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Bicicleta com rodas de gelo

Colin Furze é o típico inventor maluco. Britânico, de Stamford, ele cria várias engenhocas e coloca os vídeos no seu canal no Youtube.
Já converteu uma scooter num lança-chamas e criou as garras do Wolverine com um sistema pneumático. O vídeo mostrando isto já teve mais de 6 milhões de visualizações. Fez sapatos magnéticos e caminhou no teto. E ganhou o recorde mundial ao fazer um carrinho de beber andar a mais de 100km/h.
Claro, ele já foi preso pela polícia, já foi envolvido por uma explosão de chamas e outras coisas loucas nos seus vídeos muito loucos.

Uma de suas últimas invenções foi uma bicicleta com rodas de gelo. Veja os vídeos.
No primeiro, ele fez testes e constrói a bicicleta.
No segundo, sai para pedalar por aí.

Deve ser muito divertido dar rodopios numa pista de gelo numa bicicleta com rodas de gelo!

Bicycle, o filme

O documentário “Bicycle” dura 90 minutos e pergunta: o que é andar de bicicleta e por que a bicicleta está de volta à moda?

Dirigido pelo diretor Michael B. Clifford, vencedor do British Academy of Film and Television Arts (BAFTA – “Oscar britânico”), que também é ciclista entusiasta, o filme conta a história da bicicleta na terra que inventou a bicicleta moderna, seu nascimento, decadência e renascimento, desde sua origem vitoriana até hoje.


créditos: Coventry Transport Museum

O documentário combina design da bicicleta, esporte e transporte, por meio da releitura de algumas histórias emblemáticas e apresenta entrevistas com colaboradores notáveis: Sir Dave Brailsford (treinador da equipe de ciclismo Team Sky), Gary Fisher (um dos inventores do mountainbike), Chris Boardman (recordista mundial e ganhador da medalha de ouro nas Olimpíadas de Verão de 1992, categoria perseguição individual), Ned Boulting (jornalista esportivo), Sir Chris Hoy (ciclista, campeão escocês, mundial e olímpico, com seis medalhas de ouro), Tracy Moseley (várias vezes campeã britânica de mountaibike e downhill), Mike Burrows (designer e construtor de bicicletas) e muitos mais, além de grande coleção de imagens, animação e música.

“Bicycle” é uma reflexão bem-humorada, lírica e calorosa sobre a bicicleta em si, sobre andar de bicicleta e seu lugar na psique nacional britânica.

A equipe do filme inclui o premiado produtor de cinema Pip Piper, da Blue Hippo Media. Um recente documentário de Pip, “Last Shop Standing”, sobre as lojas de discos independentes do Reino Unido, contou com Paul Weller, Johnny Marr e Billy Bragg e recebeu aclamação da crítica e foi exibido em todo o mundo.

O consultor criativo é Rob Penn, escritor e fotógrafo, autor do famoso livro “It’s all about the bicycle” (ainda não traduzido para o português), que tem o sugestivo subtítulo “em busca da felicidade sobre duas rodas”, e pode ser comprado na Amazon:

Este livro virou documentário transmitido pela BBC. Em 2013, Rob Penn pedalou 1.200km pela Amazônia como parte de outro documentário.

O filme “Bicycle” está sendo apoiado pela Trek, Shimano, Bicycle Association, Birmingham Cycle Revolution e outros co-patrocinadores. 20% do orçamento foi conseguido por meio de crowdfunding.  Clique aqui para ver o cartaz do filme em tamanho (muito) grande. A première VIP foi em 1 de julho de 2014. O lançamento mundial para o público ocorreu na Harewood House, durante o Yorkshire Cycling Festival, em uma tela gigante ao ar livre alimentada por 12 bicicletas!

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O filme está sendo exibido em cinemas de todo o Reino Unido.

Mas, para nós, está disponível para pré-compra em DVD. Por apenas £9,99, cerca de 30 reais. Somente até 12 de setembro! Atenção na hora de comprar! Escolha a opção International DVD. O filme possui a opção de legendas em inglês. Compre o seu clicando aqui e ajude o cinema independente.

Alguns depoimentos:

“Num momento em que a bicicleta está de volta e na moda, é muito bom ver um filme sobre esta bela máquina” – Chris Boardman, medalha de ouro olímpico

“Lírico, carinhoso, lindo. Um hino de louvor a esta simples maravilha: a bicicleta “ – Ned Boulting, radialista e escritor

“A bicicleta tem sido fundamental na minha vida até o ponto em que agora tenho a minha própria marca de bicicletas. Estou animado para ver um documentário sobre a história da bicicleta e seu impacto na Grã-Bretanha.” – Sir Chris Hoy, 6x campeão olímpico (Hoy Bikes)

Estou com a página aberta pra fazer minha encomenda! 😀

Visite o saite oficial do documentário.

Este artigo foi escrito com base no release de divulgação. Vi primeiro no boletim mensal da Sustrans-UK.

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Do zoológico à selva urbana

Em uma decisão de fim-de-ano, em algum ano passado, coloquei como meta escrever um texto por semana no blog. Nem sempre consigo, pois para escrever sobre alguma coisa, eu gosto de ler antes. E vou lendo, lendo, quando vi o tempo passou e não escrevi.

Nestes dias que correram, pensei em escrever sobre que comecei a ler e estou gostando muito: o Livro do Cemitério, de Neil Gailman (uma boa resenha aqui).

Mas também vi uma galeria de fotos da DeutscheWelle: Um passeio de bicicleta pelo Ahr:

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Até pensei em comentar sobre os moradores de São Paulo que foram registrar queixa na delegacia contra a ciclovia que está sendo construida, mas deixei pra lá. Além de ser um assunto batido e de menos importância – motoristas irritados com a perda de espaço para bicicletas –  outras pessoas já falaram sobre o fato, como a Raquel Rolnik.
E foi mais ou menos o que aconteceu aqui em Brasília: de uma hora para hora o governo começou a implantar ciclovias, sem aviso, sem consultar a população, sem diálogo – parece ser a prática do partido.

Quando comecei a traduzir uma notícia da Sustrans, anunciando que, na Inglaterra, cada vez menos pessoas andam de carro, e mesmo assim o governo britânico insiste em políticas de ampliação das vias para carros, a BBC lançou seu desafio semanal para os leitores enviarem uma foto sobre determinado assunto. O tema da vez era ciclismo, e pensei: vou anunciar no blog. Mas a BBC é muito rápida, um ou dois dias depois de fazer o convite eles já colocam as fotos.
Primeiro foram mostradas as fotos tiradas pelos leitores ingleses:

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Alex Inman viu e clicou este grafite em uma rua de Georgetown, na Malásia. As duas crianças pintadas parecem estar pedalando sobre a bicicleta, real, encostada no muro.

Em seguida, as fotos tiradas pelos brasileiros. Veja todas aqui.

Quando estava escolhendo qual das minhas fotos iria mandar (acabei não mandando…) vi na mesma BBC esta notícia que é a cara do blog.

A Dinamarca projeta um zoo com animais soltos e público ‘invisível’. No projeto Zootopia, do renomado arquiteto Bjarke Ingels, os visitantes são escondidos em cápsulas espelhadas e as jaulas são eliminadas.

“A maior e mais importantes missão de um arquiteto é projetar ecossistemas feitos pelo homem, garantir que as nossas cidades e edifícios sejam adaptados ao nosso estilo de vida”, afirmou o fundador do Bjarke Ingels Group (BIG).

“Temos que garantir que as nossas cidades ofereçam uma estrutura generosa para pessoas de origens, sexos, níveis econômicos e de educação e idades diferentes. Para que todos possam viver juntos em harmonia ao mesmo tempo em que levamos em conta as necessidades individuais e o bem comum.”

Quando vi esta foto que ilustrava o texto da BBC, pensei: Ué, o menino está andando de… bicicleta?? Sim, uma bicicleta com certeza.

Ainda meio na dúvida, fui conferir o saite oficial do arquiteto http://www.big.dk/#projects

O que a BBC não disse nem mostrou é que a Zootopia carrega dentro de si a bicicleta, como pode ser vista nesta imagem:

zootopia

– e ao desperceber a bicicleta, nisto a BBC foi seguida por todos que replicaram sua notícia (G1, Uol, Bol, Etc), iguais aos motoristas nas ruas que dizem “ah, eu não vi o ciclista…”

Atenção!
As bicicletas são peças centrais na concepção, como se pode ver nas imagens originais:

O arquiteto usa bicicletas e fala em “viver juntos em harmonia ao mesmo tempo em que levamos em contas as necessidades individuais e o bem comum”. Não é por acaso que ele escolheu a bicicleta!! Para quem anda de bicicleta (e a Dinamarca é exemplo e paradigma disto) é natural este modo de ver o mundo.

Não foi mera coincidência ou escolha por acaso.
No memorial do projeto se lê: “We are pleased to embark on an exciting journey of discovery with the Givskud staff and population of animals (…) but indeed also to discover ideas ans oportunities that we will be able to transfer back into the urban jungle”.

“Estamos satisfeitos em embarcar numa excitante aventura de descobertas com o pessoal e os animais de Givskud [o zoológico], mas também com a possibilidade de descobrir novas ideias e oportunidades que poderemos transferir para a selva urbana.”

Quem reclama de ciclovias e bicicletas ou fica exigindo mais e mais estacionamentos para carros e ampliação de vias, e ainda aqueles que mandam cortar árvores porque elas representam “perigo para os automóveis” (!), esses ainda não captaram a essência do nosso tempo e do futuro. Vamos viver cada vez mais em harmonia com a Natureza, não por ideologia, mas por necessidade. E para as cidades, que hoje são gaiolas de proteção contra a Natureza “selvagem”, nas cidades precisaremos deixar a Natureza entrar.

Isso será um futuro distante. Antes, vamos recuperar o espaço urbano em si e fazer as ruas voltarem a ser um lugar de passagem sim, mas também de lazer, de contemplação, de simbiose com a cidade e suas construções e monumentos. Hoje, lotadas de automóveis, as ruas são cercas e fossos.

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As cidades estão fragmentadas em dezenas de quarteirões e quadras. As pessoas estão acuadas, com medo e neuróticas, indo e vindo repetidamente como se buscassem uma saída – igual aquela avestruz ou o lobo-guará no zoológico.

As bicicletas são peças centrais nas cidades do futuro. Invisíveis, espelhadas, com a intervenção necessária, mas mínima possível, pedalando-as poderemos apreciar as cidades no que elas nos oferecem de melhor: segurança e espaço de convivência.

Na cidade do futuro, ir para a escola, para o trabalho, para fazer compras ou um festa pode ser e será tão prazeroso e agradável como a ciclovia do Ahr, um caminho bucólico entre vinhedos e castelos germânicos.

Bicicletas na Primeira Guerra

Um mês atrás, ao ver fotos inéditas sobre o uso da bicicleta na 1ª Guerra Mundial, compartilhei-as aqui no blog.

Nesta semana, por meio da DeutscheWelle, fiquei conhecendo o projeto Europeana 1914-1918, um gigantesco museu virtual sobre a Primeira Guerra.

Lá vou eu fazer pesquisa para ver o que encontro sobre bicicletas e…. tcharam!

É possível ver não apenas fotos incríveis, mas também correspondências, cartões-postais, diários.

Naquela guerra, o ciclista passou a ser uma patente militar. Pesquisando pelo termo “ciclista”, encontra-se uma carta de um ciclista carabineiro, um livreto com a história do grupo de ciclistas da 10ª divisão de cavalaria (belga?), o Handbook for Military Bicycles (Guia de bicicleta militares)

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basicamente um manual de manutenção mecânica, que acompanhava cada bicicleta  – veja que, na capa, há um espaço para anotação do número da bicicleta e logo abaixo o aviso: “This book will always be carried in the Toolbag of the Bicycle to which it belongs – este livro deve ser sempre levado na bolsa de ferramentas da bicicleta à qual pertence.
O livreto está disponível na íntegra, aqui.

e até uma propaganda de guerra direcionada para ciclistas:

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Você se acha bom ciclista? Então, por que não pedalar para o Rei? Precisa-se de recrutas / na atuarem na Companhia S. Midland. Idade mínima 19 anos. As bicicletas serão fornecidas. Roupas e uniformes serão entregues no alistamento.

As fotos arquivadas no projeto Europeana dão uma ideia de como eram os dias naqueles tempos de guerra total.

Soldado alemão usa uma bicicleta tandem adaptada para gerar energia nas trincheiras

Soldado alemão descansa numa “cama” de cápsulas de canhão vazias

Soldados ciclistas britânicos

Mulher francesa mata a sede de um soldado belga

Ao passar pela vila de Vraignes, em março de 1917, soldados alemãs carregam crianças nas bicicletas, como forma de despertar um sentimento de amizade na população

O projeto Europeana mostra coisas ainda mais inusitadas, como este belíssimo cartão postal bordado com a insígnia da companhia de bicicletas da divisão britânica de tropa montada

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e a partitura de uma marcha composta por Robert DeLeye, soldado da 1ª Cia. Ciclística da 5ª Divisão Belga

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Clique na imagem acima para ver a partitura completa.

Alguém se dispõe a gravar um vídeo tocando esta marcha??

Especialistas perguntam se as bicicletas poderiam voltar a serem usadas em guerras. Alguns respondem que sim: por serem veículos que não produzem calor, bicicletas poderiam ser um veículo alternativo para escapar da artilharia guiada por sensores térmicos.

A 1ª guerra forjou o mundo em que vivemos hoje. Politicamente representou o fim dos grandes impérios (otomano, austro-húngaro, francês). Os EUA, que já eram uma força econômica, tornou-se um poderio político. E a Rússia entrou neste cenário com a Revolução de 1917. Desde aquela época, o mundo viu a ascensão dos dois poderes antagônicos, o capitalismo industrial e o comunismo, que ainda hoje dividem opiniões, corações e mentes.
Os esforços de guerra também fizeram uma revolução na economia. Todos esperavam que o conflito fosse breve e nenhum dos países se preparou economicamente para uma longa guerra. Todos os recursos nacionais foram direcionados para o sustento da guerra, com efeitos diretos e duradouros sobre a agricultura, a indústria e o mercado financeiro. Imensas mudanças sociais decorreram da guerra. Para atender a demanda por mão-de-obra, por exemplo, as mulheres pela primeira vez ocuparam postos de trabalhos antes exclusivamente masculinos.
Mais do que tudo, por causa dos conflitos que ficaram mal resolvidos, nos campos econômico, político e social, a 1ª Guerra foi o pano de fundo para eclosão da 2ª Guerra, que radicalizou e aprofundou as mudanças que nos trouxe aonde estamos agora. Como resultado direto da 1ª e 2ª Guerras tivemos o boom da indústria automotiva.
As fábricas de automóveis foram transformadas em fábricas de veículos e armamentos militares. Com o fim da guerra, a indústria do automóvel mostrou a conta deste “empréstimo” e o que se viu foi a resposta dos governos: uma intensa e maciça campanha de incentivo e apoio ao automóvel.
Hitler expulsou os ciclistas das ruas, criando ciclovias, para garantir o fluxo crescente de automóveis. E a indústria de automóveis fez o boom da economia no pós-guerra. As bicicletas nunca mais foram usadas em combate e praticamente sumiram das cidades.

Desde os anos 60, época de agito social, e com a crise do petróleo da década de 70, as bicicletas começaram a voltar, e sinceramente espero que elas invadam todas as ruas de todas a cidades.

Mas não voltem para as guerras…

Dia “D” das bicicletas

Há exatos 70 anos, em 6 de junho de 1944, as tropas dos aliados desembarcaram na Normandia. O dia marcou o início do fim da 2ª Guerra. Parte das operações Overlord e Netuno, o dia exato do desembarque ficou famosamente conhecido como “Dia D”.

Ao longo de 80 km do litoral da França banhado pelo Canal da Mancha, infantaria e divisões blindadas chegaram às praias. Antes deles, um assalto aéreo despejou paraquedistas em pontos estratégicos e para missões de sabotagem.
Entre aviões, navios, tanques e tropas, estavam bicicletas. Fotos da época mostram barcos cheios de bicicleta, soldados levando bicicletas para a praia e paraquedistas com bicicletas dobráveis.

tropas fazem inspeção de kits dias antes do Dia D
soldados caminham para os navios
tropas canadenses um dia antes do Dia D
canadenses cruzando o Canal da Mancha
desembarcando em Juno Beach
desembarque visto de outro ângulo

já em terra, soldados do 2º Batalhão East Yorkshire
soldados do 50ª Divisão britânica observam uma casamata alemã que abrigava um canhão anti-tanque 50mm

Os soldados usavam a bicicleta BSA Airbone, também conhecida como parabike.
Consulte esta página (em inglês) para saber tudo sobre as bicicletas BSA.

As fotos das tropas canadenses (de cima para baixo, terceira a sexta) são do Library and Archives Canada, tiradas pelo Tenente Gilbert Milne,  fotógrafo da Royal Canadian Navy e mostram a Highland Light Infantry e a os West Nova Scotia Highlanders. Podem ser vistas na página Toronto Remembers D-Day, June 6, 1944, com mais outras imagens.
A sétima foto foi copiada da página Maple Leaf Up.
As demais estão em BSA Historic.

Nenhuma guerra é justificável. Mas as bicicletas sempre cumprem seu papel de veículo rápido, silencioso e eficiente. Por isto, não poderiam faltar nesta que foi uma das maiores e mais importantes operações militares da história.

Na luta contra inimigos astutos e poderosos, leve uma bicicleta!

Veja o mundo de outra forma

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As imagens acima foram tirada da página da Sustrans, maior entidade britânica de incentivo ao uso da bicicleta. Eles têm longa tradição de fazer campanhas Safe routes to school, rotas seguras para a escola.

A mais recente, como as outras, pede que as pessoas pressionem os MPs, membros do Parlamento, enviando-lhes mensagens. Além disto, ensina como cada um pode mudar tomando atitudes concretas no seu dia-a-dia (e assim mudar a cidade e o mundo) e pede que a campanha seja divulgada.

A Sustrans fez uma página com material para download. Entre posteres e infográficos, está um molde dos óculos e pezinhos usados pelas crianças nessas fotos.

Baixe o molde aqui.

E, se quiser, faça o que a Sustrans pede aos ingleses: monte os óculos-bicicleta, óculos-pezinhos ou óculos-patinete, tire uma foto sua com eles e coloque nas redes sociais. A campanha é deles, mas precisamos trazer este modo de ver o mundo pra cá.

Entupimos as ruas de automóveis, tornando-as perigosas para todos, mas principalmente para as crianças. Elas foram expulsas das ruas pelo trânsito motorizado. E muita, mas muita gente mesmo tem a carice de pau de reclamar que as crianças de hoje só querem saber de computadores e ipads. Diga sinceramente: que alternativas elas têm?

Acredito que toda criança tem o direito de caminhar, andar de bicicleta, patins, skate e patinetes pelas ruas. Isto pode começar pela forma como elas vão para a escola. Os carros roubaram este direito. Podemos mudar isto. Se fizermos agora, podemos mudar o futuro, com crianças mais ativas e saudáveis.

Sustrans Campaign for Safer Streets Factsheet

 

Bicicleta e arte popular – pintura naïf

Durante a limpeza da minha biblioteca, encontrei um antigo catálogo telefônico, que havia guardado por causa da capa.

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Guardei mais pela curiosidade. O catálogo é de 2008, período em que o movimento em favor das bicicletas estava crescendo em Brasília, a ponto de se tornar capa de catálogo telefônico (coisa que nem existe mais).
E o estilo da ilustração chamou muito minha atenção.

Eu gosto de arte popular, arte naïf [aliás, são beeeeem melhores que muitas “instalações”, amontoados de coisas horríveis que insistem em chamar de arte…]
Agora, prestando atenção nos detalhes da capa, vi que se trata de uma pintura de Ermelinda, pintora naïf já reconhecida, inclusive com exposições e obras em museus.
Ciclismo - Ermelinda - 2006 - naif

A Arte Naïf é concebida e produzida por artistas sem preparação académica específica e sem a “obrigação” de terem de utilizar técnicas elaboradas e abordagens temáticas e cromáticas convencionais nos trabalhos que executam. Isto não significa que não estudem e aperfeiçoem de modo autodidáctico e experimental o desenvolvimento das suas obras, e não implica que a exigência de qualidade das mesmas seja inferior.
Caracteriza-se em termos gerais por uma aparente simplicidade e pela liberdade que o autor tem para relacionar ou desagregar, a seu belo prazer, determinados elementos considerados formais; a inexistência de perspectiva, a desregulação da composição, a irrealidade dos factos ou a aplicação de paletas de cores chocantes. A Arte Naïf exprime ainda, de um modo geral, alegria, felicidade, espontaneidade e imaginários complexos, resultando, às vezes, todo este conjunto numa beleza aparentemente desequilibrada mas sempre muito sugestiva. (definição tirada dessa página)

Muitos consideram que o artista naïf pinta com a alma, numa expressão direta, não cerebral, de experiências pessoais e relação com o meio em que está envolvido. Por curiosidade, pesquisei por imagens de bicicletas nas pinturas naïf disponíveis na internet.  Veja a seguir o que encontrei. A legenda mostra título da obra e nome do/a artista. Clique nas imagens para acessar a página do/a artista.

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São Jorge criança – Ronaldo Mendes
A ciclista – Ines Vitoria
Mulher andando de bicicleta na roça – Nilson Pimenta
Corrida de bicicletas – Nilson Pimenta
Zona rural – Nilson Pimenta
Ciclistas – Nilson Pimenta
Bicicletas – Nilson Pimenta
Andando de bicicleta no sítio – Valques Rodrigues
Andando de bicicleta no sítio – Valques Rodrigues
Manifestações de religiosos na comunidade rural – Valques Rodrigues
A barriguda – Olímpio Bezerra
….. – Olímpio Bezerra

Não encontrei o título da pintura acima. O artista Olímpio Bezerra tem outras obras onde aparecem bicicletas, clique aqui e veja.

Mais sobre arte naïf, no Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil.

Bicicletas são representadas na arte naïf também em outros países. Mas isto é assunto para outro artigo, que vai chegar a tempo como esta noiva de bicicleta, vindo da Austrália.

The Groom awaits – Inge Semler

😀

Bicicletas de arame: galimotos da África

Galimotos são brinquedos artesanais de algumas regiões da África. São feitos de tudo que possa estar à mão, desde sabugo de milho a latas e arames. Veja!
A palavra galimoto significa “veículo” em Chichewa, língua nacional do Malawi (faixa oriental da África, perto da Tanzânia e Moçambique).
Em geral, as crianças fazem carros, caminhões, aviões.
E bicicletas!!

galimoto, bicicleta, bicycle, wire, toy
Um menino de Moçambique com seu galimoto

Além dos limites da África, a palavra galimoto está sendo muito usada como sinônimo de bicicleta de brinquedo feita de arame. Por causa do sucesso do livro Galimoto, de Karen Lynn Williams, que ganhou boas recomendações do Publishers Weekly e do New York Times Book Review.

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capa (acima) e folha de rosto (abaixo):Galimoto_Karen_Lynn_Williams
Lojas de artesanatos e arte étnica, nos EUA e Europa, também ajudam nesta tendência. Se você procurar na internet, aparece em destaque estas bicicletinhas vendidas na rede Ten Thousand Villages


A loja One World Fair Trade têm à venda:

E na galeria da Plowshare Center:

São lojas que participam do movimento Fair Trade ou Comércio Justo, que surgiu na Holanda e, entre outras coisas, “procura criar os meios e oportunidades para melhorar as condições de vida e de trabalho dos produtores, especialmente os pequenos produtores desfavorecidos. Sua missão é promover a equidade social, a proteção do ambiente e a segurança econômica através do comércio e da promoção de campanhas de conscientização”.
Holanda, país que dá exemplo ao mundo no uso de bicicleta, em busca igualmente de cidades mais justas e um trânsito justo, ético [fico me perguntando: por que alguns países pensam nisto e outros não??]. E aqui a gente volta ao início.

Os galimotos são usados em eventos de sensibilização de crianças e famílias, pela Wonderaddo, em Pittsburgh, proporcionando contato local com manifestações da cultura mundial.

Na África e em todo lugar, as bicicletinhas surpreendem e encantam por sua graça e simplicidade – que decorrem da engenhosidade e criatividade de construí-las!

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Brazilian push bicycle toys

I bought this bicycle made from vine at August Folklore Festival, in Montes Claros city, Brazil.

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Bicycle made from vine

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Looking for hand crafted bicycles, I found something very curious.
Push bicycle toy is an ancient toy. This image show one made in Portugal at the 1920s.

Here in Brazil, early Portugal’s colony, the art of making push bicycle toys remains in folk culture.

The Museu do Brinquedo Popular (Folk Toy Museum) has a collection of wooden push bicycles made by Sauba and José Gomes.

José Gomes is an artisan from São Joaquim do Monte, city in Pernambuco state, Northeast region.

His puppet cyclists are a kind of mamulengo puppets, type of folk theatre carved from wood and dressed in fabrics. Several characters rides the bicycles: the wedding couple, the “Preto Velho” (wise old black man), and Lampião and Maria Bonita (Lampião’s wife).

Lampião was the most famous bandit leader of the Cangaço, a form of banditry endemic to the Brazilian Northeast in the 1920s and 1930s. Lampião’s exploits turned him into a ‘folk hero’, the Brazilian equivalent of North American Jesse James.

 

Another example of carved wood push bicycle toys came from artist Alberto Bernardo‘s collection:

The toys he made are for play spaces such as schools, playrooms, libraries.

When I hear someone mocking that “cycling is what you leave out when you grows and buy a car” or “bike is kid stuff”, I’m grateful.

To be a whole human being we dare to be sapiens (who knows and learns) faber (who makes and produces) and ludens (who plays, creates and enjoys). Many people believe that as adults we are only homo faber, who produces and consumes. The stage to learn and play stayed behind in childhood …
Homo ludens was a concept introduced by historian Johan Huizinga. But even Aristotle gave much importance to the issue, as set out in his Nicomachean Ethics, 1127- b – 30 :

Since life includes rest as well as activity, and in this is included leisure and amusement, there seems here also to be a kind of intercourse which is tasteful

Whether biking to work every day, riding weekends, or travelling on special occasions, for me, riding a bicycle is above all and always fun.

Ei, mãe, me leva pra andar de bicicleta!

Adultos gostam de falar sobre bicicleta. Fazem seminários, escrevem artigos no jornal, reúnem-se para estudos, aparecem na TV.

Crianças gostam de… andar de bicicleta!

Um dos melhores vídeos do ano mostra isto de forma simples, bonita.
Apenas com uma câmera no guidão e uma música muito boa, a banda holandesa Antony’s Putsch mostra o que nenhum seminário, congresso, comitê, artigo, livro ou tese vai conseguir mostrar algum dia.

O refrão da música diz:

Ei, mamãe, por favor pegue a bicicleta e vamos dar uma volta
e veja que sou o rei do mundo, o rei do mundo.

O vídeo tem uma montagem sensacional, em alguns momentos parece que as crianças estão cantando ou dançando ao ritmo da música.
Obviamente, não estão. Tudo aquilo é a alegria contagiante de andar de bicicleta e descobrir o mundo, sentir o sol e o vento. A música da vida fluindo.
E o final, então?
Tudo tão natural e espontâneo e bom!
Como andar de bicicleta.

[estou farto do bla-bla-blacicleta teórico dos adultos…]

 

Um feliz dia das crianças todo dia!

 

[.]