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Bicicleta e arte popular – brinquedos

Entre meus livros coloco alguns objetos. Foram comprados ou presentes recebidos, têm certa carga simbólica e sentimental. Carrancas espantam maus espíritos, um casal de namorados suspira – escultura do meu amigo João Alves.

E esta bicicleta feita de cipó???????????????????????????????

comprei na feira de artesanato durante as Festas de Agosto, em Montes Claros.

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Bicicleta de cipó

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Procurei na internet por “bicicleta de artesanato”, achei um brinquedo antigo feito em Portugal:

Um pouco depois cheguei ao Museu do Brinquedo Popular e….. que maravilha!!!! Uma coleção de bicicletinhas:
feitas por Dell, Mestre Sauba e Zé Gomes.

Bicicletinha?? Olha só o tamanho das bicicletas feitas pelo artista José Gomes, da cidade São Joaquim do Monte, Pernambuco:

O autor das bicicletas-mamulengo aparece na foto (do blog Josinaldo Amaury).

Tem vários personagens, o casal de noivos, o “Nego Veio”, até Lampião e Maria Bonita! 🙂

A arte popular do Nordeste tem muitos tesouros guardados.
Este brinquedo esculpido em madeira, intitulado “O ciclista”

faz parte do acervo do artista Alberto Bernardo. Visite a página dele e assista três vídeos ótimos: um mostra o funcionamento de um jogo de capoeira com bonecos de madeira articulados, outro mostra o método de fazer que transforma um bloco de madeira num músico tocador de violoncelo, e o terceiro é um depoimento do artista. Ele diz:

O trabalho que desenvolvo também abrange a construção de brinquedos de arte para ambientações de espaços do brincar como escolas, brinquedotecas, bibliotecas.
As esculturas narram vivências típicas do nordeste brasileiro, com ênfase para os fazeres locais que acontecem ao pino do meio dia, como o nascimento, as brincadeiras, os trabalhos caseiros, os heróis do sertão e as crenças de nosso povo.

Vivências diárias, trabalhos caseiros, arte, bicicleta, brinquedo. Tudo junto misturado, sem sentido? Não!
Para ser inteiro, o ser humano tem que ser sapiens (que conhece e aprende), faber (que faz e produz) e ludens (que brinca, cria e se diverte). Muita gente acredita que na idade adulta somos apenas homo faber, que produz e consome. A fase de aprender e brincar ficou na infância…
Homo ludens foi um conceito introduzido pelo historiador Johan Huizinga [leia  uma perspectiva histórica sobre o lúdico]. Para Huizinga, o jogo, a brincadeira, a diversão é uma atividade acompanhada de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘vida cotidiana’.
Mas já Aristóteles dava muita importância ao tema, conforme se lê em sua Ética a Nicômaco, 1127-b-30:

Como a vida é feita não só de atividade, mas também de repouso, e este inclui os lazeres e a recreação, parece haver aqui também uma espécie de
intercâmbio que se relaciona com o bom gosto.

Quando escuto alguém dizer, em tom de deboche, que “bicicleta é aquilo que você deixa de lado quando cresce e compra um carro” ou “bicicleta é coisa de criança”, eu agradeço.  Seja pedalando todo dia para o trabalho, passeando nos finais de semana, ou viajando em datas especiais, para mim, bicicleta é sempre diversão.

E eu quero uma bicicletinha dessas!!

Lampião e Maria Bonita vão de bicicleta!

 

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Livros são portas para a realidade

Enquanto estou no meio da leitura da série Diário de um banana, recebi de meu amigo Sérgio Tourino uma excelente dica de leitura sobre a leitura.

Um editorial de Carlos Vogt  (leia aqui) sobre Proust e seu livro Sobre a leitura. Magnífico elogio, tanto o livro quanto o editorial.
O editorial abre o Dossiê nº 94 da revista ComCiência,  em edição voltada exclusivamente para a leitura, e obviamente, para livros. (mas podemos dizer também para blogs, pois é exatamente isto, ler, que estamos fazendo aqui 🙂 )

Vogt diz, do texto de Proust:

fundamental para os que amam a leitura, para os que poderão amá-la e para os que são ou serão profissionais ou amadores desta aventura fantástica de viver, pelo imaginário, a multiplicação de sua vida e de sua finitude no infinito do espaço-tempo da memória, da percepção e da expectativa

E citando o próprio Proust:

Algumas vezes, em casa, no meu leito, muito tempo depois do jantar, as últimas horas da noite, antes de adormecer, abrigavam também minha leitura, mas isso somente nos dias em que eu chegava aos últimos capítulos de um livro, que não faltava muito para chegar ao fim. Então, arriscando ser punido se fosse descoberto e ter insônia que, terminado o livro, se prolongava, às vezes, a noite inteira, eu reacendia a vela, assim que meus pais iam deitar; enquanto isso, na rua vizinha, entre a casa do armeiro e o correio, banhadas de silêncio, o céu sombrio, mas azul, estava cheio de estrelas; à esquerda na viela suspensa, onde começava sua ascensão espiralada, sentia-se a vigília monstruosa e negra da abside da igreja cujas esculturas não dormiam à noite

Por fim, Vogt fecha seu editorial citando um trecho da entrevista do filósofo Nicolas Grimaldi:

A experiência da leitura ou da música permite antecipar o que revelará a lembrança involuntária, a saber que não há realidade que não seja interior. Ora, esta existência interior da realidade, tal como a suscita uma sensação, só a imaginação a transcreve. Mas esta transcrição é, na realidade, uma alquimia da imaginação que transforma a exterioridade em interioridade, a estranheza em intimidade, e a passividade em atividade. É isso que faz a metáfora, puro produto da imaginação, mas que exprime tanto o real quanto o recria, buscando-o no fundo de nós mesmos por um mimetismo interior.

Ou, de outra forma e com outras palavras:

banana_livro
Diário de um banana, vol. 4, “Dias de cão”

 

 

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Este cara sou eu

Não posso deixar de reproduzir aqui um trecho do volume 4 do “Diário de um banana”.
(são imagens digitalizadas diretamente do livro, por isto as sombras laterais por causa da dobra da encadernação)

diario_banana-4_pag153 diario_banana-4_pag154 diario_banana-4_pag155

os parágrafos que apontam as vantagens das bicicletas femininas diz a verdade absoluta sobre bicicletas!
Só um banana para dizer isto… eu!

(a ilustração da pág. 155 poderia servir para ilustrar os pedestres de Brasília andando nas “ciclovias”… elas andam na ciclovia e eu pedalo na calçada!)

🙂

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bicicletas – aus Deutschland!

Saindo da Inglaterra, vamos até a Alemanha, onde haverá eleições em breve.
Em meio aos esperados debates sobre economia, crise do euro, guerra e imigrantes, um fato foi destaque na reta final das eleições alemães:

Sim, a bicicleta virou centro das atenções quando Angela Merkel abriu a Eurobike, maior feira de bicicletas da Europa.
A primeira vez que a feira foi aberta por um chanceler (Kanzler, feminino Kanzlerin), chefe de governo da Alemanha.  Muita gente achou que foi uma jogada política, ao ponto da revista Der Spiegel ironizar “o súbito amor da chanceler pelas bicicletas”.

(videoreportagem sobre a ida de Merkel à Eurobike – uma parte do video mostra Barack Obama andando de bicicleta ;-))

Na mesma linha, a revista Bike BIZ afirmou que, alinhando com as bicicletas, Merkel estaria buscando melhorar suas ecocredenciais (algo como conquistar o voto verde).

Mas o setor de bicicleta europeu não falou de outra coisa. A revista BikeEurope diz que ela roubou o show com um  discurso marcante. E a Federação dos Ciclistas Europeus – ECF  ficou eufórica: “foi um grande dia para a defesa e o incentivo das bicicletas”.

Angela Merkel fez um discurso ao mesmo tempo espirituoso e sério. Foi engraçado, por exemplo, no momento que lembrou de sua bicicleta ‘roubada’, quando ela era jovem, por soldados soviéticos que tinham bebido muita cerveja: “Eu superei essa experiência e, ao contrário do que dizem, não afeta as minhas relações com a Rússia.”

A chanceler citou um dos primeiros fabricantes de bicicletas na Alemanha, Adam Opel:

Bei keiner anderen Erfindung ist das Nützliche mit dem Angenehmen so innig verbunden, wie beim Fahrrad.
Em nenhuma outra invenção a utilidade está tão intimamente ligada com o prazer, como na bicicleta.

Opel começou fabricando máquinas de costurar. Em 1866, passou a fazer bicicletas e, por um período, foi o maior fabricante alemão. Após usa morte, em 1895, os herdeiros começaram a se interessar pela fabricação de automóveis. Houve festa de despedida quando a última bicicleta Opel foi fabricada, em 1937:

“Quem quer ter uma ampla concepção de transporte, hoje em dia, necessariamente precisa incluir a bicicleta.” Disse a mulher mais poderosa do planeta. E acrescentou: “A Alemanha não é apenas uma nação de carros, é também o país das bicicletas”.

Angela Merkel afirmou que o uso do capacete não deve ser obrigatório – o que despertou a indignação da indústria de capacetes, que é financiada pela indústria de automóveis para alimentar o medo de andar de bicicleta, conforme mostra este video Copenhaguenize.

Argumentando que “bicicletas devem ter as mesmas oportunidades que carros”, Angela Merkel falou sobre o Nationaler RadVerkehrsPlan – NRVP (ao pé da letra = Plano Nacional do Trânsito de Bicicleta, mas em português é mais comum plano cicloviário), que seu governo desenvolveu para trazer de volta o uso de bicicletas na Alemanha a níveis mais elevados. Até 2020, o governo alemão quer aumentar o uso de bicicletas nas cidades para 15% de todas as viagens até 5 quilômetros. Atualmente situa-se em cerca de 5%.

Tive curiosidade e fui conferir o que o governo alemão está pensando sobre bicicletas.
[Ah, não prestou não… fiquei deprimido por morar no país do jeitinho e da cordialidade]

Veja alguns gráficos tirados do Nationaler RadVerkehrsPlan:

NationalerRadverkehrsplan2020_pg8

Uso de meios de transporte, tomando por base o ano de 2002. O uso das bicicletas (Fahrräder), linha laranja, subiu vigorosamente, seguidas pela caminhadas (zu Fuss), laranja claro, e transporte público (OPV). O uso do carro estacionou e, considerando transporte de passageiros (MIV-Mitfahrer), caiu 5%.

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Frota de bicicletas (Fahrrad) e automóveis (PKW) na Alemanha, em milhões de unidades.
Embora não exista estatística alguma, dizem que no Brasil a relação é a mesma, quase 2 bicicletas para cada automóvel. Mas lá, a população é de 80 milhões, e o Brasil tem 200 milhões de habitantes – ou seja, a mesma frota absoluta, mas para uma população 2,5 vezes menor = o que significa muito mais bicicletas por habitantes, na Alemanha.

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A diferença começa aqui. Entre 1996 e 2011, caiu mais de 10% a quantidade de jovens com carteira de motorista (Führerscheinbesitz), gráfico à esquerda. E o número de jovens, 18 a 35 anos, que compram carros também está caindo (gráfico da direita).

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Este gráfico é fantástico!!! Mostra o uso dos principais meios de transporte em razão da distância, cumulativamente. Nota-se que até 1 km, andar a pé é a principal forma de locomoção. Entre 1 e 10 km o uso da bicicleta torna-se exponencial. Como o gráfico é cumulativo, sabemos que praticamente todos os deslocamentos a pé são feitos até 7,5 km (quando a linha laranja claro toca o eixo 100%). De bicicleta, os deslocamentos se concentram entre 1 e 10kms, até no máximo 25km (linha laranja toca os 100%)

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Este gráfico compara o número de ciclistas mortos (getötet), feridos (leichtverletzt) ou seriamente feridos (scherverletzt), tomando como base o ano de 2000. Até 2008 houve um aumento dos ferimentos leves, os ferimentos graves reduziram um pouco e os ciclistas mortos diminuíram significativamente, tendo atingido 40% menos em 2010. Mas… em 2011 houve um aumento considerável de ferimentos leves, graves e mortes de ciclistas. Por que? Acho que o gráfico abaixo responde:

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A venda de “bicicletas” elétricas disparou desde 2011! Na verdade,  “bicicletas elétricas” são motos disfarçadas de roupagem ecoverde, e como acontece com as motos, a velocidade traz mais perigo – e feridos e mortos.

Por fim, o que me enterrou de vez no poço sem fundo verde-amarelo foi a quantidade de rotas de cicloturismo que cortam a Alemanha de norte a sul e leste a oeste, mostradas no RadVerkehrsPlan:

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Sim, eu já sabia que as rotas existiam. Meu sonho de cicloturismo é fazer a rota do Reno, Rhur e Donau (número 8), dos Alpes até a fronteira com a França. Ou a Rota Romântica (9), de Würzburg a Füssen.

Se você quer saber mais sobre viagens de bicicleta na Alemanha, visite a página oficial de cicloturismo do país.
O governo alemão tem uma página exclusiva na internet só para cicloturismo! E não apenas isto, mas inclui o cicloturismo no seu Plano Cicloviário Nacional. E poderia ser diferente?

Aqui – como não há plano cicloviário – o Plano Nacional de Turismo 2013-2016 brasileiro nem lembra que bicicleta existe…

Confessei lá em cima: entro em depressão ao lembrar que minha contingência existencial é estar no Brasil. Mas me apego ao que diz o filósofo Léo Pimentel: o acaso d’eu ter nascido no Brasil não faz de mim um brasileiro.
Por isto fico rotineiramente passeando por outras paragens, um misto de fuga da realidade e utopia, bem aos estilo dos contos de fada – dos Irmãos Grimm, que eram… alemães!

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[foto copiada do RadVerkehrsPlan]

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As Bucólicas de Virgílio no gramado do Congresso

Foram dias mágicos!
Dias de ir para a rua, de discutir, repensar, exigir.

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concordo!

Vão entrar para os registros da história.

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Mas não digo que foram dias históricos, pois todos os dias são dias históricos! A história se faz no dia a dia.
Nem digo que “o gigante acordou”. O hino não diz que ele estava dormindo, diz que estava “deitado eternamente”, não necessariamente dormindo. (pode estar com preguiça, Macunaíma!)

Releia a primeira frase deste post e a palavra destacada em itálico. Mágico ali não é elogio.
Em antropologia e psicologia, o pensamento mágico é um resquício do pensamento primitivo, presente no subconsciente de todos nós humanos. Faz ligações improváveis entre fatos distintos, cria uma causalidade mental – basta pensar ou crer e a mente exerce um efeito direto sobre a realidade. Na wikipedia achei um exemplo curioso que explica isto bem com uma bela imagem: o povo azande, na África, esfrega dentes de crocodilo nas bananeiras para fazê-las frutificarem, porque o dente do crocodilo é curvo tal como as bananas e porque ele cresce novamente após cair da boca do bicho.

O pensamento mágico é (obviamente!!) a base da religião, superstições e crenças populares. Geralmente recorremos a ele em situações que precisamos de uma saída ou fuga para emoções despertadas por uma realidade dolorosa ou frustrante. Precisamos de fantasia para enfrentar a realidade.

Quando os ipês explodem bolas rosas, pode parecer, mas não é mágica. A árvore passou o verão todo se alimentando de chuvas, perde todas as sua folhas e parece morta e, quando percebe que é hora, veste-se. É um fluxo constante de tensões e distensões, que prepara a beleza – e o futuro. Pois dali virão frutos, e sementes, e novas árvores.

As manifestações foram grandes momentos.

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Necessárias, explosivas, grandiosas, estive em pelo menos quatro delas aqui em Brasília e acompanhei, na internet, o que acontecia país afora. Até assisti o Jornal das 10, da Globonews, coisa que não fazia há anos!! (e deixei de atualizar este blog… 😦 )

Mas a verdadeira mudança acontece nos pequenos momentos. Nas chuvas e nas sementes.

No meio da multidão ficava imaginando quantos daqueles, que pediam um transporte melhor, uma cidade melhor, estariam ali num movimento contra os carros estacionados em fila dupla, sobre calçadas e gramados. Quantos, com cartazes “melhor educação”, estariam ali se fosse uma grande onda moral contra os alunos picaretas, pais picaretas – que “compram” atestados médicos para os filhos terem tratamento “diferenciado” na escola, entram na justiça para forçar a entrada de filhos nas faculdades antes de concluir o ensino médio. Quais ficariam com faixas “abaixo a corrupção” se fosse para pedir punição de todos que usam qualquer meio para burlar o Imposto de Renda?

A mudança não está fora, está dentro!

Os políticos foram eleitos, não desceram do céu em nuvens douradas ou nasceram em repolhos dentro do Congresso, assembleias e câmaras de vereadores. Olha o pensamento mágico aí! A terceirização da culpa, base do comportamento cristão: se há um mal, é o diabo; se um bem, foi deus que quis. Como assim? Então, nada na vida é resultado das decisões e atitudes pessoais de cada um, a cada minuto do dia??

[deixei de acreditar em deus quando me disseram que ele era onipresente, onisciente e onipotente, mas permitia o diabo agir, a maldade e o sofrimento; ou este deus é um sacana – e não merece qualquer respeito – ou simplesmente não existe; preferi optar pela segunda opção]
[deixei de acreditar em religiões quando soube que poderia ter uma vida indigna e iníqua, pois a salvação não depende de mim, ou melhor: nada do que eu faço importa, posso matar, roubar grande ou pequeno, se no leito de morte me arrepender dos pecados, estarei salvo; o paraíso não depende de mim, mas da benevolência de um deus]

O pensamento mágico está tão difundido (maior país católico do mundo…) que o próprio governo apresenta soluções mágicas. Reforma política para resolver o problema da saúde, educação e transporte público?!?!? Reforma política só interessa aos… políticos! Não é a forma de escolher os políticos que vai fazê-los menos corruptos, ou melhores administradores. A cidade precisa de bons administradores, que saibam fazer – sobretudo que tenham coragem de fazer. Antes de reforma política, precisamos de uma reforma no judiciário, cujo poder ineficiente a serviço dos poderosos é a base de toda nossa injustiça e impunidade. Antes da reforma do judiciário, precisamos de outros princípios éticos – pois a falta de impunidade, a cultura do jeitinho, e a malandragem é do interesse de muita gente sim, muita, e não apenas políticos. Ouso dizer que é o princípio ético da maioria dos brasileiros  – caso contrário, já teria mudado. Não somos um povo imoral, mas amoral, para quem questões morais são desconhecidas, estranhas, não são levadas em consideração.

O ponto de encontro geralmente foi a Biblioteca Nacional. Durante a aula livre do Prof. Safatle, tirei esta foto:

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e neste instante que escrevo, lembrei que a Biblioteca é um bom exemplo. Foi construída pelo Roriz em 2006, sem nenhum livro dentro. Só o prédio, a arquitetura (feia, por sinal). Só agora, 7 anos depois, é que foram colocados livros para empréstimo. Uma biblioteca sem livros? Tá resolvido o problema cultural do país! Se bibliotecas não precisam de livros, basta dizer que, a partir de hoje, todo viaduto é biblioteca. Como não precisa livros, e como a solução para o transporte das cidades é construir viadutos para os automóveis particulares, dois problemas resolvidos com uma frase!

Nem os ciclistas escapam do pensamento mágico. Aqui em Brasília, construíram dezenas de quilômetros de ciclovias para “salvar vidas”, no Plano Piloto – onde o índice de atropelamentos fatais é irrisório se comparado com outras RAs – conheço casos registrados que cabem nos dedos de uma mão: Pedro (no eixão, onde não fizeram ciclovia), Carol, no dia da manifestação, e um ciclista morto na UnB alguns anos atrás (se você conhece/lembra outros casos, deixe um comentário). Por que não fizeram ciclovia na EPTG? Na estrutural? Porque no Plano Piloto o governo mostra para o país e o mundo que a “cidade está preparada para a Copa”. Mostra para os cicloativistas esportistas, os que pediram a apoiam o GDF nesta empreitada, todos de classe média alta, mostra para eles que o governo “quer salvar vidas” e que, com ciclovias, a cidade se tornou um paraíso para os ciclistas. Sim, mas… e os carros parados nos rebaixamentos do meio-fio, bloqueando as ciclovias? E os carros que não dão preferência às bicicletas nos locais onde a ciclovia cruza a pista? Cadê a punição para quem estaciona irregularmente? Cadê educação dos motoristas “para um trânsito melhor, uma cidade melhor”? E os bicicletários que existiam e, a cada dia que passa, um é retirado, não pelo governo, mas por iniciativas privadas? Então, é só o governo que tem que incentivar o uso da bicicleta?

todos_somos_responsaveis

A maior manifestação aqui em Brasília ocorreu na quinta feira, dia 21 de junho, solstício de inverno, associado à morte, ao desconhecido ou à escuridão. Na antiguidade, rituais de iniciação eram feitos sempre no solstício de inverno, porque é a maior noite do ano, significa o início do ciclo de dias de luz cada vez maiores; significa a saída do mundo dos mortos (a noite, a escuridão) e a entrada no mundo dos vivos (o dia, a luz). Os rituais do solstício de inverno têm o significado de renascer, ou nascer de novo para a Luz; o renascimento assume o significado simbólico da vida que se renova, após a grande noite (morte). [quando é mesmo o Natal, data máxima da cristandade? no solstício de inverno do hemisfério norte!]

Será que foram apenas dias de ritual mágico na semana do solstício de inverno?

Fui com esta camiseta:

libertas

Todos sabem que a inscrição na bandeira de Minas quer dizer “Liberdade ainda que tardia”. A liberdade sempre é boa, mesmo que venha tarde.
O que muitos não sabem é que, para expressar o desejo de ficar livre de Portugal, os inconfidentes quebraram o verso das Bucólicas, de Virgílio, deixando, de propósito, uma parte muito importante de fora.
Veja o original, em latim:

bucolica_I

retirado do livro

constr_arte_buc_virgilio

do saudoso professor João Pedro Mendes, um dos melhores mestres que já tive, com quem aprendi rudimentos de latim e grego (rudimentos por culpa minha, não dele…).

A tradução é polêmica, como todo texto clássico. Gosto desta: A Liberdade que, embora tardia, contudo olhou favoravelmente para mim, que nada fiz. Para entender melhor, é preciso saber que esta frase responde a uma anterior: O que foi que te trouxe à Roma? Tityrus responde: [o que me trouxe à Roma foi] a liberdade, que, mesmo sendo tarde, ainda assim olhou para mim, que nada fiz.

Se os inconfidentes soubessem para qual caminho ético o Brasil seguiria, eles colocariam o verso completo na bandeira!!

Pois de pouco adianta que a liberdade, ou qualquer outra conquista, mostre as caras, apareça, mesmo que tarde. Nada vai adiantar se continuamos inertes, sem nada fazer no nosso dia a dia, nos pequenos, mínimos momentos.

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Se os livros desaparecessem…

Numa destas viagens, estava passando o tempo no aeroporto e avião com uma revista Coquetel, especial criptogramas.

Lá pelas tantas, ao resolver um jogo duplex (colocamos as definições e passamos as letras do quadro para o digarama, de acordo com as coordenadas; preenchido o passatempo, surgirá uma frase e o nome de seu autor nas casas em destaque) surgiu esta frase, que guardo aqui como citação:

O livro é a grande memória dos séculos… se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem.

                                                                              Jorge Luis Borges

Preciso encontrar o texto do Borges de onde esta frase foi extraída!

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Hobsbawm e a Bicicleta na Via

Se a mobilidade física é condição essencial da liberdade, a bicicleta talvez tenha sido o instrumento singular mais importante, desde Gutenberg, para atingir o que Marx chamou de plena realização das possibilidades de ser humano, e o único sem desvantagens óbvias.

 

Os ciclistas se deslocam à velocidade das reações humanas e não estão isolados da luz, do ar, dos sons e aromas naturais por trás de pára-brisas de vidro

Estas frases são de Eric Hobsbawm, que morreu esta semana.
As citações estão inseridas num parágrafo às págs. 107-108 do livro Tempos interessantes: uma vida no século XX, publicado pela Cia. das Letras.

Hobsbawm, que decifrou como ninguém o tempo que vivemos, mostra sua brilhante lucidez nestas poucas palavras.

É um texto curto e denso, mas pouco lembrado.

Aliás, por falar em pouco lembrado, o texto foi citado primeiramente na web brasileira pelo Sergio Tourino, do Bicicleta na Via, lá em 2004 (veja o post). Depois disto alguns blogues e pessoas copiaram e reproduziram a citação, sem indicar a fonte inicial (que coisa feia…).

Na mesma semana que perdemos o maior historiador do século XX, acabo de receber notícia de que o Bicicleta Na Via está de casa nova aqui no WordPress. Gostei da novidade, particularmente acho WordPress muito melhor do que Multiply!!
Todo o arquivo de noticias, inclusive o parágrafo do Hobsbawm, foi importado, o que é muito bom, pois o BNV foi movimento pioneiro aqui em Brasília, embora esteja longe das mídias e dos holofotes. Mas não é assim que a história é escrita muitas vezes?

Salve Hobsbawm e salve a Bicicleta na Via!

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Autobahn para bicicleta?

Para comemorar os 80 anos de inauguração da primeira autobahn, a DeutscheWelle fez uma galeria de fotos destacando os fatos mais significativos da história deste modelo de rodovia típico da Alemanha.

São 12 fotos comentadas, entre as quais selecionei 6.
Um blog de bicicleta falando de autobahns?? Calma.
Vá até o final e veja como tudo depende da weltanschauung – já que estamos falando dos alemães! :-). O modo de agir no mundo depende da nossa visão de mundo.

As autobahns foram criadas como “ruas só para carros”. Como já dito neste blog antes, os nazistas apropriaram-se desta ideia para expulsar as bicicletas das ruas, segregando-as em ciclovias.
A industria automobilística e a propaganda nazista caminharam juntas por um tempo.
E me pergunto o quão pouco isto mudou até hoje:

Wenn man eine grosse Lüge erzählt und sie oft genug wiederholt, dann werden die Leute sie am Ende glauben. 
Quando se conta uma grande mentira, repetida com frequencia, as pessoas acabam acreditando no final.
Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda de Adolf Hitler

As propagandas de carro na TV mostram a verdade? Ou encenam um mundo falso, que, virtualizado, torna-se verdade, pelo menos enquanto desejo?? Quando o governo diz que baixa IPI dos carros para aumentar empregos, está dizendo a verdade? Não e também não.

Mas a mentira tem perna curta. Logo veio a crise do petróleo, o excesso de carros, o aquecimento global. A sociedade do automóvel mostrou sua verdadeira face.

E as autobahns, que começaram como ruas SÓ para carros, em 2010 a A40 foi fechada para automóveis. Só pedestres e bicicletas pelas ruas do grande homem!

E hoje, o conceito já é outro: autobahns para bicicletas.
O mais curioso de tudo é que uma reportagem que começou falando das autoestradas alemães, sonho de todos os motoristas fanáticos de todo o mundo, terminou falando em bicicletas!

São estas as fotos que selecionei. Leia as legendas!

clique aqui para ver a galeria completa.

É como diz a letra da música:

Nur Genießer fahren Fahrrad
Und sind immer schneller da.

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Combatendo a ruína das cidades

Porque é tão grande a ambição dos grandes que, se não sofrer oposição por várias vias e de vários modos numa cidade, logo a levará à ruína.

(Maquiavel, Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, citado na Revista Filosofia, nº 33, pág. 32)

Um povo cheio de virtù [virtude cívica], não se deixa governar por tiranos; um povo corrompido, por sua vez, não consegue reconhecer os benefícios de uma cidade livre.
(…)
Só a virtù do povo, ou seja, só a participação de todos na vida política da cidade, tendo em vista o bem comum e a preservação da liberdade de todos, é que pode manter a cidade a salvo de sua apropriação por interesses privados. A corrupção, entendida como a falta de capacidade de se dedicar energia ao bem comum, priorizando interesses privados em detrimento de interesses da coletividade, tem sua origem, segundo Maquiavel, na desigualdade existente na cidade.
(…)
Bem ou mal resolvida, a virtude cívica é, certamente, um dos componentes que compõem a noção de liberdade

Ester Gammardella Rizzi, Maquiavel, a virtù e a garantia da liberdade, Revista Filosofia)