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bicicletas – aus Deutschland!

Saindo da Inglaterra, vamos até a Alemanha, onde haverá eleições em breve.
Em meio aos esperados debates sobre economia, crise do euro, guerra e imigrantes, um fato foi destaque na reta final das eleições alemães:

Sim, a bicicleta virou centro das atenções quando Angela Merkel abriu a Eurobike, maior feira de bicicletas da Europa.
A primeira vez que a feira foi aberta por um chanceler (Kanzler, feminino Kanzlerin), chefe de governo da Alemanha.  Muita gente achou que foi uma jogada política, ao ponto da revista Der Spiegel ironizar “o súbito amor da chanceler pelas bicicletas”.

(videoreportagem sobre a ida de Merkel à Eurobike – uma parte do video mostra Barack Obama andando de bicicleta ;-))

Na mesma linha, a revista Bike BIZ afirmou que, alinhando com as bicicletas, Merkel estaria buscando melhorar suas ecocredenciais (algo como conquistar o voto verde).

Mas o setor de bicicleta europeu não falou de outra coisa. A revista BikeEurope diz que ela roubou o show com um  discurso marcante. E a Federação dos Ciclistas Europeus – ECF  ficou eufórica: “foi um grande dia para a defesa e o incentivo das bicicletas”.

Angela Merkel fez um discurso ao mesmo tempo espirituoso e sério. Foi engraçado, por exemplo, no momento que lembrou de sua bicicleta ‘roubada’, quando ela era jovem, por soldados soviéticos que tinham bebido muita cerveja: “Eu superei essa experiência e, ao contrário do que dizem, não afeta as minhas relações com a Rússia.”

A chanceler citou um dos primeiros fabricantes de bicicletas na Alemanha, Adam Opel:

Bei keiner anderen Erfindung ist das Nützliche mit dem Angenehmen so innig verbunden, wie beim Fahrrad.
Em nenhuma outra invenção a utilidade está tão intimamente ligada com o prazer, como na bicicleta.

Opel começou fabricando máquinas de costurar. Em 1866, passou a fazer bicicletas e, por um período, foi o maior fabricante alemão. Após usa morte, em 1895, os herdeiros começaram a se interessar pela fabricação de automóveis. Houve festa de despedida quando a última bicicleta Opel foi fabricada, em 1937:

“Quem quer ter uma ampla concepção de transporte, hoje em dia, necessariamente precisa incluir a bicicleta.” Disse a mulher mais poderosa do planeta. E acrescentou: “A Alemanha não é apenas uma nação de carros, é também o país das bicicletas”.

Angela Merkel afirmou que o uso do capacete não deve ser obrigatório – o que despertou a indignação da indústria de capacetes, que é financiada pela indústria de automóveis para alimentar o medo de andar de bicicleta, conforme mostra este video Copenhaguenize.

Argumentando que “bicicletas devem ter as mesmas oportunidades que carros”, Angela Merkel falou sobre o Nationaler RadVerkehrsPlan – NRVP (ao pé da letra = Plano Nacional do Trânsito de Bicicleta, mas em português é mais comum plano cicloviário), que seu governo desenvolveu para trazer de volta o uso de bicicletas na Alemanha a níveis mais elevados. Até 2020, o governo alemão quer aumentar o uso de bicicletas nas cidades para 15% de todas as viagens até 5 quilômetros. Atualmente situa-se em cerca de 5%.

Tive curiosidade e fui conferir o que o governo alemão está pensando sobre bicicletas.
[Ah, não prestou não… fiquei deprimido por morar no país do jeitinho e da cordialidade]

Veja alguns gráficos tirados do Nationaler RadVerkehrsPlan:

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Uso de meios de transporte, tomando por base o ano de 2002. O uso das bicicletas (Fahrräder), linha laranja, subiu vigorosamente, seguidas pela caminhadas (zu Fuss), laranja claro, e transporte público (OPV). O uso do carro estacionou e, considerando transporte de passageiros (MIV-Mitfahrer), caiu 5%.

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Frota de bicicletas (Fahrrad) e automóveis (PKW) na Alemanha, em milhões de unidades.
Embora não exista estatística alguma, dizem que no Brasil a relação é a mesma, quase 2 bicicletas para cada automóvel. Mas lá, a população é de 80 milhões, e o Brasil tem 200 milhões de habitantes – ou seja, a mesma frota absoluta, mas para uma população 2,5 vezes menor = o que significa muito mais bicicletas por habitantes, na Alemanha.

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A diferença começa aqui. Entre 1996 e 2011, caiu mais de 10% a quantidade de jovens com carteira de motorista (Führerscheinbesitz), gráfico à esquerda. E o número de jovens, 18 a 35 anos, que compram carros também está caindo (gráfico da direita).

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Este gráfico é fantástico!!! Mostra o uso dos principais meios de transporte em razão da distância, cumulativamente. Nota-se que até 1 km, andar a pé é a principal forma de locomoção. Entre 1 e 10 km o uso da bicicleta torna-se exponencial. Como o gráfico é cumulativo, sabemos que praticamente todos os deslocamentos a pé são feitos até 7,5 km (quando a linha laranja claro toca o eixo 100%). De bicicleta, os deslocamentos se concentram entre 1 e 10kms, até no máximo 25km (linha laranja toca os 100%)

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Este gráfico compara o número de ciclistas mortos (getötet), feridos (leichtverletzt) ou seriamente feridos (scherverletzt), tomando como base o ano de 2000. Até 2008 houve um aumento dos ferimentos leves, os ferimentos graves reduziram um pouco e os ciclistas mortos diminuíram significativamente, tendo atingido 40% menos em 2010. Mas… em 2011 houve um aumento considerável de ferimentos leves, graves e mortes de ciclistas. Por que? Acho que o gráfico abaixo responde:

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A venda de “bicicletas” elétricas disparou desde 2011! Na verdade,  “bicicletas elétricas” são motos disfarçadas de roupagem ecoverde, e como acontece com as motos, a velocidade traz mais perigo – e feridos e mortos.

Por fim, o que me enterrou de vez no poço sem fundo verde-amarelo foi a quantidade de rotas de cicloturismo que cortam a Alemanha de norte a sul e leste a oeste, mostradas no RadVerkehrsPlan:

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Sim, eu já sabia que as rotas existiam. Meu sonho de cicloturismo é fazer a rota do Reno, Rhur e Donau (número 8), dos Alpes até a fronteira com a França. Ou a Rota Romântica (9), de Würzburg a Füssen.

Se você quer saber mais sobre viagens de bicicleta na Alemanha, visite a página oficial de cicloturismo do país.
O governo alemão tem uma página exclusiva na internet só para cicloturismo! E não apenas isto, mas inclui o cicloturismo no seu Plano Cicloviário Nacional. E poderia ser diferente?

Aqui – como não há plano cicloviário – o Plano Nacional de Turismo 2013-2016 brasileiro nem lembra que bicicleta existe…

Confessei lá em cima: entro em depressão ao lembrar que minha contingência existencial é estar no Brasil. Mas me apego ao que diz o filósofo Léo Pimentel: o acaso d’eu ter nascido no Brasil não faz de mim um brasileiro.
Por isto fico rotineiramente passeando por outras paragens, um misto de fuga da realidade e utopia, bem aos estilo dos contos de fada – dos Irmãos Grimm, que eram… alemães!

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[foto copiada do RadVerkehrsPlan]

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na bagagem…

…livros e bicicletas. Tirei férias, viajei para Minas. Mas levei comigo esta forma de ver.
Conforme o modo que se observa o elétron, ele se mostra como partícula ou como onda. Ele é partícula-onda, mas nossos sentidos não podem captar esta realidade. Só podemos vê-lo como uma coisa ou outra. O mundo que vemos depende da limitação dos nossos sentidos (fisiológico) e da nossa concepção de mundo (ideológico).

Vejo bicletas em todos os lugares. Levo máquina fotográfica para registrar. Pois, se eu falar que é possível uma moça de bicicleta numa ladeira íngreme, rua calçada de pedras antigas, muita gente duvida. (alguns vão dizer: cadê ciclovia? :-P)

Livros me levam a muitos lugares. Um dos meus programas nestas férias foi ir até a Editora Itatiaia, em BH, onde compro, com bom desconto, livros que só existem lá!
Também na Distribuidora Thais, em Montes Claros, o nome esconde uma livraria, onde procuro e sempre encontro livros de autores da região. Produção local, venda local. Não tem na Cultura nem na Amazon nem no Google books :-).
No total, 11 livros comprados e 1 ganhado.

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Mariana. A cidade, não a moça de bicicleta.

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Conhecendo uma fábrica de isopor, em Janaúba.

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Comprando biscoitos, na casa da biscoiteira dona Roxa, em Taiobeiras.

boa ventura
Ganhei da minha irmã, assim que cheguei em BH. Com o seguinte recado: “leia e entenda porque o Brasíl é isto”.

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Literatura mineira: existe? De Tomas Antonio Gonzaga, Claudio Manuel da Costa a Drummond e Rosa, é mineira ou é universal?

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Comprei este em Montes Claros. Sim, tem receita de arroz com pequi e bolo de puba. Depois que ler, já tenho pessoa certa para dá-lo de presente.

Você vá. Ocê volte.

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Istambul, cidade dos livros

A BBC Brasil está apresentando a série “My City”, onde reporteres falam sobre e mostram algumas cidades do mundo. Suas próprias cidades – que revela o tamanho da rede BBC.
O terceiro vídeo da série mostra Istambul, “cidade de antigos poetas e livros empoeirados”.
Selin Girit, a reporter, vai a um antigo mercado de livros, com bazares e livrarias que atraem leitores desde o século XV, quando ainda era Império Otomano e chamava Constantinopla. Uau!
Fronteira entre Ocidente e Oriente, a cidade é sempre procurada por caçadores de raridades, que podem encontrar livros turcos escritos em armênio ou raríssimos guias de viagem.
O vídeo mostra belas imagens de livrarias, sebos e velhos livros.

mercado de livros em Istambul

sebo de livros em Istambul

sebo de livros em Istambul

livros velhos e raros, em Istambul

Certa vez, Malcolm Burgess fez uma lista dos 10 melhores livros que têm Istambul como cenário. Poderia dizer, como protagonista, personagem principal. Confira aqui, em inglês*, no saite do jornal The Guardian.                      (*publico a lista em português depois)
Um dos livros da lista é, obviamente, Istambul, de Orhan Pamuk, escritor prêmio Nobel, repleto de hüzün, palavra turca para uma forma particular de melancolia, sobre sua cidade natal.

Assistindo ao vídeo, cresceu uma vaga e intensa hüzün, ao relembrar a contigência de nascer onde nasci, e não onde escolhi.

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Férias da bicicleta

Não olho para o lado agora, mas acho que estou sendo perseguido por bicicletas.

Sai de férias, não dava para levar bicicleta, então decidi nem pensar nisto. Férias não é época de descansar, é época de esvaziar, tirar tudo do cérebro para depois voltar para o lugar, quem sabe com nova arrumação!!

Cheguei a Foz do Iguaçu, oba, muitos passeios interessantes programados, cataratas, Itaipu, Argentina, Paraguai.

Indo do aeroporto para o hotel, o que é aquilo? uma ciclovia! Não tinha sinalização, pedestres andavam e corriam, mas tinha jeito de ciclovia pelo traçado e construção (depois no hotel me disseram que sim, é mesmo).

Chegamos ao hotel, procuramos logo uma agência de turismo para não perder tempo. Tínhamos poucos dias e muitos lugares. Combinamos tudo com o guia e logo de manhã bem cedo do dia seguinte, saindo do hotel, bem em frente, olha a placa:

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Passeios de bicicleta! Hum, deu vontade!

Continuando para o centro da cidade, que é aquilo? Uma ciclofaixa, claramente sinalizada:

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Apesar disto, não vi ciclistas 😦

Estas primeiras impressões já seriam suficientes para fazer de Foz uma cidade diferente do comum. Convenhamos, uma cidade com ciclofaixa não é algo que se acha tão fácil por estes trópicos. Mesmo que não tivesse ciclovia, Foz do Iguaçu é uma cidade que me impressionou: bem cuidada, limpa – com certeza os muitos royalties de Itaipu devem gerar dinheiro em caixa para cuidar bem da cidade. Mas dinheiro não é tudo, pois um prefeito ladrão e sua corja – isto sim, muito comum por estes trópicos – é praga que devora qualquer orçamento municipal gordo. Não vi favela – talvez o guia tenha desviado delas… A parte feia da cidade fica perto da Ponte da Amizade. Do outro lado da ponte a coisa é tão feia que até o vento deve trazer maus eflúvios. Como turista, gostei muito da cidade, trouxe comigo uma ótima impressão.

Lembro-me agora, falando em impressões de turista, da primeira vez que fui visitar as obras de Aleijadinho em Congonhas. Tive uma impressão tão ruim da cidade, suja, mal cuidada, carros parados em toda parte, sem lei nem ordem, e uns caras oferecendo de tudo, hotel, vigiar o carro, que nunca mais voltei lá. Eu era um burro morto e urubus voavam ao redor.

No dia que chegamos a Foz, tivemos a sorte de encontrar vaga para ver a iluminação da Usina de Itaipu. O evento só acontece às sextas e sábados, poucas vagas, é preciso agendar antes. Ao chegar, o lugar está todo às escuras. Começa uma narração e uma música e as luzes vão sendo acendidas no ritmo marcial. Ao final, isto:

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No dia seguinte, fomos ver as maravilhosas cataratas.

Antes. O Parque das Aves é muito divertido, uma experiência inusitada, aqueles bichos todos, aves e nós no meio delas. Araras dando voos rasantes, tucanos fominhas querendo comer qualquer coisa que estivesse em nossas mãos, jacutingas vaidosas nem davam bolas para olhares de admiração.

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Na saída, um abraço de despedida da jiboia.

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O Parque das Aves fica a poucos metros da entrada do Parque Nacional do Iguaçu. Nosso guia sugeriu que fôssemos logo cedo ver as aves e, em seguida, no mesmo caminho para as cataratas. Ótima dica!

O Parque das Cataratas estava lotadíssimo de gente, mas a placa explica: estávamos numa das 7 maravilhas naturais do mundo!!

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Almoçamos no restaurante Porto Canoas, que fica dentro do Parque das Cataratas. No meio da tarde, fizemos o passeio Macuco Safári, melhor seria Maluco Safári. O desafio é este: subir o rio num barco inflável e entrar debaixo de uma das quedas d’água. Não levei máquina por recomendação dos guias – vai ficar tudo ensopado – mas estas fotos mostram pessoas fazendo o que fizemos.

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olha o tamanho do barquinho!

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Macuco demais!

No terceiro dia, cruzar fronteiras. Fomos para Puerto Iguazu, Argentina.

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Do lado brasileiro a gente vê as cataratas em panorama. Aquele deslumbre, nossa! olha ali! uau!

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Veja mais fotos nesta galeria que criei no Flickr.

O lado argentino, porém, é muito mais bonito. A gente perde o ar quando vê aquela imensidão rio caindo na Garganta del Diablo. É uma coisa assim …(silêncio pasmo de contemplação sem palavras, do mesmo ver o vento forte ventando uma árvore bem velha, uma mulher bem velha, e uma sementinha soltando raízes)…

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Para ajudar, o parque argentino é mais arrumado e mais ecológico. Do lado brasileiro, é um trança-trança de ônibus e mais ônibus, soltando gases e arrotos de efeito estufa. Os argentinos preferiram um trenzinho.

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Eu também!

Depois, fomos comer bife de chouriço num restaurante típico de Puerto Iguazu – Tavares, nosso guia, disse que poucos turistas conhecem. Uma curiosa frase jateada no vidro passou despercebida,

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pois nem vimos o tempo passar.
Compramos alfajores num supermercado e chocolates diet belgas no Duty Free. E, óbvio, perfumes franceses, muitos.

Não foi perda de tempo o quarto dia porque até as piores experiências são válidas como aprendizado. Boi marrudo refuga do ferrão. Resumindo a lição: não mais volto a Ciudad del Este, Paraguai. O que de bom existe ali, a não ser levar vantagem em tudo e sobre todos? A cidade exala sordidez e cupidez. Olhos de aves de rapina na rua.

Passamos o último dia no complexo de Itaipu. Logo cedo na manhã, fizemos o passeio panorâmico.

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Almoçamos nas antigas instalações de construção da represa.

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Do restaurante, fomos conhecer o Espaço do Barrageiro, espaço preservado no antigo alojamento dos trabalhadores. Além da Sala das Artes, gostei deste grafitti que enfeita uma das fachadas:

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Para mim, representa o livro como transmissão de conhecimento e cultura.

No começo da tarde visitamos o Ecomuseu – bem interessante, se não fosse o calor que fazia. Estava em exposição obras de Paulo Bruscky. Gostei mesmo da ideia dele publicar poemas em forma de anúncio no jornal.

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No final do dia, conhecemos o refúgio ecológico. Parece um “zoológico” de cidade do interior. Lembrei do Parque Municipal de Montes Claros, decadente, tão ruim que chegou a ser interditado pelo Ibama. A ideia do refúgio foi boa, mas as instalações para os animais são beeem antiquadas, deprimentes até. Exceto o viveiro da onça. Apenas um vidro separa a felina dos sustos que tomamos cada vez que ela levanta sobre as patas.

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As manchas da onça parecem nebulosas, por isto lembrei que um pouco antes do almoço, fomos ao Pólo Astronômico. Teria sido melhor se fosse visitação noturna – que só acontece nas sextas e sábados (uma boa desculpa para voltar lá!). O sol era apenas uma bolinha vermelha no visor do telescópio.

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Queria ter visto a lua e suas crateras e as estrelas do cinturão de Órion (você sabia que as 3 pirâmides no Egito e as 3 pirâmides de Teotihuacán possuem a mesma disposição espacial e alinhamento deste conjunto de estrelas!?!).

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clique na imagem para acessar http://www.ancient-wisdom.co.uk

Para compensar, conheci um relógio solar analemático, coisa que nem sabia que existia!

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A marcação das horas é feita pela sombra do corpo que se projeta na elipse!

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O dia em Itaipu foi ótimo. (Veja mais fotos nesta galeria que criei no Flickr). Cada passeio é vendido à parte, com horários próprios. O Tavares conseguiu montar um cronograma perfeito, bem tranquilo e completo. Na lojinha de souvenires, aprendi uma palavra guarani que entrou na minha lista de preferidas: ñandeva, que significa “todos nós”. (um conceito muito em falta, não é?).

No começo da manhã, antes de passarmos sobre a barragem de enrocamento, visitamos o Centro de Recepção ao Visitante – mesmo local de onde vimos a iluminação noturna. No lugar, há duas obras de arte feitas em homenagem a todos que trabalharam na obra. Uma delas, escultura chamada O Barrageiro. A outra, um grande painel parte azulejado parte em alto relevo. Na página oficial de Itaipu há uma descrição do painel: Entre os detalhes, capas além dos capacetes porque o trabalho não podia parar; detonação de explosivos; e a bicicleta para vencer as grandes distâncias na obra e no lazer.

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trecho do Painel do Barrageiro
detalhe da bicicleta
detalhe da bicicleta

Bicicletas num painel artístico em Itaipu? Sim. Numa obra de arte para homenagear as pessoas que por ali passaram, em vez de megatratores, superescavadeiras e caçambas-monstro, bicicletas? Sim!!
E ainda hoje bicicletas estão por ali, como mostra (malmente) esta foto que tirei de dentro do ônibus.

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Bicicletas por toda parte, não há como fugir ou escapar!

Pensando agora, nem deveria ter cogitado tirar férias da bicicleta.
[hã… é quase meia-noite e escuto um barulho estranho do lado de fora na porta da frente. Um arranhado metálico quase dissimulado. Insiste. Acho que ouvi? um trim-trim tremido e nervoso de campainha de bicicleta…]

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Feliz Lua Minguante!

Quando estou no interior, gosto de fazer pequenas viagens de bicicleta, ida e volta num dia. Às vezes tenho destino certo, um rio, ou fazenda, outras vezes apenas vou indo, sem planos nem traçados, apenas para conhecer novos caminhos e paisagens.

Numa destas viagenzinhas, encontrei-me com um andarilho muito estranho. Além das tralhas que todo andarilho leva, as roupas sujas e gravetos no cabelo, ele vestia um colar cujo pingente era um tomoe, ancestral símbolo japonês que remete ao movimento da Terra e o jogo de forças do cosmos – similar ao yin yang chinês.

Sim, vi o pingente porque fui parado pelo homem, que de longe já fazia sinais com as mãos, e perguntou: “qual hora é?”

Estranho… um andarilho deveria saber as horas pela sombra do sol, a chuva pela direção do vento, e as estações do ano pelas flores do pequi e das barrigudas.

Estávamos um pouco depois do começo da manhã. Olhei no ciclocomputador, tirei a diferença do horário de verão (não uso relógio, nem atualizo verão no ciclocomputador!) e, depois de responder, tive a ousadia de perguntar: “mas por que quer saber as horas, aqui no meio deste geraes?”

Nunca esperei a resposta que veio. Naquela fração de segundos, pensei que ele calculava quanto tempo para chegar à cidade (ficava a pelo menos 3 horas de caminhada) ou quando passaria o ônibus rural na rodage, a caçamba, até mesmo alguma fixação psíquica com relógios, quem sabe um trauma de infância, um TOC? Andarilhos são estranhos…
Relógios e calendários fazem todo sentido na cidade, na vida regrada de trabalhar para produzir e produzir para consumir. Um andarilho, um excluído da sociedade, um trangressor ou um desprezado, para quem as convenções urbanas nem fazem sentido e das quais ele foge, por quê?

No carrasco não há hora. É tudo bicho e mato, o dia se alonga, siriema pia no calorzão, e a noite arrastada no difluxo. Vem lua. O tingui póca. Neh, pau de geraes não faz conta, tem número nenhum. Ahã, não precisa. Mas o homem, sem hora é perdido.

Quando cheguei numa velha ponte sobre o Rio Pardo, fiquei olhando as águas que passavam.

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O rio arrastava um galho aqui, ali uma bolha subia, sempre mudando mas sempre o mesmo rio. Era rio. Água parada é poça, é lagoa. Rio é fluxo.

O tempo também é um fluxo que a gente não entende. É algo que está além de nós, pois fazemos parte dele. A bolha não sabe o que é o rio.

Relógios e calendários são apenas tentativas racionais e limitadas de conter e contar o tempo. Matematização. É como mergulhar a garrafa pra encher dágua fresca e achar que uma parte do rio ficou dentro dela.

“Neh, pau de geraes não faz conta, tem número nenhum. Ahã, não precisa. Mas o homem, sem hora é perdido.”

Quando eu voltava, força no pedal para não atrasar o almoço com meus avós, o andarilho, amarrando um feixe de folhas debaixo de um pé de barbatimão, saudou: i’tê.

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Lucy procura um tesouro, de bicicleta

Passei duas semanas de férias. Comprei um livro raro em Montes Claros – depois mostro; me decepcionei com a cidade – depois digo; e tirei fotos legais de bicicleta pelo interior do Norte de Minas.

Entre quase duas centenas de emails na minha caixa postal, achei uma notícia incrível no boletim da Sustrans-UK.

Agora, pelo Google Maps da Grã-Bretanha (http://maps.google.co.uk), é possível planejar rotas urbanas e até viagens de bicicleta.
É só escolher o ponto de partida e o destino e clicar no ícone da bicicleta! Podem ser ruas numa cidade, ou um roteiro de cicloturismo.
Na imagem copiada da tela, apontei uma seta.

Mas isto não é o melhor. Aliás, este aplicativo já havia sido lançado nos EUA e foi lançado agora  também para toda a Europa.
O melhor é o vídeo que a Sustrans fez para divulgar este trabalho conjunto entre ela, Sustrans, e o Google.

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Genial. Romântico. Criativo. Belo.

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Uma loja de bicicleta em 1912

Do livro "Impressões do Brazil no século XX"

No meio desta semana muito de atarefada, recebi, por email, uma notícia primorosa: a publicação online de uma raridade.

O livro Impressões do Brazil no Século Vinte, impresso na Inglaterra, em edição luxuosa, com grossa capa de couro, é muito interessante! Foi digitalizado na íntegra e colocado disponível na página do jornal eletrônico Novo Milênio, que descreveu a publicação assim: editada em 1913 por Lloyd’s Greater Britain Publishing Company, Ltd. e “impressa na Inglaterra para circular na Republica dos Estados Unidos do Brazil e outros paizes estrangeiros”, com 1.080 páginas e ricamente ilustrada (embora não identificando os autores das imagens).

Passei muito tempo – somando os pequenos intervalos e folgas – folheando o livro na internet. Sou vidrado em livros de relatos de viagens e descrição de lugares e épocas, por mim teria todos na minha estante, Rugendas, Debret, Hans Staden, Burton, Joaquim Felício dos Santos – a lista é longa e tentadora!

Estava viajando no tempo vendo as fotos do começo do século XX quando me deparei com esta foto que ilustra este post.

Na verdade, fiz um recorte. A imagem original mostrada no livro pode ser vista aqui

A foto aparece na parte do livro que descreve o comércio existente na capital do Brasil à época, a cidade do Rio de Janeiro. E mostra a loja Antunes dos Santos & Cia, firma que “tem um grande estabelecimento, com variado estoque de carros automóveis, dos tipos mais modernos, assim como bicicletas e seus acessórios.”

Na faixa branca no interior da loja pode-se ver que estavam à venda biciclettes de passeio Peugeot, a dinheiro ou prestação.

Incrível receber um email, navegar nas páginas de um livro raro com capa de couro e encontrar uma foto que faz a gente viajar no tempo!

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A geografia do Guia 4 Rodas

Nota zero em geografia mineira!

”]O Guia 4 Rodas, edição 2012, trouxe em suas páginas 84-85, seção Roteiros de Viagem, um absurdo!

Colocou no roteiro “Norte de Minas Gerais”, a capital, BH, e cidades do centro do Estado, como Sabará, Lagoa Santa, Cordisburgo. O máximo ao norte que chegou foi Diamantina, justamente onde o norte de Minas começa

O mapa mostrado pelo Guia 4 Rodas e as atrações turísticas indicadas não estão no Norte de Minas! Muito menos a foto da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha 😦

O vacilo foi bom por um lado, pois mostra a força que o sertão mineiro exerce, a ponto de gerar atos falhos graves como este. E deve ter deixado os mineiros da capital um bocadim brabos 🙂

Por outro lado é ruim, pois o Guia 4 Rodas ignora sistematicamente as atrações turísticas do Norte de Minas. Exceto algumas edições que mostraram Salinas como a “capital nacional da cachaça”, o Guia 4 Rodas deconhece a Serra Resplandecente de Fernão Dias, em Itacambira*; o vau de Serranópolis; a igreja de pedra e as construções históricas de Grão Mogol*; as praias de Pirapora; as cavernas do Peruaçu, e Januária; as casas enfileiradas de Pedra Azul; as festas de agosto com Mestre Zanza e Manuel Sapateiro (in memoriam), o Barreiro da Raiz, e quanto tudo mais.

O Norte de Minas é um mundo, vasto mundo, e não só um retrato na parede!

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Nem é pra começar uma Guerra dos Emboabas, mas se os paulistas do Guia 4 Rodas pedalassem e fizessem excursão semelhante à viagem de bicicleta (*veja fotos) que fiz com meus irmãos, eles conheceriam pelo menos um pouquinho do Norte de Minas, o tanto suficiente pra não cometer aquele erro bobo. ;-P

Bicicletas no Pólo Sul

Read this in English

Havia apenas um único lugar no mundo onde eu pensei que era impossível andar de bicicleta: no Pólo Sul.

Mas, ao chegar na página 81 do livro A incrível viagem de Shackleton, encontrei este trecho que se refere a Thomas Orde-Lees, o almoxarife:

Certo dia, durante a parte mais escura do inverno, quando o Endurance ainda estava bloqueado pelo gelo, encontrou uma bicicleta no porão do navio e saiu para dar um passeio pelas banquisas congeladas.

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Lansing, Alfred. A incrível viagem de Shackleton : a saga do Endurance. Tradução Sérgio Flaksman. 2ª ed. Rio : José Olympio, 1989. (coleção Ventos e Aventuras, 2).

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Uma bicicleta na Antártida? Em 1915?

Fiquei ao mesmo tempo espantado e curioso e fui pesquisar. Na verdade, a bicicleta não “foi encontrada no porão”. Orde-Lees era apaixonado por atividades físicas e conseguiu permissão de Sir Ernest Shackleton para levar uma bicicleta naquela que seria uma das mais fantásticas aventuras humanas. A bicicleta foi deliberadamente colocada no navio Endurance e levada para o Pólo Sul. E aquele não foi o único passseio. Nos meses que passaram presos no gelo, era hábito de Orde-Lees andar de bicicleta, até que um dia ele foi longe demais e se perdeu. Seus companheiros tiveram que procurá-lo e, deste dia em diante, foi proibido por Shackleton de andar de bicicleta na imensidão branca.

Quando o navio foi destruído pelo gelo e naufragou, levando junto com ele quase todos os pertences pessoais dos tripulantes, Orde-Lees escreveu no seu diário, em 30 de outubro:

my greatest sentimental loss was my dear old bicycle which I have had for 16 years, the best Rudge-Whitworth that ever lived…

minha maior perda sentimental foi minha velha e querida bicicleta que tive por 16 anos, a melhor Rudge-Whitworth que já exisitiu….

fonte: livro Shackleton’s Photographer

Não encontrei foto da bicicleta de Orde-Lees, mas no Museu Virtual da Bicicleta há toda uma seção para as “melhores bicicletas britânicas”, como anuncia este catálogo de 1906:

Pela internet, tive outra surpresa: Thomas Orde-Lees não foi o primeiro a pedalar no Pólo Sul! Havia uma bicicleta na expedição Terra Nova, comandada pelo Capitão Robert Falcon Scott, em 1910. Entre os tripulantes estava o geólogo Thomas Griffith Taylor, “um ciclista apaixonado” como é descrito em alguns textos. Antes de entrar para a expedição, ele estudou em Cambridge, onde a bicicleta é um meio de transporte muito popular entre os estudantes. Isto explica sua paixão.

A bicicleta foi doada para a expedição por uma firma neozelandesa. Além dela, alguns veículos levados pelo capitão Scott eram carretilhas feitas com 4 rodas de bicicleta. Nesta foto é possível ver um par de rodas:

E este trenó fantástico, com rodas de bicicleta??

Uma roda de bicicleta também era usada num mecanismo para medir a distância percorrida

A bicicleta que Thomas Griffith Taylor pedalava no Pólo Sul resiste até nossos dias. Passou um tempo à mostra na parede da cabana da expedição do Capitão Scott, cabana que está mantida e preservada em mínimos detalhes.

Esta foto, encontrada aqui, é de 2002.

A bicicleta agora está sendo cuidada dentro do Antarctic Heritage Trust (AHT), conforme mostra esta foto:

blog Stories that are true

O blog não diz, mas a informação de que é a mesma bicicleta que estava na cabana me foi confirmada, por email, pelo pessoal do AHT.

Thomas Orde-Lees e Thomas Griffith Taylor não tinham em comum apenas o primeiro nome. Eram homens que realmente estavam à frente de seu tempo. No relato de viagem The Ice Cave Tour, escrito em 2001, após verem pendurada na parede da cabana aquela que foi a primeira bicicleta na Antártida, espantam-se e comentam: “quase 100 anos depois nós vemos pessoas pedalando mountainbikes pelos caminhos da Estação McMurdo”.

Hoje,  como afirma este artigo da ESPN, existem bicicletas comunitárias na Ilha de Ross, mostradas na foto acima.

E ainda chegam pessoas até mim e perguntam: como você faz pra pedalar quando está chovendo? e quando está calor? Pode-se ver que, quando há desejo e vontade e uma certeza de que bicicletas trazem mais vantagens do que empecilhos, clima não é obstáculo.

Os obstáculos são internos, ou internalizados.
Ao ser medida do meu corpo e de minhas potencialidades e força de vontade, muitas vezes a bicicleta coloca-me em frente a mim mesmo, como um espelho. Estamos prontos o suficiente para vermos o quanto fracos, preguiçosos ou autocomplacentes somos?

Na pior parte da viagem, quando o futuro era incerto e os acontecimentos tinham levado todos àquela situação angustiante e sombria, Orde-Lees escreveu:

No one… knows what it means to me to have a bicycle and a place to ride it, however rough and heavy the going.

Ninguém… sabe o que significa para mim ter uma bicicleta e um lugar para pedalar, por mais que sejam duros e ásperos os dias

T. H. Orde-Lees (diário pessoal, registro em 11 de março de 1915)
citação encontrada aqui

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Leia mais:

– The Voyages of Captain Scott, de Charles Turley – livro online no Projeto Gutenberg
Antarctic Conservation Blog – National History Museum

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Bicycles at The South Pole

There was only one place in the world where I thought it was impossible to ride a bicycle: the South Pole

But when I read the Alfred Lansing’s book Endurance: Shackleton’s Incredible Voyage, I found this passage that refers to Thomas Orde-Lees, the storekeeper:

“One day, during the darkest part of winter, when the Endurance was still blocked by ice, he found a bike in the basement of the ship and went out for a ride through the frozen ice floes.”

In fact, the bicycle was not “found in the basement.” Orde-Lees was passionate about physical activity and got permission from Sir Ernest Shackleton to take a bicycle, which was deliberately boarded on the Endurance. And that was not the only ride. In the months spent trapped in the ice, Orde-Lees ride his bicycle as a routine, until one day he went too far and got lost. His companions had to look it up and after that Shackelton forbad him to ride the bicycle.

When the ship was destroyed by ice and sank, Orde-Lees wrote in his diary on October 30:

“my greatest sentimental loss was my dear old bicycle which I have had for 16 years, the best Rudge-Whitworth that ever lived… ”
source: book Shackleton’s Photographer

See Rudge-Withworth model at The Online Bicycle Museum.

Reading a bit more, I had another surprise: Thomas Orde-Lees was not the first man to ride a bicycle at the South Pole! There was a bike in the Terra Nova expedition, commanded by Captain Robert Falcon Scott in 1910. Among the crew was the geologist Thomas Griffith Taylor, “a passionate cyclist” as described somewhere. Before joining the Scott’s expedition he studied in Cambridge where bicycle is a very popular form of transport.

The bicycle was donated to the expedition by a Neo Zealand firm. Besides that, some carts taken by Captain Scott were made with four bicycle wheels. In photos above you can see two wheels of one of those carts, an awesome sled with bicycle wheels and a bicycle wheel as a mechanism to measure the distance walked.

Thomas Griffith Taylor’s bicycle was hanged on Scott’s Hut wall. But now the bicycle is inside Antarctic Heritage Trust (AHT) lab.

Thomas Orde-Lees and Thomas Griffith Taylor had in common not only the first name. They were in fact men ahead of their time. Almost 100 years later people ride bicycles at McMurdo Station. Today there are public bicycles in Antarctica.

And in spite of it all, people come up to me and pose: how do you go cycling when it’s raining? and when it is hot? One can see that when there is desire and will and we know that bicycles bring more advantages than drawbacks, weather is no obstacle.

Obstacles are inner or internalized. Self-imposed barriers.
Being a measure of my body, my capabilities and strength of will, the bicycle puts me in front of myself as a mirror. Are we ready enough to see how weak we are, or lazy or self-complacent?

In the worst part of the journey, when the future was uncertain and the events had taken all together to that distressing and gloomy situation, Orde-Lees wrote:

“No one… knows what it means to me to have a bicycle and a place to ride it, however rough and heavy the going” (quote found here)

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