processo conhecido como seleção sexual, mate choice ou female choice. Biologicamente falando, homens, somos apenas um reservatório de esperma. Isto é muito para a mentalidade do macho humano. Para contrapor esta servidão biológica, foi forjado um poder social, culturalmente reforçado, que foi construído a partir da maior força muscular e agressividade do homem.

Machismo é um misto de inveja do poder vital feminino e frustração dos homens por não serem desejados.

Então, ô tarado, da próxima vez que vir uma mulher andando de bicicleta, não importa como esteja vestida,

saiba que cantadas, buzinadinhas, assédios e outros gracejos indiscretos nada mais são do que manifestações da inferioridade do macho. Exatamente o oposto da sedução e da conquista.

Em vez disso, seja homem. Pare. Peça inspiração para as deusas e alegre-se: uma mulher de bicicleta é o retrato da liberdade feminina.

Nós só temos a ganhar com isto.

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Livros são portas para a realidade

Enquanto estou no meio da leitura da série Diário de um banana, recebi de meu amigo Sérgio Tourino uma excelente dica de leitura sobre a leitura.

Um editorial de Carlos Vogt  (leia aqui) sobre Proust e seu livro Sobre a leitura. Magnífico elogio, tanto o livro quanto o editorial.
O editorial abre o Dossiê nº 94 da revista ComCiência,  em edição voltada exclusivamente para a leitura, e obviamente, para livros. (mas podemos dizer também para blogs, pois é exatamente isto, ler, que estamos fazendo aqui 🙂 )

Vogt diz, do texto de Proust:

fundamental para os que amam a leitura, para os que poderão amá-la e para os que são ou serão profissionais ou amadores desta aventura fantástica de viver, pelo imaginário, a multiplicação de sua vida e de sua finitude no infinito do espaço-tempo da memória, da percepção e da expectativa

E citando o próprio Proust:

Algumas vezes, em casa, no meu leito, muito tempo depois do jantar, as últimas horas da noite, antes de adormecer, abrigavam também minha leitura, mas isso somente nos dias em que eu chegava aos últimos capítulos de um livro, que não faltava muito para chegar ao fim. Então, arriscando ser punido se fosse descoberto e ter insônia que, terminado o livro, se prolongava, às vezes, a noite inteira, eu reacendia a vela, assim que meus pais iam deitar; enquanto isso, na rua vizinha, entre a casa do armeiro e o correio, banhadas de silêncio, o céu sombrio, mas azul, estava cheio de estrelas; à esquerda na viela suspensa, onde começava sua ascensão espiralada, sentia-se a vigília monstruosa e negra da abside da igreja cujas esculturas não dormiam à noite

Por fim, Vogt fecha seu editorial citando um trecho da entrevista do filósofo Nicolas Grimaldi:

A experiência da leitura ou da música permite antecipar o que revelará a lembrança involuntária, a saber que não há realidade que não seja interior. Ora, esta existência interior da realidade, tal como a suscita uma sensação, só a imaginação a transcreve. Mas esta transcrição é, na realidade, uma alquimia da imaginação que transforma a exterioridade em interioridade, a estranheza em intimidade, e a passividade em atividade. É isso que faz a metáfora, puro produto da imaginação, mas que exprime tanto o real quanto o recria, buscando-o no fundo de nós mesmos por um mimetismo interior.

Ou, de outra forma e com outras palavras:

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Diário de um banana, vol. 4, “Dias de cão”

 

 

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duelo de ciclistas “fora da lei”

Ciclovia não! ciclovia sim!

Capacete não! capacete sim!

Estas disputas nunca vão acabar. Porque refletem percepções diferentes da realidade E porque a realidade é mesmo diferente. É um erro enorme fazer uma escolha unilateral e disto fazer uma política, um dogma – que pode ocultar, por exemplo, a vontade de excluir o diferente. É humano em cada pessoa achar que  o seu lado está certo.

Que tal resolver na porrada?

Brincadeira!!!!

Julie Glassberg, fotógrafo nascido em Paris, baseado em Nova York, foi um dos vencedores do Concurso Internacional de Fotografia de Tóquio. Seu projeto vencedor, ‘Bike Kill’, documenta a ascensão da cultura da bicicleta de quadro alto.

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O Black Label Bike Club é conhecido como o primeiro “grupo de bicicletas fora da lei”. Foi criado em 1992, em Minneapolis, EUA, por Jacob Houle e Per Hanson.

Julie_Glassberg_Photography_BikeKill_24

Além de divulgar as bicicletas modificadas, o clube organiza duelos, lutas, ao estilo dos torneios medievais, conhecidos como justa (em inglês: jousting), jogados por dois cavaleiros com armaduras e armas (lança, machado ou espada).

Organiza também eventos sempre politicamente incorretos, e quase sempre violentos.

As fotos a seguir foram tiradas do portfolio de Julie Glassberg. Veja a galeria toda aqui.

Julie_Glassberg_Photography_BikeKill_08

Julie_Glassberg_Photography_BikeKill_17

Julie_Glassberg_Photography_BikeKill_16

Se pensam que você é “louco”, “barra pesada”, “fora da lei” apenas porque usa a bicicleta no trânsito da cidade, no meio dos carros, ou se você pensa que é, está na hora de rever os conceitos!!
O video abaixo, sobre o Black Label Bike Club, vai ajudar!

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Ei, mãe, me leva pra andar de bicicleta!

Adultos gostam de falar sobre bicicleta. Fazem seminários, escrevem artigos no jornal, reúnem-se para estudos, aparecem na TV.

Crianças gostam de… andar de bicicleta!

Um dos melhores vídeos do ano mostra isto de forma simples, bonita.
Apenas com uma câmera no guidão e uma música muito boa, a banda holandesa Antony’s Putsch mostra o que nenhum seminário, congresso, comitê, artigo, livro ou tese vai conseguir mostrar algum dia.

O refrão da música diz:

Ei, mamãe, por favor pegue a bicicleta e vamos dar uma volta
e veja que sou o rei do mundo, o rei do mundo.

O vídeo tem uma montagem sensacional, em alguns momentos parece que as crianças estão cantando ou dançando ao ritmo da música.
Obviamente, não estão. Tudo aquilo é a alegria contagiante de andar de bicicleta e descobrir o mundo, sentir o sol e o vento. A música da vida fluindo.
E o final, então?
Tudo tão natural e espontâneo e bom!
Como andar de bicicleta.

[estou farto do bla-bla-blacicleta teórico dos adultos…]

 

Um feliz dia das crianças todo dia!

 

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