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Bicicleta: entre a economia e as asas

O poeta Alberto Martins disse que “a literatura é uma zona de respiro da sociedade, como os caminhos que as minhocas abrem na terra para arejá-la. O papel da literatura é canalizar e dar voz a essas coisas que não são aparentes”.

Se vale para a literatura, vale para a arte e todas as suas manifestações. Então vale para as charges.

 

O que a charge do Rafael para o jornal O Povo tem a nos revelar, o que está oculto? Os cinco líderes pedalando em conjunto a BRICicleta dá óbvia ideia da união de forças. A charge remete à criação do banco dos BRICs, assunto que esteve na pauta da economia no começo da semana. Mas há algo mais, raízes que só as minhocas ouvem. Siga-me nesta trilha, talvez eu consiga mostrar.

Os seres humanos gostamos de achar que somos seres racionais e inteligentes. Que uma das nossas melhores sabedorias é tomar decisões racionais visando um futuro melhor. Errado! Na maioria das vezes, não somos tão lógicos como queríamos e um misto de emoções e crenças engana a nós mesmos.

Como seres humanos cheios de emoção, temos uma imensa aversão à perda, que muitas vezes nos leva direto à falácia dos custos irrecuperáveis.

Mas, o que são custos irrecuperáveis?? São todos os pagamentos ou investimentos que fazemos e que nunca poderão ser recuperados. É um dos temas favoritos dos economistas, quando estudam as escolhas intertemporais no âmbito da economia comportamental.

Um andróide com circuitos lógicos em pleno funcionamento nunca tomaria uma decisão com base nos custos irrecuperáveis, mas você e eu sim. Nossos sentimentos e instintos são mais fortes e nosso cérebro disfarça para que pareçam decisões racionais. Mas não são.

A Ilusão: você toma decisões racionais baseadas no valor futuro dos objetos, investimentos e experiências.

A Verdade: suas decisões são influenciadas pelos investimentos emocionais que você acumula, e quanto mais você investir em algo mais difícil se torna abandoná-lo.

Vejamos como acontece e o que isto tem a ver com bicicleta e trânsito.

No livro Thinking Fast and Slow

publicado no Brasil pela Editora Objetiva, o psicólogo Daniel Kahneman escreve sobre como ele e seu colega Amos Tversky, por meio de trabalho na década de 1970 e 80, descobriram o desequilíbrio que há entre perdas e ganhos em nossa mente. Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de… economia!, explica que, uma vez que todas as decisões envolvem incerteza sobre o futuro, o cérebro humano que você usa para tomar decisões evoluiu um sistema automático e inconsciente para julgar como proceder quando surge um potencial de perda. Assim, ao longo do tempo, a perspectiva de perdas tornou-se um motivador mais poderoso no comportamento humano do que a promessa de ganhos. Sempre que possível, tentamos evitar perdas de qualquer tipo, e quando se comparam perdas e ganhos, você não vai tratá-los da mesma forma.

O economista comportamental Dan Ariely acrescenta um toque fascinante nesta questão da aversão à perda, em seu livro Predictably Irrational


(publicado no Brasil pela Campus Editora). A “dor de pagar”, como ele diz, surge sempre que você precisa desistir de qualquer coisa que você possui. O valor não importa. Você vai sentir a dor não importa o preço que você vai pagar, e isto influencia suas decisões e comportamentos.

Em um de seus experimentos, Ariely montou um estande em uma área bem movimentada. Os transeuntes podiam comprar chocolates comuns por R$1,00 ou excelentes trufas belgas por R$15,00 cada. A maioria das pessoas escolheu as trufas. Foi um bom negócio, considerando as diferenças de qualidade e os preços normais de ambos os itens. Ariely, então, criou outro estande com as mesmas duas opções, mas reduziu o preço em um real cada: os chocolates eram de graça e as trufas custavam R$14,00 cada. Pare e pense: desta vez, qual você escolheria??

A grande maioria das pessoas selecionou os chocolates comuns em vez das trufas (foi seu caso, admita!!). Se as pessoas agissem na lógica matemática pura e racional, explicou Ariely, não deveria ter havido mudança no comportamento dos indivíduos. A diferença de preço era a mesma. Mas não achamos que é dessa maneira. Nosso cérebro nos prega uma peça (por falácia, uma inverdade lógica): o sistema de aversão à perda está sempre vigilante, de prontidão para nos manter longe da ideia de desistir de algo, de desapegar. É por isso que você acumula badulaques que você realmente não quer ou precisa; é por isso que achamos tão tentador aceitar negócios que incluem brindes “gratuitos” ou descontos obscuros; é por isto que as pessoas continuam usando carros, mesmo sabendo do mal que faz à saúde (obesidade e sedentarismo), à cidade (trânsito caótico e mal uso da terra) e ao planeta (aumento do efeito estufa).

Alguma vez você já foi ao cinema só para perceber, em 15 minutos, que está assistindo a um dos piores filmes já feitos, mas você fica e assiste ao filme de qualquer maneira, até o fim? Você não quer desperdiçar o dinheiro, então você desliza para trás na cadeira e sofre – como sofre atrás do volante.

Essa é a falácia!! É o sistema emocional em alerta. Porque o dinheiro será perdido de qualquer maneira. Não importa o que você faça, você não pode tê-lo de volta. A falácia impede que você perceba que a melhor opção é fazer o que promete ser a melhor experiência no futuro, em vez de preferir “diminuir” o sentimento de perda no passado.

Kahneman e Tversky também conduziram um experimento para demonstrar a falácia dos custos irrecuperáveis. Veja como você se sai nessa.

Imagine que você vá comprar um livro que custa R$50. Quando você abre sua carteira ou bolsa, percebe que perdeu a nota de $50. Será que você ainda compra o livro? Provavelmente sim. Apenas 12 por cento dos indivíduos no teste disseram que não. Agora, imagine que você compra o livro, paga R$50, mas antes de chegar ao bicicletário percebe que esqueceu – perdeu! – o livro em algum lugar. Você voltaria e compraria outro exemplar do mesmo livro?? Talvez, mas a dor no bolso seria muito maior, não é? Neste experimento, 54 por cento das pessoas disseram que não compraria outro livro. A situação é exatamente a mesma!!

Você perde R$50 e, para poder ler o livro, precisa pagar R$50 de novo, mas o segundo caso nos parece diferente, sentimos diferente. É como se o dinheiro fosse usado para um propósito específico e depois perdido, houve uma carga emocional investida no futuro e perder é uma m*!

Os custos irrecuperáveis levam a guerras, elevam os preços em leilões e mantem vivas políticas fracassadas, como a política de incentivo ao automóvel. A falácia faz você continuar comendo o que está no prato, mesmo quando seu estômago já está cheio. Ela enche sua casa com coisas que você não quer nem usa mais. E vai fazer as cidades entrarem em colapso, pois os carros foram comprados, os viadutos foram feitos, as pistas foram duplicadas, as montadoras foram subsidiadas, o IPI foi reduzido, é muito dinheiro para poder voltar atrás agora…

foto do blog IN TRANSITU
EPTG após obras para “resolver o caos do trânsito”; foto do blog IN TRANSITU

Motoristas estão atolados em um poço de custos irrecuperáveis. Governos que buscam soluções para o trânsito de automóveis estão presos na lógica engarrafada dos custos irrecuperáveis. Eles nunca podem voltar o tempo ou o dinheiro que gastaram, mas pretendem continuar usando seus carros para evitar sentir a dor da perda e a horrível sensação de desperdício.

A falácia dos custos irrecuperáveis às vezes é chamada de falácia Concorde, descrevendo-a como uma escalada de compromisso. É uma referência à construção do primeiro avião comercial supersônico. O projeto estava previsto para ser um fracasso desde o início; mas todos os envolvidos continuaram em frente. Os investimentos que fizeram juntos deu origem a uma pesada carga psicológica que superou todos os melhores e sensatos argumentos. Depois de perder uma quantidade incrível de dinheiro, esforços e tempo, eles não queriam simplesmente desistir.

Foram em frente, como vão em frente os governos que duplicam vias, constroem viadutos, ampliam estacionamentos, reduzem IPI.

Motoristas, gerentes de trânsito, engenheiros, arquitetos, urbanistas e a imprensa continuam em frente, buscando solução para o trânsito de automóveis, mesmo sabendo que o fracasso é óbvio.

A capacidade humana de raciocínio tem defeitos provocados por forças invisíveis – emoções, relatividade, expectativas, apego, normas sociais – que nos induzem a fazer escolhas ‘previsivelmente irracionais’.

É uma tendência nobre e exclusivamente humana a vontade de perseverar, a vontade de manter o rumo, o apego ao que passou e a crença infundada no controle do futuro – estudos mostram que animais e crianças pequenas não cometem esta falácia. Vespas e vermes, ratos e guaxinins, bebês e crianças, eles não se importam o quanto investiram ou quanto vai para o lixo. Eles só conseguem ver perdas e ganhos imediatos.

Por outro lado, como seres humanos adultos, temos o dom da reflexão e do arrependimento.

Ponha-se num lugar futuro, onde você admita que seus esforços foram e estão sendo em vão, que suas perdas são permanentes, e que aceitar a verdade dói, dói muito.

Desapegue de velhos hábitos. Não espere que o governo construa nem aguarde que a polícia multe ou prenda. Assim como os líderes dos BRICs, dê o primeiro passo e a primeira pedalada em direção à mudança. As bicicletas estão aqui, e agora, só depende de você querer ganhar ou perder. Conscientemente.
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este texto foi inspirado pela charge e escrito a partir da estrutura e argumentos traduzidos do artigo The Sunk Cost Fallacy, publicado no blog You are Not So Smart, com adaptações.


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Um passeio de bicicleta até a Abadia de Corvey

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Clique na imagem para acessar a reportagem da DeustcheWelle.

No Brasil, nenhuma cidade história é amiga da bicicleta. Os patrimônios culturais da humanidade, por aqui, estão com as ruas abarrotadas de carros, ao ponto de ser impossível tirar uma boa foto dos monumentos e de andar pelas ruas apreciando a arquitetura e a atmosfera que deveriam proporcionar.

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Veja o mundo de outra forma

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As imagens acima foram tirada da página da Sustrans, maior entidade britânica de incentivo ao uso da bicicleta. Eles têm longa tradição de fazer campanhas Safe routes to school, rotas seguras para a escola.

A mais recente, como as outras, pede que as pessoas pressionem os MPs, membros do Parlamento, enviando-lhes mensagens. Além disto, ensina como cada um pode mudar tomando atitudes concretas no seu dia-a-dia (e assim mudar a cidade e o mundo) e pede que a campanha seja divulgada.

A Sustrans fez uma página com material para download. Entre posteres e infográficos, está um molde dos óculos e pezinhos usados pelas crianças nessas fotos.

Baixe o molde aqui.

E, se quiser, faça o que a Sustrans pede aos ingleses: monte os óculos-bicicleta, óculos-pezinhos ou óculos-patinete, tire uma foto sua com eles e coloque nas redes sociais. A campanha é deles, mas precisamos trazer este modo de ver o mundo pra cá.

Entupimos as ruas de automóveis, tornando-as perigosas para todos, mas principalmente para as crianças. Elas foram expulsas das ruas pelo trânsito motorizado. E muita, mas muita gente mesmo tem a carice de pau de reclamar que as crianças de hoje só querem saber de computadores e ipads. Diga sinceramente: que alternativas elas têm?

Acredito que toda criança tem o direito de caminhar, andar de bicicleta, patins, skate e patinetes pelas ruas. Isto pode começar pela forma como elas vão para a escola. Os carros roubaram este direito. Podemos mudar isto. Se fizermos agora, podemos mudar o futuro, com crianças mais ativas e saudáveis.

Sustrans Campaign for Safer Streets Factsheet

 

Dia sem carro, com carro

Pelas barbas do barão Von Drais!
Eu estava num sonho idílico de alemanhas, quando acordei com um pesadelo.
Dia Mundial sem Carro.
O que era para ser rito de iniciação e de passagem, transformou-se em data comemorativa, evento midiático.

Em todas as sociedades primitivas, determinados momentos na vida de seus membros eram marcados por cerimônias especiais, conhecidas como ritos de iniciação ou de passagem. Essas cerimônias, mais do que representarem uma transição particular para o indivíduo, representava igualmente a sua progressiva aceitação e participação na sociedade na qual estava inserido, tendo, portanto tanto o cunho individual quanto o coletivo.
Nos tempos atuais e nas sociedades modernas, muitos desses ritos subsistiram embora muitos deles esvaziados do seu conteúdo simbólico. Batismo e festas de aniversário de 15 anos, por exemplo, são resquícios desse tipo de cerimônia, que hoje representam muito mais um compromisso social do que a marcação do início de uma nova fase na vida do indivíduo. No entanto, a troca do símbolo pela ostentação pura e simples, acaba criando a desestruturação do padrão social.

wikipedia

Dia Mundial sem Carro, decorridos quatro ou cinco anos sem qualquer avanço, é hoje apenas um compromisso social, para “curtir” no Facebook.

Evento: um passeio ciclístico, no eixão, aqui em Brasília.

Aquilo ali no meio das bicicletas não é um… carro???
Ué, para comemorar o dia sem carro, com carro??

[em qual categoria abaixo o carro acima participa?]

som_auto

Dia sem carro passou a ser também uma jogada de marketing político

DiaSemCarro-Desenho_B

(não só de prefeitos, diga-se)

Mas pior, pior mesmo, daqueles pesadelos que você acorda quase gritando, foi o cartaz que o Ministério das Cidades + Denatran + GDF fizeram para “celebrar a data”.

Cartaz Dia "sem" Carro

Olhe o cartaz de novo. Alguma coisa deixa você muito chocado/chocada?

Percebe-se, obviamente, que é um material publicitário, por isto segue regras do marketing e da propaganda.
Para analisar a metáfora visual mostrada no cartaz, recorro aos princípios da gestalt, palavra alemã (!) sem tradução exata para o português. Gestalt tem a ver com psicologia das formas, de como o olhar percebe o que está diante dos olhos. Seu maior princípio diz que um conjunto de coisas juntas (reais ou simbólicas) forma um padrão, ou conceito, que é maior do que a simples soma das partes.

Em resumo: o princípio básico da teoria gestaltista é que o inteiro é interpretado de maneira diferente que a soma de suas partes.

  design.blog.br

O Vaso de Rubin é um clássico muito usado para exemplificar a gestalt

Você vê um vaso ou duas pessoas de perfil? O princípio da gestalt atua quando os dois rostos, juntos, formam uma terceira imagem que é mais do que dois rostos juntos.

Embora a teoria seja relativamente recente, muitos artistas já usavam o princípio para criar ilusões de ótica – a gestalt problematiza nossa capacidade de conhecimento das coisas.

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Salvador Dali – “L’Amour de Peirrot” (1920)

Se A+B não resulta propriamente na soma dessas duas partes, mas sim em algo diferente, um C que não é A+B, mas não deixa de ser A+B, podemos dizer que tudo o que conhecemos do mundo é apenas uma tentativa de conhecimento ou de totalização das coisas, um saber precário, inconcluso, suspenso, mas que ao mesmo tempo projeta outras percepções, alargando nossa “visão” das coisas, dos seres e da realidade que nos circunda.

cpv.com.br

No infame cartaz, o que vemos? A palavra “carro”, cuja letra final é a roda da bicicleta. Ocorre a fusão dos dois conceitos, mesmo um sendo expresso por texto e o outro por imagem.
É um recurso muito usado em propaganda e design e segue os princípios gestalt de continuidade, simetria, fechamento, proximidade e semelhança.
Exemplo:

Que mensagem quer passar um cartaz que funde bicicleta e carro para divulgar o dia mundial sem carro?? A intenção é óbvia: fazer com que o motorista veja a bicicleta como extensão do seu carro, ou – sem metonímia – veja a bicicleta como um carro. Assim como 2014 será o ano da bola, a roda da bicicleta constrói  e dá forma ao conceito carro (engraçado, já vi esta metáfora visual antes e não lembro onde….).
Palavra e imagem, juntas, formam um símbolo maior, mais do que a soma das duas. A bicicleta-carro é reforçada pelo texto que vem antes, quando usa um jogo de palavras para dizer que a bicicleta tem um teto solar melhor que um carro. E bicicleta tem teto solar??? (esta comparação me dá nojo…).

Cartaz Dia "sem" Carro

Como é? No “dia mundial sem carro” a intenção foi incentivar o uso da bicicleta como se fosse um carro?? A bicicleta é “substituta do carro”, bicicleta-chupeta?? Sem noção! Quem fez este cartaz sabe bem pouco de bicicleta…

Pior, quem fez e quem aprovou o cartaz de fato não consegue ver a vida sem carro, pois, em vez de eliminar o “carro”, na verdade acaba por  valorizá-lo (aqui volto de novo ao teto solar, que existe apenas em carrões, símbolo de status). Ao dizer “motorista, no dia sem carro, use bicicleta, pois é tudo uma coisa só”, o cartaz reforça o uso do carro!

A gestalt explica não só como percebemos os símbolos, do lado do receptor. Mas também explica como o emissor da mensagem pode projetar, em geral de modo inconsciente, sua visão de mundo.

O erro grosseiro originou-se de um erro básico. Um dia sem carro não é necessariamente um dia com bicicleta.
Pois bicicleta não é o oposto de carro. Bicicleta não é carro-1.

O “dia sem carro” até agora não mostrou futuro porque tem como fundamento uma negação. E a negação só é logicamente válida enquanto existe a realidade negada. A negação, como pensamento, reforça a existência do que está sendo negado. Como a (suposta) existência do diabo reforça a (suposta) existência de deus. A é não-B.

Querem valorizar o uso da bicicleta? Faz um “dia nacional da bicicleta”. Cria a semana “de bicicleta para o trabalho” ou a jornada “pedalando para a escola”. A é A.

Querem mudar o trânsito das cidades, deteriorado por causa do excesso de carros? Estabeleçam restrições ao uso do automóvel particular em todos os cantos da cidade e em cada minuto do dia. Punição para motorista que burlar as restrições. Não destinem verbas públicas para estacionamentos, alargamento e duplicação de pistas urbanas. Não-B é não-B.

O Ministério da Saúde faz uma campanha de sucesso no combate ao tabagismo. Carro é igual cigarro. Vicia e dá prazer, ao mesmo tempo que destrói e mata. A campanha contra o cigarro não fala de bala de menta, cafezinho ou adesivo de nicotina. Vai direto ao ponto e mostra os males que o cigarro causa.

Querem uma cidade sem carro? Que tal uma campanha que vá no cerne do problema??

pessoas

transito

poluicao

vaga

excesso_cidades

A vida é boa sem carro.

Simples assim.

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A capital do país

Qual é a cidade que tem avenidas largas, onde motoristas andam a 80km/h em carrões?

Haverá um estádio modernissimamente mirabolante para a Copa.

Esta mesma cidade construiu várias ciclovias para raríssimos ciclistas.

Ainda não sabe?

É Doha, capital do Catar, país que está sediando a Conferência do Clima, mas é o maior poluidor per capita do mundo.

A DeutscheWelle fez uma galeria de fotos mostrando esta gritante disparidade entre intenção e gesto, de onde tirei três fotos e suas legendas:

(Tirando a avenida beira-mar) qualquer semelhança não é coincidência!

😀

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O perigo das ciclovias

Um casal pedalava na “ciclovia” da Asa Norte, quando…

As ciclovias que estão sendo construídas agora em Brasília são projeto do governo Roriz. Elas foram traçadas pelo extinto PEDALA-DF. Depois, mesmo entre trancos e barrancos, o projeto seguiu no governo Arruda. Até que, mudando apenas de nome, foi assumido pelo governo Agnelo.

O maior erro do atual governo não é estar construindo ciclovias. É construi-las como pensadas pelos governos Roriz/Arruda, sem tirar nem por. Usando e abusando do argumento “é agora ou só daqui a 10 anos”, a turma do Agnelo pegou um projeto sabidamente ruim e, na ânsia de mostrar serviço para a Copa 2014, na ânsia de cumprir uma decisão política-orçamentária, na ânsia de cumprir uma “promessa de campanha”, tratorou ciclovias de cima a baixo. Demagogia.

Ora, um governo que usa o argumento “é agora ou daqui a 10 anos” mostra exatamente que não houve qualquer mudança de paradigma. Foi movido pelas circustâncias e oportunismo. Caso tomasse a bicicleta como elemento decisivo para melhoria do trânsito e da cidade, um bom governo diria: “herdamos este projeto, ele está pronto para ser executado, mas é ruim; vamos começar do zero para fazer uma coisa boa, dentro de uma nova visão. É nossa prioridade e sairá o mais breve possível. Vamos discuti-lo com a comunidade. ” Não foi isto que aconteceu.

E qual é a velha visão, do século XX, sob a qual as ciclovias foram pensadas, desenhadas, projetadas e, agora, construídas? Um modo carrocêntrico e rodoviarista de ver o mundo, típico do “século do automóvel” [e da bomba atômica e do nazismo]. Esta velha, antiga e ultrapassada visão se baseia em duas idéias centrais:

1) andar de bicicleta é perigoso
2) o espaço do automóvel é intocável

Ambos argumentos são usado e defendidos inclusive por ciclistas – não ciclistas que usam a bicicleta como meio de transporte, no dia a dia, mas ciclistas de trilha ou de passeios escoltados. Eles são motoristas durante a semana e ciclistas nos intervalos. Emocionam-se, colocam a mão no peito e no capacete e dizem “é preciso proteger a vida”. Um grito de guerra que parece santificado, mas no fundo mistura “bicicleta é risco de vida” com “ciclovias protegem os ciclistas”…

É verdade isto? ciclovias protegem os ciclistas?

Não.

Está mais do que provado, em estudos no exterior, que no cômputo geral ciclovias não protegem nem reduzem a taxa de atropelamento de ciclistas. Em certos casos, houve até aumento do número de atropelamentos. (clique aqui para ver uma compilação de textos)

O que dá segurança ao ciclista? Uma política séria e consistente de valorização da bicicleta e uma forte e maciça política de restrição aos automóveis. Não são medidas mágicas, imediatistas como tratorar ciclovias, mas vão trazer mais ciclistas para as ruas – mesmo que demore mais tempo. É simples assim: quanto maior for o número de bicicletas, mais seguras serão as ruas.  Ciclovia é apenas uma das formas de se conseguir isto. Mas não a única, nem a melhor.

As ciclovias do Plano Piloto, pensadas e construídas por quem acha que andar de bicicleta é perigoso, por quem não aceita de forma alguma restringir o uso do automóvel e os maus hábitos dos motoristas, tais ciclovias são a concretação desta mentalidade ultrapassada.

[preciso ser honesto e reconhecer que alguns trechos são necessários, vieram suprir inclusive a carência de calçadas – como a ligação entre a subestação da CEB e a Esplanada. Mas 80% da obra é desnecessária, pois apenas constroi outra calçada onde já havia calçadas. Agora temos 3 calçadas paralelas e subutilizadas!]

O que precisava ser feito não foi feito nem será: o correto tratamento nas entrequadras, para o ciclista poder sair da calçada e cruzar a pista. Nestes locais, a bicicleta precisava ter preferência sobre os automóveis. Está na lei. Mais importante do que estar na lei, evita que o bicicletista tenha que parar e recomeçar a pedalar, movimentos que dão muito desgaste físico e são incômodos. Um boa política cicloviária pensa sobretudo no conforto e na comodidade para bicicletas. É preciso entender de física da pedalada, conservação da energia e eficiência!  Leia um artigo sobre isto, em inglês.

Para mostrar com imagens tudo isto que estou dizendo, acompanhem a sequência de fotos, tiradas na ciclovia das quadras 400 da Asa Norte.

O casal pedalava.

E pedestres usavam a calçadovia, como sempre.

Chegando perto da entrequadra, que não tem tratamento adequado para ciclistas, pois a calçadovia acaba no meio-fio, o que fazer?

O homem pára, mas a mulher continua…

… e não é atropelada por questões de décimos de segundo e centímetros!!! O carro freiou forte.

Depois do susto, ainda tem que descer da bicicleta

para poder subir na calçada do outro lado.

E se tivesse menos sorte? Se fosse uma criança? Uma senhora idosa, com menos agilidade? Qualquer ciclista que calcule mal o tempo de aproximação dos carros que fazem a curva? E se o(a) motorista do carro tivesse menos reflexo e não freiasse a tempo?

São estas as ciclovias para “proteger a vida”? São estas as ciclovias que tornaram andar de bicicleta “menos perigoso”???

Não são ciclovias. São apenas calçadas com rebaixamento de meio fio.

E isto já existia antes! não precisava gastar milhões para continuar a mesma coisa, a mesma política do GDF, o carro tendo prioridade, sempre. Uma política que mantém a dicotomia de privilégios, mas dá aos ciclistas a falsa ideia de estarem num ambiente projetado para bicicletas, seguro e confortável. É uma política subliminar de maquiar a realidade, para mantê-la sem qualquer alteração.

1) Andar de bicicleta não é perigoso – perigosos são os carros, pois eles matam.

2) As cidades, para sobreviverem no século XXI, precisam impor restrições à cultura do automóvel. A bicicleta é somente o símbolo mais óbvio desta nova mentalidade.

Este é o perigo das ciclovias: uma política demagógica, que escamoteia a verdade e mantém intacta a relação de poder e privilégio no trânsito. Que mantem pedestres e ciclistas confinados em espaços estreitos e mal feitos, para preservar o espaço e o “fluxo” dos automóveis.

Uma mentira que, tantas vezes repetida, torna-se verdade.

[.]

Um ciclista contra as drogas

Outubro é o mês da criança.
Se falamos de imaginário infantil brasileiro, temos que lembrar Monteiro Lobato e Maurício de Sousa – que mostram ao longo dos anos serem verdadeiramente ótimos, pois permanecem apesar de toda pressão disneylândia.

Difícil, impossível dizer qual a melhor história da Turma da Mônica. Quero lembrar aqui um projeto especial, que Maurício de Sousa fez em parceria com o Conselho Nacional Antidrogas e a Secretaria Nacional Antidrogas.

[além da genialidade artística, aprecio também o fato do Estúdio Mauríco de Sousa colocar a Turma da Mônica a serviço de boas ideias e iniciativas de cunho social!]

A aventura “Uma história que precisa ter fim” está disponível online na página da Turma da Mônica.

Chama a atenção a forma direta e sem rodeios com que o problema das drogas é tratado. Longe de posturas moralistas, coloca bem os papéis da família, da escola, construindo uma trama didática como deve ser.

Na primeira vez que li, fui passando os quadrinhos, envolvido no enredo, o drama do menino viciado, a turminha se envolvendo, o susto dos pais, o coelhinho da Mônica em ação, até que, no último quadrinho, vejo isto:

Clique na imagem para ver a página do gibi inteira

O Zé Luis, que surgiu como herói para salvar a turminha, sai pedalando de bicicleta! Um ciclista contra as drogas!

Há muitas aventuras do Maurício de Sousa com biciclistas. Eles brincam, passeiam, caem. Bicicletas já foram destaque em capas de edições das revistinhas. É algo que está ali, que faz parte daquele maravilhoso universo infantil. Mas esta história de combate às drogas ficou particularmente marcada para mim como uma metáfora. Até como um oráculo.

Ciclista contra as drogas. Contra ciclovias ruins, mal projetadas, mal feitas, desnecessárias. Contra a overdose de automóveis. Contra políticos e politiquices, que estão usando a bicicleta para construir demagogia urbana. Contra altas taxas de estresse e mal humor (e  colesterol e glicose).

Um bicicletista que mostra às crianças o melhor caminho, as melhores escolhas.

O Zé Luis é o personagem mais velho da turminha e, além de bicicletas, adora livros:

Quero ser igual a ele quando crescer!

[.]

Autobahn para bicicleta?

Para comemorar os 80 anos de inauguração da primeira autobahn, a DeutscheWelle fez uma galeria de fotos destacando os fatos mais significativos da história deste modelo de rodovia típico da Alemanha.

São 12 fotos comentadas, entre as quais selecionei 6.
Um blog de bicicleta falando de autobahns?? Calma.
Vá até o final e veja como tudo depende da weltanschauung – já que estamos falando dos alemães! :-). O modo de agir no mundo depende da nossa visão de mundo.

As autobahns foram criadas como “ruas só para carros”. Como já dito neste blog antes, os nazistas apropriaram-se desta ideia para expulsar as bicicletas das ruas, segregando-as em ciclovias.
A industria automobilística e a propaganda nazista caminharam juntas por um tempo.
E me pergunto o quão pouco isto mudou até hoje:

Wenn man eine grosse Lüge erzählt und sie oft genug wiederholt, dann werden die Leute sie am Ende glauben. 
Quando se conta uma grande mentira, repetida com frequencia, as pessoas acabam acreditando no final.
Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda de Adolf Hitler

As propagandas de carro na TV mostram a verdade? Ou encenam um mundo falso, que, virtualizado, torna-se verdade, pelo menos enquanto desejo?? Quando o governo diz que baixa IPI dos carros para aumentar empregos, está dizendo a verdade? Não e também não.

Mas a mentira tem perna curta. Logo veio a crise do petróleo, o excesso de carros, o aquecimento global. A sociedade do automóvel mostrou sua verdadeira face.

E as autobahns, que começaram como ruas SÓ para carros, em 2010 a A40 foi fechada para automóveis. Só pedestres e bicicletas pelas ruas do grande homem!

E hoje, o conceito já é outro: autobahns para bicicletas.
O mais curioso de tudo é que uma reportagem que começou falando das autoestradas alemães, sonho de todos os motoristas fanáticos de todo o mundo, terminou falando em bicicletas!

São estas as fotos que selecionei. Leia as legendas!

clique aqui para ver a galeria completa.

É como diz a letra da música:

Nur Genießer fahren Fahrrad
Und sind immer schneller da.

[.]

Esta revolução é uma mentira

Video I was a teenager anarchist da banda Against Me!
Assista antes e depois responda à pergunta.

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[tem muito político por aí apregoando a revolução das ciclovias, das bicicletas, da “mobilidade sustentável”, o que seja. Deputado, assessor, governador, prefeito. E muito ciclista-de-final-de-semana também. A letra da música é um requiem para todos eles, principalmente o que se diz em 2:24!!]

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Pergunta: quantas bicicletas você viu no vídeo?

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ABC para construção de ciclovias

A de Adolf Hitler

B de Berlim

C de Carros


O Ano é 1934. Adolf Hitler já tinha chegado ao poder pelo Partido Nacional-Socialista. Neste mesmo ano, ele tornou obrigatório o uso das ciclovias, sob pena de punição para os ciclistas.

Ciclovias já vinham sendo usadas para melhorar o caminho dos ciclistas desde o final do século XIX. Já por volta de 1860, o Cyclist Touring Club, da Inglaterra,e a League of American Wheelmen reivindicavam ruas com melhor superfície para pedalar.

De fato, antes da política nazista, ciclovias eram melhoramentos feitos em parte da rua, para que os ciclistas não sofressem tanto com buracos e trepidações (era época das bicicletas bonneshaker, penny-farthing, sem pneus de borracha e outras melhorias que só surgiram em meados do século XX). Também haviam ciclovias feitas nas regiões rurais, como incentivo ao turismo.

Por volta dos anos 20, com a crescente indústria do automóvel, cresceu por toda a Europa a pressão para tirar os ciclistas das ruas e favorecer o fluxo dos carros, conforme mostra esta citação, registrada no First Dutch Roads Congress:

After all, the construction of bicycle paths along the larger roads relieves traffic along these roads of an extremely bothersome element: the cyclist.

Afinal, a construção de ciclovias ao longo das ruas principais elimina destas mesmas ruas um elemento extremamente incômodo: o ciclista.

Propagandas dos governos e das entidades de motoristas anunciavam as ciclovias como pró-ciclistas, e pela primeira vez empregaram o argumento da “segurança” para obrigar os ciclistas a usá-las.

Cartaz nazista de 1934.
O título diz: “Ciclovias evitam acidentes de trânsito”

Porém, até 1970, não há registro de reinvindicação de ciclovias, por parte de ciclistas, alegando motivos de segurança.

Em 1926, o uso da ciclovia foi tornado obrigatório, numa Alemanha já fortemente nazista – Hitler publicou Mein Kampf em 1925 e em 1926 foi fundada a Juventude Hitlerista.

Pela segregação, alegava-se também a necessidade de um “controle apropriado do tráfego”.

Em 1930, as primeiras ciclovias na Holanda foram construídas pela ANWB – uma associação de donos de automóveis.

Durante a Segunda Guerra, sob ocupação nazista, o uso de ciclovias foi tornado obrigatório na Holanda.

Na Alemanha Nacional-socialista, a construção de ciclovias tornou-se integrada à propaganda do Estado e do Partido Nazista como pré-requisito para ampliação do tráfego motorizado. Esta política foi apoiada pelo Nationalsozialistische Kraftfahrer-Korps (NSKK) (Corporação Nacional-Socialista dos Motoristas) e pelo Automóvel Clube da Alemanha – Der Deutsche Automobil-Club (DDAC).

Em 1º de outubro de 1934, de acordo com o Reichs-Straßen-Verkehrs-Ordnung (RStVO) – e na mesma linha de segregação e limpeza étnica promovida pelo Führer – para justificar a “limpeza das ruas”, cavaleiros, pedestres e ciclistas foram classificados como cidadãos de segunda categoria.

Juventude hitlerista - Youth Hitler

Fontes:

Geschichte der Radfahrwege (o mesmo texto em inglês, pode ser lido aqui History of cycle tracks, e a tradução em português, aqui)
Automobilverbände bestimmen Fahrradpolitik
A History of Cycle Paths


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