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O tarado, a mulher e a bicicleta

De volta das férias de janeiro, estava à busca de algo para recomeçar o blog com energias renovadas quando minha cunhada compartilhou, no facebook, esta tirinha do Blog Kisuki:


Num primeiro momento, na fluidez etérea do facebook, confesso que pensei: não é motivo para não andar de bicicleta. Obviamente sem intenção de desprezar ou minimizar o trauma, mas porque não vi mesmo, de imediato, uma relação causa-consequência.

Porém, sabia que um sentimento muito profundo foi colocado na tirinha, pois a intenção foi um fazer artístico. E a arte nunca se revela à primeira vista. Fiquei dias e dias com isto pensando e pesando na minha cabeça.

A catarse é uma das funções da arte, ao provocar uma descarga de emoções que limpa e purifica a pessoa, ao reviver a realidade mimetizada (imitada, não-real). Esta foi minha segunda leitura da tirinha: os quadrinhos narram o drama – a tragédia –  como forma de purgar a violência, o medo, o trauma.

Entretanto há muito mais, e muito mais denso e mais alto. Um símbolo carrega várias camadas de significado. Uma palavra tem história e faz história, e muitas vezes nós usamos palavras, ou símbolos, sem explicitar conscientemente toda sua bagagem de significado. Uma artista pode ir além e, sabendo ou sentindo significados ocultos, lapidá-los ao produzir arte.

A bicicleta teve uma importância decisiva no movimento de liberação feminina.

Um (longo!) artigo publicado pela revista Cranked Magazine mostra a importância da bicicleta na liberação feminina que começou no final da Era Vitoriana (década de 1890).

A revolução industrial trouxe uma série de mudanças sociais, entre as quais uma elite que gastava seu tempo livre se divertindo com esportes.
A bicicleta, inventada em 1817, e suas evoluções posteriores, tinha um design que impediu, por décadas, as mulheres andarem de bicicleta – elas só podiam usar saia bufante e espartilho. Imagina fazer isto numa penny-farthing…

Bicicleta extremamente instável e perigosa para os homens. E as mulheres ainda tinham que andar na bicicleta sentadas de lado – como andavam nos cavalos (saiba o porquê deste “hábito” mais à frente). Imagina como deveria ser “fácil”!!

Muitos construtores, por razões do mercado crescente, tentaram desenvolver modelos que fossem adequados às mulheres, mas sem grande sucesso. No final da década de 1870, surgiu o modelo “safety bicycle”, com praticamente o mesmo desenho que temos hoje.

Penny Farthing (esquerda) e Safety bicycle

A invenção dos pneus de borracha foi, na mesma época, outro avanço significativo. Juntos, deram origem a uma bicicleta menor, mais segura, mais fácil de dirigir e mais confortável. E a popularidade da bicicleta como veículo explodiu por volta de 1890 (antes da invenção do automóvel, é sempre bom lembrar).

Para as mulheres, a luta inicial foi pelo direito de simplesmente andar de bicicleta. Naquela época, esporte e máquinas eram coisas exclusivas de homens. Vários críticos diziam que andar de bicicleta prejudicava a saúde física e mental da mulher. O “corpo frágil” da mulher era uma justificativa sempre usada. Mas o maior argumento contra o uso da bicicleta por mulheres era que isto seria “uma agressão ao tecido moral da sociedade”. A suposição de que andar de bicicleta poderia ser sexualmente estimulante para as mulheres foi uma preocupação muito popular. Diversos selins “higiênicos” foram desenhados com a intenção de prevenir, evitando que a genitália feminina entrasse em contato com o banco da bicicleta. Como se vê, de fato não estavam preocupados com o “corpo frágil” feminino, mas com sua moral.

Esta cena do filme Mädchen, Mädchen toca no ponto:

Com o uso da bicicleta, as mulheres também puderam se livrar das amarras de sua casa ou trabalho e passaram a experimentar um novo tipo de liberdade. Porém, a simples liberdade de mobilidade da mulher foi considerada inaceitável, quase imoral. A mulher ciclista, podendo ir e vir na cidade e arredores, sem depender dos maridos, e sem as damas-de-companhia, foi tratada como uma ameaça à sociedade e traria o colapso da moral e das boas maneiras!!

À medida que foi sendo aos poucos aceita, primeiramente em ginásios fechados, depois em clubes, a mulher de bicicleta trouxe consigo uma revolução gigantesca.

The bicycle…has been responsible for more movement in manners and morals than anything since Charles the Second. Under its influence, wholly or in part, have wilted chaperones, long and narrow skirts, tight corsets, hair that would come down, black stockings, thick ankles, large hats, prudery and fear of the dark; under its influence, wholly or in part, have blossomed weekends, strong nerves, strong legs, strong language, knickers, knowledge of make and shape, knowledge of woods and pastures, equality of sex, good digestion and professional occupation—in four words, the emancipation of women.

John Gallsworthy (Debate, 6)

“A bicicleta … tem sido responsável por mais mudanças nos costumes e na moral do que qualquer coisa, desde Carlos II. Sob sua influência, no todo ou em parte, desapareceram as damas-de-honra, as saias longas e estreitas, os espartilhos apertados, o cabelo comprido, as meias pretas, os tornozelos grossos, os grandes chapéus, o pudor e o medo do escuro; sob sua influência, no todo ou em parte, floresceram os fins de semana, os nervos fortes, as pernas fortes, a linguagem forte, calcinhas, o conhecimento do bem estar, o conhecimento da floresta e pastagens, a igualdade entre os sexos, uma boa digestão e a ocupação profissional, em quatro palavras, a emancipação das mulheres”. (John Gallsworthy)

Não são os homens que dizem! Elizabeth Cady Stanton, uma das principais líderes do movimento sufragista, anteviu o poder da bicicleta em transformar a vida das mulheres. Por volta de 1895, embora tivesse 80 anos, ela disse para um artigo da American Wheelman,  “the bicycle will inspire women with more courage, self-respect, self-reliance…”

Uma amiga de Stanton, companheira das lutas sufragistas, também jovem de espírito aos 76 anos, disse:

Let me tell you what I think of bicycling. I think it has done more to emancipate women than anything else in the world. It gives women a feeling of freedom and self-reliance. I stand and rejoice every time I see a woman ride by on a wheel…the picture of free, untrammeled womanhood.

Susan B Anthony.

“Deixe-me dizer o que eu penso de bicicleta. Eu acho que tem feito mais para emancipar as mulheres do que qualquer outra coisa no mundo. Dá à mulher uma sensação de liberdade e auto-suficiência. Eu paro e me alegro toda vez que vejo uma mulher andando de bicicleta… o retrato da liberdade de ser mulher livre de normas e controles” (Susan B. Anthony)

Tessie Reynolds, uma garota de 16 anos, que em 1893 pedalou de Londres a Brighton, ida e volta, em 8 horas, está entre estas heroínas do passado, que desconstroem a história fazendo coisas.

No Brasil, Veridiana da Silva Prado, aristocrata e intelectual, mandou construir um velódromo dentro de sua Chácara Vila Maria, em São Paulo, onde patrocinava corridas de bicicletas, importando a moda vigente na Europa, naquele final do século XIX.

Época em que a bicicleta simbolizou a essência da “Nova Mulher”, jovem, educada, praticante de esportes, interessada na carreira profissional, independente.

Com elas, aprendemos que a solução não virá para a mulher, mas somente pelas mulheres. Quando sua identidade não mais depender do homem: ser uma esposa (por um contrato societário de divisão de bens) ou uma virgem (a ser escolhida como esposa). Continua valendo até hoje.


Para saber mais, lê Pedaling the Path to Freedom: American Women on Bicycles e Wikipedia.

A Nova Mulher, em sua bicicleta, transformou-se num emblema de emancipação tão grande que, em 1897, quando estudantes homens de Cambridge protestaram contra a admissão de mulheres, enforcaram uma efígie de mulher pedalando uma bicicleta, evento que ficou registrado no tempo por esta foto:

hanging_woman

Toda esta curva histórica faz voltar à tirinha:

A bicicleta como símbolo da liberdade feminina – ao mesmo tempo metáfora e metonímia – e ferramenta para alcançá-la, liberação duramente conseguida ao longo dos últimos 150 anos.
A bicicleta abandonada pela Thaïs é a liberdade feminina ultrajada, reprimida e violentada pelo machismo.

Mas… o que é o machismo?
É a crença que os homens são superiores às mulheres.
É a extrema valorização de características culturais vinculadas ao masculino e, ao mesmo tempo, um extremo menosprezo das características vinculadas ao feminino.

Como toda crença ou fé, deriva de suposições mentais autossugestionadas, que, por sua vez, são reforçadas socialmente. O machismo e outros ismos alimentam-se de si mesmo, por isto são tão fortes e agressivos e difíceis de combater.

Na América Latina o machismo tem sua contraparte no marianismo, uma visão religiosa dos gêneros, na qual a mulher é pura, dotada de uma força moral superior, que lhe permite uma capacidade infinita de humildade e sacrifício. Ou seja, grosso modo, a mulher “deve suportar tudo que vem dos homens”.

As três principais religiões abraâmicas, além de monoteístas, são patriarcais e machistas. Por outro lado, a maioria das religiões pagãs são matriarcais, as deusas são criadoras do Universo, geram a vida, a cultura – numa alusão óbvia à gestação feminina – e simbolicamente eram muitas vezes representadas por Árvores ou serpentes.

Lilith – pintura de John Collier (1850-1934)

Se você lembrou o Gênesis, acertou! A primeira narrativa bíblica é uma alegoria de um fato histórico e descreve o processo pelo qual sociedades matriarcais tradicionais foram substituídas por sociedades patriarcais. Quando o deus-pai tomou o lugar da deusa-mãe (Árvore da Vida / Serpente).

OK. Sabemos o que é o machismo e em que bases sociais ele se sustenta. Mas fica a pergunta: por que o machismo? Por que o homem precisa se sentir superior à mulher?

Dizer que a mulher dá a vida é uma figura de metonímia. Sem o homem, ela não poderia dar a vida – a menos que fossem partenogênicas, como salamandras, ou ginogênicas (o macho serve apenas para estimular a produção de óvulos, mas o embrião se desenvolve só com os genes maternos).

Mas, SIM, apenas a mulher tem o poder natural da gestação, de receber e nutrir a vida, com útero e seios.

Pachamama, deusa andina

Um homem para ser pai precisa de uma mulher. Mas a mulher pode ser mãe quando quiser. É ela quem faz a vida acontecer. Não por mero acaso ou coincidência, a personificação da Morte é também feminina em quase todas as culturas. Poder de vida e morte.

No processo de evolução é assim: na maioria das espécies, a fêmea escolhe o macho, processo conhecido como seleção sexual, mate choice ou female choice. Biologicamente falando, homens, somos apenas um reservatório de esperma. Isto é muito para a mentalidade do macho humano. Para contrapor esta servidão biológica, foi forjado um poder social, culturalmente reforçado, que foi construído a partir da maior força muscular e agressividade do homem.

Machismo é um misto de inveja do poder vital feminino e frustração dos homens por não serem desejados.

Então, ô tarado, da próxima vez que vir uma mulher andando de bicicleta, não importa como esteja vestida,

saiba que cantadas, buzinadinhas, assédios e outros gracejos indiscretos nada mais são do que manifestações da inferioridade do macho. Exatamente o oposto da sedução e da conquista.

Em vez disso, seja homem. Pare. Peça inspiração para as deusas e alegre-se: uma mulher de bicicleta é o retrato da liberdade feminina.

Nós só temos a ganhar com isto.

[.]

Que Árvore é esta?

No meio da praça do lugar mais importante da cidade, uma Grande Árvore sobe uns 10 ou 12 metros. As pessoas passam e param, admirando. As luzes enfileiradas apagam e acendem, uma atrás da outra, por isto parece que giram para cima e para baixo, como os dias giram em espiral. As pupilas, redondas e de todas as cores, verdes, azuis, dourados, pretos, brilhavam, e os olhos das pessoas também eram enfeites pendurados cintilantes.

Há muito tempo o xópin é a catedral da cidade. Nem sombra da imagem de deus, menino ou não. A Grande Árvore é o centro de tudo, e as muitas luzes não deixam sombras, mas, se sombra houvesse, no pé da Grande Árvore as pessoas depositariam seus sonhos, esperanças, pedidos de querência para o futuro. Por um minuto ou dois, esconder-se das queimaduras do sol-a-sol.

Impossível não lembrar Yggdrasil, a Grande Árvore, cujas raízes nenhum ser humano sabe onde vão dar, cuja escalada é um caminho de ascensão, cujo tronco e ramos conecta Nove Mundos.

A mãe diz “olha a rena, linda”, e a menina procura pelo Papai Noel e sua grande barba branca de druida.

A praça é limpa demais, não há pássaros nem vento nem vermes. Mesmo figurativa, quase clichê, a Grande Árvore mostra toda sua força. Ela, e todas suas representações em cada uma das casas, rememora o mais antigo que há em nós, a força vital instauradora e arquetípica que vem da Natureza, tão necessária e tão esquecida por séculos.

Impossível não lembrar o sagrado Carvalho de Thor, nos arredores da cidade de Hesse, Alemanha, derrubado a machado por “São” Bonifácio [uma demonstração típica, entre milhares, de quão tolerantes podem ser].

O que não sabiam, e não sabem, é que as raízes da Grande Árvore vivem, e nenhum ser humano sabe onde vão dar, ou quando vão brotar de novo.

De suas raízes nas profundezas, ela traz a vida para a superfície, nos tronco e galhos baixos, e sobe até a verticalidade dos altos galhos. Morte e regeneração, presente nas folhas que caem toda estação e nas sementes. A Árvore reúne em si os cinco elementos: a terra em suas raízes, a água que flui na seiva (sem coração bombando), o ar entrando nas folhas (sem a pressão de músculos) e o fogo que brota de dentro de seus galhos e troncos.

A árvore é.

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Por aqui, uma árvore se enfeita toda com bolinhas e estrelas, exatamente nesta época do final de dezembro.

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É a minha árvore de natal. Você sabe o nome dela? Deixe nos comentários. Ano que vem confiro quem acertou.

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Fim de um ciclo

Amanhã, 21 de dezembro de 2013, às 17h11, ocorre o Solstício de Verão.

No Hemisfério Sul, é o dia mais longo do ano, por isto o dia de mais luz. Atingindo o ponto máximo do movimento aparente no céu, a data tem sido celebrada deste quando o homem começou a olhar para as estrelas.

No Hemisfério Norte é simétrico, ocorre o Solstício de Inverno, a noite mais longa do ano. As religiões aproveitaram-se disto e criaram toda uma simbologia, e rituais, e celebrações, em cima do evento astronômico, e o solstício marca o dia em que “a humanidade se afasta da escuridão em direção a dias mais cheios de luz” [obviamente, até mesmo por conta das decorações dos xópins, você viu nisto uma ligação direta com o Natal, cujo nascimento de um menino supostamente traria mais luz para a humanidade].

Estamos abaixo do Equador e, usando dos mesmos mitologemas, vamos sair da grande luz em rumo à escuridão dos dias cada vez menores, até chegarmos à Noite Absoluta, em 21 de junho. Estaremos em plena Copa do Mundo e serão, sim, dias tenebrosos, assombrosos e irritantes. 😦

Ainda bem que o planeta Terra gira e gira e os dias passam e tudo passa.

Além de ser o Solstício de Verão, hoje a lua cheia está no apogeu, distância máxima da Terra. Depois ela se aproxima e depois se afasta, influenciando marés, menstruações e sonhos, pesadelos. Sempre em ciclos.

Nesta conjunção de energias cósmicas e cíclicas, deixo aqui registrado, na imagem abaixo, a “cara deste blog” desde sua criação até hoje. E acabou, chegamos no fim do ciclo, que é começo de outro. Amanhã, às 18h, teremos um visual novo.

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Até lá.

As Bucólicas de Virgílio no gramado do Congresso

Foram dias mágicos!
Dias de ir para a rua, de discutir, repensar, exigir.

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concordo!

Vão entrar para os registros da história.

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Mas não digo que foram dias históricos, pois todos os dias são dias históricos! A história se faz no dia a dia.
Nem digo que “o gigante acordou”. O hino não diz que ele estava dormindo, diz que estava “deitado eternamente”, não necessariamente dormindo. (pode estar com preguiça, Macunaíma!)

Releia a primeira frase deste post e a palavra destacada em itálico. Mágico ali não é elogio.
Em antropologia e psicologia, o pensamento mágico é um resquício do pensamento primitivo, presente no subconsciente de todos nós humanos. Faz ligações improváveis entre fatos distintos, cria uma causalidade mental – basta pensar ou crer e a mente exerce um efeito direto sobre a realidade. Na wikipedia achei um exemplo curioso que explica isto bem com uma bela imagem: o povo azande, na África, esfrega dentes de crocodilo nas bananeiras para fazê-las frutificarem, porque o dente do crocodilo é curvo tal como as bananas e porque ele cresce novamente após cair da boca do bicho.

O pensamento mágico é (obviamente!!) a base da religião, superstições e crenças populares. Geralmente recorremos a ele em situações que precisamos de uma saída ou fuga para emoções despertadas por uma realidade dolorosa ou frustrante. Precisamos de fantasia para enfrentar a realidade.

Quando os ipês explodem bolas rosas, pode parecer, mas não é mágica. A árvore passou o verão todo se alimentando de chuvas, perde todas as sua folhas e parece morta e, quando percebe que é hora, veste-se. É um fluxo constante de tensões e distensões, que prepara a beleza – e o futuro. Pois dali virão frutos, e sementes, e novas árvores.

As manifestações foram grandes momentos.

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Necessárias, explosivas, grandiosas, estive em pelo menos quatro delas aqui em Brasília e acompanhei, na internet, o que acontecia país afora. Até assisti o Jornal das 10, da Globonews, coisa que não fazia há anos!! (e deixei de atualizar este blog… 😦 )

Mas a verdadeira mudança acontece nos pequenos momentos. Nas chuvas e nas sementes.

No meio da multidão ficava imaginando quantos daqueles, que pediam um transporte melhor, uma cidade melhor, estariam ali num movimento contra os carros estacionados em fila dupla, sobre calçadas e gramados. Quantos, com cartazes “melhor educação”, estariam ali se fosse uma grande onda moral contra os alunos picaretas, pais picaretas – que “compram” atestados médicos para os filhos terem tratamento “diferenciado” na escola, entram na justiça para forçar a entrada de filhos nas faculdades antes de concluir o ensino médio. Quais ficariam com faixas “abaixo a corrupção” se fosse para pedir punição de todos que usam qualquer meio para burlar o Imposto de Renda?

A mudança não está fora, está dentro!

Os políticos foram eleitos, não desceram do céu em nuvens douradas ou nasceram em repolhos dentro do Congresso, assembleias e câmaras de vereadores. Olha o pensamento mágico aí! A terceirização da culpa, base do comportamento cristão: se há um mal, é o diabo; se um bem, foi deus que quis. Como assim? Então, nada na vida é resultado das decisões e atitudes pessoais de cada um, a cada minuto do dia??

[deixei de acreditar em deus quando me disseram que ele era onipresente, onisciente e onipotente, mas permitia o diabo agir, a maldade e o sofrimento; ou este deus é um sacana – e não merece qualquer respeito – ou simplesmente não existe; preferi optar pela segunda opção]
[deixei de acreditar em religiões quando soube que poderia ter uma vida indigna e iníqua, pois a salvação não depende de mim, ou melhor: nada do que eu faço importa, posso matar, roubar grande ou pequeno, se no leito de morte me arrepender dos pecados, estarei salvo; o paraíso não depende de mim, mas da benevolência de um deus]

O pensamento mágico está tão difundido (maior país católico do mundo…) que o próprio governo apresenta soluções mágicas. Reforma política para resolver o problema da saúde, educação e transporte público?!?!? Reforma política só interessa aos… políticos! Não é a forma de escolher os políticos que vai fazê-los menos corruptos, ou melhores administradores. A cidade precisa de bons administradores, que saibam fazer – sobretudo que tenham coragem de fazer. Antes de reforma política, precisamos de uma reforma no judiciário, cujo poder ineficiente a serviço dos poderosos é a base de toda nossa injustiça e impunidade. Antes da reforma do judiciário, precisamos de outros princípios éticos – pois a falta de impunidade, a cultura do jeitinho, e a malandragem é do interesse de muita gente sim, muita, e não apenas políticos. Ouso dizer que é o princípio ético da maioria dos brasileiros  – caso contrário, já teria mudado. Não somos um povo imoral, mas amoral, para quem questões morais são desconhecidas, estranhas, não são levadas em consideração.

O ponto de encontro geralmente foi a Biblioteca Nacional. Durante a aula livre do Prof. Safatle, tirei esta foto:

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e neste instante que escrevo, lembrei que a Biblioteca é um bom exemplo. Foi construída pelo Roriz em 2006, sem nenhum livro dentro. Só o prédio, a arquitetura (feia, por sinal). Só agora, 7 anos depois, é que foram colocados livros para empréstimo. Uma biblioteca sem livros? Tá resolvido o problema cultural do país! Se bibliotecas não precisam de livros, basta dizer que, a partir de hoje, todo viaduto é biblioteca. Como não precisa livros, e como a solução para o transporte das cidades é construir viadutos para os automóveis particulares, dois problemas resolvidos com uma frase!

Nem os ciclistas escapam do pensamento mágico. Aqui em Brasília, construíram dezenas de quilômetros de ciclovias para “salvar vidas”, no Plano Piloto – onde o índice de atropelamentos fatais é irrisório se comparado com outras RAs – conheço casos registrados que cabem nos dedos de uma mão: Pedro (no eixão, onde não fizeram ciclovia), Carol, no dia da manifestação, e um ciclista morto na UnB alguns anos atrás (se você conhece/lembra outros casos, deixe um comentário). Por que não fizeram ciclovia na EPTG? Na estrutural? Porque no Plano Piloto o governo mostra para o país e o mundo que a “cidade está preparada para a Copa”. Mostra para os cicloativistas esportistas, os que pediram a apoiam o GDF nesta empreitada, todos de classe média alta, mostra para eles que o governo “quer salvar vidas” e que, com ciclovias, a cidade se tornou um paraíso para os ciclistas. Sim, mas… e os carros parados nos rebaixamentos do meio-fio, bloqueando as ciclovias? E os carros que não dão preferência às bicicletas nos locais onde a ciclovia cruza a pista? Cadê a punição para quem estaciona irregularmente? Cadê educação dos motoristas “para um trânsito melhor, uma cidade melhor”? E os bicicletários que existiam e, a cada dia que passa, um é retirado, não pelo governo, mas por iniciativas privadas? Então, é só o governo que tem que incentivar o uso da bicicleta?

todos_somos_responsaveis

A maior manifestação aqui em Brasília ocorreu na quinta feira, dia 21 de junho, solstício de inverno, associado à morte, ao desconhecido ou à escuridão. Na antiguidade, rituais de iniciação eram feitos sempre no solstício de inverno, porque é a maior noite do ano, significa o início do ciclo de dias de luz cada vez maiores; significa a saída do mundo dos mortos (a noite, a escuridão) e a entrada no mundo dos vivos (o dia, a luz). Os rituais do solstício de inverno têm o significado de renascer, ou nascer de novo para a Luz; o renascimento assume o significado simbólico da vida que se renova, após a grande noite (morte). [quando é mesmo o Natal, data máxima da cristandade? no solstício de inverno do hemisfério norte!]

Será que foram apenas dias de ritual mágico na semana do solstício de inverno?

Fui com esta camiseta:

libertas

Todos sabem que a inscrição na bandeira de Minas quer dizer “Liberdade ainda que tardia”. A liberdade sempre é boa, mesmo que venha tarde.
O que muitos não sabem é que, para expressar o desejo de ficar livre de Portugal, os inconfidentes quebraram o verso das Bucólicas, de Virgílio, deixando, de propósito, uma parte muito importante de fora.
Veja o original, em latim:

bucolica_I

retirado do livro

constr_arte_buc_virgilio

do saudoso professor João Pedro Mendes, um dos melhores mestres que já tive, com quem aprendi rudimentos de latim e grego (rudimentos por culpa minha, não dele…).

A tradução é polêmica, como todo texto clássico. Gosto desta: A Liberdade que, embora tardia, contudo olhou favoravelmente para mim, que nada fiz. Para entender melhor, é preciso saber que esta frase responde a uma anterior: O que foi que te trouxe à Roma? Tityrus responde: [o que me trouxe à Roma foi] a liberdade, que, mesmo sendo tarde, ainda assim olhou para mim, que nada fiz.

Se os inconfidentes soubessem para qual caminho ético o Brasil seguiria, eles colocariam o verso completo na bandeira!!

Pois de pouco adianta que a liberdade, ou qualquer outra conquista, mostre as caras, apareça, mesmo que tarde. Nada vai adiantar se continuamos inertes, sem nada fazer no nosso dia a dia, nos pequenos, mínimos momentos.

[.]

Roubaram minha bicicleta

Ontem era pra ser um dia como outros, de outono. Sai de casa para o trabalho, de bicicleta. No caminho, parei para ver as barrigudas floridas em rosa.
Chegando, deixei a bicicleta no bicicletário. Meio da manhã.
Na hora do almoço uso ônibus para ir e vir – deixava a bicicleta, minha mula prateada, descansando na sombra.
As horas passam. Quando fui voltar para casa, já escuro noite adentro, cadê?

A primeira sensação que veio foi a dúvida: será que vim de bicicleta hoje? Mas só dúvida que reforça o espanto. A dificuldade do cérebro de lidar com o inesperado.
Pois, pior, o local tem vigilância, e policiamento ostensivo na área próxima. Como roubaram??
Estacionei ali por longos 10 anos. Houve dias até que deixei a bicicleta sem tranca, por ter esquecido…

Não tive ódio, nem raiva.
Para pombo que rouba pão, a gente fala xô. Para os ratos é que existem os esgotos.

A minha bicicleta foi companheira por muitos bons e maus momentos. Machuquei o dedão, quebrou o canote do selim, carreguei frutos da sapucaia na cestinha e livros para doação no bagageiro.

Ela, como as outras cinco que tenho, carrega uma energia positiva que de pouco ou nada adiantará para uma pessoa nefasta.

Não era uma espada mágica ou um cálice, que preserva seus poderes místicos enquanto apenas objeto.
A nossa relação com o mundo quase sempre é intermediada por coisas. Coisas feitas, produzidas, construídas, que o ser humano usa para se distinguir dos animais e se afastar da Natureza [tenho dúvida que seja o melhor caminho, como espécie animal que depende do seu meio ambiente, mas foi a este ponto que nos levou a cultura ocidental judaico-cristã].

Cultura é isto, símbolo. Como espécie, precisamos desta intermediação de objetos, de algo que nos ajude a estar no mundo, entendê-lo e vivê-lo.

[daí o perigo latente de objetos que não apenas são intermediários, mas o sendo, ao mesmo tempo criam uma realidade não-real, como a TV e o computador; vivemos, em Matrix, a hipérbole do símbolo, em vez de viver o real, acreditamos na sua reprodução virtual]

Então, a minha bicicleta não é só aquele objeto de aço, sem motor, com duas rodas, pedal, cestinha, bagageiro. É tudo isto e mais o que está dentro de mim. E não é só o que está dentro de mim, pois seria apenas desejo ou sonho. É o objeto e eu. Bicicleta são significados mentais e dedos sujos de graxa.

Na Grécia antiga, quando dois amigos se separavam, partiam um prato ou uma moeda. Quando se reencontravam, no futuro, cada um tinha que apresentar sua metade, como identificador do pacto feito no passado. Assim era refeito o elo entre o que estava unido e foi separado.
Acredito que nunca mais verei minha bicicleta. Mas metade dela estará sempre comigo.

[.]

Feliz Lua Minguante!

Quando estou no interior, gosto de fazer pequenas viagens de bicicleta, ida e volta num dia. Às vezes tenho destino certo, um rio, ou fazenda, outras vezes apenas vou indo, sem planos nem traçados, apenas para conhecer novos caminhos e paisagens.

Numa destas viagenzinhas, encontrei-me com um andarilho muito estranho. Além das tralhas que todo andarilho leva, as roupas sujas e gravetos no cabelo, ele vestia um colar cujo pingente era um tomoe, ancestral símbolo japonês que remete ao movimento da Terra e o jogo de forças do cosmos – similar ao yin yang chinês.

Sim, vi o pingente porque fui parado pelo homem, que de longe já fazia sinais com as mãos, e perguntou: “qual hora é?”

Estranho… um andarilho deveria saber as horas pela sombra do sol, a chuva pela direção do vento, e as estações do ano pelas flores do pequi e das barrigudas.

Estávamos um pouco depois do começo da manhã. Olhei no ciclocomputador, tirei a diferença do horário de verão (não uso relógio, nem atualizo verão no ciclocomputador!) e, depois de responder, tive a ousadia de perguntar: “mas por que quer saber as horas, aqui no meio deste geraes?”

Nunca esperei a resposta que veio. Naquela fração de segundos, pensei que ele calculava quanto tempo para chegar à cidade (ficava a pelo menos 3 horas de caminhada) ou quando passaria o ônibus rural na rodage, a caçamba, até mesmo alguma fixação psíquica com relógios, quem sabe um trauma de infância, um TOC? Andarilhos são estranhos…
Relógios e calendários fazem todo sentido na cidade, na vida regrada de trabalhar para produzir e produzir para consumir. Um andarilho, um excluído da sociedade, um trangressor ou um desprezado, para quem as convenções urbanas nem fazem sentido e das quais ele foge, por quê?

No carrasco não há hora. É tudo bicho e mato, o dia se alonga, siriema pia no calorzão, e a noite arrastada no difluxo. Vem lua. O tingui póca. Neh, pau de geraes não faz conta, tem número nenhum. Ahã, não precisa. Mas o homem, sem hora é perdido.

Quando cheguei numa velha ponte sobre o Rio Pardo, fiquei olhando as águas que passavam.

ponte_rio_pardo

O rio arrastava um galho aqui, ali uma bolha subia, sempre mudando mas sempre o mesmo rio. Era rio. Água parada é poça, é lagoa. Rio é fluxo.

O tempo também é um fluxo que a gente não entende. É algo que está além de nós, pois fazemos parte dele. A bolha não sabe o que é o rio.

Relógios e calendários são apenas tentativas racionais e limitadas de conter e contar o tempo. Matematização. É como mergulhar a garrafa pra encher dágua fresca e achar que uma parte do rio ficou dentro dela.

“Neh, pau de geraes não faz conta, tem número nenhum. Ahã, não precisa. Mas o homem, sem hora é perdido.”

Quando eu voltava, força no pedal para não atrasar o almoço com meus avós, o andarilho, amarrando um feixe de folhas debaixo de um pé de barbatimão, saudou: i’tê.

[.]

Bicicleta é questão de pele

Design da tatuagem: Claudio Amaury
Design da tatuagem: Claudio Amaury

Gosto desta tatuagem do meu irmão porque biciclista e bicicleta parecem uma coisa só. Não se sabe onde começa um e termina a outra.
Lembra também uma pintura rupestre.
Ou seria um símbolo na parede, visto num sonho.

De qualquer forma, traduz aquilo que não pode ser dito, tácito, mas apenas sentido.

[.]

12 é o número

Entramos em 2012 e a DeutscheWelle publicou um artigo muito interessante sobre a história e a mística que giram em torno do número 12.

Os 12 meses do ano e os 12 signos do zodíaco. As 12 horas do dia. Os 12 trabalhos de Hércules.12 as estrelas na bandeira da Europa. 12 bicicletas personalizadas por designers famosos. Os 12 nomes do deus-elefantes Ganesha.

As religiões estão repletas do simbolismo do número 12, como se vê nesta página.

Os mistérios da matemática podem explicar um pouco isto. Além de ser o produto do 3 (divindade) com o 4 (terrestre), o número 12 é o superfatorial de 3. Superfatorial é a multiplicação dos fatoriais, então,  1! x 2! x 3! = 1 x 2 x 6 = 12.

Doze também é um dos números sublimes.

Na teoria dos números, um número sublime é um inteiro positivo que tem um número perfeito de divisores positivos (incluindo o próprio), e cuja soma dos divisores positivos é outro número perfeito.

Um número perfeito é um número inteiro para o qual a soma de todos os seus divisores positivos próprios (excluindo ele mesmo) é igual ao próprio número. Por exemplo, o número 6 é um número perfeito, pois: 6=1+2+3

Fazendo as contas, o número 12 tem um número perfeito de divisores positivos (6): 1, 2, 3, 4, 6 e 12, e a soma destes é novamente um número perfeito: 1 + 2 + 3 + 4 + 6 + 12 = 28.

Por estes motivo, 12 é um dos dois números sublimes conhecidos.
O outro tem 76 dígitos decimais:
608655567023837898967037173424316962265783077335188597052832486051279

Nas idades míticas, com muita dificuldade se chegaria a este segundo número. Então o 12 foi, por muitos séculos, de certa forma, um número com qualidades matemáticas únicas. E fez parte do esforço humano para decifrar e comandar esta vida que nos escapa em sentidos e mistérios que nos rodeiam.

De acordo com Jean Chevalier, no seu Dicionário de símbolos [Ed. José Olympio, 12ª ed. 1998], pág. 348:

o doze é o número das divisões espaço-temporais. É o produto dos quatro pontos cardeias pelos três planos do mundo (…) O 12 simboliza o universo no seu curso cíclico espaço-temporal. Doze simboliza também o universo na sua complexidade interna

O mundo com seu ciclo imutável de começo, fim e recomeço. A profecia maia nada mais fez do que despertar os sonhos místicos que a ciência – e a religião cristã, sua madrasta – tentam a todo custo eliminar da alma humana, pelo visto e felizmente, sem sucesso.

🙂

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O sapato rasgado

Kumiko desceu correndo as escadas do templo e pegou a bicicleta encostada no muro de pedras.

Antes mesmo de passar das estátuas no portal, o cadarço do sapato enroscou-se no pedal e ela caiu. Mestre Kitô, que estava ali por perto varrendo os degraus, aproximou-se:

– Por que tanta pressa, Kumiko?

– Mestre, o Fim de Ano está chegando e ainda tenho muita coisa importante para fazer. Não consegui terminar todas as  tarefas. Não posso perder tempo…

Mestre Kitô abaixou-se, verificou a ferida no joelho e disse:

– Vá procurar Mestre T’aipo para limpar este sangue.

– No começo dos tempos – ele continuou – não havia Primavera, Verão, Outono, Inverno como chamamos agora, mas só o movimento das estrelas e das nuvens no espaço. Desde que os seres humanos observaram o movimento das mudanças, e as diferenciou dando nomes a elas, agora temos as quatro estações em ciclos. Por isto também, existe algo chamado de Ano Novo. Dar nome é colocar marcas, como lanternas pelo caminho. Mas nós, seres humanos, somos também a energia que está se movendo e mudando sem parar. Um poeta escreveu certa vez:

no céu e na terra, acaba de chegar a Primavera,
Mas ela, aqui no meu coração, desconhece o tempo.
Desde o momento em que nós nos amamos,
florescem flores no jardim do meu coração
continuamente.

– Agora levante-se, Kumiko, e primeiro vá costurar seu sapato que está rasgado. Isto prenderá o cadarço, disse Mestre Kitô e voltou a varrer folhas e gravetos.

[pequeno conto de Ano Novo, inspirado neste texto e na figura Manjusri (on a bicycle), da artista japonesa Mayumi Oda]

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