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Bicicleta com rodas de gelo

Colin Furze é o típico inventor maluco. Britânico, de Stamford, ele cria várias engenhocas e coloca os vídeos no seu canal no Youtube.
Já converteu uma scooter num lança-chamas e criou as garras do Wolverine com um sistema pneumático. O vídeo mostrando isto já teve mais de 6 milhões de visualizações. Fez sapatos magnéticos e caminhou no teto. E ganhou o recorde mundial ao fazer um carrinho de beber andar a mais de 100km/h.
Claro, ele já foi preso pela polícia, já foi envolvido por uma explosão de chamas e outras coisas loucas nos seus vídeos muito loucos.

Uma de suas últimas invenções foi uma bicicleta com rodas de gelo. Veja os vídeos.
No primeiro, ele fez testes e constrói a bicicleta.
No segundo, sai para pedalar por aí.

Deve ser muito divertido dar rodopios numa pista de gelo numa bicicleta com rodas de gelo!

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Bicicleta: entre a economia e as asas

O poeta Alberto Martins disse que “a literatura é uma zona de respiro da sociedade, como os caminhos que as minhocas abrem na terra para arejá-la. O papel da literatura é canalizar e dar voz a essas coisas que não são aparentes”.

Se vale para a literatura, vale para a arte e todas as suas manifestações. Então vale para as charges.

 

O que a charge do Rafael para o jornal O Povo tem a nos revelar, o que está oculto? Os cinco líderes pedalando em conjunto a BRICicleta dá óbvia ideia da união de forças. A charge remete à criação do banco dos BRICs, assunto que esteve na pauta da economia no começo da semana. Mas há algo mais, raízes que só as minhocas ouvem. Siga-me nesta trilha, talvez eu consiga mostrar.

Os seres humanos gostamos de achar que somos seres racionais e inteligentes. Que uma das nossas melhores sabedorias é tomar decisões racionais visando um futuro melhor. Errado! Na maioria das vezes, não somos tão lógicos como queríamos e um misto de emoções e crenças engana a nós mesmos.

Como seres humanos cheios de emoção, temos uma imensa aversão à perda, que muitas vezes nos leva direto à falácia dos custos irrecuperáveis.

Mas, o que são custos irrecuperáveis?? São todos os pagamentos ou investimentos que fazemos e que nunca poderão ser recuperados. É um dos temas favoritos dos economistas, quando estudam as escolhas intertemporais no âmbito da economia comportamental.

Um andróide com circuitos lógicos em pleno funcionamento nunca tomaria uma decisão com base nos custos irrecuperáveis, mas você e eu sim. Nossos sentimentos e instintos são mais fortes e nosso cérebro disfarça para que pareçam decisões racionais. Mas não são.

A Ilusão: você toma decisões racionais baseadas no valor futuro dos objetos, investimentos e experiências.

A Verdade: suas decisões são influenciadas pelos investimentos emocionais que você acumula, e quanto mais você investir em algo mais difícil se torna abandoná-lo.

Vejamos como acontece e o que isto tem a ver com bicicleta e trânsito.

No livro Thinking Fast and Slow

publicado no Brasil pela Editora Objetiva, o psicólogo Daniel Kahneman escreve sobre como ele e seu colega Amos Tversky, por meio de trabalho na década de 1970 e 80, descobriram o desequilíbrio que há entre perdas e ganhos em nossa mente. Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de… economia!, explica que, uma vez que todas as decisões envolvem incerteza sobre o futuro, o cérebro humano que você usa para tomar decisões evoluiu um sistema automático e inconsciente para julgar como proceder quando surge um potencial de perda. Assim, ao longo do tempo, a perspectiva de perdas tornou-se um motivador mais poderoso no comportamento humano do que a promessa de ganhos. Sempre que possível, tentamos evitar perdas de qualquer tipo, e quando se comparam perdas e ganhos, você não vai tratá-los da mesma forma.

O economista comportamental Dan Ariely acrescenta um toque fascinante nesta questão da aversão à perda, em seu livro Predictably Irrational


(publicado no Brasil pela Campus Editora). A “dor de pagar”, como ele diz, surge sempre que você precisa desistir de qualquer coisa que você possui. O valor não importa. Você vai sentir a dor não importa o preço que você vai pagar, e isto influencia suas decisões e comportamentos.

Em um de seus experimentos, Ariely montou um estande em uma área bem movimentada. Os transeuntes podiam comprar chocolates comuns por R$1,00 ou excelentes trufas belgas por R$15,00 cada. A maioria das pessoas escolheu as trufas. Foi um bom negócio, considerando as diferenças de qualidade e os preços normais de ambos os itens. Ariely, então, criou outro estande com as mesmas duas opções, mas reduziu o preço em um real cada: os chocolates eram de graça e as trufas custavam R$14,00 cada. Pare e pense: desta vez, qual você escolheria??

A grande maioria das pessoas selecionou os chocolates comuns em vez das trufas (foi seu caso, admita!!). Se as pessoas agissem na lógica matemática pura e racional, explicou Ariely, não deveria ter havido mudança no comportamento dos indivíduos. A diferença de preço era a mesma. Mas não achamos que é dessa maneira. Nosso cérebro nos prega uma peça (por falácia, uma inverdade lógica): o sistema de aversão à perda está sempre vigilante, de prontidão para nos manter longe da ideia de desistir de algo, de desapegar. É por isso que você acumula badulaques que você realmente não quer ou precisa; é por isso que achamos tão tentador aceitar negócios que incluem brindes “gratuitos” ou descontos obscuros; é por isto que as pessoas continuam usando carros, mesmo sabendo do mal que faz à saúde (obesidade e sedentarismo), à cidade (trânsito caótico e mal uso da terra) e ao planeta (aumento do efeito estufa).

Alguma vez você já foi ao cinema só para perceber, em 15 minutos, que está assistindo a um dos piores filmes já feitos, mas você fica e assiste ao filme de qualquer maneira, até o fim? Você não quer desperdiçar o dinheiro, então você desliza para trás na cadeira e sofre – como sofre atrás do volante.

Essa é a falácia!! É o sistema emocional em alerta. Porque o dinheiro será perdido de qualquer maneira. Não importa o que você faça, você não pode tê-lo de volta. A falácia impede que você perceba que a melhor opção é fazer o que promete ser a melhor experiência no futuro, em vez de preferir “diminuir” o sentimento de perda no passado.

Kahneman e Tversky também conduziram um experimento para demonstrar a falácia dos custos irrecuperáveis. Veja como você se sai nessa.

Imagine que você vá comprar um livro que custa R$50. Quando você abre sua carteira ou bolsa, percebe que perdeu a nota de $50. Será que você ainda compra o livro? Provavelmente sim. Apenas 12 por cento dos indivíduos no teste disseram que não. Agora, imagine que você compra o livro, paga R$50, mas antes de chegar ao bicicletário percebe que esqueceu – perdeu! – o livro em algum lugar. Você voltaria e compraria outro exemplar do mesmo livro?? Talvez, mas a dor no bolso seria muito maior, não é? Neste experimento, 54 por cento das pessoas disseram que não compraria outro livro. A situação é exatamente a mesma!!

Você perde R$50 e, para poder ler o livro, precisa pagar R$50 de novo, mas o segundo caso nos parece diferente, sentimos diferente. É como se o dinheiro fosse usado para um propósito específico e depois perdido, houve uma carga emocional investida no futuro e perder é uma m*!

Os custos irrecuperáveis levam a guerras, elevam os preços em leilões e mantem vivas políticas fracassadas, como a política de incentivo ao automóvel. A falácia faz você continuar comendo o que está no prato, mesmo quando seu estômago já está cheio. Ela enche sua casa com coisas que você não quer nem usa mais. E vai fazer as cidades entrarem em colapso, pois os carros foram comprados, os viadutos foram feitos, as pistas foram duplicadas, as montadoras foram subsidiadas, o IPI foi reduzido, é muito dinheiro para poder voltar atrás agora…

foto do blog IN TRANSITU
EPTG após obras para “resolver o caos do trânsito”; foto do blog IN TRANSITU

Motoristas estão atolados em um poço de custos irrecuperáveis. Governos que buscam soluções para o trânsito de automóveis estão presos na lógica engarrafada dos custos irrecuperáveis. Eles nunca podem voltar o tempo ou o dinheiro que gastaram, mas pretendem continuar usando seus carros para evitar sentir a dor da perda e a horrível sensação de desperdício.

A falácia dos custos irrecuperáveis às vezes é chamada de falácia Concorde, descrevendo-a como uma escalada de compromisso. É uma referência à construção do primeiro avião comercial supersônico. O projeto estava previsto para ser um fracasso desde o início; mas todos os envolvidos continuaram em frente. Os investimentos que fizeram juntos deu origem a uma pesada carga psicológica que superou todos os melhores e sensatos argumentos. Depois de perder uma quantidade incrível de dinheiro, esforços e tempo, eles não queriam simplesmente desistir.

Foram em frente, como vão em frente os governos que duplicam vias, constroem viadutos, ampliam estacionamentos, reduzem IPI.

Motoristas, gerentes de trânsito, engenheiros, arquitetos, urbanistas e a imprensa continuam em frente, buscando solução para o trânsito de automóveis, mesmo sabendo que o fracasso é óbvio.

A capacidade humana de raciocínio tem defeitos provocados por forças invisíveis – emoções, relatividade, expectativas, apego, normas sociais – que nos induzem a fazer escolhas ‘previsivelmente irracionais’.

É uma tendência nobre e exclusivamente humana a vontade de perseverar, a vontade de manter o rumo, o apego ao que passou e a crença infundada no controle do futuro – estudos mostram que animais e crianças pequenas não cometem esta falácia. Vespas e vermes, ratos e guaxinins, bebês e crianças, eles não se importam o quanto investiram ou quanto vai para o lixo. Eles só conseguem ver perdas e ganhos imediatos.

Por outro lado, como seres humanos adultos, temos o dom da reflexão e do arrependimento.

Ponha-se num lugar futuro, onde você admita que seus esforços foram e estão sendo em vão, que suas perdas são permanentes, e que aceitar a verdade dói, dói muito.

Desapegue de velhos hábitos. Não espere que o governo construa nem aguarde que a polícia multe ou prenda. Assim como os líderes dos BRICs, dê o primeiro passo e a primeira pedalada em direção à mudança. As bicicletas estão aqui, e agora, só depende de você querer ganhar ou perder. Conscientemente.
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este texto foi inspirado pela charge e escrito a partir da estrutura e argumentos traduzidos do artigo The Sunk Cost Fallacy, publicado no blog You are Not So Smart, com adaptações.


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Uma bicicleta feita de espuma quântica

Terminei de ler há poucos dias:

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Espaço, tempo e além, de Bob Toben e Fred Alan Wolf, publicado pela Cultrix.

Uma tentativa de explicar fenômenos místicos usando conceitos da teoria quântica.
Muitas vezes o livro tem um gosto de forçação de barra esotérica, mas outras passagens faz a gente pensar. Como disse alguém, é a tentativa de explicar um mistério com outro mistério. Dois aspectos gostei muito do livro: o humor, presente nas ilustrações, e a teoria quântica explicada de modo acessível, “para leigos” (se é que podemos dizer isto a teoria quântica!!)

Comprei na década de oitenta, olha o preço ainda colado na contracapa:

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naquela época achei meio esotérico demais e acho que parei na metade…
Um dia, recente, estava sapeando minha estante e vi o livro lá, quietinho. Decidi ler.

Olha o que encontro na página 39:

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Escrita em 1975, esta página do livro previu o que aconteceria 30 anos depois com a bicicleta como conceito. Auto-organização remete aos sistemas emergentes, que explicam: se cada um de nós mudar, o mundo muda; comportamentos simples individuais levam a comportamentos complexos no coletivo.
Se você anda de carro todo dia e para todo lugar, por que reclama dos engarrafamentos e da falta de vagas? como quer um trânsito melhor?? O trânsito é feito da somatória de pessoas indo e vindo pela cidade. E a bicicleta é o mais poderoso símbolo, atualmente, destas escolhas e mudanças individuais que torcem o destino coletivo para outros rumos.

Premonição?
Toben e Wolf explicam: interpenetração de cortes de camadas do espaço-tempo na espiral de universos paralelos!

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Steve Jobs, a bicicleta e o fim do mundo

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Esta citação eu vi na Revista Conhecimento Prático Literatura (número 43, pág. 31). Veio em destaque numa resenha do livro:

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A frase é antiga, da década de 80. Pode ser ouvida neste vídeo, fragmento de uma entrevista do Steve Jobs. A citação completa é assim:

I read a study that measured the efficiency of locomotion for various species on the planet. The condor used the least energy to move a kilometer. Humans came in with a rather unimpressive showing about a third of the way down the list….That didn’t look so good, but then someone at Scientific American had the insight to test the efficiency of locomotion for a man on a bicycle and a man on a bicycle blew the condor away. That’s what a computer is to me: the computer is the most remarkable tool that we’ve ever come up with. It’s the equivalent of a bicycle for our minds.

Em tradução rápida:

Li um estudo que mediu a eficiência de locomoção para várias espécies do planeta. O condor é o que menos usa energia para se locomover um quilômetro. Os humanos ficaram numa posição bem inexpressiva na terça parte final da lista …. Isso não parece muito bom, mas então alguém na Scientific American teve o discernimento para testar a eficiência de locomoção de um homem em uma bicicleta e um homem na bicicleta ultrapassou o condor com ampla margem. Isso é o que um computador é para mim: o computador é a ferramenta mais incrível que já inventamos.  É  equivalente a uma bicicleta para nossas mentes.

[talvez o Steve Jobs estivesse falando de Stuart S. Wilson, que publicou em 1973 um estudo comparativo sobre eficiência de energia]

Muito interessante é – como sempre – a visão antecipadora do Jobs, e mais ainda é encontrar a citação entre um artigo sobre Oswald de Andrade e outro sobre a ideologia portuguesa nos Lusíadas de Luis de Camões.

A frase é fenomenal. Possibilita várias leituras.

Equipara o computador à bicicleta e a bicicleta ao computador. Se o computador mudou o mundo de cabeça pra baixo, a bicicleta também fez e faz isto, tanto individualmente, a partir do momento que você decide incluí-la na sua rotina, como comunitariamente, subvertendo preconceitos e políticas públicas viciadas.

O computador criou um mundo novo que está apenas começando. Para onde nos levará a informática e a informatização?
A bicicleta também está criando um novo mundo. Embora seja invenção do século XIX, estamos vivendo a revolução da Bicicleta 2.0. Para onde nos levará a bicicleta?

Tudo isto é somente o fim de um mundo e o começo do outro.

Por falar em fim de mundo, os maias não eram cristãos, então o fim do mundo, para eles, não é o Apocalipse. A cultura e a religião maia passavam longe do escatológico cristão. Toda esta fuzarca – blargh – sobre fim do mundo hoje, ou no ano 2000, ou em 2022, só pode acontecer num mundo cristão. É mais uma profanação do Sagrado – entre tantas outras feitas ao longo destes 2000 anos.

Para outras religiões e culturas, o fim de uma coisa é o começo de outra, o Eterno Retorno. Não existe um “destino final” à espera da raça humana, um messias à nossa espera, o profetizado, profecias.

Assim, estamos mesmo vivendo o fim. Não o fim DO mundo, mas o fim DE UM mundo, um mundo de crenças e convicções e crendices –  elas sim, quase nos levam à beira do precipício, e se não forem barradas, levarão não ao fim do planeta, mas ao fim do mundo humano.

O computador e a bicicleta são dois fortíssimos agentes que estão enterrando o “velho” mundo e criando outro. Um outro. Dia após dia o velho mundo vai-se acabando e só não vê quem não quer ver. Só não participa quem não quer. Ou quem tem medo. Ou quem prefere viver no século passado, eras passadas. Que coisa é essa que não cabe mais nas nossas vidas, mas que insistimos em buscar soluções para ela?
O antiquado já era! máquina de datilografia, fax, fita cassete, automóvel para uso urbano.

Eu participo da destruição deste velho mundo todo dia. Que venha logo seu fim!

Bicicleta é muito mais do que veículo

Em artigo recentemente premiado (e publicado no blog há duas semanas), Catherine Hess fala sobre o papel que a bicicleta pode ter em pesquisas sobre as funções cerebrais. No artigo, ela cita um método que tem sido usado para detectar casos atípicos da doença de Parkinson.

Fui até o link citado pela Catherine, que leva a um texto escrito por pesquisadores do Departamento de Neurologia da Universidade Radboud, em Nijmegen, Holanda.

Achei bem interessante o artigo médico, pois ele confirma que a semiótica da bicicleta vai muito além do direito de usar as ruas. Traduzi e mando para quem se interessar na leitura.


O “sinal da bicicleta” para detectar síndrome de parkinson atípica

Fazer a diferenciação entre a doença de Parkinson e sua forma atípica é importante tanto clinicamente, para o aconselhamento adequado do paciente, quanto cientificamente, para determinar adequada inclusão em pesquisas clínicas. O diagnóstico diferencial continua sendo um desafio, mesmo com os atuais conhecimentos clínicos e modernas investigações complementares. Sugerimos aqui que a resposta a uma simples pergunta: “Você ainda pode andar de bicicleta?” oferece bom critério de diagnóstico para separar a doença de Parkinson do parkinsonismo atípico.

Fizemos um estudo observacional prospectivo em 156 pacientes com síndrome de Parkinson mas sem diagnóstico definitivo. No início do estudo, os pacientes responderam a uma entrevista estruturada e passaram por avaliação neurológica abrangente, com ressonância magnética cerebral. A entrevista incluiu uma pergunta padrão sobre por que, se e quando andar de bicicleta tornou-se impossível. O padrão de referência foi dar o diagnóstico depois de 3 anos, com base no acompanhamento clínico, incluindo repetição do exame neurológico, resposta ao tratamento e ressonância magnética. Todas as avaliações foram feitas por um único examinador, experiente.

Antes da primeira manifestação da doença, 111 pacientes andavam de bicicleta. Dos pacientes, 45 desenvolveram a doença de Parkinson em sua forma padrão e 64 em sua forma atípica. No período de adaptação (duração média da doença 30 meses), 34 dos 64 pacientes com síndrome de Parkinson atípica tinham parado de andar de bicicleta, contra apenas dois dos 45 pacientes com doença de Parkinson. A perda das habilidades de andar de bicicleta estava presente em todas as formas da síndrome de Parkinson atípica. A análise de regressão não revelou efeito significativo de idade, parkinsonismo ou ataxia sobre a capacidade de andar de bicicleta, o que sugere que se trata de um marcador independente para a Síndrome de Parkinson atípica.

Sugerimos que a perda da capacidade de andar de bicicleta após o início da doença pode servir como um novo sinal vermelho, indicando a presença de parkinsonismo atípico. O valor diagnóstico do “sinal da bicicleta” foi bom: sua presença foi altamente específica para o diagnóstico da Síndrome de Parkinson atípica. Esta observação não é única. Pacientes com doença de Parkinson têm poucos problemas de equilíbrio movendo-se lateralmente, sua marcha é tipicamente curta, a marcha tandem é geralmente normal, e eles podem mostrar uma notável capacidade de andar de bicicleta. Andar de bicicleta requer uma interação altamente coordenada entre equilíbrio, coordenação e pedalada rítmica das pernas. Este somatório de habilidades é provavelmente sensível aos problemas sutis com o equilíbrio ou a coordenação, causados pela patologia extranigral mais extensa no parkinsonismo atípico. Simplesmente perguntando ao paciente sobre andar de bicicleta pode ser um item adicional à lista de sinais vermelhos que podem ajudar os médicos no diagnóstico diferencial precoce da Síndrome de Parkinson.

andar de bicicleta, um turbilhão sensorial

Nos primórdios deste blog, escrevi um artigo sobre gênios que andam de bicicleta. Schrödinger, Niels Bohr, Einstein em sua famosa foto.

Catherine Hess vai além e afirma que todas as pessoas que andam de bicicleta são geniais. Ou dizendo de outra forma – sem apelar para a hipérbole: todo ciclista usa capacidades excepcionais do ser humano, ainda desconhecidas pela ciência.

E quem é Catherine Hess? Pesquisadora posgraduada em antropologia na Universidade de Bournemouth, cidade do litoral sul da Inglaterra. Catherine Hess ganhou esta semana a menção honrosa do prêmio Wellcome Trust science writing prize com o ensaio “As easy as ride a bicycle?”.

O artigo foi publicado no blog Wellcome Trust e na seção Ciência do jornal britânico The Observer.

Eis a seguir o artigo, na íntegra, traduzido por mim. Os links internos levam a textos em inglês (que também serão traduzidos e postados aqui no blog):


Tão fácil como andar de bicicleta?

Catherine Hess

A maioria de nós se lembra da primeira bicicleta. É um rito de passagem, simbolizando nossa transição de criança “pequena” para criança “grande”. Ainda mais emocionante é o dia em que conseguimos dar o primeiro passeio sem rodinhas. O que a maioria de nós não percebe é quão complexa a arte de andar de bicicleta realmente é. Tão complexa, de fato, que pesquisadores estão apenas começando a investigar como é possível nós conseguirmos nos impulsionar em duas rodas finas, constantemente balançando para frente e para trás com o movimento de nossas pernas; simultaneamente nos deslocando por várias superfícies enquanto tentamos evitar inúmeros obstáculos.

Mais extraordinário ainda é o que o ato de andar de bicicleta pode nos dizer sobre o cérebro humano. Em 2010, pesquisadores da Holanda publicaram um dramático estudo de caso no New England Journal of Medicine. Médicos pesquisadores na Radboud University, em Nijmegen, examinaram pacientes que sofrem com a doença de Parkinson, uma doença neurológica que resulta em tremores e movimentos musculares involuntários. Em casos graves, o Parkinson afeta o equilíbrio, a coordenação e o controle de pernas e braços e pode deixar os pacientes incapazes de andar ou realizar tarefas básicas.

Um destes pacientes, um homem de 58 anos, sofreu o que os pesquisadores chamam de “congelamento da marcha”. Ele era incapaz de andar ao ponto de precisar de guias visuais para ajudá-lo a colocar um pé na frente do outro. Era incapaz de virar-se durante a caminhada. Depois de alguns passos o paciente perdia o equilíbrio e exigia sua cadeira de rodas.

Surpreendentemente, no entanto, este paciente ainda consegue andar de bicicleta. Impecavelmente. Este video, apresentado com o estudo de caso publicado (e agora disponível no YouTube), mostra o paciente, com fortes tremores em seus braços, arrastando-se lentamente e erraticamente por um corredor, enquanto é guiado por outra pessoa. Após alguns passos, ele começa a tropeçar até cair no chão.

Num segundo vídeo, ele é visto andando de bicicleta com movimentos e equilíbrio perfeitos, os tremores acentuados em seus braços se foram e ele pedala num ritmo consistente e com perfeito equilíbrio e coordenação. Ele pedala longe da câmera, se vira e pedala de volta, reduzindo a velocidade até parar e desmonta perfeitamente. Uma vez desmontado, no entanto, é incapaz de caminhar.

Este fenômeno é chamado cinésia paradoxal. Embora os mecanismos envolvidos ainda não sejam compreendidos, o conhecimento é inestimável. Pode levar a novas formas de terapias e exercícios físicos para pessoas com doença de Parkinson ou outras doenças neurológicas que afetam o movimento, coordenação ou equilíbrio.

Atualmente, o “aviso da bicicleta” está sendo sugerido como uma maneira eficaz e barata para diferenciar entre o Parkinson e uma forma mais rara e atípica da mesma doença. Um modo de diferenciar as duas doenças é a capacidade ou a perda da capacidade de andar de bicicleta. Os indivíduos com Parkinson que sabiam andar de bicicleta antes do início dos sintomas mantêm a capacidade de pedalar. Aqueles com o Parkinson atípico não conseguem.

Mas como é possível um homem andar de bicicleta quando ele vive, na verdade, preso a uma cadeira de rodas? Mais admirável ainda, como é que alguém se adapta ao turbilhão sensorial que é andar de bicicleta? As equipes de investigação da Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos, e na Universidade de Delft, Holanda, estão tentando descobrir. O que eles descobriram é surpreendente.

Presumimos que andar de bicicleta é tão fácil como, bem, como andar de bicicleta, acontece, porém, que não é nada disso. Liderados pelos professores Mont Hubbard e Ron Hess, pesquisadores americanos estão tentando modelar as interações homem-bicicleta de forma semelhante às interações piloto-avião ou motorista-carro. No entanto, há muitos mais processos físicos e neurológicos envolvidos no andar de bicicleta do que dirigir um carro.

“Andar de bicicleta envolve o uso contínuo de todas as capacidades sensoriais primárias do ser humano, visual, vestibular [equilíbrio] e proprioceptivo [a consciência do próprio corpo e do posicionamento dos membros]”, diz Hess. “O último envolve sensores nos braços que fornecem informações sobre os estímulos de controle da direção. O que é mais interessante ainda é a capacidade dos ciclistas treinados para andarem de bicicleta ‘sem as mãos’”.

Uma pesquisa recente da Universidade da Califórnia, Davis, demonstrou como movimentos sutis do corpo do ciclista permitem fazer isto.

“Imagine tentar esta técnica de controle em um automóvel ou um avião”, diz Hess.

O objetivo desta pesquisa é entender como o ciclista interage com o meio ambiente e a bicicleta, e desenvolver bicicletas que maximizem o desempenho, para um ciclista do Tour de France ou um ciclista deficiente necessitando de maior estabilidade ou controle.

O que está claro a partir de pesquisas tanto sobre o cérebro humano quanto sobre a bicicleta é que, apesar da simplicidade da bicicleta, ainda temos muito que aprender sobre como conseguimos controlá-la, e o que acontece no cérebro quando fazemos isto. Nosso primeiro passeio vacilante de bicicleta, então, torna-se um evento muito mais extraordinário do que imaginávamos.


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Bicicleta: paquera, sexo, evolução

Evito fazer isto que vou fazer agora: reproduzir na íntegra uma matéria de jornal. Evito até mesmo fazer um post “clonando” o que sai em jornais e revistas. Mas esta matéria da BBC Brasil é incrível. Eu já sabia da importância da bicicleta para a liberação feminina. Mas dizer que a bicicleta permitiu que os jovens namorassem e fizessem sexo para além das próprias aldeias, sendo mais revolucionária do que a pílula, é algo inusitado!

A reportagem também diz algo que a grande imprensa geralmente evita dizer ou reconhecer: foi a bicicleta que revolucionou as cidades, não o automóvel. As ruas foram pavimentadas primeiramente para bicicletas. O carro só pegou carona. Melhor do que tudo isto é reconhecer que a bicicleta foi o invento mais importante nos últimos 100 mil anos para evolução da espécie humana!  Ou como tá escrito no muro: É nois na rua!

Leia na íntegra:

Saiba como a bicicleta revolucionou o sexo e a genética

Que invenção pode ter sido mais revolucionária para o sexo do que a pílula anticoncepcional, a camisinha ou o Viagra? Para um dos geneticistas mais renomados da Grã-Bretanha, a resposta é clara: a bicicleta.

Bicicleta | Foto: BBC

Bicicleta alterou padrões de comportamento do século 19, afirmam especialistas britânicos

Stephen Jones, professor do University College de Londres (UCL), uma das mais respeitadas instituições de ensino e pesquisa do país, destaca que a invenção da bicicleta foi o evento mais importante dos últimos 100 mil anos da história da evolução humana.

Para Jones, em entrevista ao programa da BBC Science Club, a bicicleta “fez com que os homens não se limitassem mais a encontrar sua companheira sexual na porta ao lado, mas, sim, transportar-se a aldeias vizinhas e manter relações sexuais com uma mulher do povoado ao lado”.

Transporte barato e eficiente

Embora a bicicleta tenha sido inventada no início do século 19, não foi até pouco mais de um século atrás que se converteu em um fenômeno de massa.

Os primeiros modelos tinham rodas pesadas e pouco confiáveis, mas dois elementos transformaram a bicicleta em um dos milagres da tecnologia moderna: a corrente e as rodas com raios.

A roda com raios feitos de cabos de metal finos e esticados permitiu acelerar o funcionamento da bicicleta.

Bicicletas | Foto: BBC
Invenção é a mais importante dos últimos 100 mil anos para a diversidade genética, diz cientista

Antes da criação da corrente dentada, as rodas eram acionadas por meio de pedais acoplados, o que obrigava contar com uma roda frontal de enorme tamanho, que acabava sendo incômoda e instável.

A corrente, além das marchas, permitiu que, com apenas uma volta do pedal, a roda se movesse várias vezes e assim foi como nasceram, há um século, as bicicletas “seguras para damas”.

Dessa forma, essa maravilha da engenharia se converteu em um sistema de transporte barato, eficiente, e acessível a homens e mulheres de todas as classes sociais.

Mais ‘paqueras’ e menos piano

A imprensa da época na Grã-Bretanha reportou que a invenção mudou a forma de cortejo entre os jovens do final do século 19.

Nos jornais britânicos daqueles dias, é possível encontrar notícias de que a bicicleta reduziu a frequência do comparecimento de pessoas à igreja, criou novas tendências de cortejo entre os jovens e até mesmo provocou uma diminuição no uso do piano.

Mas, além das transformações sociais, a ciência destaca que a contribuição mais importante da bicicleta se refletiu nos nossos genes.

Stephen Stearns, professor de ecologia e biologia evolutiva da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, defende que a bicicleta ampliou em 48 quilômetros a distância de ‘paquera’ dos homens ingleses no final do século 19.

Ele diz que a invenção estimulou ainda a pavimentação das ruas, o que facilitou, mais tarde, a incorporação do automóvel ao mundo do transporte.

Bicicleta | Foto: BBC
Bicicletas sem corrente eram mais pesadas; mecanismo facilitou a vida sobre duas rodas

Para os especialistas, deu-se assim o início a um processo de migração que dura até hoje.

Diversidade genética

Jones, do University College de Londres, ressalta que a distância entre o lugar de nascimento dos futuros cônjuges não parou de aumentar desde então.

O cientista pede aos leitores que se façam uma pergunta simples: Quão distante é a origem de seu marido/mulher em comparação com a dos seus pais?

“Se caminharmos por uma cidade como Londres hoje em dia, vemos uma variedade genética que não teríamos visto em outra época”.

A bicicleta, segundo Jones, deu início assim a um caminho rumo à diversidade genética sem precedentes, algo que tem um papel primordial no desenvolvimento do nosso sistema imunológico – o que teve repercussões futuras cruciais para a humanidade.

“A diversidade genética é a base da evolução, se não a tivéssemos, ainda seríamos muito parecidos com os primatas”, concluiu.

— fim do artigo transcrito —

carros que não matam

Semana passada, ao falar de bicicletas com sensores de aproximação, disse que motoristas serão “tecnologia” extinta no futuro.

Pois não é que nesta semana a BBC publicou uma matéria sobre carros do futuro, em que parte dos estudos vai nesta mesma direção??

Para alguns, a solução para esses problemas seria na verdade deixar que os computadores assumam a direção completamente. Veículos inteiramente inteligentes podem “ver” e se comunicar com outros veículos e com o ambiente.
“Por que não?”, questiona Oliver Carsten, professor de segurança no transporte da Universidade de Leeds e um dos defensores da ideia de direção totalmente automatizada como objetivo final.

Leia a reportagem na íntegra, aqui.

Já vi robôs andando de bicicleta, mas felizmente nada pode subsituir a minha força e o meu controle quando eu pedalo a bicicleta. Ufa.

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Cidade-carrossel

Uma cidade imaginária, onde não é preciso haver sistema de transporte, uma vez que os bairros ou setores movem-se sozinhos. Feita para andar a pé.

Sem carro, sem trem, sem metrô.

Nos comentários do Youtube, muitas críticas para o consumo de energia que seria necessário. Mas há alternativas. A energia pode vir do sol e o sistema de rolamento pode ser supercondutividade. Ou a rotação pode vir da própria gravidade, com sistemas de contrapesos. Ou derivada da rotação do planeta – a mesma que faz a água escorrer pelo ralo da pia em forma de redemoinho. 🙂

No blog Digital Urban, alguém sugeriu o contrário: bairros fixos e anéis rotativos entre eles.

A favor ou contra, a ideia espanta ao prever a robotização das cidades. Uma cidade futurística é comumente vista como uma cidade comum invadida por tecnologia, habitada por robôs ou andróides. A ficção científica fica restrita ao indivíduo.

Mas que tal este outro futuro onde a tecnologia controla não apenas as pessoas, mas também o lugar onde viveremos? Que tal uma cidade inteira robótica?

É provável que a ideia seja adotada antes em colônias espaciais. E nelas, será possível andar de bicicleta, como previu Asimov e a NASA.

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conhecimento, prazer, sabedoria

Embora não tenha tempo suficiente para ler todos os bons livros do mundo, encontrei um método para misturar o prazer de ler uma boa história e o conhecimento das razões do mundo: leio livros de ficção e não-ficção alternadamente. Antes de ler O cavaleiro inexistente, tinha lido Uma breve história do tempo, do Stephen Hawking, que estava na minha lista há mais de 10 anos.

Stephen Hawking é um mestre na divulgação científica – Carl Sagan está na lista para eu poder comparar. É incrível como ele consegue soltar uma frase de humor entre eletróns e grávitons e funções de onda!!
Mas a edição brasileira de Uma breve história do tempo, pela Editora Rocco, pareceu-me fraca.

Deve ser um trabalho muito difícil traduzir um livro de física quântica. Mesmo levando isto em conta, porém, a tradução deixa muito a desejar. Alguns trechos são ininteligíveis pela linguagem, e não pela teoria. Encontra-se até erro de uso da vírgula. Também o acabamento editorial é ruim, há trechos truncados e repetidos. Confira nas duas imagens, clique nelas pra ampliar:

trecho na página 44
trecho na página 127

A obra saiu renovada sob o título Uma nova história do tempo, pela Ediouro. Parece que houve maior cuidado editorial, e fiquei curioso para saber se a tradução foi melhorada (tem um Google preview no saite da Livraria Cultura). Certamente eu compraria esta edição, para tirar a má impressão da outra. Mas o próximo não-ficção na fila é o livro O Universo numa casca de noz, também do Stephen Hawking.

A produção gráfica de O Universo numa casca de noz, pela Editora Arx, é incomparavelmente superior à edição de Uma breve história do tempo, pela Editora Rocco. Apenas folheando o livro dá para notar, há dezenas de ilustrações, todas coloridas; o leiaute é caprichado, parecer mais um livro de arte do que um livro de física quântica (e não é a mesma coisa??). O Universo numa casca… foi lançado mais de 15 anos depois de Uma breve história… Na contracapa está apresentado como “uma continuação ilustrada que desvenda os mistérios das maiores descobertas que ocorreram desde o lançamento de seu aclamado primeiro livro”.

Stephen Hawking é o cientista mais brilhante desde Einstein. Não sei de qual dos dois sou mais fã. Quem mais poderia dar ao seu livro o título de um verso de Shakespeare? Onde termina a ciência, onde começa a arte? O prazer e o conhecimento? Este é um dos melhores títulos de livro que já vi (e o subtítulo deste blog deixa bem claro isto).