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Do zoológico à selva urbana

Em uma decisão de fim-de-ano, em algum ano passado, coloquei como meta escrever um texto por semana no blog. Nem sempre consigo, pois para escrever sobre alguma coisa, eu gosto de ler antes. E vou lendo, lendo, quando vi o tempo passou e não escrevi.

Nestes dias que correram, pensei em escrever sobre que comecei a ler e estou gostando muito: o Livro do Cemitério, de Neil Gailman (uma boa resenha aqui).

Mas também vi uma galeria de fotos da DeutscheWelle: Um passeio de bicicleta pelo Ahr:

ahr

Até pensei em comentar sobre os moradores de São Paulo que foram registrar queixa na delegacia contra a ciclovia que está sendo construida, mas deixei pra lá. Além de ser um assunto batido e de menos importância – motoristas irritados com a perda de espaço para bicicletas –  outras pessoas já falaram sobre o fato, como a Raquel Rolnik.
E foi mais ou menos o que aconteceu aqui em Brasília: de uma hora para hora o governo começou a implantar ciclovias, sem aviso, sem consultar a população, sem diálogo – parece ser a prática do partido.

Quando comecei a traduzir uma notícia da Sustrans, anunciando que, na Inglaterra, cada vez menos pessoas andam de carro, e mesmo assim o governo britânico insiste em políticas de ampliação das vias para carros, a BBC lançou seu desafio semanal para os leitores enviarem uma foto sobre determinado assunto. O tema da vez era ciclismo, e pensei: vou anunciar no blog. Mas a BBC é muito rápida, um ou dois dias depois de fazer o convite eles já colocam as fotos.
Primeiro foram mostradas as fotos tiradas pelos leitores ingleses:

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Alex Inman viu e clicou este grafite em uma rua de Georgetown, na Malásia. As duas crianças pintadas parecem estar pedalando sobre a bicicleta, real, encostada no muro.

Em seguida, as fotos tiradas pelos brasileiros. Veja todas aqui.

Quando estava escolhendo qual das minhas fotos iria mandar (acabei não mandando…) vi na mesma BBC esta notícia que é a cara do blog.

A Dinamarca projeta um zoo com animais soltos e público ‘invisível’. No projeto Zootopia, do renomado arquiteto Bjarke Ingels, os visitantes são escondidos em cápsulas espelhadas e as jaulas são eliminadas.

“A maior e mais importantes missão de um arquiteto é projetar ecossistemas feitos pelo homem, garantir que as nossas cidades e edifícios sejam adaptados ao nosso estilo de vida”, afirmou o fundador do Bjarke Ingels Group (BIG).

“Temos que garantir que as nossas cidades ofereçam uma estrutura generosa para pessoas de origens, sexos, níveis econômicos e de educação e idades diferentes. Para que todos possam viver juntos em harmonia ao mesmo tempo em que levamos em conta as necessidades individuais e o bem comum.”

Quando vi esta foto que ilustrava o texto da BBC, pensei: Ué, o menino está andando de… bicicleta?? Sim, uma bicicleta com certeza.

Ainda meio na dúvida, fui conferir o saite oficial do arquiteto http://www.big.dk/#projects

O que a BBC não disse nem mostrou é que a Zootopia carrega dentro de si a bicicleta, como pode ser vista nesta imagem:

zootopia

– e ao desperceber a bicicleta, nisto a BBC foi seguida por todos que replicaram sua notícia (G1, Uol, Bol, Etc), iguais aos motoristas nas ruas que dizem “ah, eu não vi o ciclista…”

Atenção!
As bicicletas são peças centrais na concepção, como se pode ver nas imagens originais:

O arquiteto usa bicicletas e fala em “viver juntos em harmonia ao mesmo tempo em que levamos em contas as necessidades individuais e o bem comum”. Não é por acaso que ele escolheu a bicicleta!! Para quem anda de bicicleta (e a Dinamarca é exemplo e paradigma disto) é natural este modo de ver o mundo.

Não foi mera coincidência ou escolha por acaso.
No memorial do projeto se lê: “We are pleased to embark on an exciting journey of discovery with the Givskud staff and population of animals (…) but indeed also to discover ideas ans oportunities that we will be able to transfer back into the urban jungle”.

“Estamos satisfeitos em embarcar numa excitante aventura de descobertas com o pessoal e os animais de Givskud [o zoológico], mas também com a possibilidade de descobrir novas ideias e oportunidades que poderemos transferir para a selva urbana.”

Quem reclama de ciclovias e bicicletas ou fica exigindo mais e mais estacionamentos para carros e ampliação de vias, e ainda aqueles que mandam cortar árvores porque elas representam “perigo para os automóveis” (!), esses ainda não captaram a essência do nosso tempo e do futuro. Vamos viver cada vez mais em harmonia com a Natureza, não por ideologia, mas por necessidade. E para as cidades, que hoje são gaiolas de proteção contra a Natureza “selvagem”, nas cidades precisaremos deixar a Natureza entrar.

Isso será um futuro distante. Antes, vamos recuperar o espaço urbano em si e fazer as ruas voltarem a ser um lugar de passagem sim, mas também de lazer, de contemplação, de simbiose com a cidade e suas construções e monumentos. Hoje, lotadas de automóveis, as ruas são cercas e fossos.

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As cidades estão fragmentadas em dezenas de quarteirões e quadras. As pessoas estão acuadas, com medo e neuróticas, indo e vindo repetidamente como se buscassem uma saída – igual aquela avestruz ou o lobo-guará no zoológico.

As bicicletas são peças centrais nas cidades do futuro. Invisíveis, espelhadas, com a intervenção necessária, mas mínima possível, pedalando-as poderemos apreciar as cidades no que elas nos oferecem de melhor: segurança e espaço de convivência.

Na cidade do futuro, ir para a escola, para o trabalho, para fazer compras ou um festa pode ser e será tão prazeroso e agradável como a ciclovia do Ahr, um caminho bucólico entre vinhedos e castelos germânicos.

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Bicicleta: entre a economia e as asas

O poeta Alberto Martins disse que “a literatura é uma zona de respiro da sociedade, como os caminhos que as minhocas abrem na terra para arejá-la. O papel da literatura é canalizar e dar voz a essas coisas que não são aparentes”.

Se vale para a literatura, vale para a arte e todas as suas manifestações. Então vale para as charges.

 

O que a charge do Rafael para o jornal O Povo tem a nos revelar, o que está oculto? Os cinco líderes pedalando em conjunto a BRICicleta dá óbvia ideia da união de forças. A charge remete à criação do banco dos BRICs, assunto que esteve na pauta da economia no começo da semana. Mas há algo mais, raízes que só as minhocas ouvem. Siga-me nesta trilha, talvez eu consiga mostrar.

Os seres humanos gostamos de achar que somos seres racionais e inteligentes. Que uma das nossas melhores sabedorias é tomar decisões racionais visando um futuro melhor. Errado! Na maioria das vezes, não somos tão lógicos como queríamos e um misto de emoções e crenças engana a nós mesmos.

Como seres humanos cheios de emoção, temos uma imensa aversão à perda, que muitas vezes nos leva direto à falácia dos custos irrecuperáveis.

Mas, o que são custos irrecuperáveis?? São todos os pagamentos ou investimentos que fazemos e que nunca poderão ser recuperados. É um dos temas favoritos dos economistas, quando estudam as escolhas intertemporais no âmbito da economia comportamental.

Um andróide com circuitos lógicos em pleno funcionamento nunca tomaria uma decisão com base nos custos irrecuperáveis, mas você e eu sim. Nossos sentimentos e instintos são mais fortes e nosso cérebro disfarça para que pareçam decisões racionais. Mas não são.

A Ilusão: você toma decisões racionais baseadas no valor futuro dos objetos, investimentos e experiências.

A Verdade: suas decisões são influenciadas pelos investimentos emocionais que você acumula, e quanto mais você investir em algo mais difícil se torna abandoná-lo.

Vejamos como acontece e o que isto tem a ver com bicicleta e trânsito.

No livro Thinking Fast and Slow

publicado no Brasil pela Editora Objetiva, o psicólogo Daniel Kahneman escreve sobre como ele e seu colega Amos Tversky, por meio de trabalho na década de 1970 e 80, descobriram o desequilíbrio que há entre perdas e ganhos em nossa mente. Kahneman, ganhador do prêmio Nobel de… economia!, explica que, uma vez que todas as decisões envolvem incerteza sobre o futuro, o cérebro humano que você usa para tomar decisões evoluiu um sistema automático e inconsciente para julgar como proceder quando surge um potencial de perda. Assim, ao longo do tempo, a perspectiva de perdas tornou-se um motivador mais poderoso no comportamento humano do que a promessa de ganhos. Sempre que possível, tentamos evitar perdas de qualquer tipo, e quando se comparam perdas e ganhos, você não vai tratá-los da mesma forma.

O economista comportamental Dan Ariely acrescenta um toque fascinante nesta questão da aversão à perda, em seu livro Predictably Irrational


(publicado no Brasil pela Campus Editora). A “dor de pagar”, como ele diz, surge sempre que você precisa desistir de qualquer coisa que você possui. O valor não importa. Você vai sentir a dor não importa o preço que você vai pagar, e isto influencia suas decisões e comportamentos.

Em um de seus experimentos, Ariely montou um estande em uma área bem movimentada. Os transeuntes podiam comprar chocolates comuns por R$1,00 ou excelentes trufas belgas por R$15,00 cada. A maioria das pessoas escolheu as trufas. Foi um bom negócio, considerando as diferenças de qualidade e os preços normais de ambos os itens. Ariely, então, criou outro estande com as mesmas duas opções, mas reduziu o preço em um real cada: os chocolates eram de graça e as trufas custavam R$14,00 cada. Pare e pense: desta vez, qual você escolheria??

A grande maioria das pessoas selecionou os chocolates comuns em vez das trufas (foi seu caso, admita!!). Se as pessoas agissem na lógica matemática pura e racional, explicou Ariely, não deveria ter havido mudança no comportamento dos indivíduos. A diferença de preço era a mesma. Mas não achamos que é dessa maneira. Nosso cérebro nos prega uma peça (por falácia, uma inverdade lógica): o sistema de aversão à perda está sempre vigilante, de prontidão para nos manter longe da ideia de desistir de algo, de desapegar. É por isso que você acumula badulaques que você realmente não quer ou precisa; é por isso que achamos tão tentador aceitar negócios que incluem brindes “gratuitos” ou descontos obscuros; é por isto que as pessoas continuam usando carros, mesmo sabendo do mal que faz à saúde (obesidade e sedentarismo), à cidade (trânsito caótico e mal uso da terra) e ao planeta (aumento do efeito estufa).

Alguma vez você já foi ao cinema só para perceber, em 15 minutos, que está assistindo a um dos piores filmes já feitos, mas você fica e assiste ao filme de qualquer maneira, até o fim? Você não quer desperdiçar o dinheiro, então você desliza para trás na cadeira e sofre – como sofre atrás do volante.

Essa é a falácia!! É o sistema emocional em alerta. Porque o dinheiro será perdido de qualquer maneira. Não importa o que você faça, você não pode tê-lo de volta. A falácia impede que você perceba que a melhor opção é fazer o que promete ser a melhor experiência no futuro, em vez de preferir “diminuir” o sentimento de perda no passado.

Kahneman e Tversky também conduziram um experimento para demonstrar a falácia dos custos irrecuperáveis. Veja como você se sai nessa.

Imagine que você vá comprar um livro que custa R$50. Quando você abre sua carteira ou bolsa, percebe que perdeu a nota de $50. Será que você ainda compra o livro? Provavelmente sim. Apenas 12 por cento dos indivíduos no teste disseram que não. Agora, imagine que você compra o livro, paga R$50, mas antes de chegar ao bicicletário percebe que esqueceu – perdeu! – o livro em algum lugar. Você voltaria e compraria outro exemplar do mesmo livro?? Talvez, mas a dor no bolso seria muito maior, não é? Neste experimento, 54 por cento das pessoas disseram que não compraria outro livro. A situação é exatamente a mesma!!

Você perde R$50 e, para poder ler o livro, precisa pagar R$50 de novo, mas o segundo caso nos parece diferente, sentimos diferente. É como se o dinheiro fosse usado para um propósito específico e depois perdido, houve uma carga emocional investida no futuro e perder é uma m*!

Os custos irrecuperáveis levam a guerras, elevam os preços em leilões e mantem vivas políticas fracassadas, como a política de incentivo ao automóvel. A falácia faz você continuar comendo o que está no prato, mesmo quando seu estômago já está cheio. Ela enche sua casa com coisas que você não quer nem usa mais. E vai fazer as cidades entrarem em colapso, pois os carros foram comprados, os viadutos foram feitos, as pistas foram duplicadas, as montadoras foram subsidiadas, o IPI foi reduzido, é muito dinheiro para poder voltar atrás agora…

foto do blog IN TRANSITU
EPTG após obras para “resolver o caos do trânsito”; foto do blog IN TRANSITU

Motoristas estão atolados em um poço de custos irrecuperáveis. Governos que buscam soluções para o trânsito de automóveis estão presos na lógica engarrafada dos custos irrecuperáveis. Eles nunca podem voltar o tempo ou o dinheiro que gastaram, mas pretendem continuar usando seus carros para evitar sentir a dor da perda e a horrível sensação de desperdício.

A falácia dos custos irrecuperáveis às vezes é chamada de falácia Concorde, descrevendo-a como uma escalada de compromisso. É uma referência à construção do primeiro avião comercial supersônico. O projeto estava previsto para ser um fracasso desde o início; mas todos os envolvidos continuaram em frente. Os investimentos que fizeram juntos deu origem a uma pesada carga psicológica que superou todos os melhores e sensatos argumentos. Depois de perder uma quantidade incrível de dinheiro, esforços e tempo, eles não queriam simplesmente desistir.

Foram em frente, como vão em frente os governos que duplicam vias, constroem viadutos, ampliam estacionamentos, reduzem IPI.

Motoristas, gerentes de trânsito, engenheiros, arquitetos, urbanistas e a imprensa continuam em frente, buscando solução para o trânsito de automóveis, mesmo sabendo que o fracasso é óbvio.

A capacidade humana de raciocínio tem defeitos provocados por forças invisíveis – emoções, relatividade, expectativas, apego, normas sociais – que nos induzem a fazer escolhas ‘previsivelmente irracionais’.

É uma tendência nobre e exclusivamente humana a vontade de perseverar, a vontade de manter o rumo, o apego ao que passou e a crença infundada no controle do futuro – estudos mostram que animais e crianças pequenas não cometem esta falácia. Vespas e vermes, ratos e guaxinins, bebês e crianças, eles não se importam o quanto investiram ou quanto vai para o lixo. Eles só conseguem ver perdas e ganhos imediatos.

Por outro lado, como seres humanos adultos, temos o dom da reflexão e do arrependimento.

Ponha-se num lugar futuro, onde você admita que seus esforços foram e estão sendo em vão, que suas perdas são permanentes, e que aceitar a verdade dói, dói muito.

Desapegue de velhos hábitos. Não espere que o governo construa nem aguarde que a polícia multe ou prenda. Assim como os líderes dos BRICs, dê o primeiro passo e a primeira pedalada em direção à mudança. As bicicletas estão aqui, e agora, só depende de você querer ganhar ou perder. Conscientemente.
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este texto foi inspirado pela charge e escrito a partir da estrutura e argumentos traduzidos do artigo The Sunk Cost Fallacy, publicado no blog You are Not So Smart, com adaptações.


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Alemanha tetracampeã!!

Acabou!!!! a CopaFIFA acabou!! Estou aliviado como quem sai do proctologista.
Com um sentimento de liberdade, escapando da gaiola de gritos e bandeiras.

Ontem, passeando no Facebook, vi alguém postando os “motivos para torcer para a Alemanha”. Achei aquilo curioso, pois torço para a Alemanha desde 1966 – nas copas anteriores eu não havia nascido :-P.

Não que eu assista jogos ou participe de bolões ou acompanhe notícias de futebol. Para mim, basta saber o resultado final. Quanto maior o placar, melhor.

Mas os “motivos para torcer para a Alemanha” chamaram minha atenção. E foi ontem que fiquei sabendo que os alemães ganharam também o título de time mais simpático (campeões!), conquistando os moradores da vila de Santo André, em Santa Cruz Cabrália, Bahia.

Soube também que a seleção alemão trouxe bicicletas para usar no treino físico, como já faziam na Europa. A distância entre o local de treino e o hotel era pouca e os jogadores quiseram usar a bicicleta como meio de transporte (bicampeões!!), mas foram proibidos pela polícia, por questões de segurança.

[…Proibir andar de bicicleta por questões de segurança? Por que eu lembrei imediatamente das políticas cicloviárias brasileiras, da imprensa, das propagandas e dos cicloativistas que “defendem” a bicicleta com argumentos de “segurança”?? Resultado: cada vez menos bicicletas nas ruas, como pude comprovar em Montes Claros e Taiobeiras, cidades do interior de Minas – onde fui passar uns dias de férias para presenciar a sombra da morte sobre minha família – cidades que tinham muita bicicleta nas ruas e, a cada ano, este número reduz drasticamente…]

Não quero descer a esse inferno.

Voltemos: a seleção alemã usa a bicicleta como parte do treino físico (tricampeões!!). Como mostra esta notícia, a foto que abre este post e esta:


Mais uma lição que fica para times cheios de “talentos” e empafia.

Aquelas bicicletas trazidas pela seleção alemã foram doadas para uma escola de Santo André. TETRACAMPEÕES!!!

Foto de Ricardo Palmeira - Ag. A Tarde

Segundo notícia desta página, a escola pretende leiloar as bicicletas para angariar verbas. [Será que o leilão vai acontecer via internet, pra eu poder participar??]
Somando isto às doações para os índios, às outras doações para creche e escola: TETRACAMPEÕES!!!
Embora o futebol não tenha tanta importância pra mim, não é uma religião, nem uma boia-salva-país, como é bom estar do lado do time certo, quando tudo dá certo, por merecimento, compromisso, planejamento e espírito coletivo.

Weltmeister!!!


Ficou apenas uma mancha: o local onde a seleção alemão ficou hospedada foi construído numa área de proteção ambiental. Gol contra!

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Um passeio de bicicleta até a Abadia de Corvey

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Clique na imagem para acessar a reportagem da DeustcheWelle.

No Brasil, nenhuma cidade história é amiga da bicicleta. Os patrimônios culturais da humanidade, por aqui, estão com as ruas abarrotadas de carros, ao ponto de ser impossível tirar uma boa foto dos monumentos e de andar pelas ruas apreciando a arquitetura e a atmosfera que deveriam proporcionar.

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a moda é bicicleta!

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Está acontecendo hoje, 26 de setembro, em Munique, o 3. Münchner Radl&Fashion Show, desfile de moda e bicicletas.

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O desfile faz parte da campanha para incentivar o uso da bicicleta. Munique tem cerca de 1,4 milhões de habitantes (poderia ficar entre as 10 mais populosas do Brasil) e 1.200 km de ciclovias (mais do que todas as cidades do Brasil juntas…). Em 2010, o ciclistas da cidade, somados, pedalaram 170 mil quilômetros. Mesmo com tudo isto, em 2010 a prefeitura da cidade lançou a campanha Radlhauptstadt, para fazer da cidade a “capital das bicicletas” da Alemanha.

Por enquanto outra cidade leva este título: Münster. De acordo com uma pesquisa da ADFC, considerando as cidades alemãs com mais de 200 mil habitantes, Munique está em 11º lugar, atrás de Freiburg, Karlsruhe, Kiel, Oberhausen, Hannover, Bremen, Rostock, Frankfurt e Leipzig.

[ADFC = Allgemeinen Deutschen Fahrrad-Club, algo como Federação Alemã dos Usuários de Bicicleta]

Mas a própria ADFC reconhece que Munique se destaca pelo empenho e pela campanha. E pela visão de futuro: fazer as pessoas andarem de bicicleta é muito mais uma questão de mudança de cultura do que construção de infraestrutura. Obviamente, construir ciclovias facilita a mudança cultural, ao oferecer modos de transpor barreiras pessoais, mas não é suficiente. É preciso que pessoas e governantes vejam a bicicleta com outros olhos.

Das Fahrrad ist mehr als ein bloßes Fortbewegungsmittel – es ist Ausdruck des individuellen Lebensstils vieler Münchnerinnen und Münchner.

A bicicleta é mais do que apenas um meio de transporte – é uma expressão do estilo de vida individual de muitas pessoas.

Radfahren steht für städtische, elegante Mobilität mit Zukunft und Stil.

Andar de bicicleta é uma opção de mobilidade urbana elegante, com futuro e estilo.

[As frases em alemão foram copiadas da página da prefeitura de Munique!]

O desfile acontece no Muffathalle, um misto de café, casa de shows e eventos. Veja como foi em 2012:

O evento foi aberto pelo vice-prefeito, que também chega pedalando no final do video. A passarela mostra criações de estudantes de moda, estilistas e designers de Munique. Uma bicicleta folheada a ouro, levada por uma loira vestindo todo dourado, fecha o desfile com chave de… ouro! 🙂

Promover a bicicleta é despertar desejo.

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bicicletas – aus Deutschland!

Saindo da Inglaterra, vamos até a Alemanha, onde haverá eleições em breve.
Em meio aos esperados debates sobre economia, crise do euro, guerra e imigrantes, um fato foi destaque na reta final das eleições alemães:

Sim, a bicicleta virou centro das atenções quando Angela Merkel abriu a Eurobike, maior feira de bicicletas da Europa.
A primeira vez que a feira foi aberta por um chanceler (Kanzler, feminino Kanzlerin), chefe de governo da Alemanha.  Muita gente achou que foi uma jogada política, ao ponto da revista Der Spiegel ironizar “o súbito amor da chanceler pelas bicicletas”.

(videoreportagem sobre a ida de Merkel à Eurobike – uma parte do video mostra Barack Obama andando de bicicleta ;-))

Na mesma linha, a revista Bike BIZ afirmou que, alinhando com as bicicletas, Merkel estaria buscando melhorar suas ecocredenciais (algo como conquistar o voto verde).

Mas o setor de bicicleta europeu não falou de outra coisa. A revista BikeEurope diz que ela roubou o show com um  discurso marcante. E a Federação dos Ciclistas Europeus – ECF  ficou eufórica: “foi um grande dia para a defesa e o incentivo das bicicletas”.

Angela Merkel fez um discurso ao mesmo tempo espirituoso e sério. Foi engraçado, por exemplo, no momento que lembrou de sua bicicleta ‘roubada’, quando ela era jovem, por soldados soviéticos que tinham bebido muita cerveja: “Eu superei essa experiência e, ao contrário do que dizem, não afeta as minhas relações com a Rússia.”

A chanceler citou um dos primeiros fabricantes de bicicletas na Alemanha, Adam Opel:

Bei keiner anderen Erfindung ist das Nützliche mit dem Angenehmen so innig verbunden, wie beim Fahrrad.
Em nenhuma outra invenção a utilidade está tão intimamente ligada com o prazer, como na bicicleta.

Opel começou fabricando máquinas de costurar. Em 1866, passou a fazer bicicletas e, por um período, foi o maior fabricante alemão. Após usa morte, em 1895, os herdeiros começaram a se interessar pela fabricação de automóveis. Houve festa de despedida quando a última bicicleta Opel foi fabricada, em 1937:

“Quem quer ter uma ampla concepção de transporte, hoje em dia, necessariamente precisa incluir a bicicleta.” Disse a mulher mais poderosa do planeta. E acrescentou: “A Alemanha não é apenas uma nação de carros, é também o país das bicicletas”.

Angela Merkel afirmou que o uso do capacete não deve ser obrigatório – o que despertou a indignação da indústria de capacetes, que é financiada pela indústria de automóveis para alimentar o medo de andar de bicicleta, conforme mostra este video Copenhaguenize.

Argumentando que “bicicletas devem ter as mesmas oportunidades que carros”, Angela Merkel falou sobre o Nationaler RadVerkehrsPlan – NRVP (ao pé da letra = Plano Nacional do Trânsito de Bicicleta, mas em português é mais comum plano cicloviário), que seu governo desenvolveu para trazer de volta o uso de bicicletas na Alemanha a níveis mais elevados. Até 2020, o governo alemão quer aumentar o uso de bicicletas nas cidades para 15% de todas as viagens até 5 quilômetros. Atualmente situa-se em cerca de 5%.

Tive curiosidade e fui conferir o que o governo alemão está pensando sobre bicicletas.
[Ah, não prestou não… fiquei deprimido por morar no país do jeitinho e da cordialidade]

Veja alguns gráficos tirados do Nationaler RadVerkehrsPlan:

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Uso de meios de transporte, tomando por base o ano de 2002. O uso das bicicletas (Fahrräder), linha laranja, subiu vigorosamente, seguidas pela caminhadas (zu Fuss), laranja claro, e transporte público (OPV). O uso do carro estacionou e, considerando transporte de passageiros (MIV-Mitfahrer), caiu 5%.

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Frota de bicicletas (Fahrrad) e automóveis (PKW) na Alemanha, em milhões de unidades.
Embora não exista estatística alguma, dizem que no Brasil a relação é a mesma, quase 2 bicicletas para cada automóvel. Mas lá, a população é de 80 milhões, e o Brasil tem 200 milhões de habitantes – ou seja, a mesma frota absoluta, mas para uma população 2,5 vezes menor = o que significa muito mais bicicletas por habitantes, na Alemanha.

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A diferença começa aqui. Entre 1996 e 2011, caiu mais de 10% a quantidade de jovens com carteira de motorista (Führerscheinbesitz), gráfico à esquerda. E o número de jovens, 18 a 35 anos, que compram carros também está caindo (gráfico da direita).

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Este gráfico é fantástico!!! Mostra o uso dos principais meios de transporte em razão da distância, cumulativamente. Nota-se que até 1 km, andar a pé é a principal forma de locomoção. Entre 1 e 10 km o uso da bicicleta torna-se exponencial. Como o gráfico é cumulativo, sabemos que praticamente todos os deslocamentos a pé são feitos até 7,5 km (quando a linha laranja claro toca o eixo 100%). De bicicleta, os deslocamentos se concentram entre 1 e 10kms, até no máximo 25km (linha laranja toca os 100%)

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Este gráfico compara o número de ciclistas mortos (getötet), feridos (leichtverletzt) ou seriamente feridos (scherverletzt), tomando como base o ano de 2000. Até 2008 houve um aumento dos ferimentos leves, os ferimentos graves reduziram um pouco e os ciclistas mortos diminuíram significativamente, tendo atingido 40% menos em 2010. Mas… em 2011 houve um aumento considerável de ferimentos leves, graves e mortes de ciclistas. Por que? Acho que o gráfico abaixo responde:

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A venda de “bicicletas” elétricas disparou desde 2011! Na verdade,  “bicicletas elétricas” são motos disfarçadas de roupagem ecoverde, e como acontece com as motos, a velocidade traz mais perigo – e feridos e mortos.

Por fim, o que me enterrou de vez no poço sem fundo verde-amarelo foi a quantidade de rotas de cicloturismo que cortam a Alemanha de norte a sul e leste a oeste, mostradas no RadVerkehrsPlan:

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Sim, eu já sabia que as rotas existiam. Meu sonho de cicloturismo é fazer a rota do Reno, Rhur e Donau (número 8), dos Alpes até a fronteira com a França. Ou a Rota Romântica (9), de Würzburg a Füssen.

Se você quer saber mais sobre viagens de bicicleta na Alemanha, visite a página oficial de cicloturismo do país.
O governo alemão tem uma página exclusiva na internet só para cicloturismo! E não apenas isto, mas inclui o cicloturismo no seu Plano Cicloviário Nacional. E poderia ser diferente?

Aqui – como não há plano cicloviário – o Plano Nacional de Turismo 2013-2016 brasileiro nem lembra que bicicleta existe…

Confessei lá em cima: entro em depressão ao lembrar que minha contingência existencial é estar no Brasil. Mas me apego ao que diz o filósofo Léo Pimentel: o acaso d’eu ter nascido no Brasil não faz de mim um brasileiro.
Por isto fico rotineiramente passeando por outras paragens, um misto de fuga da realidade e utopia, bem aos estilo dos contos de fada – dos Irmãos Grimm, que eram… alemães!

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[foto copiada do RadVerkehrsPlan]

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Beatles, Buckingham, Big Ben e bicicletas

Em termos de uso da bicicleta, a Inglaterra está muito atrás de Alemanha, Holanda e Dinamarca. Fica ali na faixa de França, Portugal, Grécia e EUA.

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No Brasil, não temos estatísticas para fazer comparativos, mas tudo indica que estamos nesta mesma faixa de pouco uso da bicicleta. Pois no Rio, que é a capital da bicicleta, apenas 1,7% usam bicicleta oficialmente os ciclistas são 3% e na estimativa da TA, usada pelos governos municipal e estadual. eles são 5%.

Comparando as duas capitais, o uso da bicicleta é muito semelhante:
Londres:   8 milhões hab; 540mil viagens/dia = 1 viagem para cada 14,8 habitantes ou 0.067 viagem por habitante
Rio:  6 milhões hab; 420mil viagens/dia = 1 viagem para cada 14,3 habitantes ou 0.070 viagem por habitante

Mas, em termos nacionais, a diferença é que a Inglaterra está se movendo para mudar a situação.

Recentemente foi publicado o relatório Get Britain cycling, produzido por uma comissão suprapartidária na Câmara dos Comuns (algo como a Câmara dos Deputados). Está publicado aqui.

Em resposta, o Parliamentary Under-Secretary of State for Transport (algo como subsecretário de Transportes, terceira linha decisória), Norman Baker, disse:

The coalition government takes cycling very seriously and we are committed to leading the country in getting more people cycling, more safely, more often.
Many of the recommendations put forward by the All Party Parliamentary Cycling Group mirror those that we are already taking forward so we are ahead on some of the challenges which have been set for us.
However we are keen to go further and faster. The £94 million announced by the Prime Minister earlier this month is an excellent boost and will help to encourage even more people to take to 2 wheels.
https://www.gov.uk/government/news/government-responds-to-cycling-report

(O governo leva a sério o uso da bicicleta e estamos empenhados em fazer que mais pessoas em nosso país usem bicicletas mais vezes e com mais segurança. Muitas das recomendações feitas pelo grupo suprapartidário refletem aquilo que já estamos fazendo, assim estamos à frente daquilo que nos foi cobrado. Entretanto, queremos ir além e mais rápido. As 94 milhões de libras anunciadas pelo Primeiro Ministro é um excelente impulso e vai ajudar a incentivar mais pessoas a adotarem a bicicleta)

Na segunda-feira desta semana, houve um grande debate sobre a bicicleta no Parlamento britânico. Ao final, foi aprovada uma moção, que diz textualmente:

“That this House welcomes the recommendations of the All-Party Parliamentary Cycling Group’s report ‘Get Britain Cycling’; endorses the target of 10 per cent of all journeys being by bike by 2025, and 25 per cent by 2050; and calls on the Government to show strong political leadership, including an annual Cycling Action Plan and sustained funding for cycling.”

(Esta Casa recebe com satisfação as recomendações do relatório Get Britain Cycling produzido pelo All-Party Parliamentary Cycling Group; endossa a meta de 10% de todos os deslocamentos feitos por bicicleta, até 2025, e 25% até 2050; e pede que o Governo mostre forte liderança política, por meio de um plano anual e verbas para o uso da bicicleta)

Não estou falando de Dinamarca, Holanda ou Alemanha, países que estão 50 anos à frente, uma realidade muuuito distante, que pode virar – como já virou algumas vezes – argumento contra o uso da bicicleta: “bicicleta, aqui? não somos a Dinamarca”.

Falar de utopias, ter o paraíso como meta é uma boa desculpa para continuar vivendo a vida tosca de sempre.

Em termos de cultura da bicicleta, a Inglaterra está “apenas” 20 anos a nossa frente. Acho que temos muito que aprender com eles!

Leia mais.

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Obviamente, me pergunto: esperar que nosso Congresso, que nosso país tenha este nível de discussão não é também utopia?? Discutirem o futuro das cidades, a sustentabilidade do trânsito e a qualidade de vida nas cidades, nossos deputados??? KKKKK! Quando não estão preocupados em escapar da prisão, eles se dedicam a fazer conchavos e acertos. Ambas as coisas visando apenas seus interesses próprios – nada muito diferente da população que os elegeu, diga-se.

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As Bucólicas de Virgílio no gramado do Congresso

Foram dias mágicos!
Dias de ir para a rua, de discutir, repensar, exigir.

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concordo!

Vão entrar para os registros da história.

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Mas não digo que foram dias históricos, pois todos os dias são dias históricos! A história se faz no dia a dia.
Nem digo que “o gigante acordou”. O hino não diz que ele estava dormindo, diz que estava “deitado eternamente”, não necessariamente dormindo. (pode estar com preguiça, Macunaíma!)

Releia a primeira frase deste post e a palavra destacada em itálico. Mágico ali não é elogio.
Em antropologia e psicologia, o pensamento mágico é um resquício do pensamento primitivo, presente no subconsciente de todos nós humanos. Faz ligações improváveis entre fatos distintos, cria uma causalidade mental – basta pensar ou crer e a mente exerce um efeito direto sobre a realidade. Na wikipedia achei um exemplo curioso que explica isto bem com uma bela imagem: o povo azande, na África, esfrega dentes de crocodilo nas bananeiras para fazê-las frutificarem, porque o dente do crocodilo é curvo tal como as bananas e porque ele cresce novamente após cair da boca do bicho.

O pensamento mágico é (obviamente!!) a base da religião, superstições e crenças populares. Geralmente recorremos a ele em situações que precisamos de uma saída ou fuga para emoções despertadas por uma realidade dolorosa ou frustrante. Precisamos de fantasia para enfrentar a realidade.

Quando os ipês explodem bolas rosas, pode parecer, mas não é mágica. A árvore passou o verão todo se alimentando de chuvas, perde todas as sua folhas e parece morta e, quando percebe que é hora, veste-se. É um fluxo constante de tensões e distensões, que prepara a beleza – e o futuro. Pois dali virão frutos, e sementes, e novas árvores.

As manifestações foram grandes momentos.

menino_e_policia

Necessárias, explosivas, grandiosas, estive em pelo menos quatro delas aqui em Brasília e acompanhei, na internet, o que acontecia país afora. Até assisti o Jornal das 10, da Globonews, coisa que não fazia há anos!! (e deixei de atualizar este blog… 😦 )

Mas a verdadeira mudança acontece nos pequenos momentos. Nas chuvas e nas sementes.

No meio da multidão ficava imaginando quantos daqueles, que pediam um transporte melhor, uma cidade melhor, estariam ali num movimento contra os carros estacionados em fila dupla, sobre calçadas e gramados. Quantos, com cartazes “melhor educação”, estariam ali se fosse uma grande onda moral contra os alunos picaretas, pais picaretas – que “compram” atestados médicos para os filhos terem tratamento “diferenciado” na escola, entram na justiça para forçar a entrada de filhos nas faculdades antes de concluir o ensino médio. Quais ficariam com faixas “abaixo a corrupção” se fosse para pedir punição de todos que usam qualquer meio para burlar o Imposto de Renda?

A mudança não está fora, está dentro!

Os políticos foram eleitos, não desceram do céu em nuvens douradas ou nasceram em repolhos dentro do Congresso, assembleias e câmaras de vereadores. Olha o pensamento mágico aí! A terceirização da culpa, base do comportamento cristão: se há um mal, é o diabo; se um bem, foi deus que quis. Como assim? Então, nada na vida é resultado das decisões e atitudes pessoais de cada um, a cada minuto do dia??

[deixei de acreditar em deus quando me disseram que ele era onipresente, onisciente e onipotente, mas permitia o diabo agir, a maldade e o sofrimento; ou este deus é um sacana – e não merece qualquer respeito – ou simplesmente não existe; preferi optar pela segunda opção]
[deixei de acreditar em religiões quando soube que poderia ter uma vida indigna e iníqua, pois a salvação não depende de mim, ou melhor: nada do que eu faço importa, posso matar, roubar grande ou pequeno, se no leito de morte me arrepender dos pecados, estarei salvo; o paraíso não depende de mim, mas da benevolência de um deus]

O pensamento mágico está tão difundido (maior país católico do mundo…) que o próprio governo apresenta soluções mágicas. Reforma política para resolver o problema da saúde, educação e transporte público?!?!? Reforma política só interessa aos… políticos! Não é a forma de escolher os políticos que vai fazê-los menos corruptos, ou melhores administradores. A cidade precisa de bons administradores, que saibam fazer – sobretudo que tenham coragem de fazer. Antes de reforma política, precisamos de uma reforma no judiciário, cujo poder ineficiente a serviço dos poderosos é a base de toda nossa injustiça e impunidade. Antes da reforma do judiciário, precisamos de outros princípios éticos – pois a falta de impunidade, a cultura do jeitinho, e a malandragem é do interesse de muita gente sim, muita, e não apenas políticos. Ouso dizer que é o princípio ético da maioria dos brasileiros  – caso contrário, já teria mudado. Não somos um povo imoral, mas amoral, para quem questões morais são desconhecidas, estranhas, não são levadas em consideração.

O ponto de encontro geralmente foi a Biblioteca Nacional. Durante a aula livre do Prof. Safatle, tirei esta foto:

biblioteca_nacional_brasilia

e neste instante que escrevo, lembrei que a Biblioteca é um bom exemplo. Foi construída pelo Roriz em 2006, sem nenhum livro dentro. Só o prédio, a arquitetura (feia, por sinal). Só agora, 7 anos depois, é que foram colocados livros para empréstimo. Uma biblioteca sem livros? Tá resolvido o problema cultural do país! Se bibliotecas não precisam de livros, basta dizer que, a partir de hoje, todo viaduto é biblioteca. Como não precisa livros, e como a solução para o transporte das cidades é construir viadutos para os automóveis particulares, dois problemas resolvidos com uma frase!

Nem os ciclistas escapam do pensamento mágico. Aqui em Brasília, construíram dezenas de quilômetros de ciclovias para “salvar vidas”, no Plano Piloto – onde o índice de atropelamentos fatais é irrisório se comparado com outras RAs – conheço casos registrados que cabem nos dedos de uma mão: Pedro (no eixão, onde não fizeram ciclovia), Carol, no dia da manifestação, e um ciclista morto na UnB alguns anos atrás (se você conhece/lembra outros casos, deixe um comentário). Por que não fizeram ciclovia na EPTG? Na estrutural? Porque no Plano Piloto o governo mostra para o país e o mundo que a “cidade está preparada para a Copa”. Mostra para os cicloativistas esportistas, os que pediram a apoiam o GDF nesta empreitada, todos de classe média alta, mostra para eles que o governo “quer salvar vidas” e que, com ciclovias, a cidade se tornou um paraíso para os ciclistas. Sim, mas… e os carros parados nos rebaixamentos do meio-fio, bloqueando as ciclovias? E os carros que não dão preferência às bicicletas nos locais onde a ciclovia cruza a pista? Cadê a punição para quem estaciona irregularmente? Cadê educação dos motoristas “para um trânsito melhor, uma cidade melhor”? E os bicicletários que existiam e, a cada dia que passa, um é retirado, não pelo governo, mas por iniciativas privadas? Então, é só o governo que tem que incentivar o uso da bicicleta?

todos_somos_responsaveis

A maior manifestação aqui em Brasília ocorreu na quinta feira, dia 21 de junho, solstício de inverno, associado à morte, ao desconhecido ou à escuridão. Na antiguidade, rituais de iniciação eram feitos sempre no solstício de inverno, porque é a maior noite do ano, significa o início do ciclo de dias de luz cada vez maiores; significa a saída do mundo dos mortos (a noite, a escuridão) e a entrada no mundo dos vivos (o dia, a luz). Os rituais do solstício de inverno têm o significado de renascer, ou nascer de novo para a Luz; o renascimento assume o significado simbólico da vida que se renova, após a grande noite (morte). [quando é mesmo o Natal, data máxima da cristandade? no solstício de inverno do hemisfério norte!]

Será que foram apenas dias de ritual mágico na semana do solstício de inverno?

Fui com esta camiseta:

libertas

Todos sabem que a inscrição na bandeira de Minas quer dizer “Liberdade ainda que tardia”. A liberdade sempre é boa, mesmo que venha tarde.
O que muitos não sabem é que, para expressar o desejo de ficar livre de Portugal, os inconfidentes quebraram o verso das Bucólicas, de Virgílio, deixando, de propósito, uma parte muito importante de fora.
Veja o original, em latim:

bucolica_I

retirado do livro

constr_arte_buc_virgilio

do saudoso professor João Pedro Mendes, um dos melhores mestres que já tive, com quem aprendi rudimentos de latim e grego (rudimentos por culpa minha, não dele…).

A tradução é polêmica, como todo texto clássico. Gosto desta: A Liberdade que, embora tardia, contudo olhou favoravelmente para mim, que nada fiz. Para entender melhor, é preciso saber que esta frase responde a uma anterior: O que foi que te trouxe à Roma? Tityrus responde: [o que me trouxe à Roma foi] a liberdade, que, mesmo sendo tarde, ainda assim olhou para mim, que nada fiz.

Se os inconfidentes soubessem para qual caminho ético o Brasil seguiria, eles colocariam o verso completo na bandeira!!

Pois de pouco adianta que a liberdade, ou qualquer outra conquista, mostre as caras, apareça, mesmo que tarde. Nada vai adiantar se continuamos inertes, sem nada fazer no nosso dia a dia, nos pequenos, mínimos momentos.

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Dar a eles uma bicicleta é fazê-los mais fortes

Você vai fazer uma viagem à Índia. Chegando lá, fica chocado com a pobreza. Vê muitas crianças e, querendo ajudar de alguma forma, pergunta a elas o que gostariam de ganhar. Qual foi a resposta?

Bicicletas.

Sim, bicicletas. Não foi comida, nem roupa, nem computador, brinquedos ou celular.

BBC_India

Não é um conto de ficção, nem exaltação exagerada da bicicleta. Aconteceu de verdade, com Thomas Hircock, este carinha da foto. Ele foi em frente, criou uma ONG que arrecada dinheiro, compra bicicletas e manda para as crianças da Índia.
BBC_India_3

A história, curta, mas cheia de significado, pode ser vista num video publicado pela BBC Brasil. Clique em qualquer uma das imagens.

BBC_India_2

Mundo afora existem várias ações semelhantes ao que faz Thomas Hircock. A lista é grande, mas posso citar
Bicycles for Humanity
World Bicycle Relief

CooP-Africa, Cycling out of Poverty
que lembrei assim, de supetão, as três atuando na África.

BBC_India_4

Nestas regiões, claro que a bicicleta atua como instrumento de empoderamento. Mas não fica só aí. No Brasil, pequenas cidades do interior ou metrópoles, a bicicleta leva sua revolução ao dar poder e liberdade. Muita gente sabe disto – e muita gente não gosta da bicicleta justamente por isto.

O empoderamento possibilita tanto a aquisição da emancipação individual, quanto à consciência coletiva necessária para a superação da “dependência social e dominação política”. Devolve poder e dignidade a quem desejar o estatuto de cidadania, e principalmente a liberdade de decidir e controlar seu próprio destino com responsabilidade e respeito ao outro.
O empoderamento, porém, não deve significar um conceito puramente instrumental, orientado somente à obtenção de resultados eficientes, mas antes de tudo, constituir uma afirmação das possibilidades de realização plena dos direitos das pessoas.

O que é empoderamento. Ferdinand Cavalcante Pereira.

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Feliz Lua Minguante!

Quando estou no interior, gosto de fazer pequenas viagens de bicicleta, ida e volta num dia. Às vezes tenho destino certo, um rio, ou fazenda, outras vezes apenas vou indo, sem planos nem traçados, apenas para conhecer novos caminhos e paisagens.

Numa destas viagenzinhas, encontrei-me com um andarilho muito estranho. Além das tralhas que todo andarilho leva, as roupas sujas e gravetos no cabelo, ele vestia um colar cujo pingente era um tomoe, ancestral símbolo japonês que remete ao movimento da Terra e o jogo de forças do cosmos – similar ao yin yang chinês.

Sim, vi o pingente porque fui parado pelo homem, que de longe já fazia sinais com as mãos, e perguntou: “qual hora é?”

Estranho… um andarilho deveria saber as horas pela sombra do sol, a chuva pela direção do vento, e as estações do ano pelas flores do pequi e das barrigudas.

Estávamos um pouco depois do começo da manhã. Olhei no ciclocomputador, tirei a diferença do horário de verão (não uso relógio, nem atualizo verão no ciclocomputador!) e, depois de responder, tive a ousadia de perguntar: “mas por que quer saber as horas, aqui no meio deste geraes?”

Nunca esperei a resposta que veio. Naquela fração de segundos, pensei que ele calculava quanto tempo para chegar à cidade (ficava a pelo menos 3 horas de caminhada) ou quando passaria o ônibus rural na rodage, a caçamba, até mesmo alguma fixação psíquica com relógios, quem sabe um trauma de infância, um TOC? Andarilhos são estranhos…
Relógios e calendários fazem todo sentido na cidade, na vida regrada de trabalhar para produzir e produzir para consumir. Um andarilho, um excluído da sociedade, um trangressor ou um desprezado, para quem as convenções urbanas nem fazem sentido e das quais ele foge, por quê?

No carrasco não há hora. É tudo bicho e mato, o dia se alonga, siriema pia no calorzão, e a noite arrastada no difluxo. Vem lua. O tingui póca. Neh, pau de geraes não faz conta, tem número nenhum. Ahã, não precisa. Mas o homem, sem hora é perdido.

Quando cheguei numa velha ponte sobre o Rio Pardo, fiquei olhando as águas que passavam.

ponte_rio_pardo

O rio arrastava um galho aqui, ali uma bolha subia, sempre mudando mas sempre o mesmo rio. Era rio. Água parada é poça, é lagoa. Rio é fluxo.

O tempo também é um fluxo que a gente não entende. É algo que está além de nós, pois fazemos parte dele. A bolha não sabe o que é o rio.

Relógios e calendários são apenas tentativas racionais e limitadas de conter e contar o tempo. Matematização. É como mergulhar a garrafa pra encher dágua fresca e achar que uma parte do rio ficou dentro dela.

“Neh, pau de geraes não faz conta, tem número nenhum. Ahã, não precisa. Mas o homem, sem hora é perdido.”

Quando eu voltava, força no pedal para não atrasar o almoço com meus avós, o andarilho, amarrando um feixe de folhas debaixo de um pé de barbatimão, saudou: i’tê.

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