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Eleições, bicicletas, bibliotecas

Por algumas semanas pensei em escrever sobre as eleições. Iria fazer uma compilação dos programas dos candidatos e suas respectivas propostas sobre bicicletas e livros (no caso, bibliotecas).

Ia escrever sobre tudo isto, mas tenho muita dificuldade de falar de política, principalmente desta política que está aí. Pois não acredito nela, nem a reconheço como legítima.
O nosso destino – karma, nossas ações e as consequências delas – não deve ser delegado a ninguém.

Por sorte, há pessoas muito mais capacitadas que eu para fazerem a análise da situação atual! Anteontem a escritora Eliane Brum publicou um texto excelente, que diz exatamente o que penso sobre Dilma, Marina. Leia.

O livro que ilustra lá em cima foi citado no texto da Eliane Brum e já entrou para a minha lista “dos que devem ser lidos com urgência”. Vê o texto dela e saberá porquê.

De todo modo, para não votar nulo a pedido do meu filho (ele aprendeu na escola que votar nulo não serve pra nada – na verdade, acho que é a escola que cada vez mais serve pra nada, ou como queira, serve apenas para manter as coisas como estão), prometi que não ia votar nulo desta vez e tive a paciência de entrar em todos as “propostas de governo” registradas no TSE pelos candidatos e candidatas à presidência. Em baixo do nome de cada candidato está um link que leva direto ao seu programa de governo. Usando as ferramentas de pesquisa do navegador, busquei por “biblioteca” e por “bicicleta”.

Eis o resultado:

Dilma Rousseff
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas: não encontrado

Marina Silva
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas: não encontrado

Aécio Neves
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas:
– Robustecimento do Sistema Nacional de Bibliotecas, com vistas a implantar novas unidades e socorrer bibliotecas regionais de referência
–  Apoio à modernização dos equipamentos escolares, incluindo a instalação de bibliotecas e laboratórios
Bicicletas: não encontrado

Pastor Everaldo
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas: não encontrado

Levy Fidelis
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas: não encontrado

Zé Maria
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas: não encontrado

Eymael
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas: não encontrado

Luciana Genro
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas: não encontrado

Mauro Iasi
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas: não encontrado

Rui Pimenta
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas: não encontrado

Eduardo Jorge
propostas de governo registradas no TSE
Bibliotecas: não encontrado
Bicicletas:
[no item sobre eficiência energética] A adoção de automóveis e ônibus elétricos é desestimulada e o uso da bicicleta tem importância subestimada.
[no item Federação/Estado] Algumas tarefas que devem ser essencialmente municipais: Assistência social e superação da pobreza; educação infantil e fundamental; promoção, prevenção e vigilância em saúde; atenção básica e pronto atendimento em saúde; apoio e promoção de atividades de cultura, lazer e esportes; mobilidade urbana; transporte público em quantidade suficiente e qualidade adequada de conforto, usando combustíveis mais limpos; prioridade para os pedestres; calçadas verdes e acessíveis; apoio ao uso da bicicleta; pedágio urbano nas grandes cidades para moderar o uso de veículos individuais e gerar recursos novos para a expansão do transporte público;

.:.

Obviamente, apenas um programa de bibliotecas e uma política de trânsito não são capazes de fazer funcionar um país. Li todos os programas, com especial atenção para o que diziam sobre meio ambiente, patrimônio histórico e imaterial, biodiversidade e educação.

Há candidatos de uma esquerda fossilizada, século XX, que dá medo. Lenin revivido. Medo parecido ao que me causa os candidatos de uma direita medieval  e intolerante. A morte em nome da cruz. Como não é assunto para este blog, deixo a sugestão que cada um faça o mesmo que eu fiz – é claro, buscando seus temas de interesse.

Apenas a proposta do PV me agradou. E não só porque cita bicicletas, pedágio urbano e outras medidas da mobilidade necessária ao século XXI. Fala em economia verde, cultura de paz. E a parte que transfere para os municípios e estados uma gama de políticas é extremamente sensata. Mais do que tudo isto, é a única proposta de governo que cita literatura – obviamente, livros!!

 “A FORÇA DA SIMPLICIDADE VOLUNTÁRIA

Se uma consigna pudesse resumir as preocupações dos PVs em todos os países onde estão presentes, e particularmente do PV do Brasil, que aqui trabalha por estas teses há 28 anos, poderíamos usar uma síntese baseada nos escritos e nas vidas de homens como Thoreau, Tolstoy e Gandhi: simplicidade voluntária. Esta é a energia renovável e inesgotável que move a revolução cultural verde.”

 Um programa de governo que, embora não fale em bibliotecas, cita Thoreau??
Eduardo Jorge ganhou meu voto.

Mas isto só a nível nacional.
Como discurso e visão de um mundo possível, o programa do PV é muito bom. Mas o PV deixa muito a desejar quando faz alianças regionais espurias. Por exemplo, a nível nacional disputa com o PT, mas aqui no DF faz aliança com o PT. Hã?? A única lógica disto é a lógica do oportunismo político. De que vale um programa de governo muito bem escrito, se na realidade dos fatos faz aliança com um partido que prega e faz justamente o contrário de uma economia verde, sustentabilidade, proteção ao meio ambiente?

Aff… mas a promessa que fiz ao meu filho vai falar mais forte desta vez. Afinal, apertar botãozinho, aparecer uma imagem e fazer um barulhinho engraçado, tudo não passa de um game. Videogame.

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Bananas e livros

Tudo começou assim. Um torcedor espanhol jogou um banana no campo para “chamar” um jogador de macaco. A vítima de racismo, um brasileiro, teve incrível presença de espírito e comeu a banana.
Logo depois, outro jogador postou foto sua comendo uma banana e a bananice da campanha “somos todos macacos” virou viral nas redes sociais. Famosos, não famosos, todo mundo passou a comer banana.
Mas a “espontaneidade” da campanha estava com os dias contados. Logo se ficou sabendo que a tal hashtag havia sido criada e arquitetada por uma agência de propaganda e marketing. Como se tivesse infectada por um fungo mortal, a bananeira murchou e a campanha sumiu.
No meio desta bananada, recebi no Facebook:
livro_futebol

Estou na campanha!! Vejam quais livros estou selecionando.

Minha lista começa, obviamente, com o livro A origem das espécies, de Charles Darwin, para não deixar dúvidas que somos mesmo todos primatas. [não somos macacos! foi um erro grosseiro da agência de propaganda e de quem mais aderiu ao viral; entendo como metáfora,  usada como sinônimo de primata, mas não deixa de ser um erro científico].

A lista continua:
O macaco nu, Desmond Morris
A origem da espécie humana, Richard Leakey
A evolução da humanidade, Richard Leakey
O gene egoísta, Richard Dawkins
A grande história da evolução, Richard Dawkins

Na outra bolsa, vou levar o livro básico, que explica a necessidade de aparecer, mostrar-se, mesmo que seja pagando uma agência de propaganda para pensar por mim, ou embarcando numa campanha duvidosa:
A sociedade do espetáculo, Guy Debord

Enrolado em folhas de bananeira, levaria este livro apenas pelo título, que é genial frase de Marx e cai como luva, ops, chuteira no caso:
Primeiro como tragédia, depois como farsa, Slavoj Zizek

Já que o assunto é futebol, acho que estes livros teriam algo a acrescentar:
O homem unidimensional, Herbert Marcuse
Copa para quem e para quê? Um olhar sobre os legados dos Mundiais no Brasil, África do Sul e Alemanha. Organizado por Dawid Bartelt e Marilene de Paula, ambos da Fundação Heinrich Böll (clique aqui e leia um artigo sobre este livro).

Para finalizar, não posso esquecer de jogar livros para “quem quer conhecer o Brasil”, país do futebol pátria de chuteiras, blé, blé, blé. Além dos 10 livros indicados pelo Antonio Cândido, acrescento:

Boa ventura, Lucas Figueiredo.

Monarcas perdulários, sonegadores de impostos, aventureiros gananciosos em busca da riqueza fácil. Este era o Brasil que se formou no início, com a corrida do ouro.
Alguma diferença dos dias atuais??

[.]

Bicicleta e arte popular – brinquedos

Entre meus livros coloco alguns objetos. Foram comprados ou presentes recebidos, têm certa carga simbólica e sentimental. Carrancas espantam maus espíritos, um casal de namorados suspira – escultura do meu amigo João Alves.

E esta bicicleta feita de cipó???????????????????????????????

comprei na feira de artesanato durante as Festas de Agosto, em Montes Claros.

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Bicicleta de cipó

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Procurei na internet por “bicicleta de artesanato”, achei um brinquedo antigo feito em Portugal:

Um pouco depois cheguei ao Museu do Brinquedo Popular e….. que maravilha!!!! Uma coleção de bicicletinhas:
feitas por Dell, Mestre Sauba e Zé Gomes.

Bicicletinha?? Olha só o tamanho das bicicletas feitas pelo artista José Gomes, da cidade São Joaquim do Monte, Pernambuco:

O autor das bicicletas-mamulengo aparece na foto (do blog Josinaldo Amaury).

Tem vários personagens, o casal de noivos, o “Nego Veio”, até Lampião e Maria Bonita! 🙂

A arte popular do Nordeste tem muitos tesouros guardados.
Este brinquedo esculpido em madeira, intitulado “O ciclista”

faz parte do acervo do artista Alberto Bernardo. Visite a página dele e assista três vídeos ótimos: um mostra o funcionamento de um jogo de capoeira com bonecos de madeira articulados, outro mostra o método de fazer que transforma um bloco de madeira num músico tocador de violoncelo, e o terceiro é um depoimento do artista. Ele diz:

O trabalho que desenvolvo também abrange a construção de brinquedos de arte para ambientações de espaços do brincar como escolas, brinquedotecas, bibliotecas.
As esculturas narram vivências típicas do nordeste brasileiro, com ênfase para os fazeres locais que acontecem ao pino do meio dia, como o nascimento, as brincadeiras, os trabalhos caseiros, os heróis do sertão e as crenças de nosso povo.

Vivências diárias, trabalhos caseiros, arte, bicicleta, brinquedo. Tudo junto misturado, sem sentido? Não!
Para ser inteiro, o ser humano tem que ser sapiens (que conhece e aprende), faber (que faz e produz) e ludens (que brinca, cria e se diverte). Muita gente acredita que na idade adulta somos apenas homo faber, que produz e consome. A fase de aprender e brincar ficou na infância…
Homo ludens foi um conceito introduzido pelo historiador Johan Huizinga [leia  uma perspectiva histórica sobre o lúdico]. Para Huizinga, o jogo, a brincadeira, a diversão é uma atividade acompanhada de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘vida cotidiana’.
Mas já Aristóteles dava muita importância ao tema, conforme se lê em sua Ética a Nicômaco, 1127-b-30:

Como a vida é feita não só de atividade, mas também de repouso, e este inclui os lazeres e a recreação, parece haver aqui também uma espécie de
intercâmbio que se relaciona com o bom gosto.

Quando escuto alguém dizer, em tom de deboche, que “bicicleta é aquilo que você deixa de lado quando cresce e compra um carro” ou “bicicleta é coisa de criança”, eu agradeço.  Seja pedalando todo dia para o trabalho, passeando nos finais de semana, ou viajando em datas especiais, para mim, bicicleta é sempre diversão.

E eu quero uma bicicletinha dessas!!

Lampião e Maria Bonita vão de bicicleta!

 

[.]

A limpar livros

Passei o feriado de Carnaval fazendo uma atividade extenuante, mas que me dá muito prazer.
Sambando? ha, ha, ha, óbvio que não!

Comecei a fazer uma faxina geral na minha biblioteca. Comecei, verbo no passado inconclusivo. Passei os 5 dias (sábado a quarta de cinzas) limpando e estou a colocar as coisas de volta no lugar até hoje.

Tirei todos os livros das prateleiras.
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Delas tirei pó, fuligem, teias de aranhas e besouros mortos. Fazia muito tempo que não dava esta faxina geral.

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Os livros foram limpos um por um. Usei uma trincha para limpar os cortes, e uma escova de roupa, e um pano seco ou levemente úmido para limpar as capas. Fiz isto em cada livro e todos, mais de 500 livros que tenho. Ufa!

Desde quando mandei instalar os móveis novos, os livros estavam uma bagunça. Simplesmente coloquei de volta nas estantes, sem qualquer critério.
Além de limpar, agora os estou colocando agrupados por assuntos: poesias, romances, filosofia, sertão catrumano, Barroco Mineiro, língua portuguesa, bicicleta etc, para deixar satisfeito qualquer bibliotecário – principalmente eu!

O maior problema com meus livros é a sujeira que acumula no corte superior, ou cabeça.
Se você não sabe o que é corte ou cabeça de um livro, pare agora e vê esta figura:

A foto abaixo mostra a graduação do problema. Desde o livro novo, cuja cabeça está limpinha, até os mais afetados.

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A idade do livro influencia no acúmulo das manchas, mas não só. A qualidade do papel também.

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Encontrei um video que ensina usar esponja abrasiva para tirar este tipo de sujeira.

Vou testar. O problema é encontrar a tal esponja abrasiva, não está sendo fácil.

Usar pano úmido para limpar livros não é técnica recomendada (leia aqui). Pode realmente estragar os livros, ou facilitar a proliferação de fungos. Mas como moro numa cidade onde metade do ano é estação extremamente seca, não tenho problemas com fungos. Além disto, minha biblioteca é lugar bem ventilado e com boa iluminação natural.

Outros recomendam usar panos umedecidos com produtos de limpeza:

http://www.wikihow.com/Clean-a-Book

No Brasil, existem panos umedecidos para limpeza à venda.
Porém, pessoalmente acho que produtos químicos podem ser mais agressivos, além de deixar cheiro nos livros. Por isto, não tive receio de usar o pano levemente úmido, quase seco.
Um pano seco basta para tirar maior parte da sujeira. No meu caso, estava precisando algo mais efetivo, porque a poeira do tempo grudou nas manchas de gordura que as mãos deixam nas capas.

Minha próxima missão é encontrar uma forma de proteger a parte superior dos livros. Não deixar que a sujeira danifique tanto. Estou pensando em uma capa específica, uma espécie de “chapéu” feito de dobradura. Assim que conseguir a solução ideal, mostrarei aqui.

Leia livros.

[.]

 

Biblioteconomia

Quando eu estava fazendo o segundo curso de gradução na UnB, fui bolsista de iniciação científica pelo CNPq, sob orientação da Profa. Kira Tarapanoff.
Publicamos um livro.

tecnicas_tomada_decisao_4
.

Isto já faz algum bom tempo… logo depois me formei, sai da UnB e tomei outro rumo na vida.

Era tempo em que computadores pessoais estavam entrando na universidade. Lembro-me de trabalhar tardes e tardes, gravando em disquetes flexíveis de 5 1/4, com monitor tela verde e impressoras matriciais [credo! ainda bem que este tempo passou].

tecnicas_tomada_decisao_3
.

Depois fui sabendo que o livro Ténicas para tomada de decisão nos sistemas de informação tornou-se referência curricular para o curso de Biblioteconomia e até em concursos para bibliotecários, gestores públicos e outros!

Dias atrás, precisei de uma prova material que já fui escritor um dia 😉 e pesquisei na internet. Só encontrei referência à 3ª edição, de 2004, à venda na Editora Thesaurus.  Não encontrei nenhuma boa imagem da primeira edição, publicada em 1995. Como recebi 10 exemplares em pagamento adiantado das vendas, ainda tenho 2 deles, resolvi digitalizar em boa resolução e colocar aqui para registro histórico.

A capa:
tecnicas para tomada de decisao nos sistemas de informação

Contracapa:
técnicas para tomada de decisão nos sistemas de informação - contracapa

–:–

Escrevi outro livro, também em colaboração, na verdade o manual De bicicleta para o trabalho, que virou sucesso de download no saite da Associação Transporte Ativo. Depois da versão digital, o Itaú patrocinou a impressão de exemplares em papel, que foram sucesso de público – porque o assunto é inovador, o livro é bonito, sobretudo porque foram distribuídos gratuitamente, acabou tudo rapidinho 😀

–:–

PS.: tá na hora de eu ter um livro só meu, vocês não acham? Meu nominho na capa, tarde de autógrafos, ai ai…

[.]

As Bucólicas de Virgílio no gramado do Congresso

Foram dias mágicos!
Dias de ir para a rua, de discutir, repensar, exigir.

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concordo!

Vão entrar para os registros da história.

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Mas não digo que foram dias históricos, pois todos os dias são dias históricos! A história se faz no dia a dia.
Nem digo que “o gigante acordou”. O hino não diz que ele estava dormindo, diz que estava “deitado eternamente”, não necessariamente dormindo. (pode estar com preguiça, Macunaíma!)

Releia a primeira frase deste post e a palavra destacada em itálico. Mágico ali não é elogio.
Em antropologia e psicologia, o pensamento mágico é um resquício do pensamento primitivo, presente no subconsciente de todos nós humanos. Faz ligações improváveis entre fatos distintos, cria uma causalidade mental – basta pensar ou crer e a mente exerce um efeito direto sobre a realidade. Na wikipedia achei um exemplo curioso que explica isto bem com uma bela imagem: o povo azande, na África, esfrega dentes de crocodilo nas bananeiras para fazê-las frutificarem, porque o dente do crocodilo é curvo tal como as bananas e porque ele cresce novamente após cair da boca do bicho.

O pensamento mágico é (obviamente!!) a base da religião, superstições e crenças populares. Geralmente recorremos a ele em situações que precisamos de uma saída ou fuga para emoções despertadas por uma realidade dolorosa ou frustrante. Precisamos de fantasia para enfrentar a realidade.

Quando os ipês explodem bolas rosas, pode parecer, mas não é mágica. A árvore passou o verão todo se alimentando de chuvas, perde todas as sua folhas e parece morta e, quando percebe que é hora, veste-se. É um fluxo constante de tensões e distensões, que prepara a beleza – e o futuro. Pois dali virão frutos, e sementes, e novas árvores.

As manifestações foram grandes momentos.

menino_e_policia

Necessárias, explosivas, grandiosas, estive em pelo menos quatro delas aqui em Brasília e acompanhei, na internet, o que acontecia país afora. Até assisti o Jornal das 10, da Globonews, coisa que não fazia há anos!! (e deixei de atualizar este blog… 😦 )

Mas a verdadeira mudança acontece nos pequenos momentos. Nas chuvas e nas sementes.

No meio da multidão ficava imaginando quantos daqueles, que pediam um transporte melhor, uma cidade melhor, estariam ali num movimento contra os carros estacionados em fila dupla, sobre calçadas e gramados. Quantos, com cartazes “melhor educação”, estariam ali se fosse uma grande onda moral contra os alunos picaretas, pais picaretas – que “compram” atestados médicos para os filhos terem tratamento “diferenciado” na escola, entram na justiça para forçar a entrada de filhos nas faculdades antes de concluir o ensino médio. Quais ficariam com faixas “abaixo a corrupção” se fosse para pedir punição de todos que usam qualquer meio para burlar o Imposto de Renda?

A mudança não está fora, está dentro!

Os políticos foram eleitos, não desceram do céu em nuvens douradas ou nasceram em repolhos dentro do Congresso, assembleias e câmaras de vereadores. Olha o pensamento mágico aí! A terceirização da culpa, base do comportamento cristão: se há um mal, é o diabo; se um bem, foi deus que quis. Como assim? Então, nada na vida é resultado das decisões e atitudes pessoais de cada um, a cada minuto do dia??

[deixei de acreditar em deus quando me disseram que ele era onipresente, onisciente e onipotente, mas permitia o diabo agir, a maldade e o sofrimento; ou este deus é um sacana – e não merece qualquer respeito – ou simplesmente não existe; preferi optar pela segunda opção]
[deixei de acreditar em religiões quando soube que poderia ter uma vida indigna e iníqua, pois a salvação não depende de mim, ou melhor: nada do que eu faço importa, posso matar, roubar grande ou pequeno, se no leito de morte me arrepender dos pecados, estarei salvo; o paraíso não depende de mim, mas da benevolência de um deus]

O pensamento mágico está tão difundido (maior país católico do mundo…) que o próprio governo apresenta soluções mágicas. Reforma política para resolver o problema da saúde, educação e transporte público?!?!? Reforma política só interessa aos… políticos! Não é a forma de escolher os políticos que vai fazê-los menos corruptos, ou melhores administradores. A cidade precisa de bons administradores, que saibam fazer – sobretudo que tenham coragem de fazer. Antes de reforma política, precisamos de uma reforma no judiciário, cujo poder ineficiente a serviço dos poderosos é a base de toda nossa injustiça e impunidade. Antes da reforma do judiciário, precisamos de outros princípios éticos – pois a falta de impunidade, a cultura do jeitinho, e a malandragem é do interesse de muita gente sim, muita, e não apenas políticos. Ouso dizer que é o princípio ético da maioria dos brasileiros  – caso contrário, já teria mudado. Não somos um povo imoral, mas amoral, para quem questões morais são desconhecidas, estranhas, não são levadas em consideração.

O ponto de encontro geralmente foi a Biblioteca Nacional. Durante a aula livre do Prof. Safatle, tirei esta foto:

biblioteca_nacional_brasilia

e neste instante que escrevo, lembrei que a Biblioteca é um bom exemplo. Foi construída pelo Roriz em 2006, sem nenhum livro dentro. Só o prédio, a arquitetura (feia, por sinal). Só agora, 7 anos depois, é que foram colocados livros para empréstimo. Uma biblioteca sem livros? Tá resolvido o problema cultural do país! Se bibliotecas não precisam de livros, basta dizer que, a partir de hoje, todo viaduto é biblioteca. Como não precisa livros, e como a solução para o transporte das cidades é construir viadutos para os automóveis particulares, dois problemas resolvidos com uma frase!

Nem os ciclistas escapam do pensamento mágico. Aqui em Brasília, construíram dezenas de quilômetros de ciclovias para “salvar vidas”, no Plano Piloto – onde o índice de atropelamentos fatais é irrisório se comparado com outras RAs – conheço casos registrados que cabem nos dedos de uma mão: Pedro (no eixão, onde não fizeram ciclovia), Carol, no dia da manifestação, e um ciclista morto na UnB alguns anos atrás (se você conhece/lembra outros casos, deixe um comentário). Por que não fizeram ciclovia na EPTG? Na estrutural? Porque no Plano Piloto o governo mostra para o país e o mundo que a “cidade está preparada para a Copa”. Mostra para os cicloativistas esportistas, os que pediram a apoiam o GDF nesta empreitada, todos de classe média alta, mostra para eles que o governo “quer salvar vidas” e que, com ciclovias, a cidade se tornou um paraíso para os ciclistas. Sim, mas… e os carros parados nos rebaixamentos do meio-fio, bloqueando as ciclovias? E os carros que não dão preferência às bicicletas nos locais onde a ciclovia cruza a pista? Cadê a punição para quem estaciona irregularmente? Cadê educação dos motoristas “para um trânsito melhor, uma cidade melhor”? E os bicicletários que existiam e, a cada dia que passa, um é retirado, não pelo governo, mas por iniciativas privadas? Então, é só o governo que tem que incentivar o uso da bicicleta?

todos_somos_responsaveis

A maior manifestação aqui em Brasília ocorreu na quinta feira, dia 21 de junho, solstício de inverno, associado à morte, ao desconhecido ou à escuridão. Na antiguidade, rituais de iniciação eram feitos sempre no solstício de inverno, porque é a maior noite do ano, significa o início do ciclo de dias de luz cada vez maiores; significa a saída do mundo dos mortos (a noite, a escuridão) e a entrada no mundo dos vivos (o dia, a luz). Os rituais do solstício de inverno têm o significado de renascer, ou nascer de novo para a Luz; o renascimento assume o significado simbólico da vida que se renova, após a grande noite (morte). [quando é mesmo o Natal, data máxima da cristandade? no solstício de inverno do hemisfério norte!]

Será que foram apenas dias de ritual mágico na semana do solstício de inverno?

Fui com esta camiseta:

libertas

Todos sabem que a inscrição na bandeira de Minas quer dizer “Liberdade ainda que tardia”. A liberdade sempre é boa, mesmo que venha tarde.
O que muitos não sabem é que, para expressar o desejo de ficar livre de Portugal, os inconfidentes quebraram o verso das Bucólicas, de Virgílio, deixando, de propósito, uma parte muito importante de fora.
Veja o original, em latim:

bucolica_I

retirado do livro

constr_arte_buc_virgilio

do saudoso professor João Pedro Mendes, um dos melhores mestres que já tive, com quem aprendi rudimentos de latim e grego (rudimentos por culpa minha, não dele…).

A tradução é polêmica, como todo texto clássico. Gosto desta: A Liberdade que, embora tardia, contudo olhou favoravelmente para mim, que nada fiz. Para entender melhor, é preciso saber que esta frase responde a uma anterior: O que foi que te trouxe à Roma? Tityrus responde: [o que me trouxe à Roma foi] a liberdade, que, mesmo sendo tarde, ainda assim olhou para mim, que nada fiz.

Se os inconfidentes soubessem para qual caminho ético o Brasil seguiria, eles colocariam o verso completo na bandeira!!

Pois de pouco adianta que a liberdade, ou qualquer outra conquista, mostre as caras, apareça, mesmo que tarde. Nada vai adiantar se continuamos inertes, sem nada fazer no nosso dia a dia, nos pequenos, mínimos momentos.

[.]

Istambul, cidade dos livros

A BBC Brasil está apresentando a série “My City”, onde reporteres falam sobre e mostram algumas cidades do mundo. Suas próprias cidades – que revela o tamanho da rede BBC.
O terceiro vídeo da série mostra Istambul, “cidade de antigos poetas e livros empoeirados”.
Selin Girit, a reporter, vai a um antigo mercado de livros, com bazares e livrarias que atraem leitores desde o século XV, quando ainda era Império Otomano e chamava Constantinopla. Uau!
Fronteira entre Ocidente e Oriente, a cidade é sempre procurada por caçadores de raridades, que podem encontrar livros turcos escritos em armênio ou raríssimos guias de viagem.
O vídeo mostra belas imagens de livrarias, sebos e velhos livros.

mercado de livros em Istambul

sebo de livros em Istambul

sebo de livros em Istambul

livros velhos e raros, em Istambul

Certa vez, Malcolm Burgess fez uma lista dos 10 melhores livros que têm Istambul como cenário. Poderia dizer, como protagonista, personagem principal. Confira aqui, em inglês*, no saite do jornal The Guardian.                      (*publico a lista em português depois)
Um dos livros da lista é, obviamente, Istambul, de Orhan Pamuk, escritor prêmio Nobel, repleto de hüzün, palavra turca para uma forma particular de melancolia, sobre sua cidade natal.

Assistindo ao vídeo, cresceu uma vaga e intensa hüzün, ao relembrar a contigência de nascer onde nasci, e não onde escolhi.

[.]

Se os livros desaparecessem…

Numa destas viagens, estava passando o tempo no aeroporto e avião com uma revista Coquetel, especial criptogramas.

Lá pelas tantas, ao resolver um jogo duplex (colocamos as definições e passamos as letras do quadro para o digarama, de acordo com as coordenadas; preenchido o passatempo, surgirá uma frase e o nome de seu autor nas casas em destaque) surgiu esta frase, que guardo aqui como citação:

O livro é a grande memória dos séculos… se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem.

                                                                              Jorge Luis Borges

Preciso encontrar o texto do Borges de onde esta frase foi extraída!

[.]

Vivendo revoluções, livros e bicicletas

Nestes dias estou mesmo totalmente imerso na revolução digital. Dias de novo mundo.
Recebi um email do Prof. John Pucher, anunciando seu novo livro: City Cycling.

uma resenha aqui, em inglês. E foi feito um blog específico para o livro! Clique e acesse.
Isto eu desconhecia, e é uma ideia bem legal… é como se imaginássemos o livro sendo o autor do seu blog, falando de si.

Antes da internet e do email, como eu poderia entrar em contato com um prof. que é uma das maiores autoridades em bicicleta urbana no mundo? E como poderia receber dele uma mensagem, que me remete de imediato à capa do seu livro, e conteúdo, e críticas e notícias em jornais por todo o mundo? Por carta? Pombo-correio? Só a internet permite isto.

Da mesma forma que me permite folhear uma gramática centenária, editada em 1822, e colocada online na íntegra.

As páginas do livro foram fotografadas uma a uma e colocadas neste endereço virtual.

Quando, na minha vida, poderia eu ter acesso a uma seção na Biblioteca Nacional de Portugal e ali consultar uma obra rara, passar as folhas uma a uma? Agora a Biblioteca está em minha casa…

Não tenho mais dúvida: vivo num admirável mundo novo! Que venha 2013.

 

Árvore do saber

Gosto da época do Natal por causa dos dias chuvosos. E porque é uma época que marca o fim e o recomeço.
Mas pinheirinhos cheios de neve… músicas de harpa… roupas vermelhas de veludo…

Neve?
harpa!!
renas??

A equipe da Biblioteca do Banco Central soube sair da mesmice de uma forma muito criativa. Procurando meios de divulgar a biblioteca, montaram uma “árvore do saber”, uma árvore de Natal feita de livros.

árvore de natal de livros

Quer melhor forma de levar o Natal para dentro de uma biblioteca?
Uma árvore de livros! Muito criativa.

A árvore foi montada pela Viviane Almeida

Mas não ficaram por aí. Tendo a Ana Maria da Silva à frente, foram além. Lançaram um concurso que daria uma cesta natalina de prêmio a quem acertasse quantos livros tem a árvore.

O concurso foi bem organizado, o cupom do palpite teve produção esmerada

e houve até divulgação no painel eletrônicos dos elevadores no edifício-sede BC

Sabedoria é isto: tendo informação acumulada, aproveitar a oportunidade certa para atingir objetivos, ou criar coisas novas, coisas belas.

Parabéns a todos da Biblioteca do Banco Central pela idéia genial!!

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