Sonhando com bicicletas

Do livro "O diabo dos números". Ilustração de Rotraut Susanne Berner

Fazia tempo que Robert estava cheio de sonhar. Dizia para si próprio: “E, além do mais, faço sempre papel de bobo”.

Por exemplo: em seu sonho, muitas vezes ele era engolido por um peixe enorme e repugnante, e, sempre que isso acontecia, ele ainda tinha que aguentar um cheiro horroroso entrando pelo seu nariz. Ou então sonhava que estava escorregando num escorregador sem fim, descendo cada vez mais fundo no abismo. Podia gritar “Pára!” ou “Socorro!” o quanto quisesse, e não adiantava: ia descendo cada vez mais rápido, até acordar molhado de suor.

Caía também num outro truque maldoso quando desejava muito alguma coisa, como, por exemplo, uma bicicleta de corrida de no mínimo 28 marchas. Aí, Robert sonhava que a bicicleta, toda pintada de um lilás metálico, estava esperando por ele no porão. Era um sonho de uma precisão incrível. Lá estava a bicicleta, à esquerda do armário de vinhos, e ele sabia até mesmo a sequencia dos números para abrir o cadeado: 12345. Essa sequencia era muito fácil de guardar! No meio da noite, ele acordava, apanhava a chave na parede e, ainda meio sonolento e cambaleante em seu pijama, descia os quatro lances de escadas até lá embaixo. E o que ele encontrava a esquerda do armário de vinhos? Um rato morto… Que enganação! Um golpe muito baixo.

Com o tempo, Robert descobriu como se defender desses golpes baixos. Assim que começava a sonhar com tais coisas, pensava rápido, sem acordar: “Lá vem de novo o velho peixe nojento. Sei muito bem o que vai acontecer agora. Ele quer me engolir. Mas é lógico que estou sonhando com este peixe, e claro que ele só pode me engolir no sonho, e nada mais”. Ou então pensava: “Lá vou eu escorregando de novo, o que é que se vai fazer? Não posso parar com isso, mas também não estou escorregando de verdade“.

E assim que a bicicleta maravilhosa aparecia outra vez, ou um joguinho de computador que Robert queria de qualquer jeito (e lá estava o joguinho, bem nítido, ao lado do telefone: era só pegar), ele já sabia que era de novo pura enganação. Não dava nem bola para a bicicleta. Deixava para lá. Mas, por mais esperto que ele fosse, aquilo tudo era uma amolação e, por isso, os sonhos o irritavam.

Do livro O diabo dos números, de Hans Magnus Enzensberger. Editora Cia. das Letras. Ilustração de Rotraut Susanne Berner.

PS.: também me irrito com sonhos de uma cidade melhor para todos. Neste país Brasil, pura enganação, repugnante como peixe podre. Mas eu sempre sonho😦 …

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