Arquivo da categoria: ecologia

Você pode mudar sua cidade para melhor

http://money.cnn.com/video/technology/2014/10/07/how-to-build-an-innovative-city.cnnmoney/index.html

Este vídeo merece ser visto e revisto. Feito pela CNN para a série Most Innovative Cities, poderia facilmente transformar-se na síntese do programa de um governo que realmente queira mudar as coisas, prefeito, governador ou presidente da república. A bicicleta conduz a narrativa, mas o vídeo dá uma visão geral do que seria uma cidade sustentável.

O original está em inglês, sem legenda. Para dar a maior divulgação possível do conteúdo, que é muito bom, fiz a transcrição e a tradução.


Cities are old, and sometimes tough to change. But what if you could start over? And create an innovative city everyone would love. Not in a move to Mars, biodome kind of way, but here, on Earth. Let’s start close to nature, add energy efficient buildings made of renewable materials, like wood and natural rubber. Don’t forget the solar panels. And while we’re at it, let’s reduce congestion. Add in recycling and composting programs. A dense population is an important part of innovation. All of those different people meeting and sparking ideas off of one another. So let’s get all kinds of people together, create neighbourhoods with a variety of affordable housing options. Make sure these people can make a living wage and give their kids access to education. Make transportation affordable, i.e, bike lanes and bike share programs, because keeping people healthy is a priority. So let’s provide free apps and tools to keep people active and work with local farmers to provide fresh food for everybody. When infrastructure ages, let’s repurpose it. That library becomes a community centre. In order to keep a city sustainable, it’s important to elect officials who can see green. No, not that kind. This kind. But what is most important to keeping a city innovative, in short, it’s you.

As cidades são antigas, e às vezes difíceis de mudar. Mas, e se você pudesse começar de novo? E criar uma cidade inovadora que todos gostassem?? Não viajando para Marte, criar algum tipo de biodome, mas aqui, na Terra.
Para começar, vamos ficar perto da natureza, adicione edifícios energeticamente eficientes feitos de materiais renováveis​​, como madeira e borracha natural. Não se esqueça dos painéis solares.
E já que falamos disto, vamos reduzir o congestionamento no trânsito.
Adicionar um programa de reciclagem e compostagem.
Uma densa população é parte importante da inovação. Todas essas pessoas diferentes se encontrando e trocando ideias brilhantes entre si. Então vamos colocar todos os tipos de pessoas juntas, criar bairros com uma variedade de opções de alojamento a preços acessíveis.
Certifique-se que essas pessoas possam ganhar um salário digno e dar acesso à educação aos seus filhos.
Faça com que o transporte seja acessível, ou seja, com vias para bicicletas e programas de compartilhamento de bicicletas, porque manter as pessoas saudáveis ​​é uma prioridade. Então, vamos fornecer aplicativos e ferramentas gratuitas para manter as pessoas ativas e trabalhar com os agricultores locais para fornecer alimentos frescos para todos.
Quando a infraestrutura envelhecer, vamos dar outra utilidade para elas. Essa biblioteca torna-se um centro comunitário.
Para manter uma cidade sustentável, é importante eleger pessoas que olhem para o verde. Não, não é desse tipo ($$). Este tipo (natureza).
Contudo, o mais importante para mudar e manter uma cidade inovadora, em suma, é você.


Você pode ver o vídeo em tamanho maior na página da CNN.

[.]

Anúncios

Bicicletas em defesa do meio ambiente!

meio_ambiente

Imagem retirada da galeria de fotos que ilustra reportagem da DeutscheWelle.

Aconteceu ontem a Cúpula do Clima das Nações Unidas, em Nova York. O maior evento deste tipo desde 2009.
Dois dias antes, no final de semana que passou, manifestações e marchas mundo afora levaram centenas de milhares de pessoas a se manifestarem com o objetivo de pressionar políticos para a conclusão de um acordo efetivo na proteção do meio ambiente.

As mudanças climáticas tornaram-se o maior desafio da história recente da humanidade.

Mas, para que as mudanças aconteçam de fato, é preciso VIVER o discurso. Não basta sair com cartazes, mandar memes no Facebook, ou deixar comentários irados ou apaixonados na internet.

Não por mero acaso, a Cúpula ocorreu no Dia Mundial sem Carros. O inimigo número 1 do clima são os combustíveis fósseis – ou, em português claro, carvão e petróleo, ou mais claro ainda: a gasolina que seu carro queimou hoje.

Barak Obama, David Cameron, Francois Hollande e vários outros presidentes de países estiveram no evento de um dia (inclusive Dilma Roussef, que mostrou o Brasil como “exemplo” mas não disse que nos dois últimos anos de seu governo o desmatamento da Amazônia aumentou 29%…). Todos enfrentam dificuldades políticas para colocar em prática os planos ambiciosos e necessários para reverter a catástrofe.
Por que, no fundo, a cadeia decisória vai descendo, o presidente faz planos, mas precisa ceder aos caprichos do deputado que diz que “defende os interesses de seus eleitores”. De fato, o poder está em nossas mãos.

Os governos não vão mudar nada, se você não mudar primeiro.

[.]

Do zoológico à selva urbana

Em uma decisão de fim-de-ano, em algum ano passado, coloquei como meta escrever um texto por semana no blog. Nem sempre consigo, pois para escrever sobre alguma coisa, eu gosto de ler antes. E vou lendo, lendo, quando vi o tempo passou e não escrevi.

Nestes dias que correram, pensei em escrever sobre que comecei a ler e estou gostando muito: o Livro do Cemitério, de Neil Gailman (uma boa resenha aqui).

Mas também vi uma galeria de fotos da DeutscheWelle: Um passeio de bicicleta pelo Ahr:

ahr

Até pensei em comentar sobre os moradores de São Paulo que foram registrar queixa na delegacia contra a ciclovia que está sendo construida, mas deixei pra lá. Além de ser um assunto batido e de menos importância – motoristas irritados com a perda de espaço para bicicletas –  outras pessoas já falaram sobre o fato, como a Raquel Rolnik.
E foi mais ou menos o que aconteceu aqui em Brasília: de uma hora para hora o governo começou a implantar ciclovias, sem aviso, sem consultar a população, sem diálogo – parece ser a prática do partido.

Quando comecei a traduzir uma notícia da Sustrans, anunciando que, na Inglaterra, cada vez menos pessoas andam de carro, e mesmo assim o governo britânico insiste em políticas de ampliação das vias para carros, a BBC lançou seu desafio semanal para os leitores enviarem uma foto sobre determinado assunto. O tema da vez era ciclismo, e pensei: vou anunciar no blog. Mas a BBC é muito rápida, um ou dois dias depois de fazer o convite eles já colocam as fotos.
Primeiro foram mostradas as fotos tiradas pelos leitores ingleses:

bbc_grafitti
Alex Inman viu e clicou este grafite em uma rua de Georgetown, na Malásia. As duas crianças pintadas parecem estar pedalando sobre a bicicleta, real, encostada no muro.

Em seguida, as fotos tiradas pelos brasileiros. Veja todas aqui.

Quando estava escolhendo qual das minhas fotos iria mandar (acabei não mandando…) vi na mesma BBC esta notícia que é a cara do blog.

A Dinamarca projeta um zoo com animais soltos e público ‘invisível’. No projeto Zootopia, do renomado arquiteto Bjarke Ingels, os visitantes são escondidos em cápsulas espelhadas e as jaulas são eliminadas.

“A maior e mais importantes missão de um arquiteto é projetar ecossistemas feitos pelo homem, garantir que as nossas cidades e edifícios sejam adaptados ao nosso estilo de vida”, afirmou o fundador do Bjarke Ingels Group (BIG).

“Temos que garantir que as nossas cidades ofereçam uma estrutura generosa para pessoas de origens, sexos, níveis econômicos e de educação e idades diferentes. Para que todos possam viver juntos em harmonia ao mesmo tempo em que levamos em conta as necessidades individuais e o bem comum.”

Quando vi esta foto que ilustrava o texto da BBC, pensei: Ué, o menino está andando de… bicicleta?? Sim, uma bicicleta com certeza.

Ainda meio na dúvida, fui conferir o saite oficial do arquiteto http://www.big.dk/#projects

O que a BBC não disse nem mostrou é que a Zootopia carrega dentro de si a bicicleta, como pode ser vista nesta imagem:

zootopia

– e ao desperceber a bicicleta, nisto a BBC foi seguida por todos que replicaram sua notícia (G1, Uol, Bol, Etc), iguais aos motoristas nas ruas que dizem “ah, eu não vi o ciclista…”

Atenção!
As bicicletas são peças centrais na concepção, como se pode ver nas imagens originais:

O arquiteto usa bicicletas e fala em “viver juntos em harmonia ao mesmo tempo em que levamos em contas as necessidades individuais e o bem comum”. Não é por acaso que ele escolheu a bicicleta!! Para quem anda de bicicleta (e a Dinamarca é exemplo e paradigma disto) é natural este modo de ver o mundo.

Não foi mera coincidência ou escolha por acaso.
No memorial do projeto se lê: “We are pleased to embark on an exciting journey of discovery with the Givskud staff and population of animals (…) but indeed also to discover ideas ans oportunities that we will be able to transfer back into the urban jungle”.

“Estamos satisfeitos em embarcar numa excitante aventura de descobertas com o pessoal e os animais de Givskud [o zoológico], mas também com a possibilidade de descobrir novas ideias e oportunidades que poderemos transferir para a selva urbana.”

Quem reclama de ciclovias e bicicletas ou fica exigindo mais e mais estacionamentos para carros e ampliação de vias, e ainda aqueles que mandam cortar árvores porque elas representam “perigo para os automóveis” (!), esses ainda não captaram a essência do nosso tempo e do futuro. Vamos viver cada vez mais em harmonia com a Natureza, não por ideologia, mas por necessidade. E para as cidades, que hoje são gaiolas de proteção contra a Natureza “selvagem”, nas cidades precisaremos deixar a Natureza entrar.

Isso será um futuro distante. Antes, vamos recuperar o espaço urbano em si e fazer as ruas voltarem a ser um lugar de passagem sim, mas também de lazer, de contemplação, de simbiose com a cidade e suas construções e monumentos. Hoje, lotadas de automóveis, as ruas são cercas e fossos.

IMG_7695

As cidades estão fragmentadas em dezenas de quarteirões e quadras. As pessoas estão acuadas, com medo e neuróticas, indo e vindo repetidamente como se buscassem uma saída – igual aquela avestruz ou o lobo-guará no zoológico.

As bicicletas são peças centrais nas cidades do futuro. Invisíveis, espelhadas, com a intervenção necessária, mas mínima possível, pedalando-as poderemos apreciar as cidades no que elas nos oferecem de melhor: segurança e espaço de convivência.

Na cidade do futuro, ir para a escola, para o trabalho, para fazer compras ou um festa pode ser e será tão prazeroso e agradável como a ciclovia do Ahr, um caminho bucólico entre vinhedos e castelos germânicos.

tudo se vende

Sugestão de leitura, que recebi de Fabrício Meira de Figueiredo e fiquei com os olhos coçando para ler:

“Está certo furar fila? E pagar para furar fila? Mas se você estivesse comprando uma passagem aérea, pagaria um adicional para passar à frente dos demais na fila e assim economizar tempo? É provável, se tivesse recursos disponíveis. Mas, e se não tivesse, se você fosse a pessoa da fila que fica para trás a cada um que paga aquele adicional, concordaria com isso? Ainda acharia isso certo? Esse é um dos exemplos que Michael J. Sandel usa para discutir, entre outras coisas, ética em uma sociedade de mercado, onde tudo ou quase tudo está à venda. Há exemplos mais intrigantes: direito de abater um rinoceronte ameaçado de extinção (US$150 mil), barriga de aluguel indiana (US$6.250), fazer fila no Congresso americano para um lobista que pretende comparecer no dia seguinte (US$15 a US$20 por hora). O que todos esses exemplos têm em comum? O desconforto que eles geram em nós quando pensamos nisso, porque não é um assunto fácil. Pensar sobre isso é pensar sobre ética. Mas o autor consegue deixar o tema divertido e instigante em ‘O que o dinheiro não compra, os limites morais do mercado’”.


O Que o Dinheiro Não Compra. Os Limites Morais do Mercado
Michael J. Sandel. Civilização Brasileira, 2012. 240 páginas
ISBN: 978-85-2001-148-5

Está esgotado, mas pode ser encontrado em livrarias alternativas e sebos.

Leia um artigo sobre o livro: Por US$ 150 mil, você pode matar um rinoceronte-negro

A propósito do assunto, vi na BBC, semana passada, que moças no Japão estão alugando as coxas para anúncios de propaganda.

??????????

Quando li pela primeira esta placa, de uma loja de usados em Montes Claros, achei um absurdo esta detuparção da máxima de Lavoisier!

Claro que foi um jogo de palavras – inteligente até – com a lei de conservação da matéria. Para uma loja de usados, seria a “lei de conservação dos objetos”, e lembrei agora de Hannah Arendt, que fala sobre isto no seu excepcional livro A condição humana, dos objetos como fruto do trabalho humano, da atividade de transformar coisas naturais em coisas artificiais. Neste sentido, a loja faz sua parte no mantra recicle, reduza, reuse, não é?

Mas… quando a gente lê “tudo se vende” choca um pouco!
é tudo, tudo mesmo?

[.]

Bicicleta, para seguir adiante

Read this in English

Quando o tsunami varreu a costa nordeste do Japão, em 2011, imagens da tragédia varreram o mundo.
Notei tantas bicicletas mostradas nas fotos e fiz um post sobre o assunto, a força e a resiliência de pessoas e suas bicicletas.

Agora, quando chuva e enxurrada destroem casas e vidas em Xerém e outros locais do Rio de Janeiro, fotos congelam uma tragédia diferente, mas a mesma destruição.

Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Foto: Rafael Moraes/ Agência O Globo

Lá no Japão ou aqui: bicicletas.

Foto: Fabiano Rocha

Foto: Vitor Silva / Jornal do Brasil

Às vezes único veículo disponível, ou que necessita de apenas o mínimo para funcionar. Sem motor, sem gasolina, sem largas vias pavimentadas.

Foto: Antonio Lacerda/EFE

Foto: Daniel Marenco/Folhapress

Foto: Nelson Antoine/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Onde passa uma pessoa, a bicicleta passa.

Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Outras vezes, abandonada. Arrastada pelas forças.

Foto: Daniel Ramalho / Terra

Que sentimos perpassam as pessoas que perderam tudo, mas conservam a vida?

Foto: Mauro Pimentel / Terra

Foto: Antonio Lacerda/EFE

Neste momentos de tormenta, o ser humano se sente impotente quando se depara com a força dos kami, espíritos da Natureza, com a fúria de Susano’o-no-mikoto. O mar que invade.

Foto: Vitor Silva / Jornal do Brasil

Ou com as consequências de suas próprias contigências e escolhas.

Foto: Luiz Roberto Lima/Futura Press/Estadão Conteúdo

Foto: Marino Azevedo/Governo do RJ / Divulgação

O homem que invade.

Foto: Vladimir Platonov/Agência Brasil

A vingança do curupira.

Foto: Daniel Ramalho / Terra

Nós próprios estamos indo contra a Natureza – e por isto, contra nós mesmos.
Entre decidir o que é pior, o grilhão que os deuses colocam em nós ou este que nós próprios nos prendemos?

A bicicleta é uma extensão do corpo e segue sempre junto, quaisquer que sejam nossas escolhas.

Foto: Daniel Ramalho / Terra

Nos momentos de alegria ou devastação. Júbilo ou desgraça.

Foto: Daniel Marenco/Folhapress

É muito mais que um veículo. É ferramenta. Do dicionário: dispositivo que fornece uma vantagem mecânica ou mental para facilitar a realização de tarefas diversas.

Foto: Fabio Teixeira/Folhapress

Mais do que levar de um lugar a outro, ajuda a construir e reconstruir o mundo. E vidas.

As imagens foram tiradas das seguintes galerias de fotos:

Terra
Uol
Veja
Jornal do Brasil
G1

Clique em cada uma das fotos para abrir a respectiva galeria.


-=-

When the tsunami swept the northeastern coast of Japan, in 2011, images of the tragedy swept the world.
I noticed so many bicycles in photos so I wrote a post about it, the strength and resilience of people and their bikes.
Now, when rain and flood destroys homes and lives in Xerém and other places in Rio de Janeiro, some images capture a different tragedy, but the same destruction.
Over there in Japan or here: bicycles.
In such tragedies, bicycle is the only vehicle available because it requires only minimal to operate. No motor, no gas, no wide paved roads.
Where a person could walk, the bicycle goes also.
But in a run of despair bicycles could be abandoned. Dragged by forces.
What kind of feeling pervades people who have lost everything, but retain life?
In times of storm, humans feel helpless faced with the power of the kami, nature spirits, with the fury of Susano’o-no-mikoto. The sea invades.
Or the consequences of their own choices and contingencies.
The man who invades.
Revenge of the Curupira, a Brazilian spirit of the forests.
We ourselves are going against Nature – and therefore, against ourselves.
Which is worse, fetters that gods put in us or which we attached to ourselves?
The bicycle is an extension of the body and goes always together with us, whatever our choices.
In moments of joy or devastation.
It is much more than a vehicle. It’s a tool (from dictionary: a device that provides a mechanical or mental advantage to facilitate the completion of various tasks).
Rather than take from one place to another, bicycles helps build world and rebuild lifes.

A capital do país

Qual é a cidade que tem avenidas largas, onde motoristas andam a 80km/h em carrões?

Haverá um estádio modernissimamente mirabolante para a Copa.

Esta mesma cidade construiu várias ciclovias para raríssimos ciclistas.

Ainda não sabe?

É Doha, capital do Catar, país que está sediando a Conferência do Clima, mas é o maior poluidor per capita do mundo.

A DeutscheWelle fez uma galeria de fotos mostrando esta gritante disparidade entre intenção e gesto, de onde tirei três fotos e suas legendas:

(Tirando a avenida beira-mar) qualquer semelhança não é coincidência!

😀

[.]

FLIZ não é bicicleta!

Esta semana estourou na internet o fenômeno FLIZ, que muitos estão chamando de bicicleta.

UberGizmo  chegou a chamá-la, educadamente, de um “exemplo de redundância”. Já o Treehugger  viu pontos favoráveis, como ser um protótipo que realmente funciona e, mesmo que não tenha as vantagens da bicicleta, não deixa de ser uma ideia interessante.

Chamar de bicicleta é um equívoco duplo.
Primeiro: porque não é bicicleta.

Dar nomes às coisas é importante, é uma das funções da linguagem. Não se pode chamar de bicicleta o que não é bicicleta. Nem tudo que colocamos na cabeça é chapéu. As atuais “bicicletas” elétricas, por exemplo, não são bicicletas, mas motocicletas elétricas (motor + cicleta), pedelecs ou qualquer outra coisa. As pessoas tem sido criativas ao criar coisas, mas ao nomeá-las… quanta falta de criatividade!

Claro que 80% disto é problema da mídia, que não é feita nem para pensar nem para fazer pensar, e na pressa coloca tudo no mesmo balaio. Sabe como é a mídia e a sociedade do espetáculo: o que importa é mostrar primeiro e chamar a atenção – e hoje em dia, com as geleiras do Ártico todas derretidas pelo efeito estufa e as cidades retidas pelos automóveis, bicicleta virou sinônimo messiânico. Colocar bicicleta numa manchete é sinal certo de audiência 🙂

Segundo, e mais importante: porque os próprios construtores do protótipo claramente colocaram a FLIZ um conceito intermediário entre “correr e andar de bicicleta”.

O projeto é alemão e concorre ao prêmio James Dayson Award. No memorial descritivo, os autores apenas disseram que se inspiraram num antepassado da bicicleta, o modelo do barão von Drais.

Dizem ainda que a FLIZ é uma adaptação do modo mais natural de transporte – a marcha a pé. O nome FLIZ vem do verbo alemão flitzen = andar ou mover-se rápido. A confusão deve ter aumentado porque usaram peças de bicicleta para construir o protótipo:

mais fotos aqui

O sistema de correias ajustáveis dá liberdade e sustentação ao corpo, proporcionando alívio nas articulações. “Graças a estas propriedades pode-se imaginar qualquer uso na área de reabilitação física e exercícios”. E relatam que uma das perguntas que orientou o projeto foi: “Como poderemos dar mobilidade a certas pessoas que, por alguma razão, não podem andar de bicicleta?”

Em nenhum momento disseram que é uma “bicicleta sem selim e pedal”, pelo contrário, dizem explicitamente que não é.

[.]

Ciclovias do GDF ferem o tombamento de Brasília


A mobilidade sustentável por bicicleta não aceita a destruição de áreas verdes
em seu nome.


Além disto, a destruição das áreas verdes, com as ciclovias que o GDF quer enfiar goela abaixo, fere o tombamento de Brasília!

Diz Lúcio Costa:

As instalações teriam sempre campo livre nas faixas verdes contíguas às pistas de rolamento. As quadras seriam apenas niveladas e paisagisticamente definidas, com as respectivas cintas plantadas de grama e desde logo arborizadas, mas sem calçamento de qualquer espécie nem meios-fios. De uma parte, técnica rodoviária: de outra, técnica paisagística de parques e jardins.

Memorial do Plano Piloto de Brasília

O destaque em negrito na citação é meu.

Cadê o parecer favorável do IPHAN, autorizando a destruição das áreas verdes?? Deve estar na gaveta também??

O Plano Piloto precisa, sim e urgente, de caminhos para bicicletas. Mas pode-se usar ou a estrutura já existente, ou tomar o espaço dos carros. Ciclovias são a última opção, pois são obras caras e devem obedecer fatores objetivos para sua construção.

Em muitos lugares do Plano Piloto elas são desnecessárias por enquanto. É preciso ter um planejamento a longo prazo, que, além de obras, faça campanhas para incentivar o uso de bicicletas e desestimular o uso de automóveis (pedágios, estacionamentos rotativos pagos, etc). Com isto, se o número de biciclistas aumentar significativamente, então pode-se pensar em ciclovias, onde elas forem necessárias.

Não se pode destruir o verde e ferir o tombamento para deixar espaços intocados para automóveis .


..

(Aliás, por falar nisto, o GDF está destruindo área verde junto à estação da CEB na 911 sul para – mais uma vez – alargar pistas para carros. Também foram destruídas área verde e calçada em frente ao Hospital Naval, para criar mais vagas de estacionamento. Quando esta sanha destrutiva vai acabar??).

[.]

Árvores em bicicletas

Em geral somos surpeendentemente conservadores quando pensamos no material de que as coisas são feitas. Um armário feito de peças de bicicleta? Seria estranho…

E uma bicicleta feita de um armário? Mais estranho ainda?

Pois é isto que faz a dupla Bill Holloway e Mauro Hernandez, de San Jose, Califórnia (EUA). Donos da empresa Masterworks Wood and Design, eles já esculpiram 10 bicicletas de madeira, todas cruisers ou praieiras.

O verbo é este mesmo: esculpiram. As bicicletas são verdadeiras obras de arte

como bem diz o slogan que eles adotaram para o negócio: Art you can ride (Arte que você pedala).

Eles passam horas em busca dos mais belos móveis usados para reaproveitar a madeira. Uma belíssima aplicação do segundo princípio dos “3Rs”, reduza, reuse, recicle. Também aproveitam árvores urbanas condenadas, uma forma de salvá-las, de lhes dar nova vida e reescrever sua história.

As bicicletas custam entre US$ 5.500 e 7.500 (R$9.900 e 13.500). Mesmo assim, como gastam muitas horas entalhando as peças, o lucro é quase nenhum por enquanto.

Holloway já trabalhava com arte em madeira, abriu uma marcenaria para atender casas de alto luxo. Sabendo pouco de escultura, Hernandez, que tem excelente habilidade como desenhista, coloca no papel as ideias do parceiro de negócio.

A ideia de construir bicicletas de madeira foi de um amigo, que conhecia a paisão de Holloway por bicicletas e arte em madeira. Primeiro eles fazem um protótipo de madeira compensada, depois entalham a bicicleta. Em cada um destes trabalhos gastam cerca de 85 horas.

Veja, neste vídeo, parte do processo de produção:

.

O quadro é feito de mogno, que garante força e flexibilidade. O acabamento é feito com óleo de pau-rosa brasileiro – o mesmo óleo que é a base do perfume Chanel nº 5 e outros.

Atenção: estima-se que, no Brasil, mais de 2 milhões de árvores pau-rosa tenham sido derrubados, sem o correspondente replantio, o que levou a árvore a ser incluída na lista de espécies ameaçadas 😦

Visite woodbicycle.com, ou clique em qualquer das iamgens acima, e veja a coleção de bicicletas, em dezenas de fotos em alta resolução. Para ver, admirar, babar, e ficar com vontade de pedalar uma obra de arte destas!

–::–

– com informações do jornal Santa Cruz Sentinel, por indicação da Flavia Nepomuceno, e do TreeHugger –

[.]

Tecnologias antiquadas

Não tenho luzes na minha bicicleta urbana.

Comprei um farol quando fiz minha primeira cicloviagem. Mais por precaução do que por ter programado pedalar à noite. Usamos apenas uma vez, no primeiro dia, quando meu irmão derrapou nas pedras e feriu, de leve, a perna. O farol serviu como lanterna.

Na segunda viagem, na Rota  da Maria Fumaça, precisei usar o farol pra valer. Foi uma decepção! A coisa iluminava poucos centímentros à frente do pneu da bicicleta. A noite completamente sem lua, num trecho repleto de caminhos e veredas, apenas o GPS nos salvou – e o latido dos cães nos indicando a proximidade das fazendas. Hoje o farol está guardado na gaveta. Inútil, quando precisei dele – além de usar 4 pilhas. Quatro!!

A primeira luz traseira, destas que piscam vermelho, caiu no chão quando desci o meio-fio e se espatifou toda – estes produtos sem qualidade made in…! A segunda luz gastou a pilha em poucos dias. Comprei pilhas palito recarregáveis. Era um tal de usar e recarregar que foi me dando preguiça, preguiça, até que me encheu o saco. Também está na… nem sei onde está aquela luz pisca-posca!

Mas ao ver este conjunto Blackburn no blog bikecommuters,  até que deu vontade de instalar na minha bicicleta. Sim, sobretudo pelo método como as luzes podem ser recarregadas: numa porta USB ou por um mini painel solar solar!!
Este é o farol:

e esta a luz pisca-pisca:

 (no saite só tem esta foto pequena mostrando a conexão na USB).

É obviamente um contrasenso ecológico ter que usar pilhas e mais pilhas para alimentar estas luzinhas. Sinceramente? Pegaram o caminho mais fácil e que retroalimenta a sociedade de consumo. Ter que comprar pilhas sempre!! se, ao pedalar, eu gero energia suficiente para várias luzinhas.

Além do tradicional dínamo, o que melhor seria do que paineis solares, que podem carregar baterias enquanto pedalo no sol ardente?

Ainda vai chegar o futuro, quando toda a bicicleta será coberta de finas placas voltaicas solares. Toda a roda será um dínamo, a energia será gerada pelo giro do aro junto a magnetos nos garfos. Pequenos cataventos ultraeficientes para gerar energia pelo vento que passa no guidão, na bicicleta toda, nos cabelos!

Mini usinas por momento angular, energia gerada por rotação, melhor conservação do trabalho dos pedais e pernas, a bicicleta tem mil e um caminhos para gerar a energia que ela própria precisa. Não, não falo das “bicicletas” elétricas, com suas baterias pesadas e caras – e fajutas, se forem de origem bric! Falo de energia elétrica para luzes traseiras e dianteiras na bicicleta, sineta, computadores de bordo, e aparelhos diversos, como celulares, GPS, câmeras fotográficas e diversos sensores. No futuro, haverá uma rede wifi, os carros serão finalmente reconhecidos como muito perigosos e terão diversos mecanismos para evitar acidentes hoje evitáveis se motoristas não fossem tão lesos. Sensores na bicicleta vão avisar os carros da proximidade de um bicicletista e a velocidade do automóvel será automaticamente diminuida, queira o motorista ou não. Melhor! caso o motorista insista, o alarme irritante do carro dispara dentro da cabine – bi bi bi bi bi bi bi – para acordar o motorista do torpor e do tédio que é dirigir. Em vez de o motorista buzinar, ele será buzinado!

Motoristas atropelam e matam porque outros valores são colocados acima da vida. Por trás de toda tecnologia, há uma moral e uma ética. Acredita-se que pessoas sejam capazes de governar máquinas muito mais fortes e rápidas do que elas. Mas não são. Muitas vezes os carros são usados como meio para expressar o que há de mais vil na natureza humana. A própria tecnologia deve dominar a tecnologia.  Mais do que supostas habilidades, valeriam as 3 leis da robótica.

Porém ainda estamos na época de tecnologias obsoletas como pilhas e motoristas. 😦

[.]